31.12.12

O ato de ler e não só...


«E não falo das operações cerebrais: como seja ler, por exemplo: quando digo que o olho vê - foca - um ponto de cada vez, quero dizer um ponto (extenso!!!) de visão óptima, em torno do qual a visão, seja esta o que for, se esfuma, esbate ou dissipa gradualmente. Vemos, de facto, um trecho de escrita, uma letra ou sílaba no ponto de visão óptima da retina e algo mais que se dissipa em torno dele. O hábito de ler também ajuda aqui: presumo, antecipo ou deduzo a palavra ou frase que ainda não li ou nem chego a ler, ou só leio vagamente. Assim (e isto o camarada tipógrafo deve procurar entendê-lo), quanto mais denso, condensado ou apertado e mais negro ou visível é o tipo, mais depressa eu leio, porque a cada olhada (-dela) abrange mais do material impresso. Espacejar o texto, contra o que muitos supõem, e temos por hábito fazer, é retardar e dificultar a leitura, é criar espaços vazios, brancos, em que o olho é forçado a mover-se em vão, sem nada ler. (...) Por outro lado, os grossos caracteres são bons para os quase «invisuais», como demos agora pedanticamente, em chamar aos cegos, para os não ofender ou humilhar - tão delicados somos de alma! Porque não chamar então impedestres aos coxos?»
(...) José Rodrigues Miguéis, Programação do Caos, nº 23 

- Quantas ideias se vão perdendo!?


A escada flutuante

O professor tem sido uma escada por onde poucos subiram e muitos desceram! Infelizmente, a realidade só confirma o balanço.
Esperar-se-ia que tivessem sido mais os que subiram a escada do que os que a desceram nestes últimos 38 anos, mas, na verdade, há muito que a descida aos infernos teve início.
 A escada quebrou degraus, perdeu apoios, e flutua, agora, à deriva, pronta a extinguir-se.

(...) E o mais assustador é quando um ministro, que nem a escada tentou subir ou, mesmo, descer, dá lições sobre as qualidades dos outros ministros  deste país!

30.12.12

A chave de 2012

Antes que seja proibido, vamos lá encerrar 2012! Vamos arrumá-lo num baú, deitar a chave fora, e pô-lo em órbita de um qualquer planeta distante.
Não vale a pena chorar por 2012, pois é um daqueles anos em que a maioria dos portugueses foi assaltada por desclassificados da pior espécie que continuam a ter a audácia de arvorar em redentores incompreendidos.
E mesmo que voltemos a encontrar a chave em 2013, o melhor é ter sempre presente os seguintes versos de  Pedro Mexia, in Menos por Menos

Não deves abrir as gavetas
fechadas: por alguma razão as trancaram,
e teres descoberto agora
a chave é um acaso que podes ignorar.
(...)

29.12.12

4700 promoções

Em 2012, o Governo autorizou 4700 promoções nas forças de segurança - GNR e PSP!
Afinal, o congelamento não é universal!
Em termos de balanço do ano 2012, quantas promoções e progressões foram autorizadas no âmbito do estado?
VIVA A EQUIDADE!

28.12.12

No lugar do sagrado


Pobre São Francisco! Apesar do voto de pobreza, viu-se transformado em pousada e, sobretudo, despojado da alma. 


Fica um apelo - eterno - à GREVE GERAL...
e um poeta - Mário Beirão - agrilhoado a um torreão.


Sinais de que se pode ser, ao mesmo tempo, religioso e pouco católico!


Inesperadamente, a visita ao casco de Beja foi conduzida pelo professor doutor Jorge Castanho e esposa - filhos da terra.

27.12.12

Em Beja

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Em Beja, o que sobra da calçada romana…Sem estradas não teria havido romanização! Nem Pax Julia!
Quem quer conquistar território constrói vias de comunicação ou, em alternativa, compra-o em saldos. Vide privatização da ANA…
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Apesar de poder morrer à fome, ainda há quem fuja do cativeiro! - A cacatua...

26.12.12

Fraqueza...

Hoje, ao percorrer o IP 8, não pude deixar de dar conta de que os ricos do meu país, depois de terem esbanjado milhões a expropriar propriedades, a esventrar e a terraplanar a planície alentejana, a levantar viadutos, de um dia para o outro abandonaram impunemente a obra... 
O que sobra da A 26 é o espelho da incompetência e da impunidade que grassa neste triste país! 
Ao percorrer o IP 8, fico com a sensação de que o projeto de ligar Sines a Beja não é tão insensato como se diz. 
                               "Fraqueza / é desistir-se da cousa começada." (Luís de Camões)
Este país já passou por muitas catástrofes, mas nunca teve governantes tão fracos! Governantes que só sabem destruir!



