21.10.18

A cadeia de comando na Barataria

As velhas só se sentam no mesmo banco uma ou duas vezes por mês. Têm mais que fazer: substituir os filhos e tratar dos netos, ir à igreja e aos correios, sem esquecer a mercearia de bairro onde as novidades são mais que muitas…
Por exemplo, nos últimos dias, gastaram mais tempo na mercearia, porque alguém se interrogava sobre "a cadeia de comando".
Alguém defendia que não era possível que o Presidente ignorasse quem é que tinha assaltado o Quartel em Tancos, o que é que tinha sido roubado e como… Afinal, o Presidente era o Chefe Supremo, dispunha de vários Serviços de Informações. O próprio Governo não poderia deixar de o informar e até a Procuradoria encontraria forma de o esclarecer. 
A não ser que a "cadeia de comando" também tivesse sido minada e aí o Presidente deixaria de ser Chefe Supremo… ou melhor, continuaria a sê-lo, mas da Barataria… 

20.10.18

O céu das velhas

É das velhas porque lhes basta um banco. Se fosse dos velhos, seria necessário acrescentar uma mesa, de preferência, de pedra…
No céu das velhas, as sensações escasseiam e os pensamentos andam arredios, como convém a quem prefere evitar os cascos dos deuses…
Basta-lhes a palavra lenta e hesitante sobre o ladrão que devolve as armas, tão velhas como elas, e nada acrescenta sobre aquelas que, no fio dos dias, partiram para novas guerras…
As velhas já não ligam a inventários, mas custa-lhes acreditar que aquelas armas chamuscadas sejam as que foram desaparecendo dos paióis do reino… 
As velhas pensam cada vez menos, mas estão, por ora, entretidas com um velho vieira da silva que anda a brincar com as velhas e os velhos deste país… No entanto, estes velhos narcisistas têm o que merecem, pois se imaginam eternamente jovens...

19.10.18

Não sei se o diga...

Não sei se o diga, se o sugira, se o omita… Pouco importa, outros já o disseram, o sugeriram, o omitiram…
De qualquer modo, penso-o e calo-o… Temo, todavia, que já esteja disponível um registo do meus silêncios…
Um destes dias, ainda vou ter de pagar, o que não é grave, pois já pago todos os dias…

(Ontem, ainda havia ruído. Hoje é só silêncio!)

18.10.18

A sorte é uma raposada

A Sorte (boa ou má) instalou-se de tal modo na nossa mente que facilmente aceitamos que ela decida por nós.
Quase toda a Literatura a privilegia, embora sob roupagens várias - do Fado à Fortuna, sem descurar a Sina, a Moira e o Destino… - e nós embarcamos na fantasia de ocultar os verdadeiros fautores, em nome de códigos manhosos.
Vem o desabafo a propósito de quê?
Por exemplo, a propósito daquela inglesa que foi violada no Algarve e cujo violador acaba de saber que por 2.000 euros até terá valido a pena… 
Por exemplo, a propósito da encenação levada a cabo pelo Governo e seus apoiantes em torno da aposentação dos (chamados) grandes contribuintes ou em torno dos aumentos da função pública… ou em torno do descongelamento das carreiras… ou do aumento dos pensionistas…
A Sorte é uma raposada!

16.10.18

A cor da liberdade

(Sem ponto de interrogação. Não se trata de saber se a liberdade tem cor. Mas de viver em liberdade…)
  
Não hei de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
                          
Jorge de Sena (1919-1978)     

Testemunho:
Lembrava-me de um poema já antigo dele, anterior ao seu exílio. O poema tinha a data de 9 de Dezembro de 1956, quando o poeta acabava de fazer 37 anos, vivia ainda em Lisboa como engenheiro e se preparava, a convite do British Council, a se deslocar temporaneamente à Inglaterra, para um estágio sobre betão armado.
Luciana Stegagno Picchio

15.10.18

Basta estar!

A verdade é que eles não querem saber, e não se importam de desperdiçar um tempo precioso… Até porque pensam que a glória não lhes escapará… Basta estar!
À dificuldade dizem não; preferem abrir um link e regurgitá-lo na hora aprazada. O trabalho intelectual não lhes causa dor; é apenas uma maçada…
Os textos perderam a autoria (cansa inquirir a referência); verdades ininteligíveis e enfadonhas sobre almas perdidas…
Deixemo-los estar!

14.10.18

Não basta ter sido uma criança mais ou menos afortunada...

Há dois ou três dias, perguntaram-me o que era uma varinha de condão e eu, que nunca fui muito dado ao mundo da fantasia, não consegui esconder a minha surpresa… Respondi que o melhor era o "menino" ir investigar…
Entretanto, lembrei-me que, na minha infância, me familiarizara com a varinha de vedor - o meu avô materno era um dos mágicos do lugar que conseguia com uma vara bifurcada de oliveira detetar a presença de água…
De qualquer modo, o tempo da varinha de vedor, creio, que já venceu, pois há, hoje, ferramentas de deteção mais fiáveis. O mesmo não terá acontecido com a varinha de condão ou com a varinha mágica. Basta entrar na secção de brinquedos de uma grande superfície comercial para a ver um pouco por todo o lado… 
Pensava eu que bastava ter sido uma criança mais ou menos afortunada para compreender enunciados do tipo:
«A inteligência lembra uma varinha de condão…»
«A mesma varinha, porém, por um uso intenso e persistente, acaba por esvaziar de realidade as coisas…» Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa

Em suma, antes de compreender o paradoxo pessoano, lá terei que regressar a uma infância que não foi minha, e gastar algum tempo a explicar o contributo de Jacinto Prado Coelho para a interpretação da obra de Fernando Pessoa…
Mas como o tempo de atenção é extremamente curto, provavelmente não sairei da loja de brinquedos…

13.10.18

O furacão das televisões

As televisões, a esta hora, digladiam-se pateticamente à procura de imagens de infortúnio. Será em nome do serviço público ou de audiências?
A RTP1 mobiliza todos os recursos tecnológicos e humanos. E os repórteres não poupam nas palavras: prometem agravamento para as próximas horas…
Esperemos que o (a) Leslie não lhes falhe! E que nos deixe dormir tranquilamente!
Por enquanto, o coro das incriminações ainda não se consegue ouvir. No entanto, se a ventania se levantar...

