31.10.14

Sob o efeito de um quiasmo...

«Milhor é merecê-los sem os ter, / Que possuí-los sem os merecer. Camões, OS LUSÍADAS, Canto IX, estância 93 

Referia-se o Poeta às «honras vãs, esse ouro puro», alcançadas por gente cobiçosa, ambiciosa e fraudulenta. 

Ao ler as notícias mais recentes sobre condecorações, fico na dúvida se, já no séc. XVI, o Poeta estava, apenas, a ser virtuoso, ao criar o quiasmo ou se, de facto, queria censurar aqueles que premeiam os que ao bem comum antepõem o interesse próprio...

28.10.14

O Largo era a Praça da Jorna

a) « O Largo era o centro do mundo. (...) Era aí o lugar dos homens, sem distinção de classes. Desses homens antigos que nunca se descobriam diante de ninguém e apenas tiravam o chapéu para deitar-se. (...) o Largo que era de todos, e onde apenas se sabia aquilo que a alguns interessava que se soubesse, morreu.» Manuel da Fonseca, O LARGO.

b) «As praças de homens, que na realidade são mercados medievais da força de trabalho, tornam-se num instrumento de luta nas mãos dos camponeses havendo assim que lutar (...) contra  a tentativa para a sua extinção. Eis as razões porque é completamente justa a consigna lançada pelas organizações partidárias de alguns sectores rurais (...): que os camponeses se recusem a ir esmolar trabalho a casa dos patrões e obriguem os patrões a irem contratá-los à praça. O Militante, 29, Maio, 1944, citado por João Freire, O Movimento Operário e o Problema Rural na I República, in Mundo Rural - Transformação e Resistência na Península Ibérica, Coordenação Dulce Freire, Inês Fonseca, Paula Godinho.

A PRAÇA DA JORNA é uma locução que  me seduz, mas que não sei onde situá-la! De acordo com o esquecido Manuel da Fonseca, o Largo morreu com a chegada do comboio, com a multiplicação dos cafés e respetivas clientelas, com a leitura dos jornais e com a audição da rádio. 
O Largo metamorfoseou-se numa imensidade de pequenos largos e a Praça da Jorna  foi substituída pelos sindicatos...
Hoje, o LARGO alargou-se, é do tamanho da WEB. Pena é que os patrões não sejam obrigados contratar segundo uma regra universal e, sobretudo, pena é que os trabalhadores tenham deixado de usar chapéu...
  


26.10.14

Estou naquela idade...

Estou naquela idade em que a narrativa política me causa enjoo. Pode ser que passe, mas desconfio que, se  a euforia dos idos de abril voltar, já por cá não estarei...
Estou naquela idade em que a narrativa pedagógica já não convence. Faltam valores e um rumo coletivo!
Estou naquela idade em que a emoção destrói o estômago e o coração. O amor e o ódio aliaram-se contra mim, como se o objetivo fosse aniquilar-me de vez... 

Doravante só vou escrever sobre livros.Tenho tantos por ler e muitos mais por reler! 

Por tudo o que fica dito, vou deixar de postar no facebook e no twitter... Resta a velha CARUMA.

25.10.14

Eu prefiro mil vezes os números da DGO...

Nos dias em que estou mais cansado ou até deprimido, gosto de fazer uma pausa. Há quem dê um passeio a pé, quem vá até ao ginásio, quem veja um filme. Por mim, nada disso! Eu prefiro mil vezes os números da Direção-geral do Orçamento...  
Só de os contemplar, acalmo, deixo de tremer, de entaramelar as palavras.  E é o que acaba de me acontecer  ao ler no i a seguinte notícia:

«Segundo os valores avançados pela DGO, entre Janeiro e Setembro os contribuintes pagaram 4738 milhões de euros só em juros da dívida pública, mais 4,2% que até Setembro de 2013. São mais 192 milhões de euros, dos quais 151 milhões vieram do aumento do preço cobrado pelo FMI.»

Em particular, a informação de que o FMI nos aumentou a fatura  em 3% pela ajuda financeira tem o condão de me libertar da neurose e de me devolver ao trabalho. Ao trabalho forçado! 

Não quero ser acusado de preguiçoso pelo primeiro-ministro...

24.10.14

O Bem comum

No século XVI, para Camões, só eram dignos de ser postos "em memória" aqueles que servissem Deus, o Rei e o Bem comum. 
O Estado Novo leu à letra a lição camoniana e durante mais de 40 anos impôs o culto de Deus e da Pátria (feita de famílias) e descurou o Bem comum, embora doutrinariamente  apregoasse o contrário. 
Dessa tríade, hoje, na sociedade laica e global, já só resta virtualmente o Bem comum! 
De entre os valores, o Bem comum deveria ser o principal guia de ação de cada homem... 

Pelo menos, no que me concerne, os jovens que vou servindo, olham para mim como se eu fosse um extra-terrestre.

A cada dia que passa, ao Bem comum vamos antepondo o "próprio interesse". 


23.10.14

Delírio

Abundantes, as palavras precipitam-se em cascata, desfiando doutrinas de rejeição, em nome da unidade divinamente inequívoca. Fora das palavras, o ar rareia e asfixia os ouvintes que, apenas, podem silabar monossílabos de aprovação ou, em alternativa, espreitar o melhor momento para sair do círculo de encantamento...
A fuga é, todavia, quase impossível porque, enquanto as palavras se convertem em aplausos da unidade, os braços arqueiam-se em balanços de avanço e recuo e, no movimento, as pernas parecem ganhar molas que lançam o corpo sobre a presa, esmagando-a...

A pena que eu tenho de não saber desenhar! Saberia, talvez, captar o momento no seu alongamento em direção à UNIDADE.
Se eu soubesse desenhar, estaria mais perto da unidade inicial, e creio mesmo que preferiria ser surdo-mudo.

22.10.14

Reuniões (intercalares)

18:45. Numa sala vazia espero impacientemente por uma reunião intercalar marcada para as 19:45. As luzes permaneceram acesas durante todo o dia, apesar da luz intensa, apenas coartada por persianas emperradas por falta de manutenção... Num armário, ainda é possível vislumbrar, alaranjados e noturnos, uns tantos livros de sumários...
(As mesas e as cadeiras, modernos espelhos de alma, refletem a cinza dos dias.)
Para lá do caixilho, outra sala, vazia, dois computadores piscam, um em tons azulados... Olho à volta, e os painéis mostram-me rotinas desnecessárias em tempo de desmaterialização da informação. Pela janela, as folhas outonais dos plátanos escondem os carros que, ininterruptamente, circulam deixando um ruído maligno, sobretudo, para quem chegou a esta sala às 8:00 da manhã.  

Evito pensar na reunião intercalar - para professores, pais e alunos - porque sempre que nela participo, me sinto num psicodrama. Uma daquelas sessões em que peões saltam do respetivo território para o do vizinho, sem qualquer incómodo, e desempenham a rábula da partilha e da busca de soluções para problemas mal equacionados. 
Nas reuniões intercalares, devemos encontrar soluções facilitadoras da aprendizagem e da relação. Numa hora e 30 minutos, salvamos o mundo. Depois se verá!
Claro que há reuniões intercalares que não deveriam começar, porque, à partida, já sabemos que acabam mal.
O que é válido para as reuniões intercalares serve para muitas outras reuniões! Porque reunir significa voltar a unir o que entretanto se separou (nalguns casos, se emancipou)... O que me leva a pensar no trauma da perda do cordão umbilical...E quando me coloco nesta perspetiva, compreendo melhor a razão porque continuo à espera da reunião intercalar... reunião que mais não é do que uma partilha de silêncios ruidosos...
Já só faltam 20 minutos... Talvez 20 minutos ou um pouco mais. Oficialmente, a reunião termina às 20:15. 