25.12.12

José Matias, na rua de São Bento

De relance, na rua de São Bento, às 0h30 do dia de Natal, sobre o passeio da direita, cambaleia uma figura esguia. Parece que vai cair, mas, a custo, contorce-se e vai ficando para trás, sem que eu possa distinguir se é homem ou mulher, se o desequilíbrio é apenas uma questão de bebedeira redentora... 

Não é esse o caso de José Matias que, durante três anos, noite fechada, se esconde num portal donde pode avistar a sua divina Elisa no 214 da rua de São Bento, e colar-se diurnamente ao amante, o apontador de Obras Públicas, para se assegurar fidelidade deste à sua esposa celestial.
O José Matias ama espiritualmente e, mesmo sabendo-se correspondido pela bela Elisa, foge dela, do corpo dela, como o Diabo da Cruz. E esse é o mistério que Eça de Queiroz oferece ao leitor guloso de paixões carnais e fatais.
Curiosamente, o narrador entrelaça a história de José Matias e de Elisa com referências a estudos maçadores de filosofia e de psicologia, sem qualquer alusão à religião.  
Ou porque José Matias sofreria de impotência - não há uma palavra que o explicite - ou porque Eça tivesse decidido testar a primazia da amizade sobre o amor  - Platão - ou, finalmente, porque este José Matias não é mais do que um clone do carpinteiro que toda a vida serviu desinteressadamente Maria, a verdade é que esta história não parece encaixar no espírito de Natal...

Lido o conto José Matias, estou agora convencido que a figura esguia que subia a rua de São Bento era nem mais nem menos que a divina Elisa que continua à procura do seu amante espiritual, há muito enterrado no Cemitério dos Prazeres...

24.12.12

Queirólogos e não só...

«Queirólogos» de serviço: José Hermano Saraiva; António Valdemar; Agustina Bessa-Luís; João Gaspar Simões, José Régio, Maria Filomena Mónica - todos eles se servem de Eça de Queiroz, revelando poucos escrúpulos e bastante ignorância, para não dizer má-vontade. A argumentação é inócua e, por vezes, ao sabor da época e reveladora de traumas pessoais...
Tudo isto é dito pelo bisneto, António Eça de Queiroz, na obra Eça de Queiroz e os seus Clones, Guerra e Paz, 2006.
António Eça de Queiroz procura rebater os argumentos dos detratores do ilustre escritor, no que respeita ao seu nascimento, às relações familiares, às imaginadas taras e, até, à suposta falta de originalidade.
Mesmo que, em alguns casos, o objetivo não fosse diminuir a grandeza de Eça, o facto é que o biografismo e a psícocrítica são métodos redutores.
Por outro lado, o bisneto, António Eça de Queiroz, também, se insurge contra as várias adaptações "mexicanas" a que a obra tem sido submetida, pois o critério principal é satisfazer as taras do público e enriquecer à conta do nome de Eça. 
Uma leitura descomprometida desta obra ajuda a compreender um pouco melhor a "verdadeira " biografia de Eça, designadamente a partir do capítulo V - Uma trisavó tremenda. Tal como ajuda a compreender a atmosférica política, diplomática e cultural de boa parte do século XIX...
Eça de Queiroz e os seus Clones é uma obra que os jovens estudantes, condenados a ler OS MAIAS, deveriam ler:
« Ora o Eça do programa - e o mesmo se passará com muitos autores - encontra-se desde tempos quase imemoriais preso a OS MAIAS, como um velho brigue atascado no lodo duma qualquer baía de mares desconhecidos.»

22.12.12

A dívida é deles e nós é que pagamos!

A dívida é deles e nós é que pagamos!

Primeiro: Sócrates deu cobertura aos interesses cavaquistas ao nacionalizar o banco português de negócios e, simultaneamente, os seus amigos ocuparam o bcp e a cgd...
Segundo: Coelho destituiu Sócrates para salvar o bloco central de interesses, atirando a responsabilidade para cima das funções sociais do estado, dos funcionários públicos e dos aposentados...
Terceiro: Seguro, será ele capaz de pôr de lado o bloco central de interesses?
Entretanto, os responsáveis pelo descalabro das finanças e da economia continuam em liberdade dourada. 
Até quando?
A dívida é do bloco central de interesses, nós calamos... e continuamos a celebrar o Natal!

