18.1.19

Rabiscos

«Estas páginas são rabiscos da minha inconsciência inteletual de mim.» Bernardo Soares

não são uvas, são rabiscos 
(se fossem uvas, seriam dona maria…)
… vivo do rabisco da fartura alheia 
melhor seria que estas páginas fossem riscos… de joan miró

17.1.19

Um lugar estranho

Museu do Oriente
A bondade era coisa preciosa - adivinhava-se no olhar de um avô, de uma tia - refrigério de horas tardias, gastas entre varapaus e cobras arreliadoras sob a batuta de demónios esganiçados perseguidos por tachos e panelas, suspensos da gritaria suada da terra estéril…
Tudo era herança de ter nascido num lugar amaldiçoado ou, pelo contrário, tudo era apelo à superação. E, por mais surpreendente que hoje tal possa parecer, a única porta que abria os céus era a da escola… 
A minha infância foi um lugar estranho donde saí para outra vida.

16.1.19

Um pouco como o Cristo

Armando Vara entregou-se.
Um pouco como o Cristo, porque o Pai não afastou o cálix, pois queria que o sangue do justo purificasse os gentios já que os seus assobiavam nos canaviais…
O pecadilho de que vai acusado não justifica tal tormento, embora a disciplina do cárcere eborense  seja salutar como bem sabe… o amigo José não terá deixado de o informar sobre a regra do lugar.

15.1.19

Se...

Se a soberania não é objeto de preocupação presente, como é que a mesma temática pode entusiasmar alguém quando a abordamos historicamente através, por exemplo, da obra literária?
Da nascente à foz, flui um rio no qual deixámos de nos rever… 
O rio Eufrates (ou outro) já não oferece margem onde possamos cantar Sião, em tempo de exílio ou de convalescença… Talvez na diáspora, mas não estamos lá… só se expulsos do torrão…
Por enquanto…
Até os mitos se arrastam banais em horas absurdas…
Metade de nada, libertos do espírito, esperamos que as horas retomem o seu curso.

14.1.19

Quem é que quer acreditar?

Estou sem saber a partir de que idade é que o problema da identidade se coloca… 
Atualmente, a noção de pertença a uma determinada comunidade perde terreno… esvai-se no tempo. 
Há quem pense que a identidade nos é oferecida já fechada, sem necessidade de construção ou de aperfeiçoamento.
Numa perspetiva diacrónica, a identidade é uma questão resolvida, aborrecida e bolorenta… 
Por exemplo, explicar que o sebastianismo é a expressão lusa do messianismo obriga a uma viagem no tempo hebraico, desde o cativeiro à busca interminável da terra prometida na condição de povo escolhido pelo Criador, mas para quê? 
No caminho, o Messias foi crucificado, sendo ressuscitado pelos gentios, mas para quê se a analogia deixou de funcionar?
Quem é que ainda quer acreditar que um dia fomos escolhidos? Quem é que quer acreditar que um dia deitámos tudo a perder? Quem é que quer acreditar que, apesar de tudo, o Criador não desistiu de nós - a humanidade cada vez mais desumana?
Há viagens perdidas logo à partida.

13.1.19

O teatro

De vez em quando, o teatro…
Desta vez DO ALTO DA PONTE (A View from the Bridge, de Arthur Miller), coprodução Artistas Unidos, domingo, 17 horas, Sala Luís Miguel Cintra. Meia sala.
Espectáculo conseguido. 
Peça produzida em 1955/56. Temática atual - emigração clandestina; vida no fio da navalha; macartismo ativo; valores patriarcais exacerbados; sexualidade sobrevalorizada; Estados Unidos economicamente pujantes, Itália sem futuro…
Este tipo de teatro deveria ser mais acarinhado, porque com Arthur Miller a tragédia desce às docas e aos bairros operários… 
Parabéns ao Jorge Silva Mello e aos "Artistas Unidos"!

12.1.19

Os rios não reagem

Os rios não reagem, fluem ou secam… 
No caso, a estiagem tende a prolongar-se por causa da ambivalência da personagem que acredita que os ventos da desgraça não deixarão de se enfurecer nos próximos tempos… 
Só não contava era com o assoreamento dos santanas, venturas, montenegros e quejandos… uma tribo fratricida capaz das maiores vilezas para assegurar o lugar à mesa do orçamento.

11.1.19

Luís Montenegro

Luís Montenegro: "Estou aqui para dizer que sou o adversário que o Dr. António Costa não teve"

O que o Luís Montenegro quer é ser o António Costa do PSD, pressupondo que o Rui Rio é o António José Seguro, sem descortinar que o Passos Coelho está a fazer a travessia do deserto…
Um candidato a líder necessita, pelo menos, de ser mais esperto, já que a inteligência é um dom cada vez mais raro…
(Da miséria da política)

10.1.19

Soltam-se as imagens

Olhos nos olhos, acertavam-se ideias, tomavam-se decisões calendarizadas que eram registadas para que o verbo não pudesse ser escamoteado… 
O hábito ainda se mantém, mas já sem olhos… 
Agora, do outro lado, incerto, ouve-se a voz que confirma, mas cujo registo só virá à tona, caso alguém possa vir a ganhar com a sua reprodução - a decisão passou a flutuar ao sabor da vontade dos bonecreiros…
E quando a decisão não agrada, soltam-se as imagens, efémeras e cegas.