21.10.14

Tanto fastio já aborrece...

E ponde na cobiça um freio duro,
E na ambição também, que indignamente
Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
Vício da tirania infame e urgente;
Porque essas honras vãs, esse ouro puro,
Verdadeiro valor não dão à gente.
Milhor é merecê-los sem os ter,
Que possuí-los sem os merecer.


Camões, OS LUSÍADAS, Canto IX, estância 93.

Sem querer ofender o desconchavo de alguns jovens nem rejeitar o argumento de que, para eles, não faz qualquer sentido ler Camões, autor do longínquo século XVI, até porque já no tempo do Poeta o argumento parecia válido para os invejosos, não posso deixar de me interrogar sobre a razão de tal fastio.
A pedagogia recomenda que o professor se desdobre em estratégias, e existem umas tantas que estão para a leitura como a margarina está para a manteiga, eu insisto que não há leitura sem perceção visual (ou tátil, no caso dos invisuais).
Não é possível ler, sem livro, de livro fechado, na página errada, a conversar ininterruptamente com o parceiro do lado...
Parece-me, assim, que o problema do fastio é de natureza cultural, como já acontecia no tempo de Camões. É um problema de valores: de falta de valores ou de falsos valores...
Afinal, se já desistimos de combater os Serracenos, continuamos a desprezá-los e, sobretudo, vivemos mergulhados na cobiça, na ambição, na tirania, na vaidade, ESSE OURO PURO que corrompe o ESPÍRITO...

20.10.14

Burocratas ignorantes e prepotentes

Estou farto de burocratas ignorantes e prepotentes! Vou esperar pelo próximo episódio e depois vou a jogo.

(O arquiteto andou bem ao enquadrar o edifício. Há, no entanto, uns tantos gestores e burocratas que continuam à solta...)

19.10.14

O caso de Dustin Barca

É admirável ver Dustin Barca, que conta com o apoio de grandes nomes do surf mundial, como, por exemplo, Kelly Slater, arregaçar as mangas da forma que tem feito e pensar como é que o puto arruaceiro, que não hesitava em esmurrar pessoas sempre que surgia a oportunidade, se transformou num cidadão empenhado. “Fartei-me de ir parar à esquadra da polícia em Hanalei quando ainda só andava na escola primária. Era um miúdo muito problemático. Nunca tive pai, por isso não tinha quem me orientasse”, recorda.  Dustin Barca, em Entrevista ao Jornal i.

Barca é, em 2014, candidato independente, defendendo quatro áreas-chave: recuperar a cultura do Kauai, fomentar a agricultura sustentável, restaurar as hidrovias e combater o uso de drogas.

Para mim, esta foi notícia a que dei mais atenção neste dia, porque me faz pensar que os jovens podem encontrar o seu caminho, longe de tutores iluminados que não descansam enquanto não colocam sob a sua asa os jovens mais «prometedores» e não escorraçam para longe os «arruaceiros»; longe de pedopsiquiatras que tudo resolvem, receitando drogas aos adolescentes mais agressivos...
A leitura da entrevista faz-me pensar naqueles jovens que, todos os dias, entram a dormir nas salas de aulas e, assim, se mantêm por longo tempo... Dustin Barca desistiu do liceu no 10º ano porque queriam que tomasse Ritalin, medicamento usado para tratar a hiperatividade...
A explicação quanto à diferença de comportamento, reside na vontade. Na vontade de não ser dependente, subserviente e alienado. É esta vontade que pode gerar a contra-cultura  necessária à saída do marasmo e da abulia ou, então, à fuga do paternalismo tão frequente na nossa sociedade e, em particular, nas nossas escolas.

18.10.14

Aquém da realidade

À força de me confrontar com coisas que não quero descrever, sinto-me aquém da realidade. A cada minuto, tomo decisões - umas sensatas, outras insensatas - sem expetativa de recompensa ou de castigo....
Procuro não incomodar para poder ser incomodado. Sei que o cão que agora ladra, daqui a pouco estará calado. 
Olho a Agenda, rasuro e acrescento, sem que isso signifique mais do que um gesto vazio diante da lâmpada de cristal de sal que me invade de penumbra...
Despeço-me, entretanto, porque, dentro de momentos, regresso ao labirinto onde me esperam fios de hiper-realidade.
Sinto-me aquém da realidade!

17.10.14

Plagiadores de 2ª mão

«Isto apesar de a comunicação do secretário de Estado incluir uma bibliografia onde são citados cinco autores, sem que nenhum destes sejam Reis Monteiro ou João Pedro da Ponte.» Público, 17 out 2014.

Outrora plagiar exigia leitura e cópia manuscrita ou dactilografada. Exigia revisão para não defraudar o original. O Autor do plágio, querendo parecer original, era escrupuloso ao ponto de se esquecer das aspas... Houve até quem, à força de plagiar, aprendesse a imitar, embora sem «nunca igualar ou superar o original"... Neste momento, já devem ter reconhecido o intertexto! 

Hoje, o plagiador é mais um «ladrão que rouba a ladrão» sem se preocupar com o perdão. Falta-lhe a consciência religiosa: pouco lhe importa a salvação da alma!
Hoje, o plagiador "googla-se" e, num instante, descobre o que lhe convém. Em dois movimentos (copy and paste),transporta os excertos para o regaço da secretária que, de pronto, os alinha de modo a que sua Excelência possa brilhar em qualquer simpósio...

E eu conheço tantos plagiadores neste inefável país!


16.10.14

Não é possível!

Não é possível!
O oráculo, certa tarde, inspirou fundo e proclamou: Dos 39 não passarás!
Este oráculo era médico... pelo menos, foi assim que mo apresentaram. Mandou-me despir, observou-me atentamente e exclamou: Dos 39 não passarás! Nunca soube o que viu em mim...
Desde aquele dia que me interrogo: Para quando o fim?
Já começo a ficar desencantado, pois a leitura dos clássicos ensinou-me que não é possível fugir ao vaticínio do oráculo. Édipo, por exemplo, por mais peregrino que se tivesse tornado, acabou cego às suas próprias mãos...
Ora eu não gostaria de acabar cego por minhas próprias mãos, até porque já me faltam pai e mãe. Reconheço que estou livre de nefandos crimes, mas não sei se suporto mais a desilusão da profecia por cumprir...
Quando volvo sobre mim, sinto que não tenho estado à altura daquilo que cada um sempre quis para mim... agora, vejo-me de regresso à sala de estudo e penso: - foi preciso chegar aos 60 para ali ficar acantonado. Até quando?

15.10.14

Uma virtuosa ministra

A ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, disse hoje que os impostos no Orçamento do Estado (OE) para 2015 referentes a tabaco e álcool visam desincentivar comportamentos negativos e apoiar campanhas contra esses mesmos comportamentos.
"Desincentivar comportamentos com consequências negativas para a saúde" é o objetivo maior dos referidos impostos, cuja receita financiará também, por via do ministério da Saúde, campanhas alertando para os perigos associados ao consumo de álcool e tabaco.

Eu não bebo, não fumo, circulo cada vez menos de carro, estou a substituir os sacos de plástico por cestos de vime, não pinto o cabelo nem vou à manicura, já não sei o que é um alfaiate nem um sapateiro, estou a pensar em abandonar os medicamentos, deixei de tomar café, não como coelho nem sushi nem linguado, muito menos caviar e frutos tropicais... Todos os dias me imponho a fuga a comportamentos com consequências negativas para a saúde e para as finanças. Por este andar, pouco falta para ocupar o lugar que mereço na Jerusalém celeste!

