31.12.12

O ato de ler e não só...


«E não falo das operações cerebrais: como seja ler, por exemplo: quando digo que o olho vê - foca - um ponto de cada vez, quero dizer um ponto (extenso!!!) de visão óptima, em torno do qual a visão, seja esta o que for, se esfuma, esbate ou dissipa gradualmente. Vemos, de facto, um trecho de escrita, uma letra ou sílaba no ponto de visão óptima da retina e algo mais que se dissipa em torno dele. O hábito de ler também ajuda aqui: presumo, antecipo ou deduzo a palavra ou frase que ainda não li ou nem chego a ler, ou só leio vagamente. Assim (e isto o camarada tipógrafo deve procurar entendê-lo), quanto mais denso, condensado ou apertado e mais negro ou visível é o tipo, mais depressa eu leio, porque a cada olhada (-dela) abrange mais do material impresso. Espacejar o texto, contra o que muitos supõem, e temos por hábito fazer, é retardar e dificultar a leitura, é criar espaços vazios, brancos, em que o olho é forçado a mover-se em vão, sem nada ler. (...) Por outro lado, os grossos caracteres são bons para os quase «invisuais», como demos agora pedanticamente, em chamar aos cegos, para os não ofender ou humilhar - tão delicados somos de alma! Porque não chamar então impedestres aos coxos?»
(...) José Rodrigues Miguéis, Programação do Caos, nº 23 

- Quantas ideias se vão perdendo!?


A escada flutuante

O professor tem sido uma escada por onde poucos subiram e muitos desceram! Infelizmente, a realidade só confirma o balanço.
Esperar-se-ia que tivessem sido mais os que subiram a escada do que os que a desceram nestes últimos 38 anos, mas, na verdade, há muito que a descida aos infernos teve início.
 A escada quebrou degraus, perdeu apoios, e flutua, agora, à deriva, pronta a extinguir-se.

(...) E o mais assustador é quando um ministro, que nem a escada tentou subir ou, mesmo, descer, dá lições sobre as qualidades dos outros ministros  deste país!

30.12.12

A chave de 2012

Antes que seja proibido, vamos lá encerrar 2012! Vamos arrumá-lo num baú, deitar a chave fora, e pô-lo em órbita de um qualquer planeta distante.
Não vale a pena chorar por 2012, pois é um daqueles anos em que a maioria dos portugueses foi assaltada por desclassificados da pior espécie que continuam a ter a audácia de arvorar em redentores incompreendidos.
E mesmo que voltemos a encontrar a chave em 2013, o melhor é ter sempre presente os seguintes versos de  Pedro Mexia, in Menos por Menos

Não deves abrir as gavetas
fechadas: por alguma razão as trancaram,
e teres descoberto agora
a chave é um acaso que podes ignorar.
(...)

29.12.12

4700 promoções

Em 2012, o Governo autorizou 4700 promoções nas forças de segurança - GNR e PSP!
Afinal, o congelamento não é universal!
Em termos de balanço do ano 2012, quantas promoções e progressões foram autorizadas no âmbito do estado?
VIVA A EQUIDADE!

28.12.12

No lugar do sagrado


Pobre São Francisco! Apesar do voto de pobreza, viu-se transformado em pousada e, sobretudo, despojado da alma. 


Fica um apelo - eterno - à GREVE GERAL...
e um poeta - Mário Beirão - agrilhoado a um torreão.


Sinais de que se pode ser, ao mesmo tempo, religioso e pouco católico!


Inesperadamente, a visita ao casco de Beja foi conduzida pelo professor doutor Jorge Castanho e esposa - filhos da terra.

27.12.12

Em Beja

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Em Beja, o que sobra da calçada romana…Sem estradas não teria havido romanização! Nem Pax Julia!
Quem quer conquistar território constrói vias de comunicação ou, em alternativa, compra-o em saldos. Vide privatização da ANA…
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Apesar de poder morrer à fome, ainda há quem fuja do cativeiro! - A cacatua...

26.12.12

Fraqueza...

Hoje, ao percorrer o IP 8, não pude deixar de dar conta de que os ricos do meu país, depois de terem esbanjado milhões a expropriar propriedades, a esventrar e a terraplanar a planície alentejana, a levantar viadutos, de um dia para o outro abandonaram impunemente a obra... 
O que sobra da A 26 é o espelho da incompetência e da impunidade que grassa neste triste país! 
Ao percorrer o IP 8, fico com a sensação de que o projeto de ligar Sines a Beja não é tão insensato como se diz. 
                               "Fraqueza / é desistir-se da cousa começada." (Luís de Camões)
Este país já passou por muitas catástrofes, mas nunca teve governantes tão fracos! Governantes que só sabem destruir!



25.12.12

José Matias, na rua de São Bento

De relance, na rua de São Bento, às 0h30 do dia de Natal, sobre o passeio da direita, cambaleia uma figura esguia. Parece que vai cair, mas, a custo, contorce-se e vai ficando para trás, sem que eu possa distinguir se é homem ou mulher, se o desequilíbrio é apenas uma questão de bebedeira redentora... 

Não é esse o caso de José Matias que, durante três anos, noite fechada, se esconde num portal donde pode avistar a sua divina Elisa no 214 da rua de São Bento, e colar-se diurnamente ao amante, o apontador de Obras Públicas, para se assegurar fidelidade deste à sua esposa celestial.
O José Matias ama espiritualmente e, mesmo sabendo-se correspondido pela bela Elisa, foge dela, do corpo dela, como o Diabo da Cruz. E esse é o mistério que Eça de Queiroz oferece ao leitor guloso de paixões carnais e fatais.
Curiosamente, o narrador entrelaça a história de José Matias e de Elisa com referências a estudos maçadores de filosofia e de psicologia, sem qualquer alusão à religião.  
Ou porque José Matias sofreria de impotência - não há uma palavra que o explicite - ou porque Eça tivesse decidido testar a primazia da amizade sobre o amor  - Platão - ou, finalmente, porque este José Matias não é mais do que um clone do carpinteiro que toda a vida serviu desinteressadamente Maria, a verdade é que esta história não parece encaixar no espírito de Natal...

Lido o conto José Matias, estou agora convencido que a figura esguia que subia a rua de São Bento era nem mais nem menos que a divina Elisa que continua à procura do seu amante espiritual, há muito enterrado no Cemitério dos Prazeres...

24.12.12

Queirólogos e não só...

«Queirólogos» de serviço: José Hermano Saraiva; António Valdemar; Agustina Bessa-Luís; João Gaspar Simões, José Régio, Maria Filomena Mónica - todos eles se servem de Eça de Queiroz, revelando poucos escrúpulos e bastante ignorância, para não dizer má-vontade. A argumentação é inócua e, por vezes, ao sabor da época e reveladora de traumas pessoais...
Tudo isto é dito pelo bisneto, António Eça de Queiroz, na obra Eça de Queiroz e os seus Clones, Guerra e Paz, 2006.
António Eça de Queiroz procura rebater os argumentos dos detratores do ilustre escritor, no que respeita ao seu nascimento, às relações familiares, às imaginadas taras e, até, à suposta falta de originalidade.
Mesmo que, em alguns casos, o objetivo não fosse diminuir a grandeza de Eça, o facto é que o biografismo e a psícocrítica são métodos redutores.
Por outro lado, o bisneto, António Eça de Queiroz, também, se insurge contra as várias adaptações "mexicanas" a que a obra tem sido submetida, pois o critério principal é satisfazer as taras do público e enriquecer à conta do nome de Eça. 
Uma leitura descomprometida desta obra ajuda a compreender um pouco melhor a "verdadeira " biografia de Eça, designadamente a partir do capítulo V - Uma trisavó tremenda. Tal como ajuda a compreender a atmosférica política, diplomática e cultural de boa parte do século XIX...
Eça de Queiroz e os seus Clones é uma obra que os jovens estudantes, condenados a ler OS MAIAS, deveriam ler:
« Ora o Eça do programa - e o mesmo se passará com muitos autores - encontra-se desde tempos quase imemoriais preso a OS MAIAS, como um velho brigue atascado no lodo duma qualquer baía de mares desconhecidos.»

22.12.12

A dívida é deles e nós é que pagamos!

A dívida é deles e nós é que pagamos!

Primeiro: Sócrates deu cobertura aos interesses cavaquistas ao nacionalizar o banco português de negócios e, simultaneamente, os seus amigos ocuparam o bcp e a cgd...
Segundo: Coelho destituiu Sócrates para salvar o bloco central de interesses, atirando a responsabilidade para cima das funções sociais do estado, dos funcionários públicos e dos aposentados...
Terceiro: Seguro, será ele capaz de pôr de lado o bloco central de interesses?
Entretanto, os responsáveis pelo descalabro das finanças e da economia continuam em liberdade dourada. 
Até quando?
A dívida é do bloco central de interesses, nós calamos... e continuamos a celebrar o Natal!