12.10.18

Andava pingarelho na costa

Não sei se Sua Excelência ficou contente ao tomar conhecimento da demissão de um dos pingarelhos mais sisudos do Governo… 
Eu não posso ficar indiferente, pois a notícia esclarece que o "pingarelho se demitiu". A decisão só podia ser sua, afinal, pois esse é um traço específico da espécie a que pertence…
No caso deste pingarelho, por ora demitido, confesso que não sabia que a sua "arrogância" tinha fundamento. A polícia judiciária militar (PJM) não respondia às chefias militares, mas ao pingarelho da Defesa.
A subtileza da questão está em que Sua Excelência, Chefe Supremo das Forças Armadas, deveria, lá no âmago, sentir-se diminuída sempre que se lembrava que no Governo da Nação havia um pingarelho que se ufanava de andar melhor informado, ao ponto de saber que houvera um roubo que nunca o fora…

11.10.18

Há quem não goste do termo 'pingarelho'

Bem sei que há quem não goste do termo 'pingarelho' e que acredite que esta personagem está em extinção, não sendo digna de figurar em qualquer dicionário da especialidade…
No entanto, esta espécie é muito mais visível do que a cigarra… Em trinta segundos, eu consigo visualizar 'pingarelhos' nos Ministérios, no Parlamento, nas Autarquias, nos Partidos, na Magistratura, no Ministério Público, nas Forças Armadas, nas Universidades, nas Igrejas, nos Sindicatos, nos Clubes de Futebol, nos Hospitais, na Comunicação, dita, Social…
Esgotei os trinta segundos…

10.10.18

As competências do pingarelho

Quero primeiramente esclarecer que a noção de competência corresponde a uma combinação de conhecimentos, aptidões e atitudes adequadas ao contexto. (Isabel Simões Dias, Competências em Educação…)

O pingarelho é competente discursiva e comunicacionalmente, embora, por falta de conhecimento, não tenha nada a informar. 
A relação de interlocução do pingarelho é fácil, pois as armas a que recorre são as da estupidez…
O pingarelho revela um raciocínio lógico, pois, axiologicamente, o mundo divide-se em Bem e Mal, em Verdade e Mentira. Para o pingarelho, os demónios do Mal e da Mentira devem ser combatidos com recurso às armas mais mortíferas.
O pingarelho mostra-se confiante nas outras pessoas, desde que estas o sigam submissamente.
O pingarelho é um gramático extremamente competente, porque manipula as regras como ninguém. A sua felicidade maior é ordenar os homens e a natureza, vendo-os como nós de uma engrenagem em que as exceções são inadmissíveis.
No mundo do pingarelho, a competência estética é extremamente perigosa a antissocial.
O pingarelho odeia a cultura e a ciência, a não ser a da submissão e a do extermínio.
O pingarelho não é recuperável, porque a competência é de ordem interna, e a educação, para o pingarelho, só é aplicável ao rebanho. 

(Os pingarelhos crescem mais facilmente em ambientes abúlicos e nihilistas.) 

9.10.18

Chega de pingarelhos!

Leio certas notícias, volto-as do avesso, não para distinguir as verdadeiras das falsas, mas para lhes apreciar a cor - sobre o amarelo cresce o branco a transformar-se numa crosta esverdeada, azulada - a diluir-se numa aguadilha nauseabunda…
Neste lugar húmido e escuro, a notícia é, agora, fungo à solta, que, expressão de uma moral castradora e autoritária, se prepara para estrategicamente aniquilar o que resta da democracia…
Chega de pingarelhos!

8.10.18

Desnorteada, a moral

A História não se faz projetando no passado os juízos morais do presente. Jorge de Sena

Desnorteada, a moral abriu caça às bruxas, o que conduz a um ajuste de contas permanente.
O problema é que a moral atual já não corresponde ao sentimento de uma comunidade... e, como tal, a própria comunidade corre o risco de se tornar na maior vítima de interesses inconfessáveis.
Por aqui (espaço urbano), não há eucalipto que escape! 

7.10.18

A lógica de Recep Tayyip Erdoğan

O Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, declarou esta semana que “não pode haver democracia com meios de comunicação social” porque estes não refletem o que pensa o povo. “Se há um povo, há democracia. Se não há um povo, não há democracia. Com os meios de comunicação e essas coisas, não pode haver democracia”, afirmou Erdoğan na quarta-feira, ao discursar em cerimónia de inauguração do novo ano escolar na Turquia. Os meios de comunicação social e outras coisas…

Argumentário do ditador educador
  1. O povo pensa, como entidade coletiva, imaculada e iluminada.
  2. A democracia é a expressão política do pensamento do povo.
  3. Os povos são todos democráticos.
  4. Os meios de comunicação social e as redes sociais corrompem o povo.
  5. Os políticos, para executarem a vontade popular, não podem ter medo da comunicação social…
  6. A nova democracia turca baseia-se na relação direta entre o líder (Recep Tayyip Erdoğan, o intérprete) e o povo.
Consequência: "Os meios de comunicação social e essas coisas" devem ser todos extintos.

6.10.18

Basta um cruzado!

Pois é, o dinheiro! Parece que já não compra tudo… Basta um cruzado para dar cabo do negócio!
Por este andar nem o Papa se salva. 
Numa curta ou uma longa vida, há sempre uma piscadela de olho, uma escapadela, um gesto insensato… 
Tempos houve em que os cruzados se contentavam com indulgências mais ou menos principescas. Só que hoje, a fome de vingança é absoluta - não descansa enquanto não devora o carrasco e a vítima, sob o olhar cúmplice da populaça.

5.10.18

A Serpente em Loures

O Presidente da República saudou esta quinta-feira os pioneiros que proclamaram a República em Loures a 4 de outubro de 1910 e pediu que se mantenha viva a democracia "mais com obras do que com palavras", constantemente. A Serpente em Loures

A Serpente, de tão inteligente, antecipou a proclamação da República portuguesa. Este simples facto obriga-me a pensar que não terá sido Deus a criá-la. Então, quem foi?
Talvez o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa saiba… 
E como, em matéria de criação, a inteligência é um requisito essencial, estou sem saber por que diacho se insiste em fazer as comemorações no dia 5. Será por vaidade ou por burrice? 
Até porque aparecem sempre os mesmos...

4.10.18

A Serpente

O tempo está de tal feição que o próprio Diabo deixou de abanar o rabo e decidiu confessar que, também, ele sofreu, desde que a serpente seduziu a eva, todo o tipo de calúnias e de sevícias…
De acordo com certos comentadores, o próprio Deus, cujo papel nesta história é cada vez mais suspeito, pois nunca desmentiu que tenha criado a serpente, corre o risco de vir a ser julgado e, definitivamente, eliminado… 
… a não ser que decida acabar com o estado depressivo em que deixou cair o mundo, pois, já que o criou, deve saber como desfazer-se dele. 
Ao 7º dia, poderá descansar, livre de serpentes, diabos, maçãs, parras, véus,  saias, batinas, chicotes e outros cilícios que não vale a pena enumerar… De qualquer modo, se tiver perdido a ousadia, basta eliminar o dinheiro...