Temo, todavia, que S. Pedro me bata com a porta na cara, sob o pretexto de que não sou suficientemente solidário (e pecador!) com a minha virtuosa ministra das finanças. Afinal, para equilíbrio das contas públicas, para pagar os juros da dívida que não param de aumentar, ela necessita que eu peque...Peque!

Imagine-se o que aconteceria à Nação se todos os cidadãos seguissem o meu exemplo! Quero crer que a Senhora Ministra está a mentir... Mais uma vez! Só que desta vez, mentir não é pecado!

14.10.14

Cronopoemas de António Souto - Sonhos Sobrantes

Abri o livro do poeta e, para tal, suspendi o amigo e o colega de trabalho. Comecei por ler o prefácio e achei-o redutor. O poeta tutelado por Ricardo Reis sabia-me a pouco!
Avancei, não de forma linear. Atrevi-me a desrespeitar a composição. Conheço bem os malefícios da retórica!
E, de súbito, os poemas começaram a saber-me a tempo - um tempinho de luz -, o único tempo de plenitude que um poeta pode saborear.
E do longe e do perto, numa escrita límpida, depurada, foram despontando registos da mãe, sempre da mãe, da infância do menino de sua mãe - uma infância que perdura nos versos, mesmo quando o menino cresce, procura a cidade, descobre o Tejo e outra vida, também ela feita de tempo:
O tempo da leitura - Cesário, Pessoa, Negreiros, Lorca, Torga, Saramago e quantos outros por dizer...
O tempo de outrora e de agora, feito de minutos, de tardes e de noites, de dias, de ocasiões, de todas as estações... o tempo agora é o tempo do trabalho, das árvores que chilreiam - plátanos, jacarandás ou ipomeias -, de jovens sem tempo para o tempo, de colegas a quem o tempo levou ou o desenham em versos traçados...
(...)
Atrevo-me, assim, a propor ao poeta que, sempre que possível, se liberte do trabalho para que nos conceda mais um tempinho de luz...
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4.12.2014

Na Biblioteca Central da Escola Secundária de Camões, a professora Margarida Sérvulo Correia apresentou Sonhos Sobrantes. Fê-lo numa alocução sóbria, inteligente e bem fundamentada, iluminando os versos de memória do poeta António Souto.
O poeta, por seu turno, visivelmente orgulhoso, leu três belos poemas alusivos a Saramago, ao Natal e a Abril, e agradeceu, revelando os laços passados e presentes.
A Biblioteca estava cheia, sobretudo de alunos que tudo ouviram em silêncio, sem que, no entanto, tenham tido oportunidade de tomar a palavra...
A Margarida Souto (?) ficou sentada  à minha frente e tudo escutou. O que terá pensado? 

13.10.14

Não cantarei

Nenhum que use de seu poder bastante
Pera servir a seu desejo feio,
E que, por comprazer ao vulgo errante,
Se muda em mais figuras que Proteio.
Nem, Camenas, também cuideis que cante
Quem, com hábito honesto e grave, veio,
Por contentar o Rei, no ofício novo,
A despir e roubar o pobre povo!

Camões, Os Lusíadas, Canto VII, estância 85.


(Há, pelo menos, três ou quatro membros do Governo da Lusitânia a quem estes versos colam na perfeição!)

Consta que o Governo esteve reunido durante 18 horas para aprovar o OGE 2015. Nos mujimbos que circulam, não dou conta de que da Ordem de Trabalhos constassem duas leituras prévias: A Constituição da República Portuguesa e as reflexões do Poeta n' OS LUSÍADAS.

Perante esta lacuna, estou sem saber qual é o papel do Doutor Nuno Crato no Conselho de Ministros...

12.10.14

A morte de Sylvia

«Rupert e Frances desceram e entraram na sala onde Sylvia estava, de facto, mergulhada num sono de morte: estava morta.» Doris Lessing, O Sonho mais Doce, página 425, editorial Presença.

Num romance em que o SONHO vermelho vai construindo um espaço que só não é absurdo porque, ao alastrar, gera um conjunto de monstros iluminados que, em nome de ESTALINE, se propõem libertar os povos e, no entanto, os deixam morrer à míngua de água, de saúde, de ilustração, de paz... surge a doce e frágil Sylvia que mergulha no africano terreno saqueado e abandonado para libertar aquele povo da doença e da ignorância.
Sylvia tudo faz, tudo sofre, sem apoio dos libertadores, novos colonizadores, embora menos vermelhos, mais gordos e, sobretudo, mais ricos. Mais dependentes do Capital Global!
Sylvia, voluntária, cooperante, representa todos os que se entregam a uma Causa sem esperar mercês. 
Confesso que a morte de Sylvia me choca porque ela representa a morte de todos os que, desde a 2ª Guerra Mundial, se sacrificaram por construir um mundo mais justo e, na verdade, as desigualdades não param de aumentar. Não só a Sul mas, também, a Norte!

11.10.14

Dispersão

Cada vida deveria ter um rumo, mesmo se de médio prazo. No entanto, nos tempos que correm, ninguém se contenta com essa singularidade. Acredita-se que se pode ter vários rumos sem cair na dispersão...
De facto, essa dispersão é uma constante dos nossos dias, provocando desperdício e insucesso académico, profissional, familiar e pessoal. 
Estamos cada vez mais pobres!
Literariamente, a dispersão foi acantonada no modernismo. Creio, contudo, que a dispersão é filha do individualismo, em particular, do romântico.
Entrámos recentemente na Idade Global, mas ainda estamos longe de definir um rumo e de mantê-lo.

10.10.14

O Governo prefere bater em latas...


Governo diz que não há razão para alarme social por causa do Ébola.

Em vez de explicar o risco, de detalhar os cuidados a ter em caso de ida ou de regresso das zonas mais afetadas, de anunciar as medidas tomadas para evitar a contaminação do pessoal médico e dos cidadãos, o Governo prefere bater em latas... À informação, o Governo prefere a propaganda!
A experiência diz que devemos estar atentos aos desmentidos e às promessas governamentais. Sempre que promete, não cumpre! Sempre que desmente, é porque o risco está iminente...
(...)
Há, no entanto, exceções. O primeiro-ministro prometeu que os ministros da educação e da justiça estavam longe de regressar a casa e, de facto, eles mantêm-se nos seus postos. 

9.10.14

António Lobo Antunes desespera

O NOBEL da Literatura 2014 foi atribuído a Patrick Modiano

Protégé de Raymond Queneau, Patrick Modiano a publié son premier roman, la Place de l’Etoile, en 1968. Il a depuis écrit une trentaine de romans, tous publiés chez Gallimard. En 1974, il a écrit, avec le cinéaste Louis Malle, le scénario d’un film à succès, Lacombe Lucien, l’histoire d’un adolescent tenté par l’héroïsme, et qui plonge dans la collaboration dans la France de 1944. Il est également l’auteur d’autres scénarios, ainsi que d’un essai avec Catherine Deneuve sur la sœur tôt disparue de l’actrice, François Dorléac.
Juré en 2000 du Festival de Cannes, il a aussi écrit des paroles de chansons, comme Etonnez-moi Benoît !, interprétée par Françoise Hardy, et publié un entretien avec l’essayiste Emmanuel Berl (Interrogatoire).
Il obtient en 1972 le Grand Prix du roman de l’Académie française pour les Boulevards de ceinture, le Goncourt en 1978 avec Rue des boutiques obscures et le Grand Prix national des lettres pour l’ensemble de son œuvre en 1996. Patrick Modiano est traduit en quelque 36 langues, dont en suédois dans la maison d’édition d’Elisabeth Grate, qui publie également les œuvres de Jean-Marie Le Clézio, dernier prix Nobel de littérature français, consacré en 2008.
Patrick Modiano succède à la nouvelliste canadienne anglophone Alice Munro, primée en 2013, et emporte la récompense de huit millions de couronnes (environ 878 000 euros). Son nom figurait parmi les favoris au prix depuis de nombreuses années. Il recevra son prix à Stockholm le 10 décembre.
http://www.liberation.fr/livres/2014/10/09/le-francais-patrick-modiano-prix-nobel-de-litterature_1118123
Ao contrário de António Lobo Antunes, a escrita de Modiano é simples, concisa e elegante. Ao leitor exige-se leveza ...

