30.5.14

Saber relacionar Eça de Queirós com Cesário Verde

O primeiro é mais velho, vive mais tempo, integra a geração de 70, com passagem obrigatória por Coimbra, mas com a foz no coração de Lisboa e, finalmente, figura, com distinção nos Vencidos da Vida. 
O segundo, nascido em 1855, em Lisboa, vem a falecer 31 anos mais tarde, sem glória pública... De Coimbra nada diz, mas não gosta nem de monárquicos nem de socialistas (?)... Figura nos manuais escolares depois do primeiro, apesar deste, por exemplo, só ter publicado Os Maias em 1888, um ano após a morte do poeta...
Ambos leram Baudelaire, Flaubert, Taine, Proudhom e Zola, isto sem falar dos ultra-românticos. Num determinado momento, ambos confluíram numa escrita de tipo impressionista, ainda marcada pelo parnasianismo e chegaram mesmo a envolver-se com o simbolismo...
      Pode-se dizer, que sendo homens do seu tempo, não poderiam fugir a um destino comum de influências...
       Sobra-me, no entanto, uma dúvida. E é dúvida porque, num país de tantos escritores, leitores e críticos, já alguém dever ter apresentado uma tese sobre uma questão muito simples: Terá Eça lido Cesário? De forma ainda mais clara: Terá o autor de OS MAIAS lido O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL, de Cesário?
        Haverá algum testemunho desta ocorrência?
        Pessoalmente, estou convencido que, tendo o poema de Cesário sido publicado em 1880, a propósito da celebração do tricentenário de morte de Camões, Eça terá sido acesso ao poema, o terá guardado, pelo menos na memória, e o aproveitou, em particular, na redação do último capítulo de Os MAIAS:
       Nada mudara. A mesma sentinela sonolenta rondava em torno à estátua triste de Camões. Os mesmos reposteiros vermelhos, com brasões eclesiásticos, pendiam nas portas das duas igrejas. O Hotel Aliança conservava o mesmo ar mudo e deserto. Um lindo sol dourava o lajedo; batedores de chapéu à faia fustigavam as pilecas; três varinas de canastra à cabeça, meneavam os quadris fortes e ágeis na plena luz…
       Carlos da Maia e João da Ega percorrem o mesmo espaço urbano do Sentimento..., exprimem, também, eles um sentimento ainda mais desolador e decadente do que Cesário. Sintomaticamente, os pensamentos destas personagens incidem nos mesmos alvos:
      "Duas igrejas, num saudoso largo... / E os sinos dum tanger monástico e devoto / Um épico doutrora ascende, num pilar/ E num cardume negro, hercúleas (...) / correndo com firmeza, assomam as varinas /  (...) Seus troncos varonis recordam-me pilastras; / E algumas, à cabeça, embalam nas canastras / Os filhos que depois naufragam nas tormentas."
        Muito eu gostaria de saber se entre os papéis de Eça não haverá um recorte de O Sentimento dum Ocidental! Talvez o professor doutor Carlos Reis me possa esclarecer...

       ( Entretanto, peço desde já desculpa pela minha ignorância...)