21.12.12

A notícia não dá conta...

A notícia não dá conta do que Passos Coelho esteve a fazer durante duas horas na "Universidade Sénior" da Portela, às portas de Lisboa.
As televisões, rádios e jornais noticiam a decisão do ilustre visitante de percorrer vinte metros a pé e de saudar a vintena de manifestantes que o insultavam. 
Cercado de seguranças, o primeiro-ministro seleccionou um manifestante e desejou-lhe "Bom Natal", pedindo-lhe que transmitisse o seu voto aos ruidosos correlegionários. Por seu turno, o interpelado aproveitou para solicitar "melhores políticas".
Pobre jornalismo!

( Para a polícia foi um dia de treino: chegou cedo; barrou o estacionamento; posicionou-se no terreno;  as forças de intervenção circularam discretamente. Eram mais os agentes do que os manifestantes!) 



20.12.12

Com tanta gente sensível...

Com tanta gente sensível, é estranho que ainda se continue à espera do fim de mundo! Basta abrir os olhos e os ouvidos para ver e ouvir o galopar da miséria. 
Os passeios cobrem-se de restos pestilentos e as mãos vasculham os sobejos de derradeiros banquetes dos corvos que não os de São Vicente.
O fim do mundo não se anuncia, não precisa nem de calendário nem de profeta! 
Ele chega simplesmente na fábrica que encerra, no negócio que falece, na prece muda de quem anoitece... 

19.12.12

Alheado

De manhã, pareceu-me que havia vida para além da minha rua, que o pensamento existia fora de mim e que este se revelava na cor e no movimento de gulosos cisnes brancos. A certa altura, desconfiei do meu pensamento e apeteceu-me dizer que os cisnes daquele lago só lá estavam porque eu os estaria a ver. Pobres cisnes, ficavam à mercê do meu olhar!
À tarde, fiquei absorto no homem que falava 29 idiomas e vários dialectos, que foi pioneiro dos estudos etnológicos e ainda teve tempo para se converter a vários credos, e fazê-lo tão completamente que entrou e saiu de Meca sem perder a vida, e pelo caminho subiu o Rio São Francisco e chegou ao lago Tanganica, sempre no meio de escândalos e de violentas inimizades - um homem que traduziu o mundo, do Kama Sutra  às Mil e Uma Noites e conquistou o ouro necessário à metamorfose de uma vida. Um homem que confrontou o puritanismo do seu tempo - Richard Francis Burton (1821-1890).
E à noite, cheguei a pensar em  responder a vários pavões que ocuparam o Largo fronteiro, mas para quê? 

Confluência

"A Casa Secreta" de José Eduardo Agualusa. Em Janeiro, irei privilegiar a leitura desta pequena "estória", escrita sob influência de Os Lusíadas, Canto II.
(O texto será distribuído na primeira aula de Janeiro.)
Entretanto, para quem goste de pesquisar e de ler, recomendo pequenas viagens ao universo não só de de José Eduardo Agualusa mas também de Richard Francis Burton (1821-1890). 




18.12.12

Há uma linha...

Há uma linha, com início e fim, pensamos, mas, que, em certos momentos, desaparece. Sobra uma frincha de passado sem futuro: as palavras entrelaçam-se viciosas ora de gáudio ora de dor. Mas é a cor da miséria  interior que se eleva até que o silêncio devastador restabelece a linha.
Dois dedos sustentam a fronte, os olhos à procura da ponte que separa o passado do futuro, e quase estátua, o coração serena atapetando a frincha e soterrando as áspides diurnas.
A vantagem das áspides é que não sabem que o coração pode juncar a frincha, pelo que não perdem tempo a pensar nos efeitos do veneno que regurgitam, até porque as flores murcham cedo.


16.12.12

E agora queixam-se!

Alhandra
O trabalho
Se olhar atentamente as imagens, vejo um rio que perdeu o valor económico que anteriormente o dignificava. Dele só restam artefactos e símbolos sobre o solo que outrora vivia submerso pelos esteiros.
Por detrás, esconde-se a igreja que das dores fazia riqueza espiritual para todos e material para uns tantos.
Embora não se oiça, sobre todos paira um primeiro-ministro que ameaça cortar nas pensões de todos porque uns tantos raramente trabalharam.
O problema é que a maioria sempre trabalhou e se não descontou é porque os governantes deste país pouco ou nada se preocuparam em reconhecer o valor do trabalho. E agora queixam-se!

15.12.12

Esburgo

Quando a ordem da TROIKA é cortar na despesa dos estados, estes voltam-se para os cidadãos e esburgam-nos por inteiro. É simples e rápido!
Só não contam com a resiliência dos indivíduos! Estes conseguem ir mais além: cortam até no próprio osso, deixando os estados sem capacidade de cobrar qualquer receita e afundando, em simultâneo, os malulos...
Claro, dos mortos, a História nada dirá! E os indivíduos ver-se-ão obrigados a desenhar nova cidadania.   

14.12.12

Cipaios e malulos

(Não é fácil compreender o leitor de blogues! No caso de caruma, há posts que são frequentemente visitados e outros que raramente o são. A atualidade da matéria parece não despertar mais interesse do que os registos de ocorrências efémeras.
Por outro lado, também não é fácil explicar o elevado número de visitas com origem, por exemplo, nos Estados Unidos ou na Rússia. Parece haver algures motores de busca por arrasto!)

A incongruência de tudo isto está no aparente desinteresse dos malulos por este meu blogue! Esse povo intrépido que no início do século XX tudo fazia para se apoderar da África austral! Esse povo tão matreiro que disputava com a Grã-Bretanha a posse dos territórios reivindicados pela Coroa / República portuguesa!

Há, no entanto, uma diferença significativa: apesar dos malulos não se interessarem pela caruma, eles interessam-se, de verdade, pelos aeroportos portugueses, até porque o cipaio de serviço não pára de bajular os  régulos alemães.

(Como todo o pensamento se constrói na linguagem, há ideias que só são possíveis se revisitarmos os signos dos tempos que insistimos em ignorar. E essa ignorância de nós faz escravos e cipaios!)

10.12.12

A Lua de Joana e a responsabilidade da narrativa

I- Enfim, longe de querer criticar  a autora da LUA DE JOANA, pois  a obra continua a ter boa receção,  há, todavia, uma constante que irrita: a responsabilidade é sempre dos outros - dos pais excessivamente ocupados com o trabalho, dos "dealers", das más companhias... Levando à letra o pensamento de Sartre, l'enfer ce sont les autres!... 
E quando se discute a tendência, os argumentos dos jovens viram-se sempre contra as opções dos pais - poderiam trabalhar menos horas, estar mais presentes, dialogar mais. Mas será verdade? É fácil pensar que o conforto cai do céu!, que as palavras seriam aceites!, que a simples proximidade é dissuasora!
E é este lado da narrativa que é preocupante: os jovens morrem de overdose porque querem experimentar o interdito ou porque se sentem desacompanhados? Os mesmos jovens que argumentam que é possível experimentar o veneno de forma controlada só para ver os caminhos trilhados pelos trágicos amigos... Defendem a responsabilidade da iniciativa, mas atiram para o outro a responsabilidade do desfecho... o pai, médico, que no fim lastima amargamente não ter estado presente é, certamente, o mesmo que esteve à cabeceira de muitas vítimas irresponsáveis!
A narrativa que seduz pode ser um veneno que corrói a mente das Luísas ou das Bovarys e dos adolescentes que, ano após ano, vão balançando nas "Luas de Joana"...
( O discurso sobre a responsabilidade deve libertar-se definitivamente do estigma da culpa!)

II - Quem diria que Sócrates iria voltar precisamente por causa da narrativa! E claro com a sua narrativa, contra a narrativa da direita: Cavaco, à cabeça; Passos e Gaspar, a seguir; José Seguro, finalmente. Este último, por omissão. O que significa que Sócrates nem sequer lhe reconhece que Seguro tenha narrativa... 

