23.9.18

Não vou ...

Não vou abdicar, nem reformar-me, nem a enterrar (espero), vou apenas poupar as palavras de tão vulgares que elas circulam. Por isso não estranhem a minha ausência. 
Regressarei se houver algo de nobre a acrescentar. 
De momento, sinto-me cansado de tergiversações - da moleza mental que medra nas redes sociais.

22.9.18

Pacóvio suburbano

Apesar de tão viajado, de tão condecorado, quem é que se lembra dele? Caído no esquecimento, a contas com uma cunha pacóvia, regressou agora, zangadíssimo com a plebe do Rio, declarando alto e bom som que se recusa a mergulhar com eles, porque são «pacóvios suburbanos».
O uso do valor restritivo do adjetivo 'suburbano' leva-me a pensar (?) que o diplomata não quis deliberadamente referir-se àquela gente de origem obscura que, de tempos a tempos, assalta a grande metrópole, em nome de sombrios valores ancestrais. 

21.9.18

Martins da Cruz abandona os pacóvios do PSD

António Martins da Cruz disse: “Não me revejo em pacóvios suburbanos”. Martins da Cruz
Diga-se de passagem que a vida do PSD nunca me entusiasmou, embora não me seja indiferente, até porque o país muito sofreu sob a batuta de Cavacos, Durões, Santanas e Coelhos…, alguns deles zelosos pacóvios…
O que me espanta é que o ilustre alfacinha Martins da Cruz só agora se tenha apercebido da existência de pacóvios no PSD até porque serviu o "filho de Boliqueime" mais do que uma década…
A verdade é que é difícil encontrar um pacóvio que tenha sido tão condecorado como ele. Pelo menos, 25 condecorações!
Porque será que levou tanto tempo?

20.9.18

Dentro do espelho

«- Quem tem poder, se tem poder, quer que o vejam.
- Porque a política é um espelho - disse o outro. (…) 
- Mas o espelho está sempre presente - disse o outro. (…)
- A verdade é que um espelho é a televisão - disse o caixa.
- Exacto - disse o outro. Um espelho que guarda as caras.
- Tem-nas todas lá dentro e quando nos olhamos vemos a cara de outro.»
                                   Ricardo Piglia, A Cidade Ausente

Quando os estímulos exteriores são muitos, recolho-me na leitura. Só que ela devolve-me o circo… Por mais que faça, não escapo à greve dos enfermeiros, à paralisação dos taxistas, à lição do Professor Marcelo Rebelo de Sousa. 
Todos eles se movem na «caixa», alardeando poder. Todos eles «estão ali» à espera da minha sujeição, do meu reconhecimento…

Atualização

Neste setembro, os plátanos continuam com as mesmas virtudes e os mesmos defeitos, embora sob dupla ameaça - ou os arrancam e a obra avança, ou a obra é adiada, apesar do verdadeiro motivo ser outro.
Tudo se mantém, à exceção de quem deles se ocupava abnegadamente - está de partida…

19.9.18

Da vida nada lhes interessa

Não sei se todos procuram a notoriedade, mas desconfio que sim. O caminho é que parece não oferecer dúvida desde que seja mediático.
Não duvido das suas capacidades - nem as quero avaliar -, mas desconfio que estão convencidos de que pouco serve esforçarem-se, de que o mérito já teve melhores dias, apesar de não quererem saber quais…
Embora alguns saibam que, n'Os Lusíadas, o Poeta vivia amargurado porque os homens do seu tempo nenhum valor atribuíam ao empenho (e desempenho) dos seus antepassados, a verdade é que a glória abonada pela ociosidade, pelo saque e pelos privilégios lhes parece natural…
A imagem tem hoje um tal estatuto que os anjos sem rosto já nem necessitam de penumbra. 
No olimpo das nossas retinas e dos nossos tímpanos, há cada vez mais famosos da Hora - sorriem, dão gritinhos agudos, silabam contentamentos fúteis e mesquinhos... 

18.9.18

A viver no Paço

Não sei se o problema é das calças, se é do sapateiro, se de ambos. No entanto, compreendo que o melhor é esquecer o protocolo, enviá-lo para o museu. A bem da nação, a Sul, o protocolo é colonialista…
O que interessa são os negócios do futuro, de preferência, que os do passado ainda eram resquícios da exploração colonialista.
Vamos lá alinhavar uma parceria fraterna, em que a razão seja determinada pela emoção, esquecendo o ensinamento do Poeta que, apesar da sua experiência austral, nos quis convencer que o coração só servia para entreter a razão…
Por aqui, o problema é o de sempre! Continuamos a viver no Paço...

17.9.18

Talvez, a mãe

Nem a cretinice mata a esperança, nem a desilusão me faz perder a razão. Claro, há enganos, alguns piedosos. Compreende-se que os olhos só vejam o que a vontade lhes ordena - o empirismo pode ser demolidor…
Claro que esta manhã não seria igual a si própria sem um pouco de empáfia - reiterada. E sem os ruminantes costumeiros, sem esquecer os inomináveis…
De tudo o que fica, só a saúde vale a pena. O resto é empréstimo a fundo perdido, embora não saiba se alguém avisou o Costa - talvez, a mãe. Mas quem ouve as mães? 