21.12.12

A notícia não dá conta...

A notícia não dá conta do que Passos Coelho esteve a fazer durante duas horas na "Universidade Sénior" da Portela, às portas de Lisboa.
As televisões, rádios e jornais noticiam a decisão do ilustre visitante de percorrer vinte metros a pé e de saudar a vintena de manifestantes que o insultavam. 
Cercado de seguranças, o primeiro-ministro seleccionou um manifestante e desejou-lhe "Bom Natal", pedindo-lhe que transmitisse o seu voto aos ruidosos correlegionários. Por seu turno, o interpelado aproveitou para solicitar "melhores políticas".
Pobre jornalismo!

( Para a polícia foi um dia de treino: chegou cedo; barrou o estacionamento; posicionou-se no terreno;  as forças de intervenção circularam discretamente. Eram mais os agentes do que os manifestantes!) 



20.12.12

Com tanta gente sensível...

Com tanta gente sensível, é estranho que ainda se continue à espera do fim de mundo! Basta abrir os olhos e os ouvidos para ver e ouvir o galopar da miséria. 
Os passeios cobrem-se de restos pestilentos e as mãos vasculham os sobejos de derradeiros banquetes dos corvos que não os de São Vicente.
O fim do mundo não se anuncia, não precisa nem de calendário nem de profeta! 
Ele chega simplesmente na fábrica que encerra, no negócio que falece, na prece muda de quem anoitece... 

19.12.12

Alheado

De manhã, pareceu-me que havia vida para além da minha rua, que o pensamento existia fora de mim e que este se revelava na cor e no movimento de gulosos cisnes brancos. A certa altura, desconfiei do meu pensamento e apeteceu-me dizer que os cisnes daquele lago só lá estavam porque eu os estaria a ver. Pobres cisnes, ficavam à mercê do meu olhar!
À tarde, fiquei absorto no homem que falava 29 idiomas e vários dialectos, que foi pioneiro dos estudos etnológicos e ainda teve tempo para se converter a vários credos, e fazê-lo tão completamente que entrou e saiu de Meca sem perder a vida, e pelo caminho subiu o Rio São Francisco e chegou ao lago Tanganica, sempre no meio de escândalos e de violentas inimizades - um homem que traduziu o mundo, do Kama Sutra  às Mil e Uma Noites e conquistou o ouro necessário à metamorfose de uma vida. Um homem que confrontou o puritanismo do seu tempo - Richard Francis Burton (1821-1890).
E à noite, cheguei a pensar em  responder a vários pavões que ocuparam o Largo fronteiro, mas para quê? 

Confluência

"A Casa Secreta" de José Eduardo Agualusa. Em Janeiro, irei privilegiar a leitura desta pequena "estória", escrita sob influência de Os Lusíadas, Canto II.
(O texto será distribuído na primeira aula de Janeiro.)
Entretanto, para quem goste de pesquisar e de ler, recomendo pequenas viagens ao universo não só de de José Eduardo Agualusa mas também de Richard Francis Burton (1821-1890). 




18.12.12

Há uma linha...

Há uma linha, com início e fim, pensamos, mas, que, em certos momentos, desaparece. Sobra uma frincha de passado sem futuro: as palavras entrelaçam-se viciosas ora de gáudio ora de dor. Mas é a cor da miséria  interior que se eleva até que o silêncio devastador restabelece a linha.
Dois dedos sustentam a fronte, os olhos à procura da ponte que separa o passado do futuro, e quase estátua, o coração serena atapetando a frincha e soterrando as áspides diurnas.
A vantagem das áspides é que não sabem que o coração pode juncar a frincha, pelo que não perdem tempo a pensar nos efeitos do veneno que regurgitam, até porque as flores murcham cedo.


16.12.12

E agora queixam-se!

Alhandra
O trabalho
Se olhar atentamente as imagens, vejo um rio que perdeu o valor económico que anteriormente o dignificava. Dele só restam artefactos e símbolos sobre o solo que outrora vivia submerso pelos esteiros.
Por detrás, esconde-se a igreja que das dores fazia riqueza espiritual para todos e material para uns tantos.
Embora não se oiça, sobre todos paira um primeiro-ministro que ameaça cortar nas pensões de todos porque uns tantos raramente trabalharam.
O problema é que a maioria sempre trabalhou e se não descontou é porque os governantes deste país pouco ou nada se preocuparam em reconhecer o valor do trabalho. E agora queixam-se!