9.12.12

Às 18h25

Literatura Portuguesa


Ao registar a morte de Garrett, em 9 de dezembro de 1854, às 18:25 h:


(...) nessa hora - nessa mesma hora fatal em que se extinguia o legítimo herdeiro da lira de Camões - preparava-se talvez para ir despreocupadamente no seu camarote de São Carlos assistir desdenhosa e risonha, com aquele garbo senhoril que todos lhe reconheciam, assistir à representação de Sonnambula, — ataviava-se com sedas e veludos, recamava-se com guipures e rendas de Alençon, abrilhantava-se de adereços de pérolas e diamantes,envolvia-se em perfumes de inebriante sedução, a formosíssima inspiradora das Folhas Caídas, ingratamente esquecendo-se já do“divino” Poeta que nos seus amenos versos a imortalizara! (Cunha, 1909: 71)
- Rosa Montufar Barreiros era andaluza, de Cádiz, nascida em 1819, filha dos marqueses de Selva Alegre e mulher do oficial do exército Joaquim António Velez Barreiros. Este fez parte da expedição liberal que, vinda da ilha Terceira (Açores), desembarcou no Mindelo. Homem de confiança do duque de Saldanha e extremamente leal à rainha D. Maria II, recebeu o título de Barão de Nossa Senhora da Luz em 23 de janeiro de 1847, por decreto de D. Maria II, e o de Visconde em 16 de junho de 1854, por decreto do regente D. Fernando.

SÉRGIO NAZAR DAVID, GARRETT: ENTRE A CRUZ DO DESEJO E A LUZ DO AMOR






As vítimas e o carrasco

A - Há muitos factores que desmotivam quem quer trabalhar com um mínimo de seriedade.
E esses vêm de cima! A instabilidade profissional tornou-se norma. O desrespeito pelo passado dos funcionários é permanente. Faz-se tábua-rasa das aprendizagens e da experiência. Não se aposta de forma estruturada na formação dos novos professores. Não se reconhece o mérito e valoriza-se o oportunismo e a ideologia.
B - A propósito da leitura de O retorno, não me sai da cabeça que há uma ligação estreita entre o que aconteceu com a descolonização e a situação atual. O regresso precipitado, com uma mão à frente e outra atrás, deixou a necessidade de, friamente, recuperar a riqueza perdida. 
O enriquecimento súbito de muitos e a frieza posta na aplicação do "castigo" são, afinal, comportamentos esperados, pois a vingança serve-se fria.
 
C - As vítimas, como tem acontecido nas últimas gerações, serão os carrascos do futuro! Nada de surpreendente...

8.12.12

Interlúdio XV

De regresso, para explicar que a suspensão da escrita neste blogue não resulta de qualquer falta de apreço pelo trabalho das turmas A e B e de alguns alunos da turma J.
Pelo contrário, para além das conversas privadas na sala de aula, típicas de uma sociedade indisciplinada, quase tudo me convidaria a manter este registo.
Há, no entanto, outros factores que desmotivam quem quer trabalhar com um mínimo de seriedade.
E esses vêm de cima, da tutela! A instabilidade profissional tornou-se norma. O desrespeito pelo passado dos funcionários é permanente. Faz-se tábua-rasa das aprendizagens e da experiência. Não se aposta de forma estruturada na formação dos novos professores. Não se reconhece o mérito e valoriza-se o oportunismo e o carreirismo.
As vítimas, como tem acontecido nas últimas gerações, serão os carrascos do futuro! Nada de surpreendente...
 
 
  

7.12.12

O retorno (romance)

O retorno, de Dulce Maria Cardoso, Tinta-da-China, 2012
Este romance, narrado por um adolescente nascido em Angola e obrigado a abandonar o território pouco tempo antes do 11 de novembro de 1975, dá voz àqueles que, afinal, não podem perdoar o modo como o 25 de Abril acelerou a independência das «províncias ultramarinas».
De um lado, muitos portugueses africanos, do outro lado, uma ideologia contrária ao colonialismo, mas que atira os novos países para as mãos das novas hegemonias - dos Estados Unidos à Rússia, passando pelo China.
Despojados dos bens, esses «portugueses de segunda» desaparecem simplesmente às mãos da vendetta ou acabam por ser colocados em Lisboa e entregues ao IARN que os encaminha para pensões, hotéis, parques de campismo...
Neste romance, a família do Rui é alojada no quarto 315 de um hotel de 5 estrelas no Estoril, onde espera ansiosamente o retorno do Pai que ficara retido pelas tropas de um dos movimentos de libertação. Dois adolescentes - um rapaz e uma rapariga - vivem, cada um à sua maneira, os novos sinais de discriminação na escola e no relacionamento social e, sobretudo, os efeitos do comportamento depressivo da mãe.
O hotel, repleto de retornados, é um espaço concentracionário, onde se vão revelando as queixas e as taras de um povo pouco solidário consigo próprio. A maioria destes «portugueses de segunda» , em muitos casos, nada conhecia da metrópole. Uma metrópole que não estava à altura de colónias como Angola e Moçambique, e por isso o objetivo era partir para a América, sem acreditar que um dia seria possível voltar a África!  

4.12.12

Testemunho

Há anos passei por um colégio prestigiado em que o diretor condicionava as classificações que os professores atribuiam honestamente aos seus alunos. Esse diretor fazia subir as notas, recorrendo a uma estratégia de natureza pedagógico-didática. Para fundamentar a classificação atribuída, o professor era obrigado a apresentar, em conselho de turma, os planos de recuperação escritos... Caso o não pudesse fazer de imediato, a subida era automática... Como último recurso, esse diretor recorria ao corte das horas extraordinárias que, à época, eram fundamentais para completar o sofrível vencimento de base.
 
Ontem, percebi que é possível os diretores (proprietários) utilizarem os mesmos argumentos para fazer descer as classificações, de modo a eliminar os alunos com maiores dificuldades de aprendizagem.
 
Há, contudo, uma diferença fundamental: no 1º caso, o colégio privado vivia das receitas resultantes do pagamento feito pelos pais; no caso atual, estes colégios vivem de receitas resultantes de transferências diretas do orçamento geral do estado e competem diretamente com a escola pública, deixando-lhe as sobras...
                                        sem esquecer que, pela amostra revelada na TVI, quem dirige estes estabelecimentos aproveitou a passagem pelo poder para montar este negócio fraudulento.

Dia XLV

www.vidaslusofonas.pt/antero_de_quental.htm
Ainda anoto este link, e fico-me por aqui, num dia sem sol e sem mar, a recordar aquele orientador de estágio, Alberto Sampaio, que, no início dos anos 80, teve a coragem de me dizer que eu andava «atirar pérolas a porcos» ao querer que os alunos dessa época entendessem a poesia de Antero.
E como a austeridade é a norma, a partir de hoje, qualquer nota que venha a tirar sobre a sala de aula passará a estar disponível no blog CARUMA - http://cabeleiragomes.blogspot.pt/
   

3.12.12

Sem tato

Sem tato, sem teto, entre ruínas, mas em contacto...
Este acordo é, para mim, um desatino!
Pior, no entanto, é o memorando!
Abjeto, execrando...

Dia XLIV

- A turma A fez teste. Aparentemente, os alunos não tiveram grandes dificuldades em resolver a prova.
- A turma J recebeu os testes classificados. A correção foi morosa. Primeiro: a maioria deixou o enunciado em casa, no cacifo... Segundo: não vi dos que obtiveram resultados mais fracos, qualquer preocupação em tirar notas.
A dispersão foi regra. A sala de aula parece um espaço recreativo!
O melhor será seguir a doutrina do Pregador e tornar-me o Clarão do Céu, porque o mundo prefere os sentidos à razão, isto é, o grito ao arrazoado, considerando os exemplos: Cristo, Batista, Pilatos e Isaías.
 
 

2.12.12

O humor de dezembro

Agora que entrámos em Dezembro, espero ansiosamente que ele chegue ao fim! O 10º mês do Calendário Romano tem a virtude de me fazer acreditar que o próximo mês será o de Março.
Nessa data já a TROIKA terá feito mais uma avaliação, a primeira, verdadeiramente, positiva, pois, entretanto, nada teremos gasto durante o hiato.
Nessa data, já o Governo terá decidido o fim do serviço nacional de saúde, o fim da escola pública, o fim dos pensionistas e reformados... e eu não terei que tomar qualquer decisão sobre o meu futuro.
Nessa data, já não haverá qualquer dúvida: estarei aposentado sem pensão ou, em alternativa, continuarei empregado, mas sem escola...
Quanto aos alunos, se não tiverem morrido à fome, deixarão, finalmente, de se preocupar em fazer gazeta...  
A propósito de humor de dezembro, reproduzo, com a devida vénia, a História Trágico-Marítima, de Vieira da Silva, 1944. A ver n'As Idades do Mar, Fundação Calouste Gulbenkian.