16.9.18

A mentira do SOL e a verdade de João Costa

«O TALIS é um inquérito respondido diretamente por professores e diretores sobre condições para o exercício da profissão docente: desenvolvimento profissional, ambiente, condições de trabalho, liderança, gestão, carreiras, etc.» (João Costa)
A primeira assenta na arte de empastelar; a segunda, na arte de responsabilizar os inquiridos. Afinal, eles é que fornecem os dados errados...
E os professores continuam a marcar passo, tal como o país…

Hoje, informa-se primeiro e investiga-se depois, caso a mentira seja descarada… Por seu turno, os governantes persistem no erro de pensar que nos deixamos iludir com qualquer estatística levada a cabo por aprendizes de sociólogo e de linguista...

15.9.18

A fingir

«É difícil saber-se se uma pessoa é inteligente ou se é um imbecil a fingir que é inteligente.» Ricardo Piglia, in A Cidade Ausente

A fingir sem nada criar.
Quem cria é inteligente! Como diria Pessoa, é um fingidor. Mas este é exceção.
Temos assim dois tipos de fingidores: um inovador; o outro impostor… O último, por vezes, age involuntariamente, segue a mediocridade do meio, acreditando que o modelo é suficiente - bastará copiá-lo para poder singrar…
Estou de regresso à tarefa de fingir que sou capaz de distinguir, para além da carapaça, os criativos dos imbecis. Para o efeito, mais do que ver, vou necessitar de ouvir atentamente, sem me deixar iludir por essa cascata de ouropel que nos cerca...

14.9.18

Nada de mal!

Ricardo Ferreira, que foi assessor do antigo ministro da Economia Carlos Tavares, considerou hoje "natural" e não ter "nada de mal" ter saído do Governo para a EDP em 2005. É natural sair do governo e ir para…

Com tal conceito de "mal", o que não é "natural" é ter integrado um Governo de Portugal… 
O problema começa no modo como se "entra" para a política sem ter aprendido a distinguir o "bem" do "mal", a "verdade" da "mentira"... Em termos de 'educação para a cidadania', estes conceitos deveriam merecer particular atenção…
Nem sei por que motivo dou atenção a este tipo de declarações, mas irrita-me que as consideremos "naturais" e que não tenham "nada de mal"...

13.9.18

A rejeição

O pedido de liberdade condicional da investigadora Maria de Lurdes Lopes Rodrigues, presa por crimes de difamação e injúrias a magistrados, foi rejeitado pelo Tribunal da Relação de Lisboa. Uma justiça cega

Não conheço a senhora nem sei se ela terá agredido fisicamente algum magistrado, estranho, contudo, que o Tribunal da Relação não aceite o pedido - gostava de conhecer a argumentação.
Num país onde tantos casos lesivos do interesse público continuam há anos por decidir, onde tantas penas continuam por aplicar, não compreendo a mão pesada do Tribunal da Relação, independentemente dos magistrados injuriados terem direito ao bom nome...

12.9.18

O racional específico

«Uma consciência histórica do mundo não faz parte do Mito Americano - que, por orgulho de Povo Eleito, não pode deixar de desconfiar de que a História como tal é por certo uma invenção suspeita, uma malignidade peculiar ao Velho Mundo para envenenar a América, impondo-se como passado a ela.» Jorge de Sena, in Os Americanos e a História, e Portugal,1969.

Ler este ensaio esclarece quanto à natureza do pensamento do atual Presidente dos Estados Unidos. Para Trump, o passado identifica-se com o Mal. Como um entrave à execução do seu sonho… Ele fez-se eleger para cumprir o seu próprio destino…
Estas considerações podem parecer absurdas, mas o mesmo se passa atualmente em Portugal, um país sem História, que é necessário tratar como uma criança. É necessário mimá-lo, ensinar-lhe os mínimos (aprendizagens essenciais), sem ir além do «racional específico», isto é, ignorar a História e maltratar todos aqueles cuja função é assegurar a ligação ao passado e abrir as portas do futuro.
No entanto, em Portugal, ao contrário do que acontece nos Estados Unidos da América, esse trabalho é delegado nos pasquins de serviço…
Se não perceberem o título, recomendo a leitura do Despacho n.º 8476-A/2018 , de 31 de agosto. 
Cheira a Estado Novo, mas por salutar ignorância… 

11.9.18

Códigos QR na nossa pele?

De acordo com um novo relatório da organização não governamental Human Rights Watch, a China está a instalar códigos QR nas habitações de muçulmanos Uigures. O objetivo é ter acesso imediato a dados pessoais dos seus moradores e controlar as suas atividades. códigos QR-nas-casas-das-minorias-muçulmanas

O que é um Código QR?
Os QRs (quick response codes ou códigos de resposta rápida) são gráficos 2D que permitem aceder ao conteúdo de páginas WEB, através da captação de imagem. O link para as páginas WEB é acionado automaticamente quando a imagem é captada por um smartphone, tablet ou computadores com webcam, desde que equipados com aplicações de leitura e acesso à Internet. código QR

Peço desculpa pelo abuso de citação, mas a verdade é que me sinto cada vez menos livre. Não é que eu tenha alguma coisa a esconder, mas pela notícia parece que todos escondemos algo que pode ser aproveitado para nos condicionar, seja pelas empresas, seja pelos estados, seja por todo o tipo de organizações…
Sinto-me cada vez mais infoexcluído e, ao mesmo tempo, comprendo que essa exclusão será fatal a todos aqueles que abdicarem do conhecimento ou que se deixem manipular pelos pregadores das velhas utopias.
Já não se trata de recusar certas ferramentas, mas, sim, de aprender a utilizá-las para podermos responder…
Depois da nota social, Caruma 26.3.2018, a China volta a atacar...