3.10.18

De raciocínio murcho

É isso! Falta imaginação, criativa… apesar da outra,  fantástica, grotesca…
De raciocínio murcho, preferimos a imitação. 
Do quê, pouco interessa desde que queimemos o tempo…
Em todo lado, mesmo na variação, se repete o amuo, o arrufo, o boato, o êxito…
Golpeados pela imagem, sobre a falésia, esperamos que a onda suba…

2.10.18

O corpo da CARUMA

Informa a estatística que, desde abril de 2006, já aqui postei 3316 "posts", que são o corpo da CARUMA… Depois desta Caruma, muitas outras surgiram mais briosas e com maior proveito… 
De certo modo, esta CARUMA feneceu quando a mobilidade cedeu o passo ao sedentarismo. Por preguiça ou por saudosismo o blogue continua, permitindo apontamentos despretensiosos, pessoais ou alheios…
Hoje, aproveito para homenagear as Antigas e Novas Andanças do Demónio,  de Jorge de Sena: 

« à beira de água, as praias, de estreitas são apenas uma ligeira caruma do oceano - que as transporta misteriosamente escondidas na limpidez das ondas.»

Na mesma 'andança', assinala uma ideia que me permito trazer aqui, assegurada a devida distância:

«Talvez porque não eram meus, raras vezes, em pequeno, me demorei perante os grandes mapas murais da escola ou do liceu. Poucos desses mapas não falavam. Havia na minha escola, uma caixa vertical, de onde eles emergiam, ficando suspensos depois como de uma forca, e onde podiam mergulhar de novo, para que outros subissem, era um eterno retorno arbitrado pelo desenvolver-se do programa escolar.»

Na minha escola de outrora, não me lembro de nenhuma caixa vertical, mas a ideia da forca e do cadafalso não me é estranha, só que o enforcado era eu se me esquecesse dos afluentes dos rios e das serras, sem esquecer as linhas férreas com estações e apeadeiros… 
No caso do Jorge de Sena, talvez ainda esteja a tempo de verificar se no Liceu Camões há vestígios das caixas verticais… antes que as obras comecem. 
Que Belzebu não atrapalhe! 

1.10.18

Alegremo-nos, irmãos!

Eis aqui a Igreja neopentecostal "Bola de Neve Church" fundada em S. Paulo, em 1999, pelo apóstolo Rina, pastor, surfista, formado em marketing…

Objetivo pastoral: plantar o maior número de igrejas no menor tempo possível.
Para que conste, descobri um desses templos no bairro do Cristo-Rei, bem pertinho do Seminário dos Olivais e da Igreja católica do Cristo-Rei...

A verdade é que me sinto espiritualmente confortado, até porque já falta pouco tempo para a inauguração da "Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias" (Igreja Mórmon), no Parque das Nações, em frente do Mercado de Moscavide...

30.9.18

Não sou traidor

Amanhã, vou trabalhar, como sempre fiz, porque no lugar onde nasci a maioria era analfabeta… Embora, oficialmente, o analfabetismo seja residual, ponderadas as atuais circunstâncias, não vejo qualquer motivo para alterar o meu comportamento.
Não sou traidor, porque nunca aspirei a fazer parte de uma classe… Até porque, no caso presente, não se trata de luta de classes, mas, sim, de radicalização de posições prejudicial a muitos que a abraçam…
No meu caso, o silêncio seria mais cómodo. Prefiro, no entanto, explicar que o meu compromisso sempre foi com os alunos e sempre será.

29.9.18

Da voz, o silvo

Quando se enfurecia, a voz tonitruava, ouvia-se bem longe. Todos o conheciam pela voz assustadora, cheia de promessas de vergastadas… 
Era baixote, atarracado, trabalhava de sol a sol, mas a terra árida não lhe multiplicava o grão nem lhe devolvia as palavras - seguia um plano de que ele não era parte.
Só a vergasta o acalmava. Quando ela desabava sobre a vítima, ninguém mais o ouvia. Só um silvo repercutia…
Porquê? Não sei. Temo, no entanto, que da voz já só me sobre o silvo, mesmo quando ela se enfurecia porque a terra árida seguia um plano de que ela, por culpa própria ou alheia, não fazia parte.
Há dias em que a terra é toda árida!

28.9.18

A lucidez de Laborinho Lúcio


Quando me falou de olhar o ensino a partir das crianças fiquei com a ideia de que ia falar-me de competências e de vocações...

Sim, há para mim um aspecto fundamental que é este: vivemos perturbados e preocupados com a necessidade de gerar competências, competências, competências. E não nos damos conta de que encharcamos as crianças de tal maneira com competências que nunca chegamos a saber quais são as suas capacidades. Ora a escola tem um período inicial, que pode ser de anos, deve ser de anos, em que fundamentalmente o importante deve ser soltar as capacidades máximas de cada criança. E agora que eu conheço a capacidade máxima de cada criança, então sim, introduzo as competências. Como é que vou saber as suas capacidades? Distinguindo competência do conhecimento. Conhecimento, até há pouco tempo, estava ligado a uma certa universalidade do saber. Hoje, o conhecimento está muito ligado à sociedade de inovação, à criação de valor, portanto, muito comprometido com uma sociedade tecnológica. Mas o conhecimento mais global, mais universal, é fundamental para desenvolver as capacidades, e quando confundimos conhecimento com competência ou o entalamos dentro desta ideia de sociedade de inovação, entulhamos as crianças com coisas que não lhes dizem nada e deixamos de ser capazes de compreender as suas capacidades. Desenvolver as capacidades de uma criança é um dever que qualquer pessoa ligada à escola e à educação. A seguir vamos trabalhar o conhecimento, que já permite desenvolver pensamento crítico, escolher. Competências e capacidades
Se Laborinho Lúcio tem razão, isso significa que, ao entrar no ensino secundário, cada aluno já deverá ter consciência das suas capacidades… isto é, cada aluno levará consigo um registo das suas capacidades, competindo ao professor colocá-lo em situação de… Fazer o quê?