8.10.14

Dá sempre jeito... a ciência política

Vaticinei há uns tempos que «o homem podia ser seguro mas não teria futuro». Como me enganei! Afinal, o homem deixou a política ativa para dedicar-se ao ensino de 'ciência política' na UAL.
Contra mim me falo: "Quem não sabe fazer, ensina!"
Ele tem, em relação a mim, uma vantagem, apesar de ter gasto três anos a descobrir a falta de jeito para a ação política: aprendeu com o erro. Por isso, agora vai fazer o que melhor sabe: catequizar. Pelo contrário, eu há quarenta anos que ensino e ainda não descobri se terei jeito para a ação política... nem para o ensino!
(...)

Desconfio, no entanto, que este tirocínio docente na UAL, certamente como professor auxiliar, não passa de uma pausa, à espera do falhanço do Usurpador.
Em tempos idos, conheci várias personalidades de distintos quadrantes políticos que viviam um período de pousio na UAL. Não lhes reconhecendo particulares competências científicas e, sobretudo, pedagógicos, certo dia perguntei ao Magnífico Reitor a razão da sua contratação. 
O Reitor foi claro: Uma Universidade que queira sobreviver deve ter no seu corpo docente representantes de todas as tendências partidárias, da extrema-direita à extrema-esquerda. Dá sempre jeito!

