30.6.15

Heróis sem nome às mãos dos Serviços de Informação

Artigo 78.º Acesso a dados e informação 
1 -Os diretores e os dirigentes intermédios de primeiro grau do SIS e do SIED têm acesso  a informação e registos relevantes para a prossecução das suas competências, contidos em ficheiros de entidades públicas, nos termos de protocolo, ouvida a Comissão Nacional de Proteção de Dados no quadro das suas competências próprias. 
2 -Os oficiais de informações do SIS e do SIED podem, para efeitos da alínea c) do n.º 2 do artigo 4.º, aceder a informação bancária, a informação fiscal, a dados de tráfego, de localização ou outros dados conexos das comunicações, necessários para identificar o assinante ou utilizador ou para encontrar e identificar a fonte, o destino, data hora, duração e o tipo de comunicação, bem como para identificar o equipamento de telecomunicações ou a sua localização, sempre que sejam necessários, adequados e proporcionais, numa sociedade democrática, para o cumprimento das atribuições legais dos serviços de informações, mediante a autorização obrigatória da Comissão de Controlo Prévio. 
                                    Proposta de Lei n.º 345/XII 

Esta proposta do Conselho de Ministros chega ao meu conhecimento no mesmo dia em que decidi ler uma crónica de Eduardo Palaio, publicada no nornal Público de 5 de Maio de 1992, intitulada "Uma história que eu vivi da PIDE em Angola."  
Dessa crónica, escrita para denunciar a pensão atribuída por Cavaco Silva a um antigo funcionário da PIDE-DGS, António Augusto Bernardo "por serviços excecionais e relevantes prestados ao país", transcrevo a parte que me parece que melhor clarifica a natureza deste tipo de agências:

«Um dos negros, um homem gigantesco, forte que nem uma pacaça, era tido por ser o cabecilha, devia ser o tal catequista muito procurado. Se era ou não, nunca os VCC o souberam; o que viram foi um homem grande de pé, sem que ninguém o tivesse autorizado a deixar de estar sentado, cabeça erguida, desafiadora, assente num pescoço grosso, com a carapinha já um pouco grisalha, pés enormes e afastados para manter o equilíbrio que se revelava difícil tantas eram as coronhadas que os pides lhe faziam chover em cima. Algemado, afastava as pernas fortes para se manter de pé. Os pides bufavam de esforço e davam saltos grotescos para poderem dar de cima para baixo no homem gigante. O homem falava, falava sempre enquanto por toda a cabeça escorria sangue. Falava muito, na sua língua indígena (lutchagi?). Falava contra o tempo, sem tomar fôlego. Os pides, à mocada,  tentavam calá-lo. Já tinha a boca disforme, cuspia sangue e ainda falava. O quê, ninguém dos brancos percebia. Só se via pelo arrebatamento que devia ser coisa importante. Era coisa gritada para dentro dos corações do povo dele. Parecia um falar para deixar recado. Até que o derrubaram.» 
(...)
Finalmente, «os pides levaram quinze prisioneiros, entre eles o homem grande, para o interior da mata, para um terreno descendente. Ouviram-se as rajadas. Mataram-nos a todos.» 

O poder executivo legisla de modo a que o quadro legal dê cobertura a todos os atos de recolha de informação. O passo seguinte já está implícito: afinal, a tortura e a morte mais não são do que etapas da arte inquisitorial... 


29.6.15

Ó gente impotente, feita de lama

O presidente da nossa apagada república, sempre que fala, deixa-me aborrecido e triste. Hoje, porém, senti-me envergonhado ao ouvi-lo referir-se às opções e à situação da Grécia.

Lembrei-me, entretanto, da sabedoria de Aristófanes e de Safo, na bela tradução de David Mourão-Ferreira:


Ó homens, cuja natureza é obscura,
ó homens semelhantes à raça das folhas,
ó gente impotente, feita de lama,
irmã gémea da sombra,
ó seres efémeros e sem asas,
ó mortais infortunados,
ó homens vagos como os sonhos
- volvei para nós a vossa atenção,
para nós que somos imortais e vivemos nos ares,
que nunca envelhecemos, que pairamos no éter
com pensamentos eternos
e colocamos, em tudo,
o segredo da perene juventude!

Aristófanes, As aves, trad. David Mourão-Ferreira

Quando arrefece o coração das pombas,
desfalecem, na sombra, as suas asas...

