Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

23.6.18

O desmaio

«O desmaio de Marcelo Rebelo de Sousa ocorreu às 12:48 durante uma visita ao Santuário.»

O Presidente da República desmaia e deixa de ser notícia. Afinal, o futuro do Bruno de Carvalho é bem mais importante…
Diz o Professor que se tratou de uma gastroenterite aguda. Será? E o médico do Presidente, o que é que não diz?

22.6.18

Pausa


Por momentos, saí da sala do risco, e fui à procura do sujeito e do complemento direto.
Só encontrei flores!
(Já estou de regresso…)

21.6.18

Na sala do risco

Até 4 de julho, encontram-me na sala do risco… que só pode ser vermelho. Ainda não especificaram o matiz… Lá chegaremos à graduação da cor.
Por favor, não me perguntem porquê.

19.6.18

Sobre o exame de Português de 2018

Devo relembrar, nesta data, ( e não é a atormentada 6ª feira de Madalena, no "Frei Luís de Sousa"!) o que escrevi neste blogue, sob o título O ÚLTIMO PROFETA, em 19.01.2018, 6 meses antes do exame:

«Se a imaginação e o mistério não estão connosco, não vale a pena escrever.» Maria Ondina Braga entrevistada por Mário Santos, Público, 9.12.1995

Foi certamente essa certeza que alimentou Fernando Pessoa ao escrever MENSAGEM!
Perante o desconchavo a que Portugal chegara, na ausência de feitos que pudesse imortalizar, Pessoa optou por imaginar um futuro que, de algum modo, fosse capaz de despertar os portugueses coevos da modorra em que jaziam.
Esqueceu a História e atirou-se ao Mito e, pelo caminho, assumiu o papel de último profeta do Quinto Império, procurando devolver a esperança e a vontade necessárias ao Sonho, sem o qual o Senhor acabaria por esquecer o povo eleito que unira o Mar, mas que não soubera preservar o Império... 
O último profeta (Screvo meu livro à beira-mágoa), mais do que a voz do Senhor, surge como seu interpelante, procurando, assim, que o último fôlego da Humanidade seja obra de Portugal - o verdadeiro herói de MENSAGEM. 

(Este pequena reflexão foi feita a pensar nos meus alunos que, inteligentemente, a não leram…)

Sobre a prova de exame de Português 2018, prefiro, desta vez, não tecer comentários, a não ser levantar uma pequeníssima questão:

Até parece que a relação de interlocução tem início no sétimo verso do poema… /Mas quando quererás voltar?/ Não teria sido mais inteligente ter solicitado quais são os termos dessa relação no poema e na Terceira Parte de MENSAGEM?
(…) /Tenho meus olhos quentes de água. / Só tu, Senhor, me dás viver. // te sentir  e te sentir pensar / Meus dias vácuos enche doura. /

Daqui a uma hora... Prova 639

Daqui a pouco, começa o exame nacional de Português - 12º Ano. A minha expectativa é baixa: elaborar uma prova, que não revele publicamente a mediocridade a que chegámos, é tarefa difícil.
Há, no entanto, um aspeto que espero ver consagrado nesta prova de exame: o contributo da disciplina para o fomento da consciência literária, importante vector da cidadania. 
A capacidade de o cidadão se situar no mundo depende, em parte, da sua relação com a obra literária. O programa chama-lhe "educação literária"...
Temo que a "educação literária", pelas perguntas que me foram colocadas nos últimos dias, acabe por não ser aferida. 
Por exemplo, foi me perguntado "se valia mesmo a pena ler as obras de leitura obrigatória dos últimos três anos" ou se "Carlos da Maia teria sido influenciado pelo Ano da Morte de Ricardo Reis"...

18.6.18

Os professores e as circunstâncias extraordinárias

No caso dos professores, os factos são claros. Primeiro facto: o Governo prometeu e agora vem dizer que não pode cumprir. Segundo facto: o prometido é devido, ou como diz o primeiro-ministro António Costa, palavra dada, palavra honrada”, afirmou. Para o líder parlamentar do PSD “só circunstâncias extraordinárias podem justificar que assim não seja”. (Fernando Negrão) Cinismo político

Cavaco de cínico: Para quê pedir mais sacrifícios aos professores?