 

Interlúdio XIV

Serve a nota para dizer que no segundo teste de Literatura o aproveitamento foi medíocre. A culpa é certamente do docente!
Há, no entanto, aspetos negativos que vale a pena destacar. Onze anos depois, certos alunos continuam sem a noção do que significa compor um texto: faltam as noções de introdução, desenvolvimento e conclusão; as conexões são aleatórias e as conjunções utilizadas arbitrariamente; os sinais de pontuação, semeados ao desbarato... Em termos de interpretação, há quem responde ignorando o texto transcrito para análise. É como se ele lá não estivesse!
Por seu turno, a superficialidade na abordagem dos textos (e dos temas) revela a atitude perante a disciplina e, mais grave, perante a vida!
De qualquer modo, vou continuar a remar! Ainda há por ali umas pepitas!
Quanto ao PIL, vamos ver se a turma acorda. Apenas duas alunas fizeram a apresentação oral!
   

30.11.12

23 mil milhões ! Apre!

Primeiro ministro: - É necessário diminuir o número de funcionários públicos! (Nem vale a pena explicar porquê! Até porque não há privado, desempregado ou precário que não esteja de acordo com o senhor primeiro ministro!)
Hipóteses de resolução: - Negociação da rescisão  do contrato de trabalho e /ou aposentação antecipada.
Ministro das Finanças: - Não há dinheiro para pagar rescisões! Solução única: Aposentação antecipada, mas só, se requerida,  até 31 de dezembro de 2012.
Contabilista da TROIKA: - O estado português paga em reformas um total de 23 MIL MILHÕES de euros por ano.
Comentador:- Quantos são os que benefeciam de tamanha generosidade? A resposta a esta pergunta é fundamental para perceber quanto recebe, em média, cada reformado (aposentado, reservista, incapacitado, político defenestrado...). De todos os beneficiários quantos são os que, efectivamente, descontaram, pelo menos 36 anos?
Secretário de estado do Tesouro: - Não há tempo para responder ao comentador nem os credores pagam esses estudos...
Primeiro Ministro: - Vamos lá! Façam o requerimento! Aposentem-se! Reformem-se! Emigrem!
Comunicação Social: - Para quem se reformar em 2013, para além de todos os cortes inscritos nos últimos orçamentos, pensionistas e reformados amigos, espera-vos mais um corte de 5%...
 
(Como não tenho jeito para desenho, deixo a ideia: devidamente aconselhado pelo governo amigo, o cidadão atordoado escolhe a porta de saída. Ao chegar ao limiar, olha aliviado para o céu e, no mesmo instante, o cutelo do Gaspar decepa-lhe a cabeça... A ideia só não é boa porque, mais dia em menos dia, a esperança de vida começava a baixar, obrigando o secretário do tesouro a refazer as contas, coisa que ele detesta.)

29.11.12

Funções de estado e pensões de aposentação

No discurso político dominante, insiste-se em que as pensões de aposentação  resultam de um gesto generoso do estado e que, em tempo de crise, há que cortar na generosidade.
No essencial, estou de acordo. Há que cortar nas pensões ou eliminá-las, sempre que elas não correspondam aos descontos efetuados.
Há que separar os que têm longas carreiras contributivas daqueles cujas pensões são pagas pela Caixa Geral de Aposentações sem ninguém saber porquê.
O critério fundamental para o cálculo da pensão deveria ser o número de anos de contribuição e não a idade.
Ao estado compete devolver ao aposentado aquilo que este efectivamente deduziu. Ou seja que este, crédulo, entregou ao estado, sem esperar dele qualquer gesto de generosidade...
 
A generosidade, a existir, deve ser para aqueles que, não sendo contribuintes líquidos, necessitam que os restantes contribuintes lhes acudam. Mas só a esses!
Há que separar as águas!

Dia XLIII

A - Contrato de leitura. Alma, de Manuel Alegre. Ou a descoberta das desigualdades! Mariana, de Maria Judite de Carvalho. Ou quando a solidão e a incompreensão alastram num país pobre e governado por um déspota.
(Os jovens continuam com dificuldade em entender uma escrita que denuncia desigualdades que oprimem os seus semelhantes.)
B - Quando uma carta privada, de Alexandre O'Neill, se transforma num documento literário e num modelo de escrita clara, objetiva e afetuosa. Entre outras virtudes, a carta do Xandinho é um modelo quanto: à redação de períodos e parágrafos curtos; à utilização alternada de frases verbais, nominais e parentéticas; à criteriosa escolha de adjetivos, recorrendo à sinonímia; ao manuseamento dos sinais de pontuação (/:/ e /;/; à construção de comparações e metáforas com objetos do quotidiano; à ao recurso à ironia e ao humor... 
ESCREVER pressupõe uma leitura fina da realidade...  Neste caso, o escritor parece ter aprendido algumas das suas técnicas com o publicitário...
C - Testes: Não esquecer: interlocução; enunciação; deixis / valor anafórico; atos de fala; atos ilocutórios ...

Quanto ao resto, não se pode dizer que seja literatura!

28.11.12

A farsa da avaliação externa

O Ministério da Educação e Ciência persiste na avaliação do desempenho docente sem qualquer proveito para a educação e para o ensino. Propõe-se disponibilizar recursos financeiros* com estruturas de acompanhamento, meios tecnológicos, deslocações e horas extraordinárias para a execução de uma farsa avaliativa que nem sequer terá efeitos na progressão dos docentes a curto prazo. A haver qualquer benefício da avaliação, esta deveria ficar a cargo do diretor de cada agregado, associação ou escola, pois ninguém tem mais dados para reconhecer o mérito ou a insuficiência. Quanto ao diretor, esse, sim, seria avaliado por quem o nomeou.
Não deixa de ser curioso que no passado, internamente, as escolas tenham protestado contra a avaliação pelos pares, qualificando-a, no mínimo, de melindrosa, enquanto que, no presente, o movimento de contestação à avaliação externa - por pares de escolas vizinhas - mostra grande tibieza. Porquê? Quem é que, nomeado para avaliar um candidato a excelente na escola vizinha, vai ter a coragem de dizer que o rei vai nu?
                                                    ( Estão abertas as hostilidades tribais!)
* Estes recursos financeiros poderiam perfeitamente ser mobilizados para ajudar os jovens que, diariamente, são forçados a abandonar a escola por insuficiência económica famíliar.    O MEC só sabe poupar à custa dos discentes e do docentes!
 
 

Dia XLII

PIL. A 2ª apresentação fez-nos regressar a José Cardoso Pires - O Delfim. Foi bastante maltratado. Vinha já requentado e registado num smartphone. Faltava a obra e a memória era cinematográfica. O triângulo amoroso acabou por se tornar no centro da apresentação, mas sem as devidas articulações. Na paisagem, ficou um proprietário sem descendente, pouco produtivo e, na vox populi, suspeito de ter assassinado os amantes. A maior parte turma estava, no lugar dos peixes, a ouvir o Padre António Vieira no Maranhão, pois o teste de português aproximava-se. O professor acabou convocado para explicar a estratégia discursiva do Padre. Já é perseguição!
Salvou-se, por instantes, um excerto de uma entrevista ao camoniano JCP, datada de 1987. As palavras do entrevistado, sublinhadas pelo movimento do cigarro, eram acompanhadas pela leitura profissional ( João Pérry) de um excerto de O Delfim - o lugar.

27.11.12

Dia XLI

A - Contrato de leitura. Três apresentações orais: Meu Pé de  Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos; Sinto Muito, de Nuno Lobo Antunes; Alma, de Manuel Alegre.
Na apresentação oral, muito por falta de guião, a tentação é apostar no reconto linear, sem prévia identificação das linhas narrativas e dos acontecimentos estruturantes e simbólicos. Esta (in)decisão arrasta a apresentação tornando-a insignificante. Claro que há alunos mais organizados que outros e, sobretudo, com uma atitude comunicacional mais desenvolta. Ver Português 10, páginas 40-41.
De vez enquando, a leitura faz sair para a vida e pode obrigar a refletir sobre os caminhos que trilhamos. O apresentador de Sinto Muito acabou por confessar que a leitura contribuiu para uma decisão inesperada: Medicina, não! Tudo por causa da dor. Dor pessoal que não quer ter no exercício daquela profissão. Creio, no entanto, que este jovem revelou o seu lado humano e por isso mesmo não deverá desistir de tal desafio!
B - Teste de Literatura. Alguns alunos acabaram por decifrar os enigmas colocados em anterior "interlúdio." Há muito que não via esta turma tão aplicada!  

26.11.12

Dia XL

A - Contrato de leitura. Das peripécias inverosímeis do Alquimista, de Paulo Coelho, a O Retorno, de Dulce Maria Cardoso. Um retorno sofrido a um tempo de verdadeira tragédia nacional - o pós 25 de Abril. Este romance destapa um problema insanável que resulta de pontos de vista inconciliáveis: em abril de 1974, aconteceu um golpe de estado ou um ato revolucionário?