Safo, fragmento 42, trad. David Mourão-Ferreira 

28.6.15

Os gregos desafiam o eurismo

A política, ao contrário da poesia que acrescenta, só restringe!
Tendo uma origem comum, poesia e política seguem caminhos opostos. 
No início, os políticos eram poetas cujas palavras defendiam o reconhecimento do trabalho da maioria. Hoje, os políticos defendem abertamente o empobrecimento da maioria.
Hoje, há uma linha que separa nitidamente a poesia ( a arte, a ciência, a filosofia, a religião), da política -  o eurismo - forma regional do capitalismo mundial.
E se isto acontece é porque a união europeia deixou de se nortear por valores humanistas! Hoje, o discurso político faz tábua rasa de todo e qualquer valor, pois serve apenas o euro!
Os próprios ministros não se diferenciam: ou não têm a voz ou vociferam contra a maioria em nome do euro.
(...)

Os Gregos ousaram desafiar o eurismo e, hoje, estão a tomar consciência de que têm à sua frente a possibilidade de se libertarem da ditadura do euro. Mas será que é esse o caminho que desejam?
Se escolherem dizer não ao euro, mais não estarão a fazer do que seguir o caminho dos povos que nos séculos XIX e XX disseram não aos seus "libertadores".



A Revolução poderia ser uma grande coisa...

«Penso que a Revolução poderia ser uma grande coisa se ela respeitasse a maneira de ser dos outros.» Marc Chagall

O problema é que os Lenines de todos os tempos não respeitam a diversidade, por mais que digam o contrário...

Agora que os Gregos enchem os bolsos de euros, como é que eles vão dizer não ao euro?

No que nos diz respeito, o ministro da educação, em vez de promover a educação artística que, talvez, conseguisse tornar-nos mais humanos e mais solidários, prepara-se para importar as bicicletas que sobraram da revolução maoísta...   

27.6.15

O suborno de Feiga-Ita

«Mesmo assim, Marc Chagall, após ter completado o cheder, a escola primária judaica, conseguiu frequentar a escola oficial municipal a que os judeus, em princípio, não tinham acesso. Para tal a mãe, Feiga-Ita, agiu energicamente, subornando o professor.» Ingo F. Walther / Rainer Metzger, Chagall, Taschen / Público

Não sei como é que Feiga-Ita terá subornado o professor, a verdade é que esse gesto foi fundamental para que Chagall se tivesse libertado das teias que o prendiam à pobreza material e, sobretudo, cultural de Vitebsk que discriminava os judeus... 

Cheguei a esta informação por um percurso pouco linear, mas coerente. Gaston Bachelard, ao estudar os pintores em cuja obra está presente o direito de sonhar (le droit de rêver) encaminhou-me para artistas como Claude Monet e Marc Chagall...
(...)
Se considerarmos os últimos acontecimentos na União Europeia, parece que os povos do Sul estão condenados à pobreza e à discriminação cultural...

Será que não há por aí uma Feiga-Ita capaz de subornar o senhor Wolfgang Schauble?


26.6.15

Versão de trabalho e versão definitiva nos exames nacionais

A certeza tornou-se fluída, quando se esperava que fosse clara e única.  Publicados os critérios de classificação e os cenários de resposta, devidamente certificados, deixaria de haver espaço para manipulação de resultados. Essa expetativa desapareceu: a massa fica a levedar durante uma semana e logo se vê se o pão deve ir ao forno ou se o melhor é acrescentar-lhe mais fermento e mais sal...
Hoje dei conta que o parágrafo já não é uma parte do texto, mas pode confundir-se com o próprio texto. Um pouco como se o homem fosse apenas cabeça ou a cabeça se tivesse apoderado da totalidade do corpo! 
O que até se compreende porque anda por aí muito boa gente que, desaparecida a cabeça, começou a pensar com os pés e com as mãos.
Eu por mim, cumpro rigorosamente os novos ajustes, pois não quero que, pelo menos, cem mil jovens, felizes, deixem de votar nas próximas eleições legislativas...

Finalmente, não posso deixar de notar que, quanto à interpretação do poema de Sophia Mello Breyner Andresen, na prova de Português do 12º Ano, nada foi emendado... 


25.6.15

Uma interrogação antiga

O que hoje aqui trago resulta de uma interrogação antiga: - Para quê insistir no conceito "união europeia"?
Sendo o território europeu constituído por partes, social, económica e culturalmente diferentes, o projeto de as (re)unir só faria sentido se a estratégia fosse de convergência. Ora, se observarmos a realidade europeia das últimas décadas, assistimos, pelo contrário, ao crescimento das desigualdades, tendo como principal ator o euro.
Quando olho para a realidade portuguesa, verifico que, em matéria de transportes, não estamos mais próximos do centro da Europa. Verifico que, em termos do desenvolvimento do tecido industrial e tecnológico, em vez de produzir, continuamos a importar... Verifico que, em termos culturais, a grande maioria dos portugueses tem, hoje, menos informação do que nos anos 60 do século passado.
Na verdade, por mais que procure, não encontro a identidade europeia que poderia justificar a convergência entre os territórios, a eliminação de fronteiras... De facto, aquilo a que assistimos é a criação de novas fronteiras, é a condenação dos mais pobres... Em particular daqueles cuja História é mais antiga e que contribuíram para a afirmação da Europa no mundo...