Afinal, para o ano há eleições. Com o PSD vencedor e partido do Governo, o degelo será total: atualização salarial, progressão na carreira, redução do horário de trabalho, reforma antecipada sem penalização, diminuição do número de alunos por turma, formação de professores, modernização de equipamentos, nada irá faltar!
É só um pouco mais de paciência… a não ser que da toca voltem a saltar «as circunstâncias extraordinárias»…

(atualização)
O presidente do Partido Social Democrata (PSD), Rui Rio, acredita que o país não está em condições para pagar aos professores todo o tempo de serviço congelado. Clarificação

Afinal, os professores não podem esperar pelo PSD!

17.6.18

O pensamento crítico ainda não chegou ao fim

O antropólogo britânico Jack Goody explica na sua obra “Domesticação do Pensamento Selvagem” que o pensamento crítico só é possível quando conseguimos ler um texto duas vezes e repensar o que lemos para podermos distinguir entre o bem e o mal, entre verdade e mentira. Quando o processo de comunicação se torna vertiginoso, assente em multicamadas e extremamente agressivo, deixamos de ter tempo material para pensarmos de uma forma emocional e racional. Ou seja, o pensamento crítico morreu! ( Franco Berardi) O pensamento crítico 

Toda a entrevista do filósofo italiano dá que pensar, mas o que em mim tem mais impacto é «a ideia de que o pensamento crítico morreu», não pelo facto em si, mas por uma razão elementar - deixámos de ler devagar. Isto é, deixámos de ler várias vezes, de procurar interpretar, distinguir o trigo do joio…
Esta razão primeira é aquela que eu sempre considerei como estratégica para quem tem a missão de ensinar a ler / ensinar a aprender a ler, correndo o risco de ser enfadonho e retrógrado…A vertigem comunicacional é, por seu turno, a maior das formas de alienação capitalista atual…
E ler, saber ler, é o trampolim para o combate, mesmo daqueles que preferem o imobilismo. 
É certamente por isso que no tempo de que disponho, vou continuar a insistir na leitura literária e filosófica, apesar da escolástica jesuítica...

16.6.18

O meu campo é o tempo

«L'absurde ne délivre pas, il lie. Il n'autorise pas tous les actes. Tout est permis ne signifie pas que rien n'est défendu.» Albert Camus, L´homme absurde.

Nascido e criado num mundo essencialista, levei algum tempo a rejeitá-lo. A dado momento, atraído pela visão existencialista sartriana, vulgarizada, em termos literários e ensaísticos, por Vergílio Ferreira, caí num niilismo que me provocava calafrios, pois, apesar de tudo, para mim, a liberdade não poderia ser absoluta pelo mal que traria ao Outro, ao Cosmos, ao futuro de ambos…
A necessidade de negar o determinismo conduziu-me a um princípio enunciado por Goethe: «o meu campo é o tempo.» Dito de outro modo, fiz minha a ideia de que sou o meu tempo, nem o anterior nem o ulterior, o que não significa amputar e rejeitar as raízes nem alhear-me das consequências dos meus atos.
Esta consciência da situação em que encontro ajuda-me a separar o trigo do joio numa época em que a morte do Outro se tornou num vulgar gesto instantâneo...

15.6.18

Triste vida!

Não costumo falar de futebol, sinto-me enjoado sempre que ligo a televisão e verifico que o Estado nada faz para acabar com as máfias que vivem do futebol, cansa-me que se desperdicem dias inteiros em torno de jogos que duram pouco mais de 90 minutos, mas vejo-me obrigado a reconhecer que dum jogo pode depender a felicidade dos povos - triste vida!
Talvez seja por isso que, hoje, horas antes de Cristiano Ronaldo entrar em campo, no Portugal-Espanha, a notícia seja:
Cristiano Ronaldo está disposto a pagar 18,8 milhões de euros ao fisco e aceita dois anos de pensa suspensa, após reconhecer quatro delitos fiscais de que foi acusado, avança o jornal espanhol El Mundo. CR7 delinquente

Entretanto, como pode acontecer que algum aluno do 12º ano ainda esteja a empanturrar-se do costumeiro paleio vendido pela máfia das editoras, relembro que, na disciplina de Português, o fundamental é compreender, interpretar e redigir respostas adequadas às perguntas, se possível num registo de língua cuidado.
Como proposta de atividade de rememoração, capaz de satisfazer todos os requisitos mencionados, deixo, aqui, um poema de Manuel Alegre: 

Fernando Pessoa

Vem ver agora o meu país que já
não tem Camões nem Índias para achar
só tem Pessoa e o império que não há
sentado à mesa como em alto mar.

A viagem que faz é só por dentro
e escreviver-se a única aventura.
No pensamento é que lhe dá o vento
ele é sozinho uma literatura.