7.10.14

Vale a pena ler e meditar

Cómo no ganar el Premio Nobel

Traducción de Laura Canteros
(...) El texto de la conferencia preparada por Doris Lessing —ganadora del Premio Nobel de Literatura 2007— para la ceremonia de entrega del mismo. Lessing, por problemas de salud, no participó de la ceremonia en Estocolmo y encargó la lectura de su texto a su editor, Nicholas Pearson, el 7 de diciembre de 2007.
(...)
Imaginaria agradece muy especialmente a Jonna Petterson, directora de Relaciones Públicas de la Fundación Nobel, por su autorización para traducir y publicar este texto.
Estoy de pie junto a una puerta y miro a través de remolinos de polvo hacia donde me han dicho que aún existe bosque sin talar. Ayer conduje a través de kilómetros de tocones y restos calcinados de incendios donde, en el '56, se encontraba el bosque más maravilloso que jamás haya visto, ahora completamente devastado. Las personas tienen que comer. Y necesitan material para encender el fuego.
Me encuentro en el noroeste de Zimbabwe a principios de la década de 1980 y vine a visitar a un amigo que era maestro en una escuela de Londres. Está aquí "para ayudar a África" como solemos decir. Es un alma genuinamente idealista y las condiciones en que encontró esta escuela le provocaron una depresión de la que le costó mucho recuperarse. Esta escuela se parece a todas las escuelas construidas después de la Independencia. Está compuesta por cuatro grandes salones de ladrillo uno a continuación del otro, edificados directamente sobre la tierra, uno dos tres cuatro, con medio salón en un extremo, para la biblioteca. En estas aulas hay pizarrones, pero mi amigo guarda las tizas en el bolsillo, para evitar que las roben. No hay ningún atlas ni globo terráqueo en la escuela, tampoco libros de texto, carpetas de ejercicios ni biromes, en la biblioteca no hay libros que a los alumnos les gustaría leer: son volúmenes de universidades estadounidenses, incluso demasiado pesados para levantar, ejemplares descartados de bibliotecas blancas, historias de detectives o títulos similares a Fin de semana en Paris o Felicity encuentra el amor.
Hay una cabra que intenta buscar sustento en unos pastos resecos. El director ha malversado los fondos escolares y se encuentra suspendido, situación que suscita la pregunta habitual para todos nosotros aunque por lo general en contextos más prósperos: ¿Cómo puede ser que estas personas se comporten de tal manera cuando deben saber que todos las están observando?
Mi amigo no tiene dinero porque todo el mundo, alumnos y maestros, le piden prestado cuando cobra el sueldo y probablemente nunca le devuelvan el préstamo. Los alumnos tienen entre seis y veintiséis años porque quienes no pudieron asistir a la escuela antes se encuentran aquí para remediar tal situación. Algunos alumnos recorren muchos kilómetros cada mañana, con lluvia o con sol y a través de ríos. No pueden hacer tareas escolares en sus casas porque no hay electricidad en las aldeas y no es fácil estudiar a la luz de un leño encendido. Las niñas deben ir a buscar agua y cocinar cuando vuelven a sus hogares desde la escuela y antes de partir hacia la escuela.
Mientras estoy con mi amigo en su cuarto, varias personas se acercan tímidamente y todas piden libros. "Por favor, mándanos libros cuando regreses a Londres." Un hombre dijo: "Nos enseñaron a leer, pero no tenemos libros". Todas las personas que conocí, todas ellas, pedían libros.
Estuve varios días allí. El polvo volaba por todas partes, escaseaba el agua porque las cañerías se habían roto y las mujeres volvían a acarrear agua desde el río.
Otro maestro idealista llegado de Inglaterra se había enfermado de bastante gravedad luego de ver el estado en que se encontraba esta "escuela".
El último día de mi visita finalizaba el ciclo lectivo y sacrificaron la cabra, que cortaron en trocitos y cocinaron en una gran fuente. Era el esperado banquete de fin de ciclo, guiso de cabra y puré. Me alejé de allí antes de que terminara, conduje por el camino de regreso entre calcinados restos y tocones que habían sido bosque.
No creo que muchos alumnos de esta escuela lleguen a obtener premios.
Al día siguiente estoy en una escuela en la zona norte de Londres, una escuela muy buena, cuyo nombre todos conocemos. Es una escuela para varones. Buenos edificios y jardines.
Estos alumnos reciben la visita de alguna persona famosa todas las semanas y resulta natural que muchos de los visitantes sean padres, familiares e incluso madres de los alumnos. La visita de una celebridad no es ningún acontecimiento para ellos.
La escuela rodeada por nubes de polvo al noroeste de Zimbabwe ocupa mi mente y contemplo estas caras ligeramente expectantes e intento contarles acerca de aquello que he visto durante la última semana. Aulas sin libros, sin manuales, ni un atlas, ni siquiera un mapa colgado en la pared. Una escuela donde los maestros suplican que les envíen libros para aprender a enseñar, ellos, que sólo tienen dieciocho o diecinueve años, piden libros. Les cuento a estos niños que todas y cada una de las personas piden libros: "Por favor, mándennos libros". Estoy segura de que quien pronuncie un discurso aquí advertirá el momento en que las caras que tiene frente a sí se tornan inexpresivas. Tu público no escucha lo que dices: no hay imágenes en sus mentes para asociar con aquello que les cuentas. En este caso, una escuela situada entre nubes de polvo, donde el agua es escasa y donde, al finalizar el ciclo lectivo, una cabra recién faenada y cocida en una olla grande constituye el banquete de fin de año.
¿Acaso les resulta imposible imaginar una pobreza tan abyecta?
Me esfuerzo al máximo. Son individuos bien educados.
Estoy convencida de que en este grupo habrá unos cuantos que recibirán premios.
Al finalizar el encuentro, converso con los docentes y como siempre pregunto cómo es la biblioteca y si los alumnos leen. Y aquí, en esta escuela privilegiada, oigo aquello que siempre oigo cuando voy de visita a las escuelas e incluso a las universidades.
—Ya sabes cómo es. Muchos niños jamás han leído nada y sólo se usa la mitad de la biblioteca.
"Ya sabes como es". Sí, efectivamente sabemos cómo es. Todos nosotros.
Somos parte de una cultura fragmentadora, donde se cuestionan nuestras certezas de apenas pocas décadas atrás y donde es común que hombres y mujeres jóvenes con años de educación no sepan nada acerca del mundo, no hayan leído nada, sólo conozcan alguna especialidad y ninguna otra, por ejemplo, las computadoras.
Somos parte de una época que se distingue por una sorprendente inventiva, las computadoras y la Internet y la televisión, una revolución. No es la primera revolución que nosotros, los humanos, hemos abordado. La revolución de la imprenta, que no se produjo en cuestión de décadas sino durante un lapso más prolongado, modificó nuestras mentes y nuestra manera de pensar. Con la temeridad que nos caracteriza, aceptamos todo, como siempre, sin preguntar jamás "¿Qué nos va a pasar ahora con este invento de la imprenta?". Y así, tampoco nos detuvimos ni un momento para averiguar de qué manera nos modificaremos, nosotros y nuestras ideas, con la nueva Internet, que ha seducido a toda una generación con sus necedades en tal medida que incluso personas bastante razonables confesarán que una vez que se han conectado es difícil despegarse y podrían descubrir que han dedicado un día entero a navegar por blogs y a publicar textos carentes de todo sentido, etc.
Hace poco tiempo, incluso las personas menos instruidas respetaban el aprendizaje, la educación y otorgaban reconocimiento a nuestras grandes obras literarias. Por supuesto, todos sabemos que durante el transcurso de esa feliz etapa, muchas personas simulaban leer, simulaban respeto por el aprendizaje, pero existen pruebas de que los trabajadores y las trabajadoras anhelaban tener libros y ello se evidencia en la creación de bibliotecas, institutos y universidades obreras durante los siglos XVIII y XIX.
La lectura, los libros solían formar parte de la educación general.
Las personas mayores, cuando hablan con los jóvenes, deben tener en cuenta el papel fundamental que desempeñaba la lectura para la educación porque los jóvenes saben mucho menos. Y si los niños no saben leer, es porque nunca han leído.
Todos conocemos esta triste historia.
Pero no conocemos su final.
Recordemos el antiguo proverbio: "La lectura es el alimento del alma" —y dejemos de lado los chistes relacionados con los excesos en la comida—, la lectura alimenta el alma de mujeres y hombres con información, con historia, con toda clase de conocimientos.
Pero nosotros no somos los únicos habitantes del mundo. No hace demasiado tiempo me telefoneó una amiga para contarme que había estado en Zimbabwe, en una aldea donde sus habitantes habían pasado tres días sin comer, pero seguían hablando sobre libros y cómo conseguirlos, sobre educación.
Pertenezco a una pequeña organización que se fundó con el propósito de abastecer de libros a las aldeas. Había un grupo de personas que por motivos diferentes había recorrido todas las zonas rurales del territorio de Zimbabwe. Nos informaron que en las aldeas, a diferencia de la opinión generalizada, viven muchísimas personas inteligentes, maestros jubilados, maestros con licencia, niños de vacaciones, ancianos. Yo misma solventé una pequeña encuesta para averiguar las preferencias de los lectores y descubrí que los resultados eran similares a los que arrojaba una encuesta sueca, cuya existencia desconocía hasta ese momento. Esas personas querían leer aquello que quieren leer los europeos, al menos quienes leen: novelas de todas clases, ciencia ficción, poesía, historias de detectives, obras dramáticas, Shakespeare y los libros de autoenseñanza —cómo abrir una cuenta bancaria, por ejemplo—, aparecían al final de la lista. Mencionaban las obras completas de Shakespeare: conocían el nombre. Un problema para encontrar libros destinados a los aldeanos consiste en que ellos desconocen la oferta, de modo que un libro de lectura obligatoria en la escuela como El alcalde de Casterbridge [de Thomas Hardy] se vuelve popular porque todos saben que es posible conseguirlo. Rebelión en la granja, por razones obvias, es la más popular de las novelas.
Nuestra pequeña organización conseguía libros de toda fuente posible, pero recordemos que un buen libro de bolsillo editado en Inglaterra costaba un salario mensual: así ocurría antes de que se impusiera el reinado del terror de Mugabe. Ahora, debido a la inflación, equivaldría al salario de varios años. Pero cada vez que llegue una caja de libros a una aldea —y recordemos que hay una terrible escasez de gasolina— se la recibirá con lágrimas de alegría. La biblioteca podrá ser una plancha de madera apoyada sobre ladrillos bajo un árbol. Y en el transcurso de una semana comenzarán a dictarse clases de alfabetización: las personas que saben leer enseñan a quienes no saben, una verdadera práctica cívica, y en una aldea remota, como no había novelas en lengua tonga, un par de muchachos se dedicó a escribirlas. Existen unos seis idiomas principales en Zimbabwe y en todos ellos hay novelas, violentas, incestuosas, plagadas de delitos y asesinatos.