Claro que a vitimização de nada serve, porque, infelizmente, não somos capazes  de nos unirmos para definir um rumo de convergência europeia ou, no limite,  romper com a mentira europeia...
  

24.6.15

Seres imorais

«Pour entrer dans les songes de l' homme, if faut être un homme. Il faut être un ancêtre, être vu dans une perspective d'ancêtres, en transposant à peine des figures qui sont dans notre mémoire.»Gaston Bachelard, La Bible de Chagall, in Le Droit de Rêver.

Poder-se-á pensar que sonhar é uma das múltiplas formas de evasão, de voltar costas à realidade, no entanto, nada mais falso.
Neste tempo de crise, deparamos com dois problemas insolúveis. O primeiro resulta do sonho coletivo se basear na satisfação de desejos de curto prazo. O segundo tem origem na natureza dos decisores, que, de verdade, não são homens capazes de traçar um desígnio, de acordo com os valores que, ao longo dos tempos, orientaram as comunidades que, supostamente, deveriam guiar.

O problema dos decisores é que não têm memória dos acontecimentos e das figuras fundadoras das culturas e das organizações, reduzindo tudo à lei da oferta e da procura. E nessa voragem, o cidadão mais não faz do que responder a estímulos sabiamente ministrados por quem procura o enriquecimento célere e sem olhar a meios...
Esta é uma outra espécie de homens que nada tem a ver com a Bíblia de Chagall:

«Les êtres présentés par Chagall sont des êtres moraux, des exemplaires de vie morale.» op. cit.

Oiço as notícias da Grécia, de Bruxelas, de Portugal... e não consigo entender os sonhos dos homens, só descortino personagens sem moral que se movem em circuito fechado, preocupadas apenas com o vil metal...

23.6.15

Com tanta juventude sem futuro...

Escrever sobre a situação na Grécia é extremamente difícil, apesar de as notícias não faltarem. No entanto, a informação essencial não sofre qualquer alteração. A Grécia está cada vez mais endividada e uma parte dos gregos parece destinada a arcar com a despesa...
Só que, honestamente, não consigo avaliar qual é a parte sacrificada, pois as reportagens parecem sobrevoar as ilhas e os templos, sem descerem ao terreno, isto é, sem mostrarem quem beneficia com a crise e quem tudo perde.
A verdade é que, também, é difícil escrever sobre a situação em Portugal pelos mesmos motivos.

A informação é tutelada pelos grandes grupos financeiros e económicos, para quem os governos do Sul da Europa não passam de correias de transmissão. Poder-se-ia pensar que as redes sociais poderiam disponibilizar informação independente, mas tal não acontece. Nas redes sociais, não há informação.

Com tanta juventude sem futuro, creio que esta não está a saber aproveitar o saber e as redes sociais para construir uma rede de informação transnacional, que, liberta dos polvos que nos acorrentam, dê conta dos problemas e permita encontrar soluções em rede...

22.6.15

Trauma e recalcamento

Mais dia menos dia, o espaço fotografado, apesar do conjunto de símbolos que o constituem, nada significará para aqueles que, por formação, se veem convidados a ignorar o passado.
A sombra do esquecimento e do isolamento vai avançando de modo que, num futuro próximo, surgirá quem defenda que o desfasamento será resultado de um qualquer recalcamento por explicar. 
E o problema do recalcamento é que, apesar da eventual cura, o psicanalista, em regra, não explica a origem do trauma.
Acabo de confirmar esta ideia ao concluir a releitura de "Délire et rêves dans la "Gradiva" de Jensen", de Freud. Norbert Hanold, por motivo que não é explicado nem pelo novelista nem pelo psicanalista, esquece completamente Zoé Bertgang, amiga de infância, para, mais tarde, a redescobrir nas ruínas de Pompeia sob o fantasma de Gradiva... 

(...)