9.9.18

Escrita única

Matagosa, 9.9.2018
Há dias em que basta levantar cedo, sair de casa e caminhar sem objetivo expresso, a não ser observar o que a Natureza nos prepara…
Este é um desses dias em que a Natureza ensimesmada se debruça sobre si própria e nos deixa extasiados…
A nós a possibilidade de registar o momento de uma escrita única que nem o pintor será capaz de reproduzir.

8.9.18

O que dizer?

Pouco há a dizer. Terra ardida, terra esquecida ou rapidamente coberta por novos eucaliptos…
Em termos de negócio, compreendo a opção. Só não entendo é porque não são criadas zonas interditas, por exemplo, de um dos lados das vias rodoviárias - bastariam 500 metros limpos de qualquer vegetação para criar zonas de interrupção do fogo e de proteção de pessoas, casas, estradas…
A sensação com que fico é que os nossos governantes deveriam ser obrigados a viajar, por exemplo, na N2, uma ou duas vezes por ano, como propunha Almeida Garrett ao defender a lei da responsabilidade política.
E já agora os senhores da ALTICE deveriam acompanhá-los para perceberem que a oferta da empresa é extremamente deficiente em tempo normal. O que dizer em tempo de fogos?

7.9.18

Olhos cegos

Se eu me chamasse Julio Cortázar, sonharia que era albufeira… e até árabe. Até, talvez, fosse a lagartixa que se esconde no mato ou o gafanhoto que esvoaça sobre o arbusto - nenhum deles parece interessado em entabular conversa…
Este tipo de metamorfose só é verosímil no pretenso sonho de um argentino a viver numa metrópole europeia, Paris, de preferência…
Na albufeira há, no entanto, vida para além do sonho - uma vida audível, embora não visível mesmo tendo descido até à margem.
Se esta noite eu descer às escuras, talvez o sonho se desfaça...

6.9.18

Para aqui chegar

Albufeira, em Matagosa
Para aqui chegar foi preciso atravessar um extenso território repleto de jovens eucaliptos.
Daqui a três anos, não haverá casas queimadas, apenas os incautos que circulem na N2. 
Alerto desde já que a Altice não cobre devidamente esta zona do concelho de Vila de Rei.

5.9.18

Não vale tudo!

Da ferrovia, passando pela floresta, pela banca e pelo futebol, à saúde e à educação, não vale tudo.
Assistimos permanentemente à destruição de instituições e de serviços, e já nos habituámos a aceitar o seu desmoronamento, sem punir de forma célere e exemplar aqueles que se alcandoram a lugares para que não têm a mínima preparação.
Um exemplo: o aluguer de comboios a Espanha custará no próximo ano 10 milhões de euros - o custo de uma unidade…
Em Portugal, aluga-se quase tudo e produz-se muito pouco…. O lucro não é para quem trabalha nem para quem investe. É para quem intermedeia. Porque será?
Não vale tudo, até porque já vendemos a alma...

4.9.18

O passe social nacional

Por pouco que seja...
Em nome da solidariedade, transformar o orçamento de estado num poço sem fundo é um logro. A ideia de que água é inesgotável não tem fundamento, nem roubando-a ao vizinho…
Parece que está a chegar o passe social nacional! 
Num país em que não há dinheiro para comprar um comboio, para aliviar o imposto sobre os combustíveis, para baixar o custo das portagens, para reparar as estradas, ainda há quem  nos queira convencer que, baixando artificialmente o custo do transporte coletivo, seremos todos mais felizes e que até o ambiente sairá beneficiado… (Isto revela um pensamento político miserabilista e, sobretudo, estéril.)
Não há pachorra! Basta viajar nos transportes coletivos para perceber que não passam de geringonça terceiro-mundista.
Neste clima de café em chávena fria sem princípio nem fim - o poço sem fundo - preparemo-nos para assistir ao crescimento da extrema-direita…

A extrema-direita ganha força por toda a Europa e Portugal é comummente referido como exceção. No entanto, a verdade é que está a reorganizar-se em Portugal, reciclando o seu discurso e formando novas organizações. As atividades têm-se multiplicado nos últimos tempos, seja nas redes sociais ou nas ruas do país, ainda que pontuais e marginais. Em termos eleitorais, este espetro político continua residual - e o primeiro teste poderão ser as legislativas de 2019. De quem é a responsabilidade?

O fim do regime está à porta!

2.9.18

O poço

O poço
O meu país é um poço. Tem alguma água e já teve mais… Hoje em dia vive da ribeira, o que significa que está à mercê do clima e, como se sabe, o clima está à mercê da ganância humana…
Já lá vai o tempo em que este poço alimentava a horta de quem não sabia o que era um supermercado…
Depois o meu país trocou a horta pelo supermercado e a ribeira pelo financiamento externo… Desde essa data, o poço ficou à mercê das silvas e como é visível, os silvas são implacáveis, mas não gostam que lhes lembrem que vivem de subsídios… até que um dia acabarão por morrer de sede…

1.9.18

Uma Esquerda subsidiodependente

Durante muito tempo sonhei com uma sociedade mais justa e pensei que a Esquerda poderia ter um papel importante na realização desse objetivo… uma sociedade mais culta regida por valores humanistas…
Por razões que a História explica, Portugal teve, a partir de 1974, a oportunidade de criar as bases dessa nova sociedade. Mas desaproveitou-a. 
A Esquerda nunca soube promover o desenvolvimento da produção interna - preferiu importar ideias e bens e... assegurar  a sua base eleitoral, recorrendo a uma absurda política de subsídios…
A Esquerda quer subsidiar tudo, aproveitando os fundos europeus, os empréstimos internacionais e tomando de assalto os contribuintes…
Esta Esquerda começa a não ser muito diferente daquela que governa a Venezuela… Agora a Esquerda quer um passe único para a zona metropolitana de Lisboa. E quem vai apagar?