B - Ainda os poemas "Quando eu sonhava" e "Os cinco sentidos". Este último verdadeira obra prima de Almeida Garrett! Nela anunciam-se mais de 100 anos de literatura. O lugar onde a razão cede o lugar aos sentidos.
O sonho na perspetiva clássica e na perspetiva romântica. O sonho romântico mesmo que vago e fugidio leva a melhor sobre a imagem fixa e concreta, porque esta transporta consigo irremediável DOR. Sem memória do prazer, a ilusão onírica é VIDA. É Viver!
 
Razão .................. SONHO
Razão ------------- SENTIDOS
Arte ..................... NATUREZA
Natureza .............MULHER

25.11.12

Zonas de contacto

A sinapse é zona de contacto entre dois neurónios (axónio + dentrito), sem a qual o cérebro morre.
Na Gramática, essa zona de contacto vem mudando de nome - "conjunção", "conector", "articulador"... - mas, a sua função é inalterável: permitir a transmissão do fluxo nervoso. Isto é, permitir que a frase se torne enunciado e alimente a partilha.
 
Ao rever textos, na maioria dos casos, vemos que não há irrigação suficiente; por vezes, o fluxo fica à deriva, por uma unha negra...
 
E, na verdade, no atual discurso estudantil, docente e político, não há zonas de contacto. Faltam as sinapses! Faltam os mediadores!
 
Por isso, os dias que se aproximam serão depressivos, porque o cacete e a palavra são de natureza bem distinta!

Interlúdio XIII

Sharon E. Hutchinson (1996), na obra Nuer Dilemmas: Coping with Money, War and the State, refere a dado momento um método que utiliza para validar a sua interpretação nos estudos de campo e que bem poderia ser aplicado neste blogue:
 
                                                                        "Open note taking"
 
O que implicaria que o leitor, furtivo ou não, aqui deixasse, sobretudo, o seu desacordo, complemento, interrogação, clarificação... 

24.11.12

Interlúdio XII

Sempre que um teste se aproxima, surgem perguntas assustadoras! A última solicitava ao "prof". de Literatura se ele não conhecia uma obra que resumisse " As Folhas Caídas" de Almeida Garrett.
Esta ideia de resumir poemas é recorrente e é um bom indicador do estado e da natureza da receção da poesia neste país de poetas.
 
Não querendo defraudar o inquiridor, registo aqui três enigmas que poderão ajudar a preparar o referido teste (de Literatura!):
I - O que é a Beleza para Garrett? E para os Românticos? Onde encontrá-la? E para os Neoclássicos, qual seria a fonte da Beleza?
II -  A defesa da VOZ que brada ( no púlpito ou no deserto): argumentos, exemplos; razão e sentidos; a força das imagens. 
III - Amor de Pedrdição - personagem preferida.

23.11.12

OS RESTANTES descartáveis!

" Em 2013, a idade exigida para a aposentação no caso dos magistrados mantém-se nos 61 anos e 6 meses e só em 2020 atingirá os 65 anos, já que o regime em vigor - e que se irá manter - prevê um crescimento de seis meses ao ano desde 2011.
(...) Também as forças de segurança (GNR, PSP, PJ, guardas prisionais) e funcionários judiciais mantêm as actuais regras de aposentação.
Para os restantes trabalhadores da administração pública, a idade da reforma passa dos actuais 63 anos e seis meses para os 65 anos em 2013, quando estava previsto que essa meta apenas acontecesse em 2015." (Diário Económico)
É disto que eu gosto! Eu e mais uns tantos fazemos parte dos restantes. Dos descartáveis!
Continuam os regimes de exceção!

22.11.12

Dia XXXIX

A - À espera, na sala 22. O assunto poderia ser: As arcádias e a estética neoclássica; A imitação dos antigos... (Mas, não!)
 
B - O tempo é de contrato de leitura! Dois blocos semanais são insuficientes para tanta leitura! Claro, há sempre a exposição formatada ou, em alternativa, ao sabor do argumento...
Hoje subiram ao palco as seguintes obras: O Meu Pé de Laranja Lima; Os Filhos da Droga; Singularidades de Uma Rapariga Loura; Alquimista...
Na turma B, para além da intriga, foi possível perceber que, num cenário de crise económica e social, brasileira ou portuguesa, o problema é o modo como sofremos a mudança. Como as imagens que nos domesticam nos podem arrastar para a construção ou para a destruição. A obra, por mais simples ou complexa que se declare, acaba por nos obrigar a seguir percursos de reformulação ou de degradação. A leitura é, neste caso, um ato educativo dos interlocutores.
Na turma A, não foi possível ir tão longe! Ficámos pelo questionamento e explicação da SINGULARIDADE de Luísa - vaidosa, desonesta e desinteressada da cidadania vs rigor e honestidade de Macário.  O resto já se prende com o modo de esquematizar, localizar os acontecimentos na viagem do alquimista e, sobretudo, interpretar o seu significado. Talvez, para a semana se entenda o caminho!  

21.11.12

O país ficará mais pobre...

A classe docente vai experimentar uma nova modalidade de avaliação - agora, o avaliador será externo!
Cada centro de formação de professores disporá de uma bolsa de avaliadores (externos) administrativamente habilitados e, face à procura, dispersá-los-á pelo respetivo território, com o objetivo de se pronunciarem sobre a EXCELÊNCIA do ato docente.
Concluída a tarefa, o resultado da avaliação será lançado numa nova base de bases.
E pronto! Tudo continuará na mesma!
... No entanto, o país ficará mais pobre... e uns tantos, que não os avaliadores e avaliados, um pouco mais ricos!

Dia XXXVIII

1851 - Almeida Garrett seleciona as folhas (os poemas) já a a antecipar a imortalidade e por isso queima umas  e reune, em coleção, aquelas que o aproximam do IDEAL (IGNOTO DEO). Deixa de lado as composições que o mostravam no palco, diante de um público inebriado pela vaidade. Esse era o tempo da juventude, o tempo da Lírica de João Mínimo e das Flores sem Fruto!
As folhas que iam dando forma ao «sonho de oiro do poeta» constituem um produto diferente, porque gerado pela imaginação orientada pelos valores da BELEZA, da LUZ, da VERDADE, afinal a essência desse "deus desconhecido" / o IDEAL que o poeta pretende servir e que ele bem sabe que só pode demandar longe das «vulgares turbas» e das « coisas vãs e grosseiras». Ele o poeta que cultivou a cidadania como nenhum outro em qualquer tempo português. Ele que anunciou Antero e Pessoa e ainda permitiu que Nobre e Pascoaes dele se nutrissem.
 
«Deixai-o passar, gente do mundo, devotos do poder, da riqueza, do mando, ou da glória. Ele não entende bem d'isso, e vós não entendeis nada d'elle.»
                                                         ADVERTÊNCIA do autor de FOLHAS CAÍDAS
 
 (Irrita este tempo da enunciação em que, paradoxalmente, o texto é despojado dos seus co-textos!Um tempo antipedagógico! Um tempo que expulsa Garrett e quer cultuar Camilo!)
 
 
 
 
  

20.11.12

Dia XXXVII

A - Atos ilocutórios. A surpresa do conceito é suprida pela retoma dos conceitos de locução, locutor, interlocutor. E voltamos à relação de interlocução. Ao afirmar "Nós não trabalhamos.", o enunciado expõe um ato de fala em que o locutor envolve o interlocutor na constação de que a falha é coletiva (EU+TU). Ora este enunciado é um exemplo claro de um ato ilocutório assertivo. O mesmo enunciado pode tranformar-se num ato ilocutório expressivo "Nós não trabalhamos!" ou num ato ilocutório diretivo "Ponham-se a trabalhar!" ou num ato ilocutório compromissivo " Prometemos trabalhar."...  Só falta o ato ilocutório declarativo!
 Neste caso, surgiu a dúvida se o ato assertivo não seria declarativo - dúvida inteligente, resultante da tradicional tipologia da frase... Por outro lado, tornou-se também necessário distinguir FRASE de ENUNCIADO. A metáfora de serviço foi a seguinte: os ramos da árvore desenraizada correspondem à frase; por seu turno, os ramos da árvore enraizada correspondem ao enunciado. O que diferencia os ramos é a SEIVA (A VIDA). O enunciado tem vida. Em resposta à pergunta: - Para que servem os atos ilocutórios? A resposta saiu breve: PARA MUDAR O MUNDO. O enunciado pode mudar o mundo, ao contrário da frase que só ganha importância numa gramática descritiva e estéril.
B - Contrato de leitura. Apresentação oral de A Casa na Duna, de Carlos de Oliveira. A jovem aluna não teve qualquer pejo em declarar que não gosta da narrativa, mas, surpresa, revelou ter lido com muita atenção o romance, e soube dar conta dos aspetos mais importantes, selecionando excertos adequados.
C - Na aula de Literatura, os poemas em análise: Gozo e Dor; Ignoto Deo. E também excertos do poema em prosa SOLIDÃO e da ADVERTÊNCIA de FOLHAS CAÍDAS.
Em Gozo e Dor, a estratégia discursiva assenta no recurso à dramatização argumentativa em que à amorosa satisfação da mulher, o sujeito lírico discorda, não certamente porque  rejeite o "gozo", mas porque  a plenitude arrasta a "dor" - uma particular forma de alienação, de morte ou de loucura:
                                         Sinto que se exaure em mim / Ou a vida - ou a razão.