Infelizmente, a mim, ninguém me cura do trauma que é estar 6 horas, na rua de Entrecampos, à espera de uma explicação para a falta de comunicação entre o Centro Nacional de Pensões e a Caixa Geral de Aposentações. 
Acabei, no entanto, por perceber que o termo em moda é "divergências". O atraso resulta, afinal, de divergências entre o Centro Nacional de Pensões e o Centro Distrital da Segurança Social de Lisboa. Como o período em causa se situa entre 1974 e 2005, estas "divergências" parecem estar para durar...

   

21.6.15

A minha interpretação pode não ser despicienda

Ontem, a temperatura chegou aos quarenta e dois graus em Tomar.
Hoje, chegou o Verão!
A descida da temperatura vem no momento certo, pois estou a contas com a interpretação de um enunciado:

«Quer no espaço público quer no espaço privado, somos permanentemente sujeitos a estímulos sensoriais (visuais, auditivos, olfativos...), por exemplo, através de campanhas publicitárias. Se, por um lado, essa experiência pode ser considerada enriquecedora, pode, por outro lado, ser perspetivada de forma negativa.» Prova 639 / 1º fase.

- Qual é o antecedente dessa experiência? Sermos permanentemente sujeitos a estímulos sensoriais
Se tal interpretação estiver correta, então as campanhas publicitárias não passarão de um exemplo!

Enfim, as instruções não deveriam ser ambíguas. Até porque se solicita a defesa de um ponto de vista pessoal sobre a problemática apresentada, com recurso a dois argumentos, devidamente ilustrados com, pelo menos, um exemplo significativo.

- A publicidade deve ser tratada como argumento ou como exemplo? 

(As consequências da minha interpretação não são despiciendas...)

20.6.15

Desatenção minha

Jardim da Estrela, Lisboa
É esta mania de ver tudo o que se passa à nossa volta que dá cabo do trabalho!
A desatenção é a principal causa da falta de produtividade, do aumento de acidentes de viação,  do fraco rendimento escolar. 
A situação parece estar a agravar-se! Vi escrito que 75% dos portugueses se preparam para votar no PSD / CDS...
Desatenção minha, que não encontro fundamento para tal intenção. A não ser a velha desatenção, sem esquecer que hoje não há um único órgão de comunicação (outrora, social) que não esteja ao serviço do Governo e da Presidência da República... E claro, a ausência de soluções concretas para os problemas que minam a sociedade portuguesa. Do centro esquerda à extrema esquerda, todos se propõem gerir o "bolo", mas ninguém deita as mãos à massa...

A continuarmos assim, só irão votar os que têm medo da TROIKA e os que se sentam à mesa do poder.

19.6.15

Que mais dizer?

A mão trémula assume o risco e tranca (a VERMELHO) todos os espaços em branco. A batalha dura horas, e lembra os torneios medievais organizados pelos senhores dos castelos para afirmação pessoal e deleite das favoritas... 
Que mais dizer?

*
O erro é uma evidência! Noutro contexto, já teria caído o Carmo e a Trindade. No caso, impera o silêncio da calma do meio-dia no deserto.

** 
A academia não arrisca pronunciar-se, vive em confraria. A academia não se compromete; afinal, as letras são, de há muito, subjetivas...

18.6.15

Uma sala em dia de exame

Rachas habitadas por teias de aranhas nos quatro cantos; bolor nos tetos escurecidos e nas paredes a empalidecer; três janelas voltadas para o excêntrico edifício da Polícia Judiciária; estores avariados e cortinados desprendidos de calhas soltas; duas portas, uma de entrada e de saída ( o que dizer de uma porta?) - a primeira acede à galeria debruçada sobre o pátio sul ( dos plátanos por ora frondosos), a segunda sempre fechada...
Ao fundo, dois armários metálicos. Sobre um, sacos de provas de exames inúteis carregados de pó; sobre o outro, dois artefactos, um de metal e outro de madeira, esquecidos das mãos que os fabricaram, adormecem ali...
Ao lado da porta de entrada e de saída, outro armário, de madeira rústica, fechado a cadeado, como se lá dentro tivesse ficado esquecido algum tesouro de outro tempo, irmão, talvez, do retroprojetor abandonado à sua sorte...Convém referir, também, as duas janelas que, da galeria, permitem provocações anódinas e passageiras...
De menos velho, apenas um datashow suspenso de um braço avançado que se ilumina, a espaços, sobre a parede branca, em tempos coberta por um painel de cortiça, e uma secretária metálica, cedida por uma repartição pública em remodelação socrática. As gavetas da secretária continuam vazias. Sobre o tampo de fórmica, um computador HP, um ecrã HPL1710, duas colunas gémeas, um telecomando, parecem prometer uma outra dimensão. Em frente, 20 mesas, hoje ocupadas por 18 jovens, muito sérios, que vão resolvendo a prova de Física e Química A...
(...)
E eu que estou proibido de ler o que quer que seja, estudo-lhes os olhares, os movimentos na cadeira, a azáfama nas máquinas de calcular - fica-me a sensação de que o segredo dos armários, afinal, está escondido naquelas máquinas, onde me parece ser possível guardar enormes quantidades de dados que eu não sei ler... 