(Da Direita nunca esperei nada, confesso.)

No país dos subsídios, ganha-se cada vez menos. 
Talvez um destes dias, alguém venha a concluir que melhor seria remunerar devidamente o trabalho e, assim, acabar com a subsidiodependência. 
O problema é que não vejo ninguém nem à Direita nem à Esquerda.
Infelizmente, a Esquerda, passados tantos depois da revolução de 1974, continua a produzir pobreza...

30.8.18

Uma vergonha!

Miradouro Panorâmico de Monsanto

Nem sei o que pensar! 
E ainda dizem que em 2017, procederam a limpeza e instalaram segurança…
Se é para deixar o edificado no estado em que se encontra, o melhor é deitá-lo abaixo.
Senhor Presidente da Câmara, Fernando Medina, vá até lá e diga-nos se tal edifício vai continuar no estado em que encontra…

29.8.18

Com a porta fechada

Mesmo com a porta fechada, há forma de se saber se estamos dentro se fora… O que parece é que escancaramos cada vez mais as portas na esperança de que nos reconheçam algum mérito, não interessa qual. 
Desde que superemos o outro, o método pouco interessa. Do outro, esperamos que simplesmente nos dê alguma atenção, que nos inveje…
Talvez seja por isso que começámos a fechar as portas - o outro também quer ser invejado… e chama-lhe direito.

28.8.18

Longe de mim dizer mal...


Longe de mim dizer mal, mas há evidências que não enganam. Estas fotos foram tiradas esta manhã, aqui, na Portela de Sacavém / Loures (?), num percurso de 150 metros...
Evidências de quê? 

- Falta de limpeza
- Falta de organização
- Falta de responsabilidade

Disseram-me, entretanto, que há na freguesia (Moscavide e Portela) um "novo dono disto tudo", que não faz nada a não ser propaganda... Será verdade?
O lixo fica nos passeios esburacados, as plantas medram, as obras de urgência deixam vestígios… até o que devia estar devidamente protegido se oferece despudoradamente aos incautos: crianças, adolescentes desocupados…

Isto não significa que não haja espaços urbanos bem cuidados, o que não se entende é o critério…
Por exemplo, nuns sítios os candeeiros públicos estão apagados, noutros até há lâmpadas "tutti frutti"..., para não ficar atrás da Amadora…
Nem toda a responsabilidade será da Junta - dir-me-ão que é da CM de Loures! Pode ser. Mas para que é que serve a Junta?


27.8.18

O olhar preso

Se a perda de memória impressiona, a fixação em certas memórias ainda impressiona mais, sobretudo, quando o desfecho era inevitável…
O olhar preso destrói a vida, torna-a absurda, como se o único objetivo fosse recuar até um ponto descontínuo e desconfigurado…
Se me perguntam por que motivo rasgo tantos papéis, é porque sei, agora, que eles se tornaram um peso inútil; sei agora que o importante é a sombra das árvores… tanto sol!

26.8.18

O que impressiona

«O que impressiona é a perda da memória, o sair das relações reais… A própria perda da memória insensibiliza. Você não tem ternura nem ódio às pessoas, porque não se lembra delas, não as conhece...» José Cardoso Pires, entrevista ao JL, 21.05.1997

a rasgar papéis, continuo... 
como aquelas oliveiras que não chegaram a ser minhas…
as figueiras, asfixiadas
perdem sentido
porque um dia por pensar
parti
papéis em vez de árvores
Já nem a sombra!

25.8.18

A rasgar papéis

Estou aqui a rasgar papéis,
a rasgar o tempo
e só me lembra a sombra de árvores, 
desejada…
Enchi papéis, 
preenchi o tempo e só choro a sombra das árvores, 
perdidas…
Tenho pena de rasgar estes papéis, 
de rasgar aquele tempo, 
que hei de fazer... 
Talvez ainda sobre uma árvore…
A rasgar papéis inúteis,  
rasgo outro tempo, 
quem quer saber daquelas árvores…
Por mim, deixava aqui todos estes papéis,
todas estas árvores,
não, o melhor é esquecer aqueles incêndios...

24.8.18

O comboio de Caminha

Passava o comboio, nele viajava sua excelência o presidente do conselho. Discreto. Parecia um relógio suíço...
Passava, lento, o comboio, nele o adubo mergulhava na noite que o dia era de sementeira...
Passava o comboio, nele a tropa adormecida seguia viagem sem bilhete de volta. Partia em defesa da pátria do outro lado do mar...
Passa o comboio, vai para Caminha ao encontro do Primeiro. Leva o rebanho, seguro que a Hora não pode ser desperdiçada...
No cais, estamos nós a ver passar o comboio...

23.8.18

Paciência

Praia da Cabana do Pescador
- Eu não tenho paciência para esta Madalena! (Avó)
- Para a bebé ao colo: A Madalena já vem! (Mãe)
Estou à espera que a Madalena surja das águas do mar...
Por enquanto só as bolas de berlim e o ondulado da banda sonora...
À volta, um país rico de sol, de pó, de lixo, de cabeças vazias... Uma toalha que se estende fácil, dois velhos que comem umas pevides... Uma fila desalinhada avança na linha de água e as bolinhas de berlim apregoadas no areal.