19.11.12

Requerimento

Decidi requerer a aposentação. Sem titubear, peguei no impresso, preenchi-o e disse, para comigo, já está! Mas porquê?
Manifestamente, porque há anos que estou a ser roubado e, sobretudo, porque pressinto que nos próximos anos serei espoliado quer esteja a trabalhar quer aposentado.
De quem é a culpa? Minha. Porque era minha obrigação separar o trigo do joio. E não o fiz! Há anos que somos governados por ervas daninhas...
Em nome da liberdade de Abril, a minha escola, magnâmina, acolheu todos, mas não soube gerar competência honesta, trabalho abnegado. E eu estava lá!
Ouvi lamúrias, calei desconchavos, suportei vaidades, pensei que era a adolescência da democracia! Mas não!
Hoje, estou sem paciência! E há alunos que não têm culpa de eu a ter perdido - ainda vejo nos seus olhos o brilho da curiosidade.
Latentemente, a culpa deste requerimento é daqueles que há anos separaram a língua da literatura e que, agora, mediaticamente, regressam a pretexto de uma comemoração e que, sem reconhecerem o erro, anunciam que, afinal, vamos todos ler Camilo. O Camilo de Amor de Perdição? E o outro Camilo, quem o lê?  
 
« - Em que século estamos nós nesta montanha? - tornou a dama do paço.» 
«- Em que século?! O século tanto é dezoito aqui como em Lisboa.»
« - Ah! sim? Cuidei que o tempo parara aqui no século doze...»
 
                                                        Amor de Perdição, cap. I
 
 

Dia XXXVI

 ( Redação de um conto)
A hipótese de adoção de uma criança por um «casal de namorados» de um dia para o outro obriga a novo esclarecimento terminológico e cultural. A hipótese narrativa é inverosímil, pois socialmente os namorados não se podem candidatar à adoção...; por outro lado, estes processos são demorados. Assim, foram explicadas as noções de verosimilhança e de inverosimilhança como processos de validação do discurso, deixando de lado as noções de verdade e de mentira ( nos domínios: narrativa literária / narrativa cinematográfica).
Por outro lado, o termo "casal", também foi explicado em termos da formação CAS(A) + AL, tendo o sufixo o valor de "conjunto de casas"- aceção primeira; CASAR= CASA + AR, ação de juntar casas / património... o que torna inadequado que se refira um "casal de namorados". Em alternativa, teremos um " par de namorados", mas que não poderá canditar-se à adoção, entre outros motivos porque falta o património...
(Contrato de leitura: Em causa a apreciação crítica da Viagem do Elefante)
O que é que se espera do leitor? A atitude crítica pressupõe a capacidade de discriminar, de separar linhas de força: por exemplo, o milagre de um elefante que ajoelha ao passar defronte de uma igreja. Para o narrador, o gesto do paquiderme foi cuidadosamente preparado pelo cornaca que, posto à prova pelo clérigo, sabia que não podia falhar... E esse saber resulta da personagem ter sucessivamente atravessado diversas culturas, todas elas assentes numa ideia de superioridade de raiz divina... Vejamos, então, como é que o leitor reage a este tipo de personagem! Acompanha-a na denúncia da manipulação a que igreja católica submete o povo - alienando-o... Ou não pode fazê-lo porque a sua própria educação o confina a visão miraculosa do seu mundo?
No essencial, a apreciação crítica coloca em cena o leitor e a sua visão do mundo, pelo que não se justifica qualquer importação do pensamento alheio ( por exemplo da contracapa ou da badana!).    
 
De regresso às Folhas Caídas, de Almeida Garrett, foram dois os textos em análise; O Anjo Caído e Este Inferno de Amar. Apesar de líricos, os dois poemas obedecem a técnica de composição diferenciada: o primeiro de tipo narrativo; o segundo de modo dramático, senão argumentativo. O hibridismo de género literário é um dos traços do romantismo.
No Outono da vida ( folhas caídas), o sujeito lírico inesperadamente reencontra o amor no «anjo sem luz» ou nuns «olhos ardentes». E os poemas são cenário da divisão entre a consciência moral / o padrão cultural e o desejo, fruto do momento fulgurante que desenterra o sujeito para a VIDA... Mesmo no Outono da Vida, o amor é «esta chama que alenta e consome». Tudo é prazer, tudo é alegria, mesmo que o amor seja efémero... Vale a pena comparar a definição com a de Camões, traduzida de Petrarca: « o amor é fogo que arde sem se ver!»
                                                 (Da alegria no Outono da Vida - «Dava o Sol tanta luz!»)       
 

18.11.12

Interlúdio XI

Quando a leitura da narrativa de um acontecimento exige o conhecimento de um extenso referencial - caso do regicídio de 1 de fevereiro de1908 - a legibilidade impõe um esclarecimento detalhado das referências enunciadas, caso contrário, arriscamo-nos a perder o leitor.
Veja-se o texto de Raul Brandão (Manual Português 10, páginas 32-33). Em duas páginas, feito o levantamento das referências topográficas e históricas, surgem as seguintes zonas de penumbra: Livraria Ferreira; Fialho (de Almeida); Artur de Melo; Jorge O'Neill; Rua da Mouraria; Praça da Figueira; Armando Navarro; Malaquias de Lemos; Vila Viçosa; o Rei; o Príncipe; Ramalho (Ortigão); Duquesa de Palmela; João Franco; S. Carlos; Vasconcelos Porto; Arcada; Ministério do Reino; Fazenda; Rua de S. Julião; Buiça; Alfredo Costa; Francisco Figueira; Correia de Oliveira; Rainha...
Se o leitor for lisboeta, talvez não se perca na topografia da cidade. Mas fora da capital tudo será diferente!
Quanto ao conhecimento de História, sendo cada vez mais desprezado, não se vê como é que a memória poderá ajudar o leitor...
Bem sei que o texto foi selecionado como exemplo de memória! Mas que memória procuramos construir se deitarmos fora o autor, o leitor  e o referencial que os poderia alimentar? 

16.11.12

João de Mello Alvim.


O Presidente da Câmara Municipal de Sintra, Fernando Seara, entregou,  ao final da tarde na Casa de Teatro - Chão de Oliva,  a medalha de mérito de grau ouro ao Dr. João de Mello Alvim. Esta distingue o jornalista, o professor e, sobretudo, o dinamizador da arte dramática no concelho, no dia que assinala os 25 anos da fundação da Associação Cultural CHÃO DE OLIVA.
A cerimónia foi singela e constituída por quatro momentos de encómio: a narrativa de vida; o encontro com a poesia dramática, mas, também, pessoal; a explanação formal dos méritos do homenageado; o agradecimento informal em três "parágrafos". 
Do agradecimento, não posso deixar de referir a evocação do professor José Luís Amaral.

(Caro João de Mello Alvim, tudo o que ouvi nesta sessão reforça a ideia de que ainda há homens que nasceram para servir a comunidade. Tu és um deles!)

15.11.12

Maravalhas!

«Se tudo são ramos, não é um sermão, são maravalhas.» Padre António Vieira

I - Em certas afasias, as referências (espaciais, temporais, interpessoais) vão-se extinguindo, deixando os signos desorientados. Talvez por isso, os discursos de hoje pareçam bolhas de sabão. Começam por enfunar para sorrateiramente desaparecer...
Um destes dias, alguém se referiu à visita da chancelarina alemã. Que eu tenha conhecimento, ninguém deu atenção ao termo! No entanto, como ele não me saía da cabeça, fui pensando que a senhora teria perdido importância, um pouco como a Chancelaria, lugar meu conhecido, sede de freguesia, situado entre a Maçaroca e o Pafarrão. Desconheço qual terá sido o chanceler que gerou tal topónimo, sabendo, contudo, que o termo tem mais proveito na Germânia que na Ibéria...
Não sei se o criador da chancelarina queria, na verdade, desvalorizar a chanceler por correr o mujimbo que não tinha sido convidado para nenhum dos encontros oficiais, mas pressinto que o facto de ser senhora  nascida na antiga República Democrática Alemã terá pesado na criação do neologismo.