25.9.18

Mediador

Hoje, 25 set., iniciei o dia com uma ideia que fez o favor de se evaporar. 
Atravessei a cidade segundo um plano subterrâneo inexplicável para quem a percorre quotidianamente à superfície, mas perfeitamente aceitável para quem se habituou a viajar de metro…
Hesitei em saudar Mário de Carvalho por ter chegado aos 74 anos. Afinal, há certos gestos que o Facebook insiste que realizemos, independentemente da distância a que vivemos.
Descobri que Fernando Pessoa escolheu o dia de 1 de abril para anunciar que «o poeta é um fingidor.» Admirável sentido de humor!
Conclui que 'ao espalhar por toda a parte' a memória 'daqueles que por obras valerosas / Se vão  da lei da Morte libertando', Camões assumiu definitivamente o papel de mediador, sem o qual o mérito teria o mesmo destino que a ideia matinal
E depois, há aquelas Autoridades que ninguém reconhece como tal - Harold Bloom, Eduardo Lourenço… 

23.9.18

Não vou ...

Não vou abdicar, nem reformar-me, nem a enterrar (espero), vou apenas poupar as palavras de tão vulgares que elas circulam. Por isso não estranhem a minha ausência. 
Regressarei se houver algo de nobre a acrescentar. 
De momento, sinto-me cansado de tergiversações - da moleza mental que medra nas redes sociais.

22.9.18

Pacóvio suburbano

Apesar de tão viajado, de tão condecorado, quem é que se lembra dele? Caído no esquecimento, a contas com uma cunha pacóvia, regressou agora, zangadíssimo com a plebe do Rio, declarando alto e bom som que se recusa a mergulhar com eles, porque são «pacóvios suburbanos».
O uso do valor restritivo do adjetivo 'suburbano' leva-me a pensar (?) que o diplomata não quis deliberadamente referir-se àquela gente de origem obscura que, de tempos a tempos, assalta a grande metrópole, em nome de sombrios valores ancestrais. 

21.9.18

Martins da Cruz abandona os pacóvios do PSD

António Martins da Cruz disse: “Não me revejo em pacóvios suburbanos”. Martins da Cruz
Diga-se de passagem que a vida do PSD nunca me entusiasmou, embora não me seja indiferente, até porque o país muito sofreu sob a batuta de Cavacos, Durões, Santanas e Coelhos…, alguns deles zelosos pacóvios…
O que me espanta é que o ilustre alfacinha Martins da Cruz só agora se tenha apercebido da existência de pacóvios no PSD até porque serviu o "filho de Boliqueime" mais do que uma década…
A verdade é que é difícil encontrar um pacóvio que tenha sido tão condecorado como ele. Pelo menos, 25 condecorações!
Porque será que levou tanto tempo?

20.9.18

Dentro do espelho

«- Quem tem poder, se tem poder, quer que o vejam.
- Porque a política é um espelho - disse o outro. (…) 
- Mas o espelho está sempre presente - disse o outro. (…)
- A verdade é que um espelho é a televisão - disse o caixa.
- Exacto - disse o outro. Um espelho que guarda as caras.
- Tem-nas todas lá dentro e quando nos olhamos vemos a cara de outro.»
                                   Ricardo Piglia, A Cidade Ausente

Quando os estímulos exteriores são muitos, recolho-me na leitura. Só que ela devolve-me o circo… Por mais que faça, não escapo à greve dos enfermeiros, à paralisação dos taxistas, à lição do Professor Marcelo Rebelo de Sousa. 
Todos eles se movem na «caixa», alardeando poder. Todos eles «estão ali» à espera da minha sujeição, do meu reconhecimento…

Atualização

Neste setembro, os plátanos continuam com as mesmas virtudes e os mesmos defeitos, embora sob dupla ameaça - ou os arrancam e a obra avança, ou a obra é adiada, apesar do verdadeiro motivo ser outro.
Tudo se mantém, à exceção de quem deles se ocupava abnegadamente - está de partida…

19.9.18

Da vida nada lhes interessa

Não sei se todos procuram a notoriedade, mas desconfio que sim. O caminho é que parece não oferecer dúvida desde que seja mediático.
Não duvido das suas capacidades - nem as quero avaliar -, mas desconfio que estão convencidos de que pouco serve esforçarem-se, de que o mérito já teve melhores dias, apesar de não quererem saber quais…
Embora alguns saibam que, n'Os Lusíadas, o Poeta vivia amargurado porque os homens do seu tempo nenhum valor atribuíam ao empenho (e desempenho) dos seus antepassados, a verdade é que a glória abonada pela ociosidade, pelo saque e pelos privilégios lhes parece natural…
A imagem tem hoje um tal estatuto que os anjos sem rosto já nem necessitam de penumbra. 
No olimpo das nossas retinas e dos nossos tímpanos, há cada vez mais famosos da Hora - sorriem, dão gritinhos agudos, silabam contentamentos fúteis e mesquinhos... 

18.9.18

A viver no Paço

Não sei se o problema é das calças, se é do sapateiro, se de ambos. No entanto, compreendo que o melhor é esquecer o protocolo, enviá-lo para o museu. A bem da nação, a Sul, o protocolo é colonialista…
O que interessa são os negócios do futuro, de preferência, que os do passado ainda eram resquícios da exploração colonialista.
Vamos lá alinhavar uma parceria fraterna, em que a razão seja determinada pela emoção, esquecendo o ensinamento do Poeta que, apesar da sua experiência austral, nos quis convencer que o coração só servia para entreter a razão…
Por aqui, o problema é o de sempre! Continuamos a viver no Paço...

17.9.18

Talvez, a mãe

Nem a cretinice mata a esperança, nem a desilusão me faz perder a razão. Claro, há enganos, alguns piedosos. Compreende-se que os olhos só vejam o que a vontade lhes ordena - o empirismo pode ser demolidor…
Claro que esta manhã não seria igual a si própria sem um pouco de empáfia - reiterada. E sem os ruminantes costumeiros, sem esquecer os inomináveis…
De tudo o que fica, só a saúde vale a pena. O resto é empréstimo a fundo perdido, embora não saiba se alguém avisou o Costa - talvez, a mãe. Mas quem ouve as mães? 

16.9.18

A mentira do SOL e a verdade de João Costa

«O TALIS é um inquérito respondido diretamente por professores e diretores sobre condições para o exercício da profissão docente: desenvolvimento profissional, ambiente, condições de trabalho, liderança, gestão, carreiras, etc.» (João Costa)
A primeira assenta na arte de empastelar; a segunda, na arte de responsabilizar os inquiridos. Afinal, eles é que fornecem os dados errados...
E os professores continuam a marcar passo, tal como o país…

Hoje, informa-se primeiro e investiga-se depois, caso a mentira seja descarada… Por seu turno, os governantes persistem no erro de pensar que nos deixamos iludir com qualquer estatística levada a cabo por aprendizes de sociólogo e de linguista...