15.12.12

Esburgo

Quando a ordem da TROIKA é cortar na despesa dos estados, estes voltam-se para os cidadãos e esburgam-nos por inteiro. É simples e rápido!
Só não contam com a resiliência dos indivíduos! Estes conseguem ir mais além: cortam até no próprio osso, deixando os estados sem capacidade de cobrar qualquer receita e afundando, em simultâneo, os malulos...
Claro, dos mortos, a História nada dirá! E os indivíduos ver-se-ão obrigados a desenhar nova cidadania.   

14.12.12

Cipaios e malulos

(Não é fácil compreender o leitor de blogues! No caso de caruma, há posts que são frequentemente visitados e outros que raramente o são. A atualidade da matéria parece não despertar mais interesse do que os registos de ocorrências efémeras.
Por outro lado, também não é fácil explicar o elevado número de visitas com origem, por exemplo, nos Estados Unidos ou na Rússia. Parece haver algures motores de busca por arrasto!)

A incongruência de tudo isto está no aparente desinteresse dos malulos por este meu blogue! Esse povo intrépido que no início do século XX tudo fazia para se apoderar da África austral! Esse povo tão matreiro que disputava com a Grã-Bretanha a posse dos territórios reivindicados pela Coroa / República portuguesa!

Há, no entanto, uma diferença significativa: apesar dos malulos não se interessarem pela caruma, eles interessam-se, de verdade, pelos aeroportos portugueses, até porque o cipaio de serviço não pára de bajular os  régulos alemães.

(Como todo o pensamento se constrói na linguagem, há ideias que só são possíveis se revisitarmos os signos dos tempos que insistimos em ignorar. E essa ignorância de nós faz escravos e cipaios!)

10.12.12

A Lua de Joana e a responsabilidade da narrativa

I- Enfim, longe de querer criticar  a autora da LUA DE JOANA, pois  a obra continua a ter boa receção,  há, todavia, uma constante que irrita: a responsabilidade é sempre dos outros - dos pais excessivamente ocupados com o trabalho, dos "dealers", das más companhias... Levando à letra o pensamento de Sartre, l'enfer ce sont les autres!... 
E quando se discute a tendência, os argumentos dos jovens viram-se sempre contra as opções dos pais - poderiam trabalhar menos horas, estar mais presentes, dialogar mais. Mas será verdade? É fácil pensar que o conforto cai do céu!, que as palavras seriam aceites!, que a simples proximidade é dissuasora!
E é este lado da narrativa que é preocupante: os jovens morrem de overdose porque querem experimentar o interdito ou porque se sentem desacompanhados? Os mesmos jovens que argumentam que é possível experimentar o veneno de forma controlada só para ver os caminhos trilhados pelos trágicos amigos... Defendem a responsabilidade da iniciativa, mas atiram para o outro a responsabilidade do desfecho... o pai, médico, que no fim lastima amargamente não ter estado presente é, certamente, o mesmo que esteve à cabeceira de muitas vítimas irresponsáveis!
A narrativa que seduz pode ser um veneno que corrói a mente das Luísas ou das Bovarys e dos adolescentes que, ano após ano, vão balançando nas "Luas de Joana"...
( O discurso sobre a responsabilidade deve libertar-se definitivamente do estigma da culpa!)

II - Quem diria que Sócrates iria voltar precisamente por causa da narrativa! E claro com a sua narrativa, contra a narrativa da direita: Cavaco, à cabeça; Passos e Gaspar, a seguir; José Seguro, finalmente. Este último, por omissão. O que significa que Sócrates nem sequer lhe reconhece que Seguro tenha narrativa... 

9.12.12

Às 18h25

Literatura Portuguesa


Ao registar a morte de Garrett, em 9 de dezembro de 1854, às 18:25 h:


(...) nessa hora - nessa mesma hora fatal em que se extinguia o legítimo herdeiro da lira de Camões - preparava-se talvez para ir despreocupadamente no seu camarote de São Carlos assistir desdenhosa e risonha, com aquele garbo senhoril que todos lhe reconheciam, assistir à representação de Sonnambula, — ataviava-se com sedas e veludos, recamava-se com guipures e rendas de Alençon, abrilhantava-se de adereços de pérolas e diamantes,envolvia-se em perfumes de inebriante sedução, a formosíssima inspiradora das Folhas Caídas, ingratamente esquecendo-se já do“divino” Poeta que nos seus amenos versos a imortalizara! (Cunha, 1909: 71)
- Rosa Montufar Barreiros era andaluza, de Cádiz, nascida em 1819, filha dos marqueses de Selva Alegre e mulher do oficial do exército Joaquim António Velez Barreiros. Este fez parte da expedição liberal que, vinda da ilha Terceira (Açores), desembarcou no Mindelo. Homem de confiança do duque de Saldanha e extremamente leal à rainha D. Maria II, recebeu o título de Barão de Nossa Senhora da Luz em 23 de janeiro de 1847, por decreto de D. Maria II, e o de Visconde em 16 de junho de 1854, por decreto do regente D. Fernando.