Nuestra pequeña organización contó desde sus inicios con el apoyo de Noruega y luego de Suecia. Porque sin esta clase de apoyo nuestros suministros de libros se hubieran agotado muy pronto. Se envían novelas publicadas en Zimbabwe y, también, libros de bricolaje a personas ávidas de ellos.
Suele decirse que cada pueblo tiene el gobierno que se merece, pero no creo que sea verdad en Zimbabwe. Y debemos recordar que tal respeto y avidez por los libros surge, no del régimen de Mugabe sino del anterior, de la época de los blancos. Semejante hambre de libros es un fenómeno sorprendente y puede observarse en todo el territorio comprendido entre Kenya y el Cabo de Buena Esperanza.
Existe un vínculo improbable entre tal fenómeno y un hecho: crecí en una vivienda que era virtualmente una choza de barro con techo de paja. Es la clase de construcción típica en todas las zonas donde hay juncos o pastizales, suficiente barro, soportes para las paredes. En Inglaterra durante la época de predominio sajón, por ejemplo. La casa donde viví tenía cuatro habitaciones, una junto a otra, no sólo una, y de hecho estaba llena de libros. Mis padres no se limitaron a llevar libros desde Inglaterra a África sino que mi madre compraba libros para sus hijos que llegaban desde Inglaterra en grandes paquetes envueltos con papel madera y que fueron la alegría de mis primeros años. Una choza de barro, pero llena de libros.
Y suelo recibir cartas de personas que viven en una aldea donde no hay suministro de electricidad ni agua corriente (tal como nuestra familia en nuestra elongada choza de barro): "Yo también seré escritor, porque tengo la misma clase de casa en que vivía usted".
Pero aquí está la dificultad. No.
La escritura, los escritores, no provienen de casas sin libros.
Allí está la brecha. Allí está la dificultad.
Estuve leyendo los discursos de algunos de los recientes ganadores del premio [Nobel]. Pensemos en el extraordinario Pamuk. Contaba él que su padre tenía mil quinientos libros. Su talento no surgió del vacío, estaba en contacto con las mejores tradiciones.
Pensemos en V.S. Naipaul. Según señala, los Vedas hindúes formaban parte de sus recuerdos familiares. Su padre lo estimuló para escribir. Y cuando llegó a Inglaterra por sus propios méritos utilizó la Biblioteca Británica. Estaba en contacto con las mejores tradiciones.
Pensemos en John Coetzee. No se limitaba a mantenerse en contacto con las mejores tradiciones, él mismo era la tradición: daba clases de literatura en Ciudad del Cabo. Y cuánto lamento no haber asistido a alguna de ellas, dictadas por esa mente maravillosa por su audacia y valentía.
Para escribir, para crear literatura, debe existir una estrecha relación con las bibliotecas, con los libros, con la Tradición.
Tengo un amigo en Zimbabwe. Un escritor. Es negro y este aspecto es pertinente. Aprendió a leer solo por medio de las etiquetas que aparecían en los frascos de mermelada y en las latas de fruta en conserva. Creció en una zona que he recorrido, una zona rural para población negra. El suelo está formado por arena y grava, hay escasos arbustos achaparrados. Las chozas son pobres, en nada parecidas a las bien mantenidas construcciones de quienes disponen de mayores recursos. Hay una escuela... semejante a aquella que ya he descripto. Mi amigo encontró una enciclopedia para niños que alguien había arrojado a la basura y la utilizó para aprender.
Para la época de la Independencia, en 1980, había un grupo de buenos escritores en Zimbabwe, un verdadero nido de pájaros cantores. Habían crecido al sur de la antigua Rhodesia, bajo el dominio blanco: las escuelas de los misioneros eran las mejores escuelas. En Zimbabwe no se forman escritores. No es fácil, mucho menos bajo el dominio de Mugabe.
Todos ellos recorrieron un arduo camino hacia la alfabetización, sin mencionar sus esfuerzos para convertirse en escritores. Me refiero a que las situaciones relacionadas con textos impresos en latas de mermelada y enciclopedias desechadas no eran infrecuentes. Y estamos hablando de personas que aspiraban a una educación cuyos estándares estaban muy lejos de su alcance. Una choza o varias con muchos niños, una madre agobiada por el trabajo, una lucha permanente por la comida y la ropa.
Sin embargo, a pesar de las dificultades, surgieron los escritores y hay algo más que debemos recordar. Estábamos en Zimbabwe, territorio conquistado físicamente menos de cien años antes. Los abuelos y las abuelas de estas personas podrían haber sido los narradores de su clan. La tradición oral. En el transcurso de una generación, o dos, se produjo la transición desde las historias recordadas y transmitidas oralmente a la impresión, a los libros. Un logro formidable.
Libros, literalmente rescatados de montones de desechos y escoria del mundo del hombre blanco. Pero aunque tengas una pila de papel (no impreso, que ya es un libro), es necesario encontrar un editor, que te pague, que se mantenga solvente, que distribuya los libros. Recibí numerosos informes sobre el panorama editorial para África. Incluso en las zonas más privilegiadas como África del Norte, con su diferente tradición, hablar de un panorama editorial es un sueño de posibilidades.
Aquí estoy, hablando de libros nunca escritos, de escritores que no trascienden porque no encuentran editores. Voces desoídas. No es posible estimar semejante desperdicio de talento, de potencial. Pero incluso antes de esa etapa en la creación de un libro que exige un editor, un anticipo, estímulo, hace falta algo más.
A los escritores se les suele preguntar: ¿Cómo escribes? ¿Con un procesador de texto? ¿Con máquina de escribir eléctrica? ¿Con pluma de ganso? ¿Con caracteres caligráficos? Sin embargo, la pregunta fundamental es: "¿Has encontrado un espacio, ese espacio vacío, que debe rodearte cuando escribes?". A ese espacio, que es una forma de escuchar, de prestar atención, llegarán las palabras, las palabras que pronunciarán tus personajes, las ideas: la inspiración.
Si un determinado escritor no logra encontrar este espacio, entonces los poemas y los cuentos podrían nacer muertos.
Cuando los escritores conversan entre sí, sus preguntas se relacionan siempre con este espacio, este otro tiempo. "¿Lo has encontrado? ¿Lo conservas?"
Pasemos a un panorama en apariencia muy diferente. Estamos en Londres, una de las grandes ciudades. Ha surgido una nueva escritora o un nuevo escritor. Con cinismo, preguntamos: ¿Tiene buenos pechos? ¿Es elegante? Si se trata de un hombre: ¿Es carismático? ¿Es atractivo? Hacemos chistes, pero no es ningún chiste.
A este nuevo hallazgo se lo aclama, con seguridad recibe mucho dinero. Los paparazzicomienzan a zumbar en sus pobres oídos. Se los agasaja, alaba, transporta por el mundo entero. Nosotros, los mayores, que ya conocemos todo eso, sentimos pena por los neófitos, que no tienen idea de qué ocurre en realidad.
Ella, él disfruta de los halagos, del reconocimiento.
Pero preguntémosle qué piensa un año después. Me parece escucharlos: "Es lo peor que me pudo haber pasado".
Algunos de los tan publicitados nuevos escritores no han vuelto a escribir o no han escrito aquello que querían, que se proponían escribir.
Y nosotros, los mayores, quisiéramos susurrar a esos oídos inocentes. "¿Aún conservas tu espacio? Tu espacio único, propio y necesario donde puedan hablarte tus propias voces, sólo para ti, donde puedas soñar. Entonces, sujétate fuerte, no te sueltes."
Es imprescindible alguna clase de educación.
En mi mente habitan magníficos recuerdos de África que puedo revivir y contemplar cuantas veces quiera. Por ejemplo, esas puestas de sol, doradas, púrpuras y anaranjadas, que se despliegan en el cielo al atardecer. ¿Y las mariposas diurnas y nocturnas y las abejas sobre los aromáticos arbustos del Kalahari? O, cuando me sentaba a la orilla del Zambezi, allí donde corre bordeado por pastos claros, durante la estación seca, con su satinado y profundo tono de verde, con todas las aves de África cerca de sus márgenes. Sí, elefantes, jirafas, leones y otros animales, había muchísimos, pero cómo olvidar el cielo nocturno, aún incontaminado, negro y maravilloso, cubierto de inquietas estrellas.
Pero hay otra clase de recuerdos. Un joven, de unos dieciocho años, llora frente a su "biblioteca". Un visitante estadounidense, al ver una biblioteca sin libros, envió un cajón, pero el joven los tomó uno por uno, con sumo respeto, y los envolvió en material plástico. "Pero", le dijimos, "¿acaso esos libros no son para leer?" y nos respondió: "No, se van a ensuciar y entonces ¿dónde consigo otros?".
Su deseo es que le mandemos libros desde Inglaterra para aprender a enseñar. "Sólo cursé cuatro años de escuela secundaria", suplica, "pero nunca me enseñaron a enseñar."
He visto un Maestro en una escuela donde no había libros de texto, ni siquiera un trozo de tiza para el pizarrón —la habían robado— enseñar a su clase formada por alumnos entre seis y dieciocho años con piedritas que movía sobre la tierra mientras recitaba "Dos por dos son…", etc. He visto una muchacha, de escasos veinte años, con similar escasez de libros de texto, carpetas de ejercicios, biromes, de todo, que dibujaba las letras del abecedario con un palito en el suelo, bajo el sol calcinante y en medio de una nube de polvo.
Somos testigos de esa inagotable hambre de educación que impera en África, en cualquier lugar del Tercer Mundo o como sea que llamemos a esas partes del mundo donde los padres aspiran a que sus hijos tengan acceso a una educación que los saque de la pobreza, a los beneficios de la educación.
Nuestra educación que tan amenazada se encuentra en esta época.
Quisiera que se imaginasen a sí mismos en algún lugar del sur de África, en un comercio de ramos generales propiedad de un hindú, en una zona pobre, durante una época de sequía prolongada. Hay una hilera de personas, en su mayoría mujeres, con toda clase de recipientes para agua. Este negocio recibe una provisión de agua cada tarde desde la ciudad y esas personas están esperando su ración de esa preciada agua.
El hindú presiona las muñecas contra la superficie del mostrador y observa a una mujer negra, que se inclina sobre un cuadernillo de papel que parece arrancado de un libro. Está leyendo Anna Karenina.