15.9.18

A fingir

«É difícil saber-se se uma pessoa é inteligente ou se é um imbecil a fingir que é inteligente.» Ricardo Piglia, in A Cidade Ausente

A fingir sem nada criar.
Quem cria é inteligente! Como diria Pessoa, é um fingidor. Mas este é exceção.
Temos assim dois tipos de fingidores: um inovador; o outro impostor… O último, por vezes, age involuntariamente, segue a mediocridade do meio, acreditando que o modelo é suficiente - bastará copiá-lo para poder singrar…
Estou de regresso à tarefa de fingir que sou capaz de distinguir, para além da carapaça, os criativos dos imbecis. Para o efeito, mais do que ver, vou necessitar de ouvir atentamente, sem me deixar iludir por essa cascata de ouropel que nos cerca...

14.9.18

Nada de mal!

Ricardo Ferreira, que foi assessor do antigo ministro da Economia Carlos Tavares, considerou hoje "natural" e não ter "nada de mal" ter saído do Governo para a EDP em 2005. É natural sair do governo e ir para…

Com tal conceito de "mal", o que não é "natural" é ter integrado um Governo de Portugal… 
O problema começa no modo como se "entra" para a política sem ter aprendido a distinguir o "bem" do "mal", a "verdade" da "mentira"... Em termos de 'educação para a cidadania', estes conceitos deveriam merecer particular atenção…
Nem sei por que motivo dou atenção a este tipo de declarações, mas irrita-me que as consideremos "naturais" e que não tenham "nada de mal"...

13.9.18

A rejeição

O pedido de liberdade condicional da investigadora Maria de Lurdes Lopes Rodrigues, presa por crimes de difamação e injúrias a magistrados, foi rejeitado pelo Tribunal da Relação de Lisboa. Uma justiça cega

Não conheço a senhora nem sei se ela terá agredido fisicamente algum magistrado, estranho, contudo, que o Tribunal da Relação não aceite o pedido - gostava de conhecer a argumentação.
Num país onde tantos casos lesivos do interesse público continuam há anos por decidir, onde tantas penas continuam por aplicar, não compreendo a mão pesada do Tribunal da Relação, independentemente dos magistrados injuriados terem direito ao bom nome...

12.9.18

O racional específico

«Uma consciência histórica do mundo não faz parte do Mito Americano - que, por orgulho de Povo Eleito, não pode deixar de desconfiar de que a História como tal é por certo uma invenção suspeita, uma malignidade peculiar ao Velho Mundo para envenenar a América, impondo-se como passado a ela.» Jorge de Sena, in Os Americanos e a História, e Portugal,1969.

Ler este ensaio esclarece quanto à natureza do pensamento do atual Presidente dos Estados Unidos. Para Trump, o passado identifica-se com o Mal. Como um entrave à execução do seu sonho… Ele fez-se eleger para cumprir o seu próprio destino…
Estas considerações podem parecer absurdas, mas o mesmo se passa atualmente em Portugal, um país sem História, que é necessário tratar como uma criança. É necessário mimá-lo, ensinar-lhe os mínimos (aprendizagens essenciais), sem ir além do «racional específico», isto é, ignorar a História e maltratar todos aqueles cuja função é assegurar a ligação ao passado e abrir as portas do futuro.
No entanto, em Portugal, ao contrário do que acontece nos Estados Unidos da América, esse trabalho é delegado nos pasquins de serviço…
Se não perceberem o título, recomendo a leitura do Despacho n.º 8476-A/2018 , de 31 de agosto. 
Cheira a Estado Novo, mas por salutar ignorância… 

11.9.18

Códigos QR na nossa pele?

De acordo com um novo relatório da organização não governamental Human Rights Watch, a China está a instalar códigos QR nas habitações de muçulmanos Uigures. O objetivo é ter acesso imediato a dados pessoais dos seus moradores e controlar as suas atividades. códigos QR-nas-casas-das-minorias-muçulmanas

O que é um Código QR?
Os QRs (quick response codes ou códigos de resposta rápida) são gráficos 2D que permitem aceder ao conteúdo de páginas WEB, através da captação de imagem. O link para as páginas WEB é acionado automaticamente quando a imagem é captada por um smartphone, tablet ou computadores com webcam, desde que equipados com aplicações de leitura e acesso à Internet. código QR

Peço desculpa pelo abuso de citação, mas a verdade é que me sinto cada vez menos livre. Não é que eu tenha alguma coisa a esconder, mas pela notícia parece que todos escondemos algo que pode ser aproveitado para nos condicionar, seja pelas empresas, seja pelos estados, seja por todo o tipo de organizações…
Sinto-me cada vez mais infoexcluído e, ao mesmo tempo, comprendo que essa exclusão será fatal a todos aqueles que abdicarem do conhecimento ou que se deixem manipular pelos pregadores das velhas utopias.
Já não se trata de recusar certas ferramentas, mas, sim, de aprender a utilizá-las para podermos responder…
Depois da nota social, Caruma 26.3.2018, a China volta a atacar...

9.9.18

Escrita única

Matagosa, 9.9.2018
Há dias em que basta levantar cedo, sair de casa e caminhar sem objetivo expresso, a não ser observar o que a Natureza nos prepara…
Este é um desses dias em que a Natureza ensimesmada se debruça sobre si própria e nos deixa extasiados…
A nós a possibilidade de registar o momento de uma escrita única que nem o pintor será capaz de reproduzir.

8.9.18

O que dizer?

Pouco há a dizer. Terra ardida, terra esquecida ou rapidamente coberta por novos eucaliptos…
Em termos de negócio, compreendo a opção. Só não entendo é porque não são criadas zonas interditas, por exemplo, de um dos lados das vias rodoviárias - bastariam 500 metros limpos de qualquer vegetação para criar zonas de interrupção do fogo e de proteção de pessoas, casas, estradas…
A sensação com que fico é que os nossos governantes deveriam ser obrigados a viajar, por exemplo, na N2, uma ou duas vezes por ano, como propunha Almeida Garrett ao defender a lei da responsabilidade política.
E já agora os senhores da ALTICE deveriam acompanhá-los para perceberem que a oferta da empresa é extremamente deficiente em tempo normal. O que dizer em tempo de fogos?