22.8.18

Credor forçado

O que é novo seduz, mesmo que haja mil entraves financeiros, ecológicos e humanos...
Talvez seja por isso que ninguém defende o alargamento do aeroporto Humberto Delgado…
Hoje, por exemplo, fui ao Parque Quinta das Conchas… Ao caminhar, comecei a ouvir os motores dos aviões… Segui o ruído, e ao longe avistei as aeronaves…
Será que não seria mais inteligente libertar os terrenos necessários para o alargamento e criação de novas pistas?
Confesso, no entanto, que não percebo nada do assunto, mas, como credor, interessa-me saber onde é que o meu contributo vai ser aplicado, já que quero crer que o Estado Português está disposto a amortizar a dívida resultante de todas as decisões precipitadas e megalómanas dos seus governantes nas últimas décadas...
Agora que se discute o Orçamento para 2019, gostaria que os Partidos impusessem um número objetivo para o progressivo ressarcimento de todos os credores, mas sem privilégios nem cedência a interesses corporativos.

21.8.18

Na roda de náusea

Um Adeus Português


Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta dor portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

*

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.


Alexandre O'Neill, in 'Poesia Completas' 

Em 1950, Alexandre O'Neill ( 19.12.1924 - 21.08.1986) viu-se impedido pela PIDE, na sequência de uma cunha de um familiar seu, de ir ao encontro de Nora Mitrani. Esta surrealista francesa viera a Lisboa proferir uma conferência, La Raison Ardente... O 'Neill apaixona-se e neste belo poema de amor vinga-se "da roda de náusea em que giramos"...

20.8.18

Uma palavra de agradecimento a João David Pinto Correia (1939-2018)


Conheci o professor João David Pinto Correia no ano letivo de 1977/78. 
Na Faculdade de Letras de Lisboa, orientava o Seminário de Literatura Oral e Tradicional com que conclui a Licenciatura em Literatura.
Dele ficou-me sempre a ideia do investigador rigoroso, do didata abnegado e indulgente e, sobretudo, de um homem que apostava numa educação assente num modelo autóctone esclarecido…
E era raro, à época, encontrar professores com este perfil. Mas não tão raro como hoje.

18.8.18

Pessoa "Fora da Arca"

Há umas horas li uma entrevista "Pessoa visto de Perto"... 
A ideia aprofundada, durante 10 anos por Zetho Cunha Gonçalves, pareceu-me interessante. Afinal, ainda há outra Pessoa…
Mas esse havia que procurá-lo "Fora da Arca" e o investigador fez-se ao caminho e descobriu um Pessoa divertido, encantador… em particular na prosa, na polémica consigo próprio - um Pessoa histriónico!
Aquilo dentro da Arca afigurava-se incompreensível, demasiado frequentado, bolorento. O melhor era ouvir e ler os amigos e conhecidos, mesmo se falecidos… O melhor era folhear e ler os jornais, esses educadores da plebe…O melhor era suspeitar que na correspondência perdida ou sonegada só havia jovialidade
O Pessoa do futuro está agora ao alcance de todos aqueles que sempre revelaram relutância em entrar na Arca...

17.8.18

Pessoas obsoletas - o que fazer?

Leonardo da Vinci (1452-1519) distingue a capacidade de ver da possibilidade de representação do real (fazendo-a depender do lugar ocupado pelo observador). Ana Vaz Milheiro (Público, 14 de março de 1998, a propósito da obra "Perspectiva, Perspectiva Acelerada e Contraperspectiva", de João Pedro Xavier)

Agora que o programa de Português (ensino secundário) insiste tanto na representação do real levada a cabo pelos autores, como, por exemplo, José Saramago ou Cesário Verde, valeria a pena repensar a distinção de Leonardo da Vinci. Caso contrário, o aluno, incapaz de imaginar o lugar ocupado pelo observador, acabará por se limitar a reproduzir meia dúzia de ideias feitas sem conseguir questioná-las…
É neste ponto que o diálogo interdisciplinar poderia ter significado, pois habitualmente o professor de Português não percebe nada de "perspectiva"... Por exemplo, será que somos capazes de determinar o lugar do observador n'Os Lusíadas, quando o Poeta faz a sua apreciação crítica?

Esta vacuidade em que habitamos leva-me a compreender o receio de Meg Temark (Live 3.0) quando afirma que «há pressão económica para tornar as pessoas obsoletas» Pessoas obsoletas

Não há apenas pressão económica, há, principalmente, um sistema educativo que nos torna obsoletos… Assim se compreende que o mundo esteja cada vez mais à mercê daqueles que medram na sombra dos Trumps...

16.8.18

As portas do futuro

Valentín y Molina, los protagonistas de la novela, transcurren prisioneros y comienzan, al mejor estilo de un diálogo socrático, a interpelarse desde sus subjetividades. Puig elige crear una situación ideal en la que un militante revolucionario y un homosexual puedan iniciar un intercambio personal, como si lo hicieran bajo la consigna de las feministas de los 70: “lo personal es político”. En este sentido Molina se narra a partir de diferentes películas de clase B, posicionándose desde un lugar más personal, más experimental y subjetivo. Su contrapartida es Valentín, quien desautomatiza el procedimiento subjetivo del lenguaje de Molina intentando darle una explicación racional destructora de mitos sociales. Un homosexual que representa la sentimentalidad, la delicadeza, el deseo y el cuidado materno y, por otro lado, un militante marxista que representa la objetividad, la racionalidad y la disciplina. Si bien uno podría pensar que la figura del homosexual representaría la feminidad y la de Valentín la masculinidad, en el devenir de la novela las representaciones van mutando y se complementan entre sí.Manuel Puig

Acabo de ler El beso de la mujer araña, do argentino Manuel Puig, 1976, novela censurada pela ditadura militar. Uma obra perturbadora, pois coloca em causa muitas das certezas do leitor e, sobretudo, esta leitura deixa-me com a sensação de que cheguei demasiado tarde… deveria ter lido esta obra nos anos 70, quando a ideologia e a psicanálise se me apresentavam como as portas do futuro…
Infelizmente, a minha chegada tardia não é única neste mundo cada vez mais retrógrado, em que as portas do passado se vão escancarando...