II - Afinal, este blogue bem poderia ter como o título "Maravalhas"! Este termo estaria mais de acordo com o seu verdadeiro conteúdo - aparas de madeira; acendalha; caruma; bagatela... Tudo o que lenta, ou subitamente, perde importância e acaba por desaparecer...  



Dia XXXV

Contrato de leitura. Obras apresentadas: Amor de Perdição; Queda dum Anjo; A Viagem do Elefante. Camilo Castelo Branco e José Saramago. Estes alunos do 10º ano são audaciosos, apesar das dificuldades resultantes do desconhecimento da História. Por outro lado, a apresentação oral nem sempre é eficaz, pois os locutores continuam a ignorar os interlocutores - tom muito baixo; dicção sofrível.

De regresso ao Sermão da Sexagésima, hoje, o auditório foi constituído por 6 elementos. A sessão foi de leitura:
a) da matéria do sermão - da grande dúvida: «Pois se a palavra de Deus é tão poderosa, se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, por que não vemos nenhum fruto da palavra de Deus?»
b) da composição do sermão: «o sermão há-de ser de uma só cor, há-de de ter um só objecto, um só assunto, uma só matéria» 
A ÁRVORE é o ponto de partida e o ponto de chegada do sermão. O discurso torna-se progressivamente alegórico, chegando, no entanto, a momentos de desconstrução da própria alegoria: « Se tudo são troncos, não é sermão, é madeira. Se tudo são ramos, não é sermão, são maravalhas. Se tudo são folhas, não é sermão, são versas. Se tudo são varas, não é sermão, é feixe. Se tudo são flores, não é sermão, é ramalhete. Serem tudo frutos, não pode ser; porque não há frutos sem árvore. Assim que nesta árvore, a que podemos chamar "árvore da vida"...»

(  Sob o freio da razão, a imaginação desfaz-se em preciosos conceitos, de tal modo que o auditório anteporá o deleite à censura...)

14.11.12

Dia XXXIV

Os alunos de Literatura Portuguesa não chegaram a entrar na sala de aula, apesar de dois se encontrarem no recinto escolar. (Não se pode dizer que tivessem feito greve, mas que a ausência foi geral não há dúvida!) Esperemos que o tempo tenha sido aproveitado para realizar o projeto individual de leitura.

13.11.12

Ouvir e apagar logo-logo

«Ouvir e perceber enquanto ouvia mas apagar prontamente, era o traçado em que ele se movia. Ouvir e apagar logo-logo.» José Cardoso Pires, DE PROFUNDIS, Valsa Lenta

Capaz de ouvir, perceber e argumentar com acutilância, vive, no entanto, no limiar da afasia. Diante de si, o pânico da deterioração da linguagem, da expressão desconexa, do registo errado do termo, da hesitação. A cada passo, a hesitação! E o circunlóquio, traiçoeiro, capaz de arruinar a comunicação...

Enquanto o acidente vascular cerebral está a decorrer, sob a forma de lentíssima isquemia, ele corre para a página em branco na esperança de ainda chegar a tempo de registar aquele lampejo de felicidade que lhe sorri nas palavras encantadas do leitor do dia, antes que tudo se apague irremediavelmente.

Ao contrário de José Cardoso Pires, ele não espera pela consumação do AVC, pois sabe, de antemão, que não lhe será concedido tempo para qualquer reconstituição feliz da memória...

Para ele, o acidente vascular cerebral está em curso, mesmo que, um dia, de forma brusca, se torne oficial e sem regresso. Por agora, o mais difícil está em chegar a tempo e em disfarçar a hesitação.   

Dia XXXIII

Por vezes, os dias são enfadonhos! Hoje, no entanto, há acontecimento. Três alunos apresentaram oralmente obras de épocas distintas, mas significativas: O Auto da Alma (1518), de Gil Vicente; A Birra do Morto (1973), de Vicente Sanches; De Profundis Valsa Lenta (1997), de José Cardoso Pires . As duas primeiras no âmbito do contrato de leitura; a última no âmbito do projeto individual de leitura.
Sem qualquer ajuste prévio, as três tratam da vida e da morte, cada uma à sua maneira. Para a primeira, alegórica, a morte feliz é um lugar que deve ser metodicamente  preparado, apoiando-se na Igreja e nos seus Doutores ( os pilares da  estalagem); para a segunda, burlesca, a morte deve ser evitada a todo o custo mesmo que os regulamentos sejam taxativos quanto ao destino de quem, por erro, seja oficialmente declarado morto; para a terceira, é possível regressar da morte e, sobretudo, através da escrita parece possível reconstruir a memória de um tempo sem retorno... e esse renascimento é de lenta aprendizagem...
(Os leitores - Eduardo, João e Diana - estão de parabéns porque deram conta do prazer que a leitura lhes despertou e porque conseguiram cativar os respetivos auditórios.)
    

12.11.12

Dia XXXII

I - A referência deítica. Volta a ser necessário clarificar o significado de deítico como apontador, indicador para o exterior da linguagem ( do signo linguístico: significado+ significante) - o referente. Também este último termo oferece resistência, embora o princípio esteja no objeto, na coisa (res). Afinal, na família de palavra, encontramos: referir, referir-se a, referente, referência, referencial... O jogo de palavra acabou por  gerar uma comparação com docência, docente / ensino, professor, ensinar... Falta, no entanto, o verbo docere
II - Novo problema terminológico: distinguir o valor deítico do valor anafórico de certos termos. E abstive-me de problematizar o significado do vocábulo valor. E a dificuldade começa com a necessidade de recapitular o significado de anáfora (retórica, tropologia, estilística) - figura de repetição de palavra ou expressão no início de verso ou de frase...

III - Na Literatura, a dificuldade resulta da falta de atenção, (alheamento quase involuntário, estado de alma intermitente). Mas lá caminhámos lentamente do neoclassicismo das duas arcádias (Arcádia Lusitana e Nova Arcádia) que apostavam no lema inutilia truncat (objeto: barroco) para Almeida Garrett que, embora formado como árcade, vai rompendo com o rigor da mimesis clássica para um terreno mais popular, mais intuitivo e mais sensorial. Claro que foi necessário regressar à educação de Garrett, mas também voltar a explicar a importância ideológica e literária de um projeto como o Romanceiro. Esta mistura do arcadismo com a oratura torna-se explosiva!
E por isso nos ficámos no poema "Sine nomine corpus" / Corpo Despido. E também a interpretação se torna penosa, fundamentalmente porque, em termos de composição, Garrett apostou numa comparação, e o intérprete continua sem perceber que a comparação supõe dois termos e que, neste caso, o primeiro termo serve o segundo. O romântico fala da sua tristeza, da sua desilusão e para melhor explicar como chegou a esse ponto recorre à comparação com a árvore abrasada pelo fogo do estio, como se a intensidade da paixão acabasse por ser a causa do seu apagamento... e por isso o poema começa por "Qual tronco despido (...) Assim ao prazer, /À dor indif'rente, /Vão-me horas de vida..."
Talvez amanhã enxerguemos o árcade que habita nas Flores sem Fruto!

11.11.12

Duas ideias a propósito do futuro

«Quando o passado foi um pesadelo escuro / quem é fiel ao passado atraiçoa o futuro.» Os versos são de Tomás Ribeiro Colaço (1899-1965), citado por Maria Archer (1899-1982) num artigo intitulado A Gente Nova e a Emigração, Cadernos Coloniais, nº 32.

A - O atual partido socialista necessita de, uma vez por todas, romper com o passado recente, mesmo que pressinta / saiba que a situação que vivemos não resulta apenas de cegueira ou excessivo optimismo de anteriores governantes. O PS não pode continuar a viver na ambiguidade! Se este partido não separar as águas arrisca-se a ter o destino do partido socialista grego... e o país ficará à deriva.

B - Quanto ao futuro da gente nova, nas palavras esclarecidas de Maria Archer, só fará sentido emigrar se levar consigo «mais do que braços obreiros e boca faminta». Pelo menos, esta gente nova necessita de conhecimento e de técnica. « Quem emigrar confiando apenas no arrimo dos braços procura o coval das suas esperanças.»