SÉRGIO NAZAR DAVID, GARRETT: ENTRE A CRUZ DO DESEJO E A LUZ DO AMOR






As vítimas e o carrasco

A - Há muitos factores que desmotivam quem quer trabalhar com um mínimo de seriedade.
E esses vêm de cima! A instabilidade profissional tornou-se norma. O desrespeito pelo passado dos funcionários é permanente. Faz-se tábua-rasa das aprendizagens e da experiência. Não se aposta de forma estruturada na formação dos novos professores. Não se reconhece o mérito e valoriza-se o oportunismo e a ideologia.
B - A propósito da leitura de O retorno, não me sai da cabeça que há uma ligação estreita entre o que aconteceu com a descolonização e a situação atual. O regresso precipitado, com uma mão à frente e outra atrás, deixou a necessidade de, friamente, recuperar a riqueza perdida. 
O enriquecimento súbito de muitos e a frieza posta na aplicação do "castigo" são, afinal, comportamentos esperados, pois a vingança serve-se fria.
 
C - As vítimas, como tem acontecido nas últimas gerações, serão os carrascos do futuro! Nada de surpreendente...

8.12.12

Interlúdio XV

De regresso, para explicar que a suspensão da escrita neste blogue não resulta de qualquer falta de apreço pelo trabalho das turmas A e B e de alguns alunos da turma J.
Pelo contrário, para além das conversas privadas na sala de aula, típicas de uma sociedade indisciplinada, quase tudo me convidaria a manter este registo.
Há, no entanto, outros factores que desmotivam quem quer trabalhar com um mínimo de seriedade.
E esses vêm de cima, da tutela! A instabilidade profissional tornou-se norma. O desrespeito pelo passado dos funcionários é permanente. Faz-se tábua-rasa das aprendizagens e da experiência. Não se aposta de forma estruturada na formação dos novos professores. Não se reconhece o mérito e valoriza-se o oportunismo e o carreirismo.
As vítimas, como tem acontecido nas últimas gerações, serão os carrascos do futuro! Nada de surpreendente...
 
 
  

7.12.12

O retorno (romance)

O retorno, de Dulce Maria Cardoso, Tinta-da-China, 2012
Este romance, narrado por um adolescente nascido em Angola e obrigado a abandonar o território pouco tempo antes do 11 de novembro de 1975, dá voz àqueles que, afinal, não podem perdoar o modo como o 25 de Abril acelerou a independência das «províncias ultramarinas».
De um lado, muitos portugueses africanos, do outro lado, uma ideologia contrária ao colonialismo, mas que atira os novos países para as mãos das novas hegemonias - dos Estados Unidos à Rússia, passando pelo China.
Despojados dos bens, esses «portugueses de segunda» desaparecem simplesmente às mãos da vendetta ou acabam por ser colocados em Lisboa e entregues ao IARN que os encaminha para pensões, hotéis, parques de campismo...
Neste romance, a família do Rui é alojada no quarto 315 de um hotel de 5 estrelas no Estoril, onde espera ansiosamente o retorno do Pai que ficara retido pelas tropas de um dos movimentos de libertação. Dois adolescentes - um rapaz e uma rapariga - vivem, cada um à sua maneira, os novos sinais de discriminação na escola e no relacionamento social e, sobretudo, os efeitos do comportamento depressivo da mãe.
O hotel, repleto de retornados, é um espaço concentracionário, onde se vão revelando as queixas e as taras de um povo pouco solidário consigo próprio. A maioria destes «portugueses de segunda» , em muitos casos, nada conhecia da metrópole. Uma metrópole que não estava à altura de colónias como Angola e Moçambique, e por isso o objetivo era partir para a América, sem acreditar que um dia seria possível voltar a África!  