Eis a vida vidinha cega e surda
ditadura do não do só do pouco.
Ser homem (diz Pessoa) é ser-se louco.

Heterónimo de si na hora absurda
Viajando no sentir escreve sentado.
E é Pessoa: “futuro do passado”.
Manuel Alegre, Sonetos do Obscuro quê (1993)

14.6.18

A flor de tília da árvore do centenário

A árvore do centenário vingou. Oferece-nos a flor para que possamos preparar uma infusão que  acalme os  alunos, agora que os exames vão começar, e que alivie os professores da tosse seca típica de um ano de promessas ministeriais por cumprir...

13.6.18

Borboletas invisíveis II


Estas foram capturadas em Cabeço de Vide, junto às Termas Sulfúreas… 
O pronome parece não ter antecedente, o que é grave, pois, por definição ele substitui um nome.
A verdade é que estas borboletas existem, mas para mim tornaram-se mais invisíveis do que eu próprio.
O mesmo acontece com a água da piscina (tanque?) fluvial. Passa ali um fio água, que se perde pelas fendas  e se evapora quando o calor se intensifica…

E quanto ao cheiro a enxofre, o meu olfato nada me disse, talvez por ter perdido o /c/.

12.6.18

E nem uma palavra!

Só a vitrine separa o olhar da realidade numérica. Tudo parece claro, legível… e nem uma palavra! Talvez a luz tenha anoitecido e o sol se tenha eclipsado.
A própria Fortuna terá desertado, ciente de que nada pode fazer. Deixá-los sonhar!

11.6.18

Ipsos germanos indigenas

Ipsos Germanos indigenas crididerim minimeque aliarum gentium adventibus et hospitiis mixtosCornelii Taciti, De origine et situ Germanorum


 ( Acredito que os germanos são naturais da própria terra e nunca se misturaram com povos de outras regiões…)

A razão de tal isolamento atribui-a Tácito à dureza da terra e à severidade do clima e não a qualquer preconceito de sangue…
Pode ter sido assim em tempos remotos, mas, nos últimos séculos, tudo mudou, infelizmente.

Obras de milhões no Camões

Liceu Camões vai receber obras de milhões Que belo título!
A notícia há muito esperada, mas o título surge envenenado:

O concurso internacional para as obras no Liceu Camões, em Lisboa, que espera há anos por uma intervenção, vai avançar até ao final do mês e envolve um investimento de 12,46 milhões de euros, segundo o Ministério da Educação.

Apesar de tudo, esperemos que a obra não encalhe nas manobras da geringonça...

10.6.18

Recanto

Jardim da Gulbenkian
«Je veux savoir si je puis vivre avec ce que je sais et avec cela seulement. (…) Je veux seulement me tenir dans ce chemin moyen où l'intelligence peut rester claire.» Albert Camus, Le suicide philosophique.

A formulação tranquiliza, mas a verdade é bem mais cruel: vou ter que viver com o que nunca chegarei a saber, desejando que a inteligência me ajude a encontrar os recantos mais aprazíveis, onde possa afastar-me da prepotência da tirania das horas e dos ditadores do momento...

9.6.18

Portugal fora da rota angolana

Se alguma coisa ficou demonstrada pela viagem de Estado do Presidente angolano à Europa, que passou também por Espanha, embora aqui a título não oficial, é que na nova era da política externa angolana Portugal não estará no epicentro. Portugal não é importante para Angola

Angola precisa de capital, de investimento.
Portugal precisa de exportar "trabalhadores", uns mais classificados do que outros, é verdade. Mas será que chega? 
Não. Sem capital, não há investimento, não há trabalho.
O que falta a Portugal é capital. Porquê? 
Porque uma boa parte dos recursos financeiros tem sido desviada para alimentar o hedonismo das novas elites portugueses e angolanas…
Porque, apesar do que se propagandeia, a cultura lusófona mais não é do que propriedade de uns tantos literatos bem instalados…
Porque é difícil libertarmo-nos da ideia imperial de uma variante europeia normativa da língua portuguesa.
Porque na era da globalização, não é assim tão difícil mudar a língua oficial - o inglês é a língua do capital. Ou será que há outra?
Porque, no passado, não soubemos tratar os povos angolanos como "iguais" e, no presente, não nos conseguimos libertar de múltiplos preconceitos que não é necessário enunciar.