14.8.18

Enigmático e suspeito


Esta seriedade é enigmática, mas tem uma explicação: procurava situar-me no percurso. 
 Já não me lembro de nada do que fui ouvindo em francês ou em castelhano (por ali, o português é lingua desconhecida!)… Apenas, recordo o que vi…
A verdade é que, para mim, o conhecimento pressupõe a caminhada pausada, muitas vezes, sobre si própria…
(…) 
O que também foi enigmático foi o modo como fui controlado no aeroporto de Barcelona - ainda cheguei a pensar que seria um perigoso cadastrado… 
No entanto, acabaram por concluir que era "português"... Fiquei sem saber o que é que lhes terá passado pela cabeça para me pincelarem as palmas e as costas das mãos...
Alguém me disse que a minha seriedade fez de mim suspeito.

12.8.18

A laranja de V. S. Naipaul

V.S. Naipaul morreu.

Dele só li Uma Casa para Mr. Biswas.
Li-o lentamente, abrindo o romance ao acaso e retomando a leitura, já esquecido do que lera anteriormente.
A edição portuguesa era das Publicações Dom Quixote e, até hoje, mantenho a sensação de que a tradução portuguesa é péssima
Perante a notícia da morte de V.S.Naipaul (1932-2018), verifico que os encómios se mantêm, o que significa que a minha dificuldade em lidar com a escrita deste Nobel da Literatura não terá uma causa exógena…
(Um destes dias, vou voltar a ler Uma Casa para Mr. Biswas. Se tiver tempo - é que o escritor tinha dias em que não escrevia mais do que um parágrafo. Tal como eu - também tenho dias em que não consigo chegar ao final do parágrafo… Ler exige tempo e, por vezes, enorme paciência, o que nem sempre é negativo…)

Entretanto, transcrevo um parágrafo revelador:

- O teu problema é que realmente não acreditas. Havia um homem como tu, em tempos que já lá vão. Ele queria gozar com um homem como eu. Então, um dia, quando o homem que era como eu estava a dormir, o outro homem pôs-lhe uma laranja sobre a barriga, pensando, «aposto que este parvo, quando acordar, vai dizer que foi Deus que lhe pôs a laranja aqui». O primeiro homem acordou, viu a laranja e comeu-a. O outro apareceu e disse-lhe: «Então, foi Deus que te deu essa laranja?» «Sim», respondeu o primeiro. «Então deixa-me que te diga. Não foi Deus que te deu a laranja. Fui eu». «Talvez», disse o outro, «mas eu pedi a Deus uma laranja enquanto dormia.»

11.8.18

Talvez por isso não compreenda...

«Yo no puedo vivir el momento, porque vivo en función de una lucha…»

Deliberadamente não cito na totalidade o pensamento da personagem de Manuel Puig, Il beso de la mujer araña.
Porquê? Porque objetivamente nunca me envolvi de forma direta na luta política, nunca planeei a ação, definindo uma agenda...
De facto, sempre imaginei a minha ação de uma forma mais individual: primeiramente aprender; depois ajudar os outros a aprender a viver… 
A luta política nunca a imaginei como resultado de um impulso, de um sentimento; vi-a sempre como ação responsável, assente no conhecimento do que interessaria a uma humanidade, liberta de fronteiras territoriais, religiosas, políticas e morais…
Talvez por isso não compreenda a necessidade de insistir em ideários que apostam no carpe diem horaciano, pois me parecem demasiado egoístas e acríticos...
Talvez por isso não compreenda certos ímpetos revolucionários que continuam a criar novas fronteiras…

10.8.18

Tudo muito... mas nada


Tudo muito higienizado, tudo muito refrigerado… muito calor por todo lado… tudo muito mediterrânico…
Mas nada elimina a sensação de impotência de quem entra num avião e fica ali inativo ou a fingir que lê, joga, conversa… 
Odeio essa sensação contínua que, ainda por cima, me estoira com os ouvidos e me deixa a pairar num espaço de coisa nenhuma - nem a voz se aproveita…
É assim: não fui feito para deixar o controlo à mão de uma qualquer outra entidade, mais ou menos competente, mais ou menos divina...

La Pineda

8.8.18

Páginas amaldiçoadas de Manuel Puig


Levantei-me às seis horas da manhã. A temperatura de 28 graus convidava para um passeio matinal e para o lugar comum - fotografar o nascer do sol, mas ele mostrou-se cerimonioso. Acabei por percorrer todo o passeio marítimo numa extensão de mais de três kilómetros, a pensar na novela de Manuel Puig Maldicion Eterna a quien lea estas páginas
Por lá ninguém se levantava cedo, ninguém se queria (ou podia) lembrar do passado, fosse argentino ou norte-americano. Por lá, pouco mais havia do que diálogo sobre o passado, como forma de recuperar o tempo esquecido, por força de tortura ou de trauma infantil, respetivamente… as histórias iam-se se reconstituindo, apesar dos amuos e da má vontade dos protagonistas - um velho alienado e um homem de meia idade, seu cuidador à hora e duas ou três vezes por semana…
A construção do livro intriga-me, sobretudo porque o narrador pouco diz e as personagens caem facilmente no mutismo. O final do livro, apesar do ex-professor de História querer voltar a exercer, é desesperante… A ação decorre, em grande parte, num Lar e num Hospital de Nova Iorque…
Para quem esteja interessado em mergulhar nas páginas amaldiçoadas de Puig, recomendo o que transcrevo:

La historia (casi toda) transcurre en Estados Unidos, y los personajes principales son Larry, un profesor de historia fracasado, que no confía en sí mismo lo suficiente como para dedicarse a la docencia, marxista, desempleado y divorciado, que tiene que tomar un trabajo de acompañante de gente de edad avanzada en el que conoce al señor Ramírez, el otro personaje, un anciano argentino, caprichoso, paranoico, que sufre de amnesia. Juntos irán conversando, intentando reconstruir la historia del otro, conocerla y entenderla. A Ramírez le interesa la historia de Larry porque todo le resulta novedoso y le pregunta hasta las cosas más triviales intentando, sin mucha voluntad, recordar algo de su propia vida; también a Larry le interesa la historia de Ramírez porque de a poco va descubriendo que el anciano (aunque lo niegue fervorosamente y se muestre indignado ante las insinuaciones o las afirmaciones del joven) fue en su país un militante, un importante dirigente sindical que fue apresado y torturado durante la dictadura militar y que fue por esas torturas que perdió la memoria. Es interesante ver cómo, a lo largo de la novela, y por la amnesia y los caprichos del señor Ramírez, las conversaciones pasan de ser diálogos reales, sobre la vida real de Larry (quien no parece muy contento recordando ciertas cosas, ciertos traumas) a ser historias mixtas, en las que el señor Ramírez interviene, diciendo cómo en realidad fue un episodio traumático de la vida de Larry, cómo las cosas no son en realidad como se las cuenta él sino totalmente distintas y termina contando lo que suponemos, en realidad, son anécdotas de su propia vida que conscientemente no recuerda. Estos diálogos, forzados por las interrupciones caprichosas del anciano, van volviéndose cada vez más irreales, volviéndose ficciones literarias, a medida que el anciano pregunta cosas que Larry no quiere responder y a medida que el mismo anciano evita otros temas que le traen sensaciones extrañas, indescriptibles, claramente ligadas a su pasado que no puede recordar. Esto, acaso, se vea exacerbado en uno de los últimos capítulos en los que el diálogo es también entre un anciano malhumorado y un joven idealista, pero en la Rusia zarista, en el contexto inmediatamente anterior a la Revolución rusa. Estos personajes son tan similares a los de Larry y Ramírez que también es hacia el final del capítulo que el joven se da cuenta de que el viejo, a pesar de su mal carácter, también es antizarista y apoya a los revolucionarios. O Fascínio das palavras

Más allá de esto, la pregunta de Larry es interesante: ¿Maldición eterna a quién? ¿A quien lea qué? A lo largo de toda la novela, la acción de leer toma un protagonismo especial. Desde el principio, Ramírez dice que todo lo que recuerda es lo que leyó en la enciclopedia en sus días en el hogar de ancianos de Nueva York; de hecho, dice que recuerda todo lo que lee. Dice que tiene que buscar el sentido de las palabras. Sólo conoce a través de las lecturas, y lo que piensa tiene que anotarlo en un papel, para que no se le olvide, y poder leérselo a Larry (pero siempre se olvida de agarrar el papel donde anotó sus pensamientos). También Larry lo acusa de no "saber leer las expresiones humanas". Todo el tiempo está obsesionado con las palabras, y su significado, pero también dice "Por favor, emplee palabras que signifiquen más. Conozco las palabras, pero no lo que estaba pasando dentro suyo" o, cuando Larry le cuenta sobre su infancia y su madre "Larry, por favor dígame otras palabras que usaba su madre." a lo que Larry responde "Mi madre no tenía palabras propias. Ni sabía pensar por su cuenta".

7.8.18

Três fotos de Tarragona


Três fotos - perspetivas distintas. Delas nada direi, pois o leitor detesta maçadas de veraneante...
(…)
Prometo voltar um destes dias,  se a ameaça não se abater sobre mim, pois estou a acabar de ler uma novela de Manuel Puig, intitulada  Maldicion eterna a quien lea estas páginas

Entretanto, será que a sandia deve ser considerada a esposa do sandeu? Por aqui, ela serve-se bem fresquinha; quanto ao sandeu, de momento, só me lembro do epíteto vicentino.


5.8.18

Ao sabor do tempo

Com o aumento da temperatura, a inteligência diminui - a tese não é minha, é de um monge medieval que, no essencial, defendia que o Equador não podia ser habitado pelo homem, ser inteligente...
Por aqui, não é fácil encontrar um jornal ou uma revista e a televisão é insuportável, tal é a algaraviada…
No entanto, hoje consegui comprar o Diari de Tarragona, uma espécie de JN de outros tempos com revista e tudo… e ainda, conforme o local referenciado, escrito em castelhano ou em catalão… o que dá que pensar sobre a geografia regional e humana…
Lido o jornal, ataquei a Revista XL Semanal, nº 1606, e depois de ter dado uma vista de olhos aos disparates verbais de Arturo Pérez-Reverte (meu conhecido de outras viagens), parei no artigo Agenda cultural, de Juan Manuel de Prada, e estacionei no seguinte parágrafo:
La cultura, en el sentido originario da palabra, es el alimento que el alma necesita, para no consumirse ni rendirse a la barbarie; pero lo que nuestra época llama 'cultura' no es otra cosa sino 'vivir com los tiempos' o 'estar a la moda', que como Tacito nos enseñaba no consiste en otra cosa sino em «corromper y ser corrompido».