4.12.12

Testemunho

Há anos passei por um colégio prestigiado em que o diretor condicionava as classificações que os professores atribuiam honestamente aos seus alunos. Esse diretor fazia subir as notas, recorrendo a uma estratégia de natureza pedagógico-didática. Para fundamentar a classificação atribuída, o professor era obrigado a apresentar, em conselho de turma, os planos de recuperação escritos... Caso o não pudesse fazer de imediato, a subida era automática... Como último recurso, esse diretor recorria ao corte das horas extraordinárias que, à época, eram fundamentais para completar o sofrível vencimento de base.
 
Ontem, percebi que é possível os diretores (proprietários) utilizarem os mesmos argumentos para fazer descer as classificações, de modo a eliminar os alunos com maiores dificuldades de aprendizagem.
 
Há, contudo, uma diferença fundamental: no 1º caso, o colégio privado vivia das receitas resultantes do pagamento feito pelos pais; no caso atual, estes colégios vivem de receitas resultantes de transferências diretas do orçamento geral do estado e competem diretamente com a escola pública, deixando-lhe as sobras...
                                        sem esquecer que, pela amostra revelada na TVI, quem dirige estes estabelecimentos aproveitou a passagem pelo poder para montar este negócio fraudulento.

Dia XLV

www.vidaslusofonas.pt/antero_de_quental.htm
Ainda anoto este link, e fico-me por aqui, num dia sem sol e sem mar, a recordar aquele orientador de estágio, Alberto Sampaio, que, no início dos anos 80, teve a coragem de me dizer que eu andava «atirar pérolas a porcos» ao querer que os alunos dessa época entendessem a poesia de Antero.
E como a austeridade é a norma, a partir de hoje, qualquer nota que venha a tirar sobre a sala de aula passará a estar disponível no blog CARUMA - http://cabeleiragomes.blogspot.pt/
   

3.12.12

Sem tato

Sem tato, sem teto, entre ruínas, mas em contacto...
Este acordo é, para mim, um desatino!
Pior, no entanto, é o memorando!
Abjeto, execrando...

Dia XLIV

- A turma A fez teste. Aparentemente, os alunos não tiveram grandes dificuldades em resolver a prova.
- A turma J recebeu os testes classificados. A correção foi morosa. Primeiro: a maioria deixou o enunciado em casa, no cacifo... Segundo: não vi dos que obtiveram resultados mais fracos, qualquer preocupação em tirar notas.
A dispersão foi regra. A sala de aula parece um espaço recreativo!
O melhor será seguir a doutrina do Pregador e tornar-me o Clarão do Céu, porque o mundo prefere os sentidos à razão, isto é, o grito ao arrazoado, considerando os exemplos: Cristo, Batista, Pilatos e Isaías.
 
 

2.12.12

O humor de dezembro

Agora que entrámos em Dezembro, espero ansiosamente que ele chegue ao fim! O 10º mês do Calendário Romano tem a virtude de me fazer acreditar que o próximo mês será o de Março.
Nessa data já a TROIKA terá feito mais uma avaliação, a primeira, verdadeiramente, positiva, pois, entretanto, nada teremos gasto durante o hiato.
Nessa data, já o Governo terá decidido o fim do serviço nacional de saúde, o fim da escola pública, o fim dos pensionistas e reformados... e eu não terei que tomar qualquer decisão sobre o meu futuro.
Nessa data, já não haverá qualquer dúvida: estarei aposentado sem pensão ou, em alternativa, continuarei empregado, mas sem escola...
Quanto aos alunos, se não tiverem morrido à fome, deixarão, finalmente, de se preocupar em fazer gazeta...  
A propósito de humor de dezembro, reproduzo, com a devida vénia, a História Trágico-Marítima, de Vieira da Silva, 1944. A ver n'As Idades do Mar, Fundação Calouste Gulbenkian.

 

Interlúdio XIV

Serve a nota para dizer que no segundo teste de Literatura o aproveitamento foi medíocre. A culpa é certamente do docente!
Há, no entanto, aspetos negativos que vale a pena destacar. Onze anos depois, certos alunos continuam sem a noção do que significa compor um texto: faltam as noções de introdução, desenvolvimento e conclusão; as conexões são aleatórias e as conjunções utilizadas arbitrariamente; os sinais de pontuação, semeados ao desbarato... Em termos de interpretação, há quem responde ignorando o texto transcrito para análise. É como se ele lá não estivesse!
Por seu turno, a superficialidade na abordagem dos textos (e dos temas) revela a atitude perante a disciplina e, mais grave, perante a vida!
De qualquer modo, vou continuar a remar! Ainda há por ali umas pepitas!
Quanto ao PIL, vamos ver se a turma acorda. Apenas duas alunas fizeram a apresentação oral!