7.9.18

Olhos cegos

Se eu me chamasse Julio Cortázar, sonharia que era albufeira… e até árabe. Até, talvez, fosse a lagartixa que se esconde no mato ou o gafanhoto que esvoaça sobre o arbusto - nenhum deles parece interessado em entabular conversa…
Este tipo de metamorfose só é verosímil no pretenso sonho de um argentino a viver numa metrópole europeia, Paris, de preferência…
Na albufeira há, no entanto, vida para além do sonho - uma vida audível, embora não visível mesmo tendo descido até à margem.
Se esta noite eu descer às escuras, talvez o sonho se desfaça...

6.9.18

Para aqui chegar

Albufeira, em Matagosa
Para aqui chegar foi preciso atravessar um extenso território repleto de jovens eucaliptos.
Daqui a três anos, não haverá casas queimadas, apenas os incautos que circulem na N2. 
Alerto desde já que a Altice não cobre devidamente esta zona do concelho de Vila de Rei.

5.9.18

Não vale tudo!

Da ferrovia, passando pela floresta, pela banca e pelo futebol, à saúde e à educação, não vale tudo.
Assistimos permanentemente à destruição de instituições e de serviços, e já nos habituámos a aceitar o seu desmoronamento, sem punir de forma célere e exemplar aqueles que se alcandoram a lugares para que não têm a mínima preparação.
Um exemplo: o aluguer de comboios a Espanha custará no próximo ano 10 milhões de euros - o custo de uma unidade…
Em Portugal, aluga-se quase tudo e produz-se muito pouco…. O lucro não é para quem trabalha nem para quem investe. É para quem intermedeia. Porque será?
Não vale tudo, até porque já vendemos a alma...

4.9.18

O passe social nacional

Por pouco que seja...
Em nome da solidariedade, transformar o orçamento de estado num poço sem fundo é um logro. A ideia de que água é inesgotável não tem fundamento, nem roubando-a ao vizinho…
Parece que está a chegar o passe social nacional! 
Num país em que não há dinheiro para comprar um comboio, para aliviar o imposto sobre os combustíveis, para baixar o custo das portagens, para reparar as estradas, ainda há quem  nos queira convencer que, baixando artificialmente o custo do transporte coletivo, seremos todos mais felizes e que até o ambiente sairá beneficiado… (Isto revela um pensamento político miserabilista e, sobretudo, estéril.)
Não há pachorra! Basta viajar nos transportes coletivos para perceber que não passam de geringonça terceiro-mundista.
Neste clima de café em chávena fria sem princípio nem fim - o poço sem fundo - preparemo-nos para assistir ao crescimento da extrema-direita…

A extrema-direita ganha força por toda a Europa e Portugal é comummente referido como exceção. No entanto, a verdade é que está a reorganizar-se em Portugal, reciclando o seu discurso e formando novas organizações. As atividades têm-se multiplicado nos últimos tempos, seja nas redes sociais ou nas ruas do país, ainda que pontuais e marginais. Em termos eleitorais, este espetro político continua residual - e o primeiro teste poderão ser as legislativas de 2019. De quem é a responsabilidade?

O fim do regime está à porta!

2.9.18

O poço

O poço
O meu país é um poço. Tem alguma água e já teve mais… Hoje em dia vive da ribeira, o que significa que está à mercê do clima e, como se sabe, o clima está à mercê da ganância humana…
Já lá vai o tempo em que este poço alimentava a horta de quem não sabia o que era um supermercado…
Depois o meu país trocou a horta pelo supermercado e a ribeira pelo financiamento externo… Desde essa data, o poço ficou à mercê das silvas e como é visível, os silvas são implacáveis, mas não gostam que lhes lembrem que vivem de subsídios… até que um dia acabarão por morrer de sede…

1.9.18

Uma Esquerda subsidiodependente

Durante muito tempo sonhei com uma sociedade mais justa e pensei que a Esquerda poderia ter um papel importante na realização desse objetivo… uma sociedade mais culta regida por valores humanistas…
Por razões que a História explica, Portugal teve, a partir de 1974, a oportunidade de criar as bases dessa nova sociedade. Mas desaproveitou-a. 
A Esquerda nunca soube promover o desenvolvimento da produção interna - preferiu importar ideias e bens e... assegurar  a sua base eleitoral, recorrendo a uma absurda política de subsídios…
A Esquerda quer subsidiar tudo, aproveitando os fundos europeus, os empréstimos internacionais e tomando de assalto os contribuintes…
Esta Esquerda começa a não ser muito diferente daquela que governa a Venezuela… Agora a Esquerda quer um passe único para a zona metropolitana de Lisboa. E quem vai apagar?

(Da Direita nunca esperei nada, confesso.)

No país dos subsídios, ganha-se cada vez menos. 
Talvez um destes dias, alguém venha a concluir que melhor seria remunerar devidamente o trabalho e, assim, acabar com a subsidiodependência. 
O problema é que não vejo ninguém nem à Direita nem à Esquerda.
Infelizmente, a Esquerda, passados tantos depois da revolução de 1974, continua a produzir pobreza...

30.8.18

Uma vergonha!

Miradouro Panorâmico de Monsanto

Nem sei o que pensar! 
E ainda dizem que em 2017, procederam a limpeza e instalaram segurança…
Se é para deixar o edificado no estado em que se encontra, o melhor é deitá-lo abaixo.
Senhor Presidente da Câmara, Fernando Medina, vá até lá e diga-nos se tal edifício vai continuar no estado em que encontra…

29.8.18

Com a porta fechada

Mesmo com a porta fechada, há forma de se saber se estamos dentro se fora… O que parece é que escancaramos cada vez mais as portas na esperança de que nos reconheçam algum mérito, não interessa qual. 
Desde que superemos o outro, o método pouco interessa. Do outro, esperamos que simplesmente nos dê alguma atenção, que nos inveje…
Talvez seja por isso que começámos a fechar as portas - o outro também quer ser invejado… e chama-lhe direito.

28.8.18

Longe de mim dizer mal...


Longe de mim dizer mal, mas há evidências que não enganam. Estas fotos foram tiradas esta manhã, aqui, na Portela de Sacavém / Loures (?), num percurso de 150 metros...
Evidências de quê? 