O motivo desta reflexão terá sido o impulso «del doctor Pedro Sanchez, que para poder assistir a un corcertito de rock en Benicassim tomó el avión oficial»… Parece que esta doença é, afinal, ibérica, embora o grau de servilismo possa ser distinto...

4.8.18

Deve ser do calor...




Apesar dos 35 graus, lá apanhámos o autocarro para B..Cambrils, dando voltas a Salou… O passeio permite perceber como é que a sociedade espanhola se distribui dos mais ricos aos menos pobres… Sim, porque os pobres trabalham em condições deploráveis…
Salou é o coração da riqueza e assim o que vi nesta ida e volta basta-me…
De regresso a La Pineda, senti que os espanhóis quando vislumbram um português é como se estivessem a reencontrar um parente pobre...

3.8.18

Árvores de metal

Não sei se a ideia é homenagear se substituir as árvores - uma ideia com futuro…
A própria água talvez venha a ser de metal... Entretanto, já há quem mergulhe apenas os pés no oceano…
Compreende-se: a senhora se mergulhasse já não conseguiria levantar-se, o que levou as amigas a dar-lhe banho, despejando-lhe baldes por entre os seios, de forma pouco discreta…
Ainda olhei em torno à procura do Almodôvar, mas só avistei um enorme paquete atracado no cais não muito distante…
O resto, pelo que observo, resume-se a mais espaço, a mais gente burguesa, vinda de todos os lugares de Espanha, com alguns franceses à mistura...

2.8.18

Lá fiz a viagem!

A primeira dificuldade encontrei-a na letra S. Em nada facilita o despacho das bagagens - de tanta digitalização, bovinos desorientados, andamos às voltas à espera de um esclarecimento...
A segunda dificuldade resultou dos meus ouvidos não terem sido preparados para voar - qualquer dia hão de parecer chagas de cristo…
À chegada, o mundo parecia outro, as portas acolhiam sossegadamente os passageiros e até as malas surgiram no lugar certo…
Depois, o transbordo decorreu sem incidentes e dentro do tempo previsto…
Mas ainda havia uma derradeira dificuldade - a porta do alojamento. Recebido o código que permitia abrir a porta, alguém tinha dado cabo do sistema… Tudo sem falar na canícula, na desertificação, nas praias repletas de gente...

1.8.18

Bem longe da foz

Eu até posso fingir que vou (estou) de férias, mas, para mim, se as temperaturas sobem acima de 25 graus, elas tornam-se um martírio.
Estranho, não é? Mas sou assim: canso-me, irrito-me, perco a vontade de fazer o que quer que seja…
Com tanta gente a desejar não fazer nada, logo eu procuro estar sempre ativo, mesmo se oficialmente de férias.
Em conclusão, vou passar as férias a fugir do calor, só que não me deixam. Ninguém compreende esta minha particularidade, cuja origem remonta à praia da figueira, bem longe da foz ou, se a canícula aumenta, talvez mais perto...

31.7.18

Não é preciso estar só...

Traversare una strada per scappare di casa
lo fa solo un ragazzo, ma quest’uomo che gira
tutto il giorno le strade, non è più un ragazzo
e non scappa di casa.

Ci sono d’estate
pomeriggi che fino le piazze son vuote, distese
sotto il sole che sta per calare, e quest’uomo, che giunge
per un viale d’inutili piante, si ferma.
Val la pena esser solo, per essere sempre più solo?
Solamente girarle, le piazze e le strade
sono vuote. Bisogna fermare una donna
e parlarle e deciderla a vivere insieme.
Altrimenti, uno parla da solo. È per questo che a volte
c’è lo sbronzo notturno che attacca discorsi
e racconta i progetti di tutta la vita.

Non è certo attendendo nella piazza deserta
che s’incontra qualcuno, ma chi gira le strade
si sofferma ogni tanto. Se fossero in due,
anche andando per strada, la casa sarebbe
dove c’è quella donna e varrebbe la pena.
Nella notte la piazza ritorna deserta
e quest’uomo, che passa, non vede le case
tra le inutili luci, non leva più gli occhi:
sente solo il selciato, che han fatto altri uomini
dalle mani indurite, come sono le sue.
Non è giusto restare sulla piazza deserta.
Ci sarà certamente quella donna per strada
che, pregata, vorrebbe dar mano alla casa.

Lavorare stanca - Cesare Pavese

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Atravesar una calle para escapar de casa
puede hacerlo un muchacho, pero este hombre
que anda
todo el día por las calles ya no es un muchacho
y no escapa de casa.

Hay tardes de verano
en que hasta las plazas se vacían, tendidas
bajo el sol declinante, y este hombre que llega
a una alameda de inútiles hierbas, se detiene.
¿Vale la pena estar solo, para estar siempre más
solo?
Trabalhar cansa

Não é preciso estar só para sair de casa e encontrar-se nas ruas desertas ou movimentadas, basta folhear uma página amarelecida pelo tempo e perguntar-lhe quem são estas criaturas tão silenciosas, ali esquecidas.
Desta vez, por um instante dessa solidão sobressai Cesare Pavese (1908-1950), cuja voz só o silêncio poderá consagrar, mas para isso é necessária a disponibilidade por ora perdida… esperemos que não para sempre!