Ella lee con lentitud, palabra por palabra. Parece un libro difícil. Es una joven con dos niños pequeños que se aferran a sus piernas. Está embarazada. El hindú se angustia al ver la pañoleta que cubre la cabeza de la joven, que debería ser blanca, pero a causa del polvo tiene un tono amarillento. El polvo se deposita entre sus pechos y sobre sus brazos. Al hombre lo angustian las hileras de personas, todas sedientas, porque no tiene suficiente agua para darles. Se indigna porque sabe que las personas se están muriendo allí afuera, más allá de las nubes de polvo. Su hermano, mayor, le ayudaba con el negocio, pero dijo que necesitaba un descanso, se había ido a la ciudad, bastante enfermo en realidad, a causa de la sequía.
El hombre siente curiosidad. Y pregunta a la joven: —¿Qué estás leyendo?
—Es sobre Rusia —responde la chica.
—¿Sabes dónde queda Rusia? —Tampoco él está muy seguro.
La joven lo mira fijamente con gran dignidad, aunque tenga los ojos enrojecidos por el polvo. —Yo era la mejor de la clase. Mi maestra me dijo que era la mejor.
La joven retoma la lectura: quiere llegar al final del párrafo.
El hindú mira los dos niñitos y toma una botella de Fanta, pero la madre dice: —LaFanta les da más sed.
El hindú sabe que no debería hacer algo semejante, pero se inclina hacia un enorme recipiente plástico que se encuentra a su lado detrás del mostrador y sirve agua en dos jarros plásticos que entrega a los niños. Observa mientras la joven mira beber a sus hijos con los labios temblorosos. El hombre le sirve un jarro de agua. Le hace daño verla beber con esa sed tan dolorosa.
Luego ella le entrega un recipiente plástico para agua, que el hombre llena. La joven y los niños lo observan atentamente para que no derrame ni una gota.
Ella vuelve a inclinarse sobre el libro. Lee con lentitud, pero el párrafo la fascina y vuelve a leerlo.
"Varenka lucía muy atractiva con la pañoleta blanca sobre su negra cabellera, rodeada por los niños a quienes atendía con alegría y buen humor y al mismo tiempo visiblemente entusiasmada por la posibilidad de una propuesta de matrimonio que le formularía un hombre a quien apreciaba. Koznyshev caminaba a su lado y le dirigía constantes miradas de admiración. Al contemplarla, recordaba todas las cosas encantadoras que había escuchado de sus labios, todas las virtudes que le conocía y se tornaba más y más consciente de que sus sentimientos por ella eran algo singular, algo que sólo había sentido una vez, mucho, mucho tiempo atrás, en su primera juventud. La dicha de estar junto a ella aumentaba a cada paso y por fin llegó a un punto tal que, mientras colocaba en su cesta un enorme hongo comestible con tallo delgado y bordes curvilíneos en el extremo superior, la miró a los ojos y, al advertir el rubor de alegre inquietud temerosa que inundaba su cara, se sintió confundido y, en silencio, le dirigió una sonrisa por demás reveladora."
Este fragmento de material impreso se encuentra sobre el mostrador, junto a varios ejemplares viejos de revistas, unas cuantas hojas de periódicos con muchachas en bikini.
Ha llegado el momento de abandonar el refugio del negocio y desandar los seis kilómetros para llegar a su aldea. Ya es hora... Afuera las hileras de mujeres que esperan se quejan a gritos. Sin embargo, el hindú deja correr el tiempo. Sabe cuánto esfuerzo le demandará a esta joven volver a su casa arrastrando a dos niños. Quisiera regalarle ese trozo de prosa que tanto la fascina, pero le resulta increíble que ese retoño de mujer con su enorme barriga sea capaz de comprenderlo.
¿Cómo ha ido a parar un tercio de Anna Karenina a este mostrador de un remoto comercio de ramos generales? Así.
Sucedió que un funcionario jerárquico de las Naciones Unidas compró un ejemplar de esta novela en la librería cuando inició sus viajes a través de varios océanos y mares. En el avión, se acomodó en su asiento de clase ejecutiva y de un tirón dividió el libro en tres partes. Mientras tanto, miraba a los otros pasajeros con la seguridad de encontrar expresiones de estupor, de curiosidad y también de hilaridad. Luego, ya con el cinturón de seguridad bien sujeto, dijo en voz alta a quien quisiera escucharlo: "Es mi costumbre para los viajes largos. A nadie le gusta sostener un libro muy pesado. La novela era una edición de bolsillo, pero no deja de ser un libro extenso. El hombre estaba acostumbrado a que lo escuchasen cuando hablaba. "Viajo todo el tiempo", confesó. "Viajar en esta época ya es bastante esfuerzo." Tan pronto como los pasajeros se acomodaron, abrió su parte de Anna Karenina y se puso a leer. Cuando alguien lo miraba, por curiosidad o no, se desahogaba. "No, en realidad es la única manera de viajar." Conocía la novela, le gustaba y este original modo de leer verdaderamente agregaba sabor a aquello que al fin de cuentas era un libro famoso.
Cuando llegaba al final de una sección del libro, llamaba a la azafata y se la enviaba a su secretaria, quien viajaba en clase económica. Esta situación atraía gran interés, reprobación, justificada curiosidad cada vez que una sección de la gran novela rusa llegaba, mutilada aunque legible, a la parte posterior del avión. En general, esta ingeniosa forma de leer Anna Karenina produjo una impresión y es probable que ninguno de los testigos la haya olvidado.
Mientras tanto, en el negocio del hindú, la joven permanece apoyada contra el mostrador con sus hijitos prendidos de su falda. Usa jeans, porque es una mujer moderna, pero sobre ellos se ha puesto la gruesa falda de lana, parte del atuendo tradicional de su pueblo: sus hijos pueden aferrarse a ella, a sus amplios pliegues.
La joven dirigió una mirada agradecida al hindú, sabía que el hombre la apreciaba y se compadecía de ella, y salió en dirección a la polvareda.
Los niños ya no tenían fuerzas ni para llorar y las gargantas se les habían llenado de polvo.
Era penosa, claro que sí, era penosa esa caminata, un pie tras otro, a través del polvo que se depositaba en blandos montículos traicioneros bajo sus plantas. Es penoso, muy penoso, pero ella estaba acostumbrada a las penurias ¿o no? Sus pensamientos estaban ocupados por la historia que acababa de leer. Iba pensando: "Se parece a mí, con su pañoleta blanca y también porque cuida niños. Yo podría ser ella, esa chica rusa. Y ese hombre, que la ama y le propondrá matrimonio. (No había pasado de aquel párrafo.) Sí, también encontraré a un hombre y me llevará lejos de todo esto, a mí y a los niños, sí, me amará y me cuidará".
La joven sigue avanzando. El recipiente de agua le pesa en los hombros. Sigue adelante. Los niños oyen el sonido del agua que se agita dentro del recipiente. A medio camino ella se detiene para acomodar el recipiente. Sus hijos gimotean y lo tocan. Ella piensa que no lo puede abrir, porque se llenaría de polvo. De ninguna manera puede abrir el recipiente antes de llegar a casa.
—Esperen —dice a sus hijos—. Esperen.
Debe darse ánimo y continuar.
Y piensa. Mi maestra dijo que allí había una biblioteca, más grande que el supermercado, un edificio grande lleno de libros. La joven sonríe mientras avanza y el polvo le azota la cara. Soy inteligente, piensa. La maestra dijo que soy inteligente. La más inteligente de la escuela, así dijo ella. Mis hijos serán inteligentes, igual que yo. Los llevaré a la biblioteca, ese lugar lleno de libros, e irán a la escuela y serán maestros. Mi maestra me dijo que yo también podría ser maestra. Mis hijos estarán lejos de aquí, ganarán dinero. Vivirán cerca de la gran biblioteca y llevarán una buena vida.
Supongo que se preguntarán cómo terminó aquel trozo de la novela rusa que estaba sobre el mostrador del negocio de ramos generales.
Sería un buen argumento para un cuento. Tal vez alguien quiera contarlo.
Y allí va esa pobre chica, sostenida por la expectativa del agua que dará a sus hijos cuando llegue a casa y que ella misma beberá también. Y allí va... a través de las pavorosas polvaredas que provoca una sequía africana.
Estamos hastiados en nuestro mundo, en nuestro mundo amenazado. Tenemos talento para la ironía e incluso para el cinismo. Apenas si utilizamos ciertas palabras e ideas, debido al desgaste que experimentan. Pero tal vez queramos recuperar algunas palabras que han perdido su potencialidad.
Tenemos un yacimiento —un tesoro— de literatura que se remonta a los egipcios, a los griegos, a los romanos. Todo está allí, esta abundancia de literatura por descubrir una y otra vez para quien tenga la suerte de encontrarla. Un tesoro. Supongamos que no existiera. Qué empobrecidos, qué vacíos estaríamos.
Poseemos una herencia de idiomas, poemas, cuentos, relatos que jamás se agotará. Podemos disponer de ella, siempre.
Tenemos un legado de cuentos, relatos de los antiguos narradores, algunos cuyos nombres conocemos y otros no. Los narradores retroceden más y más en el tiempo hasta un claro del bosque donde arde una enorme hoguera y los antiguos chamanes bailan y cantan, porque nuestro patrimonio de cuentos se originó en el fuego, la magia, el mundo de los espíritus. Y es allí donde permanece, hasta el presente.
Si consultamos a algún narrador moderno, nos dirá que siempre existe un momento de contacto con el fuego, con aquello que nos gusta llamar inspiración y que se remonta al pasado remoto hasta el origen de nuestra raza, al fuego, al hielo y a los fuertes vientos que nos dieron forma y que conformaron nuestro mundo.
El narrador vive dentro de todos nosotros. El creador de historias siempre va con nosotros. Supongamos que nuestro mundo padeciera una guerra, los horrores que todos podemos imaginar con facilidad. Supongamos que las inundaciones anegaran nuestras ciudades, que el nivel de los mares se elevara…, el narrador sobrevivirá, porque nuestra imaginación nos determina, nos sustenta, nos crea: para bien o para mal y para siempre. Nuestros cuentos, el narrador, nos recrearán cuando estemos desgarrados, heridos, e incluso destruidos. El narrador, el creador de sueños, el inventor de mitos es nuestro fénix, nuestra mejor expresión, cuando nuestra creatividad alcanza su punto máximo.
Esa pobre chica que atraviesa trabajosamente la polvareda y sueña con educación para sus hijos, ¿acaso somos mejores que ella, nosotros, atiborrados de comida, con nuestros armarios repletos de ropa, sofocados por nuestras superabundancias?
Creo que esa chica y las mujeres que seguían hablando sobre libros y educación aunque llevaran tres días sin comer son quienes nos podrían definir.
© 2007, The Nobel Foundation.
Texto traducido y reproducido en Imaginaria con autorización de la Dirección de Relaciones Públicas de la Fundación Nobel.
La reproducción total o parcial de este texto en cualquier idioma requiere expresa autorización de la Fundación Nobel que, en todos los casos, conserva el copyright. Para toda consulta al respecto, se podrá escribir a info@nobel.se.