- Falta de limpeza
- Falta de organização
- Falta de responsabilidade

Disseram-me, entretanto, que há na freguesia (Moscavide e Portela) um "novo dono disto tudo", que não faz nada a não ser propaganda... Será verdade?
O lixo fica nos passeios esburacados, as plantas medram, as obras de urgência deixam vestígios… até o que devia estar devidamente protegido se oferece despudoradamente aos incautos: crianças, adolescentes desocupados…

Isto não significa que não haja espaços urbanos bem cuidados, o que não se entende é o critério…
Por exemplo, nuns sítios os candeeiros públicos estão apagados, noutros até há lâmpadas "tutti frutti"..., para não ficar atrás da Amadora…
Nem toda a responsabilidade será da Junta - dir-me-ão que é da CM de Loures! Pode ser. Mas para que é que serve a Junta?


27.8.18

O olhar preso

Se a perda de memória impressiona, a fixação em certas memórias ainda impressiona mais, sobretudo, quando o desfecho era inevitável…
O olhar preso destrói a vida, torna-a absurda, como se o único objetivo fosse recuar até um ponto descontínuo e desconfigurado…
Se me perguntam por que motivo rasgo tantos papéis, é porque sei, agora, que eles se tornaram um peso inútil; sei agora que o importante é a sombra das árvores… tanto sol!

26.8.18

O que impressiona

«O que impressiona é a perda da memória, o sair das relações reais… A própria perda da memória insensibiliza. Você não tem ternura nem ódio às pessoas, porque não se lembra delas, não as conhece...» José Cardoso Pires, entrevista ao JL, 21.05.1997

a rasgar papéis, continuo... 
como aquelas oliveiras que não chegaram a ser minhas…
as figueiras, asfixiadas
perdem sentido
porque um dia por pensar
parti
papéis em vez de árvores
Já nem a sombra!

25.8.18

A rasgar papéis

Estou aqui a rasgar papéis,
a rasgar o tempo
e só me lembra a sombra de árvores, 
desejada…
Enchi papéis, 
preenchi o tempo e só choro a sombra das árvores, 
perdidas…
Tenho pena de rasgar estes papéis, 
de rasgar aquele tempo, 
que hei de fazer... 
Talvez ainda sobre uma árvore…
A rasgar papéis inúteis,  
rasgo outro tempo, 
quem quer saber daquelas árvores…
Por mim, deixava aqui todos estes papéis,
todas estas árvores,
não, o melhor é esquecer aqueles incêndios...

24.8.18

O comboio de Caminha

Passava o comboio, nele viajava sua excelência o presidente do conselho. Discreto. Parecia um relógio suíço...
Passava, lento, o comboio, nele o adubo mergulhava na noite que o dia era de sementeira...
Passava o comboio, nele a tropa adormecida seguia viagem sem bilhete de volta. Partia em defesa da pátria do outro lado do mar...
Passa o comboio, vai para Caminha ao encontro do Primeiro. Leva o rebanho, seguro que a Hora não pode ser desperdiçada...
No cais, estamos nós a ver passar o comboio...

23.8.18

Paciência

Praia da Cabana do Pescador
- Eu não tenho paciência para esta Madalena! (Avó)
- Para a bebé ao colo: A Madalena já vem! (Mãe)
Estou à espera que a Madalena surja das águas do mar...
Por enquanto só as bolas de berlim e o ondulado da banda sonora...
À volta, um país rico de sol, de pó, de lixo, de cabeças vazias... Uma toalha que se estende fácil, dois velhos que comem umas pevides... Uma fila desalinhada avança na linha de água e as bolinhas de berlim apregoadas no areal.

22.8.18

Credor forçado

O que é novo seduz, mesmo que haja mil entraves financeiros, ecológicos e humanos...
Talvez seja por isso que ninguém defende o alargamento do aeroporto Humberto Delgado…
Hoje, por exemplo, fui ao Parque Quinta das Conchas… Ao caminhar, comecei a ouvir os motores dos aviões… Segui o ruído, e ao longe avistei as aeronaves…
Será que não seria mais inteligente libertar os terrenos necessários para o alargamento e criação de novas pistas?
Confesso, no entanto, que não percebo nada do assunto, mas, como credor, interessa-me saber onde é que o meu contributo vai ser aplicado, já que quero crer que o Estado Português está disposto a amortizar a dívida resultante de todas as decisões precipitadas e megalómanas dos seus governantes nas últimas décadas...
Agora que se discute o Orçamento para 2019, gostaria que os Partidos impusessem um número objetivo para o progressivo ressarcimento de todos os credores, mas sem privilégios nem cedência a interesses corporativos.

21.8.18

Na roda de náusea

Um Adeus Português


Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta dor portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

*

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.


Alexandre O'Neill, in 'Poesia Completas' 

Em 1950, Alexandre O'Neill ( 19.12.1924 - 21.08.1986) viu-se impedido pela PIDE, na sequência de uma cunha de um familiar seu, de ir ao encontro de Nora Mitrani. Esta surrealista francesa viera a Lisboa proferir uma conferência, La Raison Ardente... O 'Neill apaixona-se e neste belo poema de amor vinga-se "da roda de náusea em que giramos"...

20.8.18

Uma palavra de agradecimento a João David Pinto Correia (1939-2018)


Conheci o professor João David Pinto Correia no ano letivo de 1977/78. 
Na Faculdade de Letras de Lisboa, orientava o Seminário de Literatura Oral e Tradicional com que conclui a Licenciatura em Literatura.
Dele ficou-me sempre a ideia do investigador rigoroso, do didata abnegado e indulgente e, sobretudo, de um homem que apostava numa educação assente num modelo autóctone esclarecido…
E era raro, à época, encontrar professores com este perfil. Mas não tão raro como hoje.

18.8.18

Pessoa "Fora da Arca"

Há umas horas li uma entrevista "Pessoa visto de Perto"... 
A ideia aprofundada, durante 10 anos por Zetho Cunha Gonçalves, pareceu-me interessante. Afinal, ainda há outra Pessoa…
Mas esse havia que procurá-lo "Fora da Arca" e o investigador fez-se ao caminho e descobriu um Pessoa divertido, encantador… em particular na prosa, na polémica consigo próprio - um Pessoa histriónico!
Aquilo dentro da Arca afigurava-se incompreensível, demasiado frequentado, bolorento. O melhor era ouvir e ler os amigos e conhecidos, mesmo se falecidos… O melhor era folhear e ler os jornais, esses educadores da plebe…O melhor era suspeitar que na correspondência perdida ou sonegada só havia jovialidade
O Pessoa do futuro está agora ao alcance de todos aqueles que sempre revelaram relutância em entrar na Arca...

17.8.18

Pessoas obsoletas - o que fazer?