9.1.19

Na ribalta

Felizmente, ainda há muita gente respeitadora, zelosa, responsável - gente que se preocupa com o bem-estar dos outros, que se supera no exercício diário das tarefas que lhe estão confiadas…
O problema é que esta gente está a ser humilhada por decisores que, para se manterem na ribalta, não se importam de hipotecar os valores que lhes competiria preservar e replicar…
Esta gente ainda não perdeu o rosto, mas pouco falta, pois diante de si já só encontra máscaras...

7.1.19

Na lição de Bernardo Soares

Eu nunca aprendi a ler no pormenor  «um todo, uma coisa, uma voz, uma frase» -  como 'escreveu' um dia esse economista político que se fazia passar por ajudante de guarda-livros no círculo literário de Fernando Pessoa…
Na lição de Bernardo Soares, o pormenor não é apenas a parte, nem a sombra de Platão, nem os bonifrates de Shakespeare, há a vaidade de quem segue indiferente à engrenagem transformadora, há a banalidade de quem não compreende o poder da imaginação transfiguradora… há esse extraordinário alheamento de quem, um dia, ficou sem cabeça… e seguiu adiante…
Na lição de Bernardes Soares, já havia sinais de que um dia um fogoso presidente entraria em direto no programa televisivo de uma voz esgrouviada para a ajudar a anestesiar uma nação…
Tal como Bernardo Soares, começo a crer que tudo é absurdo...

6.1.19

Nomear cansa

Não chego a perceber se o inominável existe ou se este não passa de um anseio de rejeição de tudo o que poderia nomear. 
Mas nomear cansa… 
Ainda se nomeasse um inesperado deslumbramento - talvez a ave minúscula que me confunde na vegetação do frondoso jardim de Gonçalo Ribeiro Telles… O que é feito dele? Se calhar continua a desenhar círculos de água… 
(Distante do saco de Eça de Queiroz - que estranho - tenho dificuldade em imaginar a mochila queirosiana; um tablet evitaria aquela conversa pedante de quem nunca quis ler duas páginas seguidas nem sabe que as aves mergulham nos círculos do arquiteto…)
Abro na página 944..., e logo me encolho ao vislumbrar a insânia de um inquisidor insaciável… e ainda há quem se revolte, como se o lucro não fosse o valor dominante...

5.1.19

Apenas fiapos

Passaram sete anos e outros sete, dois ciclos concluídos!
Do que vem não se sabe em que ponto já vai e se respeita a predição… 
O que não faz sentido é desperdiçar o tempo a pensar nisso, até porque nada obriga a que haja renovação… 
Apenas fiapos de resignação.
Enquanto o fiozinho não se rompe, sigamos o caminho… depois alguém dirá o que tiver a dizer…

4.1.19

OURO

As cadeias estão lotadas. Não há dinheiro para construir novos estabelecimentos prisionais. Nem há dinheiro para valorizar as carreiras dos carcereiros…
(..)
Não faz sentido prender cidadãos tão impolutos… Se porventura algum pecado cometeram, uma penitência leve, com o acréscimo do pagamento balsâmico de uma ou outra indulgência, lava tudo. Nada que Melchior não tenha satisfeito em devido tempo…
Agora há que ir atrás dos canalhas e pô-los atrás das grades.

3.1.19

Não sei bem o que sinto

Ainda não me sinto em 2019, isto é, não sei bem o que sinto, pois tudo me surge sob um nevoeiro persistente. Não vejo nisto qualquer metafísica, nem já me contento com a explicação de que esta abarca tudo o que está para além da matéria…
Ando há anos a repetir definições cristalizadas, e isso aborrece-me cada vez mais… Aborrece-me o relativismo moral… Aborrece-me a indulgência… 
Aborrece-me a intransigência, porque as âncoras estão desertas, enferrujadas… já não há barco nem marinheiro que as procure...

2.1.19

O elevador

Vivi vários anos em espaços fechados e nunca tal me deprimiu. 
A disciplina do lugar deve ter contribuído para eliminar qualquer espécie de angústia. 
Por outro lado, o facto de ter nascido numa aldeia também não será alheio a esta ausência de temor - a aldeia não era delimitada por qualquer muralha, mas havia lá uma linha invisível, inultrapassável… O exterior despertava muito mais ansiedade, porque era um não-lugar, sede de todos os perigos…

Hoje, repentinamente, o elevador avariou no entre o 12º e o 11º andar. Fechado, esperei pacientemente, sem qualquer receio, que alguém me libertasse da clausura forçada. Foram 30 minutos, lentos, mas sem um mínimo de ansiedade…

1.1.19

Da insanidade mental em política

«Et pourtant, tout régime politique vaut ce que vaut le personnel politique qui le dirige et le fait fonctionner.» Atsutsé Kokouvi Agboli, Jeune Afrique, nº 1624

Se o regime político é a expressão do pessoal político que o dirige, hoje os brasileiros entraram na era da insanidade mental.
Infelizmente, os doente mentais estão a ser catapultados para o exercício do poder, com a aprovação da populaça e a manipulação de inconfessados interesses transnacionais.
E como se sabe, a doença mental não escolhe a cor política, qualquer uma lhe serve… mesmo que Bolsonaro prometa que a bandeira brasileira jamais acolherá o vermelho, apesar de apostar no seu derramamento…