8.6.18

A confidencialidade de Jesus

Jorge Jesus revelou esta sexta-feira numa palestra promovida pelo International Club of Portugal a existência de uma cláusula de confidencialidade que o impede de falar sobre o Sporting.Pai, afasta de mim…

Jorge Jesus está impedido de falar do Sporting, isto é, do que se passou nos últimos meses, designadamente em Alcochete. Por quem?
Será que se a Justiça o convocar, Jesus se recusará a falar em obediência a tal cláusula? 
Por este andar, o Redentor ainda acaba no Inferno, a não ser que se converta ao Islamismo, onde, como se sabe, esse tipo de cláusula pode ser objeto de 'fatwa' que o liberte do anátema cristão…

7.6.18

Taciturno

Sobre Tácito, sabemos muito pouco. Até o apelido familiar pelo qual hoje é conhecido (Tácito/Tacitus) é um adjetivo que exprime algo como não manifesto, não expresso, reservado. O que podemos afirmar sobre a sua biografia e personalidade são em parte conjeturas que resultam do cruzamento de dados soltos entre a história do seu tempo e a sua própria obra histórica. Provavelmente nasceu em meados dos anos 50 d. C.; foi senador e chegou a cônsul (em 97) e procônsul da Ásia (110-113); fez parte da elite social e económica da Roma do Principado e alcançou o topo político que a sua época lhe oferecia. Abandonou a administração imperial para se consagrar inteiramente à História. Tácito


(De Cornelii Taciti, conservo a obra De origine et situ Germanorum, cuja leitura há muito abandonei, mas que volto a folhear…e verifico que tempos houve em que dei muita atenção aos lugares e aos costumes dos povos germanos…tudo em Latim)

Por estes dias, prefiro a reserva a pronunciar-me sobre as manobras em curso… Prefiro até revisitar Tácito, mesmo que a tarefa me imponha o recurso continuado ao dicionário…

6.6.18

No dia em que fui de férias

Neste dia 6, terminei mais um ano letivo. A opinião pública dirá que entrei de férias, indiferente ao período de avaliações que amanhã se inicia e ao período de exames que se avizinha e cujo termo está marcado para 31 de julho…
De qualquer modo, as boas almas não se cansam de me desejar "boas férias" e perguntar se volto para o ano, quer dizer, se, depois das férias, não me aposento…
O ano letivo que agora termina foi cansativo - um novo programa e novos alunos em fase de conclusão de ciclo. 
A verdade  é que me é difícil persuadir os alunos (nem todos, felizmente!) que ainda há qualquer coisa que, todos, podemos aprender. A dificuldade é fruto do convencimento de que temos ideias sobre tudo e que as nossas ideias são tão válidas como as alheias, mesmo que todas juntas não tenham qualquer préstimo…
Conceber uma ideia, experimentá-la, avaliar a sua pertinência não faz qualquer sentido para quem se habituou a "achar" que as ideias são inatas, e como tal de nada serve procurar-lhes a raiz, seguir-lhes o desenvolvimento, situá-las  e confrontá-las... 
No dia em que vou de férias, lembro-me sempre do Bexiguinha (Aparição, V.F), pronto a testar a sua natureza divina, pois há sempre quem tenha a ideia de que, injustiçado, o melhor a fazer é proclamar a sua superioridade inteletual, o seu insuperável desdém...

5.6.18

A verdade da aranha

«En psychologie comme en logique, il y a des vérités mais point de vérité.» Albert Camus, Le raisonnement absurde.

Indignar-me, só no momento. Não tenho tempo para mais. É por mais evidente que a soma da verdade de cada um não perfaz a Verdade. Nem ela é possível ou, em último caso, não está ao meu alcance…
Mais sossegado, avanço na teia, calibro todos os nós que a constituem, na esperança que ela não desfaça a minha verdade do dia - cada indivíduo merece uma oportunidade, mesmo se cretino…
E para que o meu sossego não se desmanche, por favor, não me falem em nome da Verdade e muito menos em nome da Justiça!

4.6.18

O ministro da educação, vítima de notícia falsa (!?)

O ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, confirmou hoje que os professores não vão ter contabilizado qualquer tempo de serviço congelado por terem falhado as negociações com os sindicatos. Um ministro à deriva

Esta notícia deve ser falsa. Porquê? 
Porque o ministro fizera uma promessa a todos os professores que uma parte do tempo de serviço congelado iria ser contabilizado. Parece agora que essa promessa fora feita a 22 sindicatos de professores (não sei se é possível confirmar o número!) e não a todos os professores… E como os, entretanto, 23 sindicatos querem um descongelamento total, o senhor ministro, ignorando que as promessas são para cumprir, decide castigar todos os professores - diga-se que uns tantos já não lhes adianta o descongelamento, pois estão cada vez mais próximos da incineração ou da corrupção dos corpos…
E, como não poderia deixar de ser, o senhor Miguel Sousa Tavares lá veio dar mais uma bicada nos professores, profundo ignorante em matéria de remunerações e progressões, como comprovou, de imediato, ao defender a remuneração acrescida dos médicos, na qualidade de funcionários públicos… nestas coisas, há uns que são filhos e outros que são enteados! Ou será que o SNS lhe faz falta e a Educação, não?

3.6.18

Por pouco tempo!

 Antes, era assim - 29 de abril de 2018...
31 de maio de 2018, ficou assim. Por quanto tempo?

Pode ser que a época dos incêndios não chegue, a Natureza, porém, não deixará de seguir o seu caminho…
Pelo caminho, uns tantos enriquecem à conta da falta de meios dos proprietários. Por sua vez, o Estado, providente e previdente, já abriu a caça à multa...

2.6.18

Borboletas invisíveis I

 «Toutes les grandes actions et toutes les grandes pensées ont un commencement dérisoire.» Albert Camus, Les Murs Absurdes...

... 'dérisoire' é um dos poucos termos que sempre me deu que pensar, que nunca soube traduzir, apesar do suposto 'ridículo' em que vivemos, da 'insignificância' das nossas vidas.
Camus conforta-me ao relativizar os meus atos, pois as grandes ideias, quanto ao seu parto, não se distinguem em nada das minhas, ridículas, fúteis e inúteis... 


Talvez por isso tenha cedido a ir visitar a Quinta Conde de Arcos, aos Olivais. Dos viveiros às hortas comunitárias, das borboletas brancas (invisíveis nas fotos) ao majestoso dragoeiro, só as couves 'baceleiras' despertaram verdadeiramente a minha atenção. E porquê? 
Porque me fazem recordar um prato designado "papas de sarrabulho" que, no entanto, era confecionado com a referida couve baceleira migada e misturada com farinha de milho e um eventual ovo...
Porque atualmente, a informação disponível ignora esta variedade de couve que lembra o arbusto resultante de um bacelo selvagem e porque, em tempos de riqueza gastronómica, não há sarrabulho sem carne de porco, galinha e não sei que mais... 

1.6.18

Sem-abrigo com abrigo!?

O Presidente bem clama a favor da integração dos sem-abrigo e confirma, agora, que o plano está a avançar.Os sem-abrigo na agenda política

Pode ser que sim, embora me pareça que esta realidade social é demasiado dinâmica para que possamos confiar num plano tão bem calendarizado - os sem-abrigo morrem e outros ocupam-lhes o lugar, indiferentes ao voluntarismo presidencial... O país empobrece e o número dos sem-abrigo cresce.


Entretanto, vale a pena registar que os sem-abrigo já descobriram abrigo junto do edifício da Altice nas Picoas, até porque esta parece nem sequer cuidar do mato que medra à sua volta...

31.5.18

Limpeza no Santuário em dia de Corpo de Deus

 A Solenidade Litúrgica do Corpo e Sangue de Cristo, conhecida popularmente como "Corpo de Deus", começou a ser celebrada há mais de sete séculos e meio, em 1246, na cidade de Liège, na atual Bélgica, tendo sido alargada à Igreja latina pelo Papa Urbano IV através da bula "Transiturus", em 1264, dotando-a de missa e ofício próprios. 


Não participei na Solenidade Litúrgica, o que, espero, não agrave a minha situação aos olhos do Divino, pois guardei o dia para limpar, em fim de prazo, terrenos, certamente, abençoados, pois num deles encontrei uma placa, em que se destaca o termo SANTUÁRIO...
Ninguém me pediu autorização para a lá colocar, mas, segundo me dizem os entendidos, doravante posso caçar naquele bendito terreno...

30.5.18

Antissocial?

Preocupa-me que os Estados andem preocupados com o nascimento e a morte dos cidadãos. E depois há todos aqueles - grupos, associações, amigos - que, sempre que o Estado se agita, decidem tomar partido, esgrimindo dogmas a favor ou contra, embora se confessem defensores das liberdades individuais (no plural), sem esquecer todos os titulares de cátedra religiosa e laica...
Tanta agitação para quê? E ainda dizem que uns ganham e outros perdem e deitam foguetes e ameaçam voltar à carga - versão bélica do humano.
Desconfio que me estou a tornar antissocial. Ou será sintoma de anarquismo?