Leonardo da Vinci (1452-1519) distingue a capacidade de ver da possibilidade de representação do real (fazendo-a depender do lugar ocupado pelo observador). Ana Vaz Milheiro (Público, 14 de março de 1998, a propósito da obra "Perspectiva, Perspectiva Acelerada e Contraperspectiva", de João Pedro Xavier)

Agora que o programa de Português (ensino secundário) insiste tanto na representação do real levada a cabo pelos autores, como, por exemplo, José Saramago ou Cesário Verde, valeria a pena repensar a distinção de Leonardo da Vinci. Caso contrário, o aluno, incapaz de imaginar o lugar ocupado pelo observador, acabará por se limitar a reproduzir meia dúzia de ideias feitas sem conseguir questioná-las…
É neste ponto que o diálogo interdisciplinar poderia ter significado, pois habitualmente o professor de Português não percebe nada de "perspectiva"... Por exemplo, será que somos capazes de determinar o lugar do observador n'Os Lusíadas, quando o Poeta faz a sua apreciação crítica?

Esta vacuidade em que habitamos leva-me a compreender o receio de Meg Temark (Live 3.0) quando afirma que «há pressão económica para tornar as pessoas obsoletas» Pessoas obsoletas

Não há apenas pressão económica, há, principalmente, um sistema educativo que nos torna obsoletos… Assim se compreende que o mundo esteja cada vez mais à mercê daqueles que medram na sombra dos Trumps...

16.8.18

As portas do futuro

Valentín y Molina, los protagonistas de la novela, transcurren prisioneros y comienzan, al mejor estilo de un diálogo socrático, a interpelarse desde sus subjetividades. Puig elige crear una situación ideal en la que un militante revolucionario y un homosexual puedan iniciar un intercambio personal, como si lo hicieran bajo la consigna de las feministas de los 70: “lo personal es político”. En este sentido Molina se narra a partir de diferentes películas de clase B, posicionándose desde un lugar más personal, más experimental y subjetivo. Su contrapartida es Valentín, quien desautomatiza el procedimiento subjetivo del lenguaje de Molina intentando darle una explicación racional destructora de mitos sociales. Un homosexual que representa la sentimentalidad, la delicadeza, el deseo y el cuidado materno y, por otro lado, un militante marxista que representa la objetividad, la racionalidad y la disciplina. Si bien uno podría pensar que la figura del homosexual representaría la feminidad y la de Valentín la masculinidad, en el devenir de la novela las representaciones van mutando y se complementan entre sí.Manuel Puig

Acabo de ler El beso de la mujer araña, do argentino Manuel Puig, 1976, novela censurada pela ditadura militar. Uma obra perturbadora, pois coloca em causa muitas das certezas do leitor e, sobretudo, esta leitura deixa-me com a sensação de que cheguei demasiado tarde… deveria ter lido esta obra nos anos 70, quando a ideologia e a psicanálise se me apresentavam como as portas do futuro…
Infelizmente, a minha chegada tardia não é única neste mundo cada vez mais retrógrado, em que as portas do passado se vão escancarando...

14.8.18

Enigmático e suspeito


Esta seriedade é enigmática, mas tem uma explicação: procurava situar-me no percurso. 
 Já não me lembro de nada do que fui ouvindo em francês ou em castelhano (por ali, o português é lingua desconhecida!)… Apenas, recordo o que vi…
A verdade é que, para mim, o conhecimento pressupõe a caminhada pausada, muitas vezes, sobre si própria…
(…) 
O que também foi enigmático foi o modo como fui controlado no aeroporto de Barcelona - ainda cheguei a pensar que seria um perigoso cadastrado… 
No entanto, acabaram por concluir que era "português"... Fiquei sem saber o que é que lhes terá passado pela cabeça para me pincelarem as palmas e as costas das mãos...
Alguém me disse que a minha seriedade fez de mim suspeito.

12.8.18

A laranja de V. S. Naipaul

V.S. Naipaul morreu.

Dele só li Uma Casa para Mr. Biswas.
Li-o lentamente, abrindo o romance ao acaso e retomando a leitura, já esquecido do que lera anteriormente.
A edição portuguesa era das Publicações Dom Quixote e, até hoje, mantenho a sensação de que a tradução portuguesa é péssima
Perante a notícia da morte de V.S.Naipaul (1932-2018), verifico que os encómios se mantêm, o que significa que a minha dificuldade em lidar com a escrita deste Nobel da Literatura não terá uma causa exógena…
(Um destes dias, vou voltar a ler Uma Casa para Mr. Biswas. Se tiver tempo - é que o escritor tinha dias em que não escrevia mais do que um parágrafo. Tal como eu - também tenho dias em que não consigo chegar ao final do parágrafo… Ler exige tempo e, por vezes, enorme paciência, o que nem sempre é negativo…)

Entretanto, transcrevo um parágrafo revelador:

- O teu problema é que realmente não acreditas. Havia um homem como tu, em tempos que já lá vão. Ele queria gozar com um homem como eu. Então, um dia, quando o homem que era como eu estava a dormir, o outro homem pôs-lhe uma laranja sobre a barriga, pensando, «aposto que este parvo, quando acordar, vai dizer que foi Deus que lhe pôs a laranja aqui». O primeiro homem acordou, viu a laranja e comeu-a. O outro apareceu e disse-lhe: «Então, foi Deus que te deu essa laranja?» «Sim», respondeu o primeiro. «Então deixa-me que te diga. Não foi Deus que te deu a laranja. Fui eu». «Talvez», disse o outro, «mas eu pedi a Deus uma laranja enquanto dormia.»

11.8.18

Talvez por isso não compreenda...

«Yo no puedo vivir el momento, porque vivo en función de una lucha…»

Deliberadamente não cito na totalidade o pensamento da personagem de Manuel Puig, Il beso de la mujer araña.
Porquê? Porque objetivamente nunca me envolvi de forma direta na luta política, nunca planeei a ação, definindo uma agenda...
De facto, sempre imaginei a minha ação de uma forma mais individual: primeiramente aprender; depois ajudar os outros a aprender a viver… 
A luta política nunca a imaginei como resultado de um impulso, de um sentimento; vi-a sempre como ação responsável, assente no conhecimento do que interessaria a uma humanidade, liberta de fronteiras territoriais, religiosas, políticas e morais…
Talvez por isso não compreenda a necessidade de insistir em ideários que apostam no carpe diem horaciano, pois me parecem demasiado egoístas e acríticos...
Talvez por isso não compreenda certos ímpetos revolucionários que continuam a criar novas fronteiras…