Interlúdio X

I - De modo a preparar a leitura do texto " 1 de Fevereiro de 1908", de Raul Brandão (Manual 32-33), clica nos seguintes links:
http://histeblog.blogspot.pt/2010/11/o-regicidio.html
http://www.youtube.com/watch?v=GCcCEC8YGPg

8.11.12

Do trabalho

Por razões que para o caso pouco interessam, em 1998, interrompi uma linha de investigação que, agora, retomo. Seguia à época um caminho de leitura centrado no continente africano e, sobretudo, nas imagens construídas pelos africanos e pelos europeus. Exercitava, então, um tipo de leitura que considerei imagológica.
Nos Cadernos Coloniais, editorial Cosmos, Lisboa, 1936, é possível identificar muitas dessas imagens que ajudaram a desenhar o imaginário do colonizador, mas também o daqueles que, desde cedo, combateram o colonialismo.
O Caderno nº 31 é constituído por um conjunto de artigos da responsabilidade do Padre Alves Correia (1886-1951). Vale a pena, creio, indicar aqui os títulos: a) Processos educativos, antigos e modernos, nas Missões religiosas portuguesas; b) Na evangelização da África; c) Na Índia  Japão e China; d) Processos peculiares em Solor e Timor; e) Brasil coroa do nosso apostolado; f) Nas missões ressuscitadas / Processos Novos.
Fácil é perceber que os agentes da missionação não aplicaram o mesmo modelo de educação /evangelização no terreno e que a doutrina era condicionado pela imagem que as ordens religiosas tinham do outro e, consequentemente, do lugar que poderiam ocupar no futuro dos territórios.
E quanto à visão do outro (do mundo) do Padre Alves Correia basta ler o seguinte excerto:

«Hoje está assente, entre todos os missionários do mundo, que a civilização cristã deve basear-se na organização do trabalho total do homem evangelizado; que a catequese doutrinal é pouco menos que inútil, se não se tiverem formado hábitos de trabalho nos catequizados; elevação do nível da vida, necessidades morais provenientes desta elevação, meios de satisfazer tais necessidades promovidos pelo exercício da actividade física e desejo crescente de instrução, que leva o homem à educação da inteligência, do coração, como do próprio corpo.»

Ora, parece que, atualmente, os nossos governantes têm fraca imagem do trabalho! E insistem em destruí-lo, sem perceber que é muito mais fácil destruir do que construir.


XXXI

I
a) Nós, hoje, estamos desconfiados dos deíticos!
b) Eles desconfiam dos deíticos.

Em a) considerando que a ação verbal decorre na sala de aula, o locutor envolve o interlocutor numa atitude de desconfiança em relação ao objeto. A situação de comunicação é partilhada devido à novidade e à utilidade do conceito.
Uma observação atenta do enunciado a) cria nos interlocutores uma relação de cumplicidade muito diferente     da que é exposta em b) O facto só nos interessa em termos de informação, não nos envolve.

Em termos esquemáticos, o enunciado a) é constituído por dois deíticos temporais: "hoje" /"estamos" advérbio - presente do indicativo, e por dois deíticos pessoais "nós" e -mos" - pronome pessoal e morfema verbal.

II - Na aula de Literatura (apoio), não houve qualquer cumplicidade: sem interlocutor.

III - A análise do discurso da sala aula, se rigorosa, acaba por mostrar que em simultâneo com o discurso institucional se desenvolvem discursos privados, sujeitos às mesmas regras que, no entanto, mais não são que formas de "ruído".

7.11.12

Dia XXX

I - No teste de Literatura, para além da pouca leitura, surge o problema do incumprimento das instruções. Não se trata de incompreensão, mas de desleixe.
 
II - Com metade da turma em visita de estudo, os restantes foram confrontados com a biografia do autor, de modo a procurar a presença da vida na obra. No caso, a presença da mulher no poema " A Minha Rosa".
Na nota biográfica do autor, é dito que, em 1846, Garrett conhece Rosa Montufar, Viscondessa da Luz... (Será o poema A Minha Rosa anterior ao conhecimento de Rosa Montufar?)
Por outro lado, a nota biográfica regista a vida, a obra e faz alguma referência ao romantismo (introdução)... o que permitiu atentar nos títulos, como, por exemplo, Dona Branca (1826) e Romanceiro (1843/1851)... 
E ao fazê-lo, abriu-se a porta à particularidade do Romanceiro corresponder a um projeto ideológico de fixação da oratura e da traditio, mas que teve forte influência na técnica compositiva do autor. ( Não sei por que motivo se insiste em literatura oral ou tradicional em vez de oratura!)  
O século XIX, romântico, acaba por simultaneamente valorizar os romanceiros e redescobrir os cancioneiros, tudo em nome do génio popular!
A leitura, fragmentada, da nota biográfica levou a que, sumariamente, fosse chamada a atenção para outra mulher na vida do autor - Adelaide Pastor (1837 - 1841). Dessa relação nasceu Maria Adelaide, que acabará por assombrar, por exemplo, Frei Luís de Sousa (1843) - a infeliz Maria... Tudo porque, afinal, Garrett, embora separado, ainda estaria casado com Luísa Midosi (1822)... 

6.11.12

Dia XXIX

I - Perceber que através do discurso também se sai do pátio para a sala de aula - do registo informal ao registo formal. Identificar "os ruídos" verbais (e não só) que perturbam a eficácia comunicativa. A sala de aula exige formalidade no tratamento e na interação comunictiva, tal como acontece num tribunal, no parlamento ou numa igreja... E por isso os deíticos pessoais, temporais ou espaciais devem ser utilizados com moderação, pois eles espelham o lugar em que os interlocutores se situam na comunicação ( no Manual, viajámos da página 29 à página à página 242).
 
II - Entretanto, na Literatura, confirmada a pouca leitura e a desmazelada escrita, passámos à poesia de Almeida Garrett ( A Minha Rosa, Não te Amo, Este Inferno de Amar, Barca Bela).
A musicalidade dos poemas. A tradição poética (Romanceiro). E a novíssima abordagem do amor.
Basta atentar nos três círculos de A Minha Rosa que se combinam e se sobrepõem não platonicamente, como a convenção impunha:
 
- A Rosa ( a flor;  hástia mimosa; folha; cor; coroar; desabrochar)
- A Mulher (face tão bela / face linda; lábios; sorriso)
- O Paraíso / Céu ( estrela; rainha; luz; singeleza; beleza)
 
O Poeta, embora consiga ascender ao céu, não deixa de ter uma ponta de ciúme, pois a sua rosa não é muito diferente das outras flores...
 

5.11.12

O fascínio do abismo

(Não me apetece contribuir para a queda no abismo.)
 
Forças sindicais, políticos do centro esquerda e da esquerda ortodoxa e heterodoxa desfilam palavras de ordem contra o memorando, mas não se sentam em torno de uma mesa e redigem um programa alternativo que permita ao Presidente destituir o governo e convocar novas eleições legislativas...
 
Sem eleições devidamente preparadas, resta a ditadura ou, simplesmente, a diluição da nação.

Dia XXVIII

I - Formas de tratamento. Cortesia. Registo formal e informal. Deíticos. Um percurso que, em comum, tem a situação de enunciação e respetivos atores (locutor, interlocutor, espaço e tempo).
Nada de extraordinário, a não ser essa dificuldade em perceber que só podemos viver no presente e que o discurso é uma forma de o capturar, de construir narrativas de maior ou menor saudade ou de sonho. Ficamos, assim, entre o passado e o futuro, categorias do discurso... Quanto ao presente..., esse lugar onde registamos a proximidade e a distância, quer em termos espaciais quer hierárquicos ou, simplesmente, nada..., sem âncoras, ficamos à deriva... O que acabou por conduzir à necessidade de explicar as perífrases e as metáforas que se vão instalando num discurso, ora feito de adiamentos ora de intuições fulgurantes, as últimas porque o raciocínio se torna intuitivo sempre que o que há a dizer é novidade... Mas esta imaginação verbal só singra se ancorada na experiência...
 
II - Teste de Literatura ou de pouca leitura...    

3.11.12

O Gebo e a Sombra (filme)

Gostei da reconstituição em espaço fechado, gostei da representação, embora não entenda tanta fungação. Já bastava que Doroteia passasse o tempo a cismar e a chorar...
Não gostei nada da opção pelo francês, embora perceba que os protagonistas pudessem ter dificuldade em exprimir-se na língua de Raul Brandão.
E sobretudo não compreendo a razão da supressão do Quarto Ato!Vê-se que o desfecho não agradaria a Manuel de Oliveira. E porquê?
 
Talvez porque:
 
a) Sofia se tivesse visto obrigada a trabalhar / a ser explorada numa fábrica,
b) «Odeio todos esses ricos que me fazem bem e que me dão de comer. Eles dão-me de jantar mas é por vaidade» (Candidinha)
c) «Eu sacrificara-me, para que os outros se rissem de mim.» (Gebo)
d) «A gente só se não arrepende do mal que faz neste mundo.» (Gebo)
e) «Foi tudo inútil! Foi tudo inútil!» (Sofia)
 
A opção de Manuel de Oliveira não se abre ao exterior, encontra solução na moral católica do cumprimento do dever, da obediência à lei... Na verdade, trai a solução muito mais angustiada de Raul Brandão que, atento às leis da política, da finança e da economia, se revolta...
 
C'est dommage!