29.5.18

EU + THANATOS = Morte sem dor

«Il n'y a qu'un problème philosophique vraiment sérieux: c'est le suicide. Juger que la vie vaut ou ne vaut pas la peine d'être vécue, c'est répondre à la question fondamentale de la philosophie.» Albert Camus, L'absurde et le suicide.

Se eu bem entendo a essência da questão, o que está em causa é o SENTIDO DA VIDA... e só o próprio vivente é que deveria decidir o que fazer da sua vida. Não os parlamentos, onde os filósofos são raros... e provavelmente sábios para se absterem... 
Por mim, a dor individual não é matéria que possa ser legislada, tal como o prazer... 

Vamos lá regatear!

Aluno: - Quando é que faz a autoavaliação?
Surpreendido, o professor replica: - Quando é que apresenta oralmente a obra selecionada no âmbito do projeto de leitura? - E trabalho escrito, apresentou algum durante o ano?
Resposta do aluno: - O que é que isso tem a ver com a autoavaliação?

Este professor ainda é daqueles que pensa que lhe compete criar as condições para que cada aluno possa expor o modo como terá cumprido os critérios de avaliação, mas isso, afinal, não tem qualquer significado...

Sob uma amoreira, acabo de ver um papá babado com o filhote ao colo, incitando-o: - «Meu lindo menino, já deve chegar, mas é como tu quiseres, faz o que te apetecer!»

Ele nem precisa de regatear!

28.5.18

Podem os sindicatos de professores ser felizes?

A notícia da greve às avaliações no final do ano parecia refletir ameaças recentes, aceitáveis por muitas razões... só que o detalhe envenena: estas só terão início a 18 de junho, deixando de fora as avaliações do 9º, 11º e 12º anos. Consequentemente, os exames não serão postos em causa...
A meu ver, estas manobras sindicais só prejudicam os professores, contribuindo para o descrédito social da classe.

27.5.18

Com três sílabas...

A 'árvore' tem três sílabas tal como a 'palavra' - o 'homem' só tem duas, o mesmo acontecendo à 'mulher', a não ser que se chame Maria...
A 'árvore' não engana. Tem raízes, tronco e ramagem. Já quanto à 'palavra', nem sempre exprime lisura, embora, por vezes, seja expressão de secura...
Até o 'espírito' é constituído por três sílabas, apesar de andar longe da santidade. Basta recordar que, certo dia, "visitou" (forma eufemística para os dias de hoje) Maria, deixando-a grávida sem ela ter conhecido homem...
Serve a presente nota para mostrar a minha preferência pelas 'árvores'. De todas as criaturas, só elas me inspiram, porque, para além das estações, elevam-se aos céus sem terem necessidade de ludibriar - sem necessidade de que o espírito desça sobre elas...

26.5.18

O chinelo

Cai pela ribanceira abaixo. Joelho esfolado, mãos arranhadas. Tem vontade de chorar. Mas para quê?
Sacode a poeira, disfarça o rasgão e volta a subir a encosta, como se nunca tivesse saído do trilho...
Sabe de antemão que terá de prestar contas, experimentar, na melhor das decisões, o chinelo... De sola, o chinelo, que melhor seria que fosse de pano ou até de cortiça - modernices!
Fiquemo-nos pelo chinelo, bendito! As alternativas já experimentadas eram muito mais dolorosas, hoje, dir-se-ia, gravosas, pois habituámo-nos a formular juízos de valor condenatórios porque queremos estar de bem com a opinião, pondo de lado a consciência...
Depois de tanta queda e da eliminação do chinelo, mesmo se de pano, vejo-me sem saber se ainda há consciência, se ela era uma imposição cultural ou uma exigência pessoal...
O que eu sei é que só posso usar o chinelo no pé, em casa, na praia... até posso de ir de chinelo para a escola que já ninguém reclama...