6.10.14

Ler na hora certa...

Quando leio um "novo" livro, fico quase sempre com a sensação de que ando atrasado. E agora que estou na página 361 do romance O SONHO MAIS DOCE, (2001 ) de Doris Lessing, dou comigo a pensar que se, à data, o tivesse lido, a minha vida poderia ter seguido outro rumo.
As ideias defendidas por Doris Lessing não me são estranhas, só parte do enredo me escapa, isto é, só o espaço não me é familiar, pois foge ao imaginário lusófono. 
A ação decorre num cenário britânico, no contexto da expansão e queda do comunismo soviético, mudando progressivamente  para um novo cenário: o da independência de um povo africano, tutelado primeiramente pela URSS ( e a espaços pela China) e depois pelo dinheiro Global do Banco Mundial e organizações afins, oriundas, por exemplo, da Suécia, da Dinamarca, E.U.A., África do Sul...
Como disse, as ideias não me são estranhas: descobri-as, em grande parte, durante um mestrado em Relações Interculturais nos anos 90. Alguns dos professores trabalhavam, no âmbito da cooperação, para o Banco Mundial, com o intuito de arrancar da fome, da doença, da ignorância, a África negra, o continente esquecido por Deus... Por vezes, queixavam-se dos poderes locais que frustravam o SONHO que os alimentava... Raramente, admitiam que a responsabilidade fosse dos doadores...
Ainda com ecos do proselitismo ocidental, leio (devoro) o romance de Doris Lessing, prémio nobel da Literatura em 2007 e registo, aqui, um excerto, a pensar nos privilegiados que, diariamente, vou suportando na sala de aula:

«Os rostos do grupo, de todas as idades, de crianças a homens e mulheres e velhos, estavam extasiados, silenciosos, atentos a cada palavra. Instrução, isto era a instrução por que muitos tinham ansiado durante a vida inteira  e haviam esperado conseguir quando lhes fora prometida pelo governo. Às duas e meia, Sylvia chamava da multidão um rapaz ou uma rapariga mais adiantado no estudo do que os outros e pedia-lhe  que lesse alguns parágrafos de Enid Blyton - uma grande favorita - de Tarzan - outro -, de O Livro da Selva, que era mais difícil, mas apreciado, ou do preferido de todos eles, O Triunfo dos Porcos, que era a sua própria história, como diziam. Ou então o atlas ia de mão em mão, aberto numa página que tinham acabado de estudar, para fixarem melhor o que sabiam.»

5.10.14

A Filha do Jardineiro

Bem sei que deveria ter celebrado o dia da instauração da República! Mas há muito que deleguei tal gesto...
Bem sei que deveria ter celebrado o dia do professor! Mas há muito que compreendi que já não sobra nada para celebrar... Celebrar a precariedade e a humilhação, para quê?

Que diferença há entre a falecida Monarquia e a moribunda República? - Um professor que há muito deixámos de celebrar: Manuel dos Reis Buíça.


Ó D. Carlos de Bragança,
                                           Filho de D. Luís Primeiro,
                                           Paga a honra que roubaste
                                          À filha do jardineiro...?

4.10.14

Estou sem notícias!

Estou sem notícias! No mundo, não há novidade! Tudo é repetido: a depressão, a miséria, a ganância, a ignorância, o suicídio. No mundo, nada me surpreende! Tudo fica longe...

Só quando a ignorância ou a depressão se aproximam é que fico inquieto. Mesmo a doença, se minha, não me assusta. Sinto que nada devo desperdiçar, que o mundo não me deve prender, que a notícia só serve para me envenenar os dias...

E assim fujo da notícia para não fugir de mim. 

As notícias são tão iguais! Boas ou más, que não para mim...