25.5.18

Na ilha da Madeira

«Uma flexibilidade de 25% na forma como as escolas trabalham os currículos, fusão e permuta entre várias disciplinas, são algumas das ferramentas que as escolas vão poder beneficiar por via de um decreto de lei.» Tiago Brandão Rodrigues na ilha da Madeira

Com uma autonomia reduzida a 25% - para onde é que vão os restantes 75%? -, os professores, em nome do supremo interesse dos discentes, vão sentar-se a discutir graciosamente os pontos em que os curricula se interpenetram ou, até, os pontos em que a inteligibilidade de uns depende da aquisição dos outros... Será que estão preparados para tal tarefa?
Em reuniões breves e clarividentes, serão construídos 'transprojetos' - que a pluri - e a interdisciplinaridade já tiveram melhores dias! - a executar no próximo ano letivo... se a opção não for a da corrosão disciplinar (fusão)... tudo apadrinhado pelas novas tecnologias de bolso que, entre outras soluções fabulosas, vão finalmente libertar os docentes da agrura de corrigir e classificar testes e exames...  Se se optar pela corrosão disciplinar (fusão) é mesmo possível acabar com o conceito de "ano letivo"...
Pessoalmente, acho que o ministério de educação só falha nos 75% que vai querer controlar, porque se decretasse a autonomia a 100% até poderia encerrar as escolas, despedir os professores...
Desta vez, não vou querer cair para o lado da autonomia... não sei se estão a acompanhar...

24.5.18

Que loucura é esta?

Hoje é o último dia!

Será este o nosso último email?

Que loucura é esta?
Todos querem os meus dados, todos querem que eu os confirme. Se o não fizer, amanhã deixarei de contar... deixarei de ser ... 
Vamos ver se, finalmente, me deixam em paz!
                                          Viva o Regulamento Geral de Proteção de Dados!

23.5.18

Júlio Pomar, os olhos

Em 4 de maio de 2014... «Por trás dos olhos cegos», creio que o verso é de Fernando Pessoa, revela-se no nº 7 da Rua do Vale um atelier museu pensado e desenhado pelo Arquiteto Álvaro Siza Vieira…» (Caruma)

(A verdade é que o verso é de Fernando Pessoa, por ele atribuído a Ricardo Reis.)

E hoje lá fui até ao Alto dos Moinhos e pude ver os desenhos do mestre... Por um dia, apesar de falhado o objetivo da deslocação, valeu a pena ter apanhado o metro.


Júlio Pomar na minha memória caótica surge-me nas palavras de Rui Mário Gonçalves, nas mãos de Mário Soares, nas confidências de José Cardoso Pires e antecipadamente nos versos de Pessoa...

           VIAJAR! PERDER PAÍSES! (...) DE VIVER DE VER SOMENTE!


Por lapso, ontem, não referi o Eduardo Lourenço, sempre às voltas com o passado e o futuro  da nação.  E já, agora, o José Augusto-França, homem que deu assinalável contributo à divulgação das artes plásticas...














22.5.18

Ainda a trabalhar!

Por aqui, o que há mais são afloramentos do que já foi, do que ainda não é nem se sabe se virá a ser, não esquecendo que o que é está pronto a deixar de o ser... dizer que se trata do tempo é vago, genérico, banal... é pensar que se está instalado, bem ou mal, sem saber que o fio pode estar a ser cortado...
Por isso, hoje, vou amputar O Velho de Rui Knopfli:

Não envelheço. Torno-me antigo.
O velho sempre viveu em mim,
sempre o pressenti no olhar
magoado demorando-se nas coisas,
em certa lentidão não premeditada
dos gestos e nas lembranças confusas
de uma outra recuada idade.

O acaso (outra figura do tempo por explicar) quis que, antes de aqui chegar, tivesse dois breves encontros com presenças de outros tempos (uma mais e outra menos idosa do que eu); em comum, a exclamação: - ainda a trabalhar!
O Rui Knopfli que me perdoe, ele, que nunca me encontrou, sabe dar razão à minha temporalidade...

21.5.18

Relances

«... relances há/ em que creio, ou se me afigura, / ter tido, alguma vez, passado // com biografia...»                      Rui Knopfli, Memória consentida, in nada tem já encanto, Tinta da China, 2017

não sei se são relances, se fulgurações...
de súbito surgem breves histórias inteiras...
mas tão distantes que por mais convincentes se perdem em vagares indiferentes
- não cresce ali nenhuma imagem e muito menos uma qualquer hipotipose...
- dizem-me que o imaginário caiu em crise 
- não sei se acredite... não temos nada em comum a não ser o animal acossado

bem replica o Poeta: « cada homem é uma ilha / cega na mais densa cerração.»
... apesar do outro Poeta: «cada homem é uma raça»...

20.5.18

No mundo imundo

(Poucos revelam reconhecer o mérito do adversário...
Poucos sabem respeitar o vencido...)

Vencer é hoje um objetivo maquiavélico.

Até o Poeta, quando ameaça retirar-se do mundo imundo, é acusado de sobranceria, como se a nova ordem o obrigasse a viver na lixeira mental e material que vai crescendo nas mais diversas instituições...
Como se a Arte devesse subordinar-se a populismos insanos.

19.5.18

É já maio!


Em círculos, por vezes, tangentes, reúnem-se os professores.
É já maio, o primeiro-ministro investe tudo na prevenção dos incêndios... 
Entre professores, o tratamento desigual agudiza-se.
É já maio, a classe docente continua desclassificada... é um peso insuportável para o OGE!
É já maio, em Alvalade, o "enfant terrible" revela que a educação é intransmissível...

18.5.18

'mínima gente'

«Il n'y a que dans les romans qu'on change d'état ou qu'on devient meilleur.» Albert Camus

A crença no bom senso e na regeneração do indivíduo não passa disso mesmo. Esperar que ele dê atenção às vozes desafiantes é uma ilusão que só serve para nos desresponsabilizar...

Hoje, voltei a adotar um tom solene e ameaçador para condenar aqueles que, entre outros males, dão diariamente prova de desonestidade inteletual e de falta de respeito pelos seus pares, advertindo-os para um futuro / presente de permanente oportunismo e de desrespeito...

Ao cair em mim, recordei o poeta Herberto Helder:

- e eu pedi ao balcão: dê-me um poema,
e o empregado olhou para mim estupefacto:
- isto aqui é o mundo, monsieur, aqui não se servem bebidas alcoólicas...

17.5.18

Não há vândalos sem maioral

O termo 'vandalismo' como sinónimo de ação destruidora foi cunhado no século XVIII, em janeiro de 1794 por Henri Grégoire, bispo constitucional de Blois.
(...) O vandalismo é a ação de destruir ou danificar propriedade alheia de forma intencional com o propósito de causar ruína. Muitas vezes é um ato gratuito, ainda que possa ser encomendado sem que muitos  dos intervenientes estejam conscientes desse facto.

No caso que tem abalado a nação, os rapazes têm sido acusados de atos de terrorismo. As instituições, como tal, confessam-se chocadas,  defraudadas e até 'vexadas', creio, no entanto, que seria mais apropriado designá-los de vândalos, porque, de facto, eles não revelam querer construir o que quer que seja... eles não percebem até que ponto estão a ser manipulados...
Esta destrinça parece-me útil, pois é bem mais fácil pôr termo ao vandalismo do que ao terrorismo, como a História bem ensina, desde que as instituições deixem de andar de mão dada com tais energúmenos, a começar pelos maiorais.

16.5.18

Voltar a ler...

Ainda sem perceber os vândalos que, ontem, resolveram atacar em Alcochete, apesar desta incompreensão não ser absoluta, pois, todos dias, me dou conta de que as sementes de violência estão a germinar nos nossos jardins, termino a leitura de A Conquista da Felicidade (1930), de Bertrand Russell.
Por acaso, tal aconteceu na pastelaria Charrette, na Avenida Almirante Reis, Lisboa, onde, chatice, não presenciei qualquer crime, a não ser uma velha senhora muito educada, que, um pouco alterada, dava conta às amigas de que se sentia feliz ali, pois lá em casa o marido gritava com ela  e os vizinhos insultavam-se aos outros. A senhora era mesmo muito educada, ao perceber que eu movia a cadeira para me levantar, pediu-me de imediato desculpa caso ela estivesse 'a falar muito alto'... Tranquilizei-a, porque não quis destruir-lhe a alegria da narrativa...
(...)
Na obra referida, Bertrand Russell analisa as condições internas que favorecem a conquista da felicidade, propondo estratégias pessoais que poderão libertar o indivíduo da alienação ideológica e religiosa, sem esquecer o narcisismo...
O caminho é necessariamente individual, tendo, no entanto, como interlocutores: o tempo cósmico, a natureza e todo o homem cujo sonho e ação se rejam por valores universais construtivos.
O conhecimento do passado, apesar de imprescindível, só será útil se orientado para a humanidade futura.
Em síntese, o que esta leitura me proporciona, para além de ter ficado deslumbrado com a competência argumentativa do filósofo, é a vontade de voltar ao início de modo a questionar as minhas indisposições, irritações, caprichos, fobias, e principalmente, a origem das minhas certezas...

                     «Soterrado / Por mil certezas de aluvião.» Miguel Torga