Incapaz de vigiar o que está a acontecer naquelas máquinas, todas autorizadas por quem sabe, regresso às rachas, ao bolor, às persianas, às tábuas de antigos pinheiros longilíneos, procuro-lhes as juntas de união, os nós... e espero que tudo acabe nesta sala ou que um inspetor entre por aquela porta que, até hoje, sempre vi fechada... 

17.6.15

Na prova de exame 639 / 2015, a música do ser...

Na prova de exame 639 / 2015, surge uma pergunta que me parece mal formulada, pois pressupõe que, de algum modo, o ser pode humanizar a música - «Refira dois traços que contribuam para a humanização da música...»
Na minha interpretação, acontece precisamente o contrário: sem a música, as palavras revelam-se incapazes de libertar o homem do deserto em que habita; as palavras só se libertam se o ritmo interior as ligar.
A missão do ser alienado é, assim, arrancar ao silêncio os acordes capazes de o ligarem aos outros seres e ao cosmos, tarefa que pressupõe a ligação a um tempo primordial ainda não profanado pela palavra do ser...
Só quando a palavra brota do ritmo anterior interior é que a libertação do ser acontece:

A música do ser
Povoa este deserto
Com sua guitarra
Ou com harpas de areia

Palavras silabadas
Vêm uma a uma
Na voz da guitarra.

A música do ser
Interior ao silêncio
Cria seu próprio tempo
Que me dá morada

Palavras silabadas
Unidas uma a uma
Às paredes da casa

Por companheira tenho
A voz da guitarra

E no silêncio ouvinte
O canto me reúne
De muito longe venho
Pelo canto chamada.

E agora de mim
Não me separa nada
Quando oiço cantar
A música do ser
Nostalgia ordenada
Num silêncio de areia
Que não foi pisada.   

Sophia de Mello Breyner Andresen, Bach, Segóvia, Guitarra, in Geografia, 1967

O que seria do Poeta se prescindisse da guitarra? O que seria de Orfeu se deitasse fora a lira?
Aqui, neste deserto ibérico, o Poeta, à semelhança de outros poetas ibéricos, apenas trocou a lira pela guitarra...

Dúvida em dia de exame

I - A frase "O cão ficava a olhar o mar como um pescador" pode ser considerada uma frase complexa? O livro que tenho diz que é uma oração subordinada adverbial comparativa, mas apesar do "como" não compreendo o porquê de assim ser visto que "como um pescador" não tem nenhum verbo. (A.D.T.)

As orações subordinadas comparativas podem ser construções elípticas, com a elisão da forma verbal ou do grupo verbal. 

Ex: Esta casa é mais interessante do que a outra. (= do que a outra é interessante).Gramática de Português, pág. 196, Porto editora.


No exemplo apresentado, a frase é complexa, porque: a) O cão ficava a olhar o mar b) como um pescador (olha o mar). Elipse do predicado. Oração subordinante + oração subordinada comparativa.

16.6.15

Dâmaso, o histrião (prova 639)

«E desabafou, num prodigioso fluxo de loquacidade, atirando palmas ao peito, com os olhos marejados de lágrimas. Fora Carlos, Carlos, que o desfeiteara a ele, mortalmente! Durante todo o Inverno tinha-o perseguido para que ele o apresentasse a uma senhora brasileira muito chic, que vivia em Paris, e que lhe fazia olho... E ele, bondoso como era, prometia, dizia: «Deixa estar, eu te apresento!» Pois senhores, que faz Carlos? Aproveita uma ocasião sagrada, um momento de luto, quando ele Dâmaso fora ao Norte por causa da morte do tio, e mete-se dentro da casa da brasileira... E tanto intriga, que leva a pobre senhora a fechar-lhe a sua porta, a ele, Dâmaso, que era íntimo do marido, íntimo de "tu"! Caramba, ele é que devia mandar desafiar Carlos! Mas não! fora prudente, evitara escândalo por causa do Sr. Afonso da Maia... Queixara-se de Carlos, é verdade... Mas no Grémio, na Casa Havaneza, entre rapaziada amiga... E no fim Carlos prega-lhe uma destas!»
Eça de Queirós, Os Maias, cap. XV.

 Dâmaso Salcede, o histrião:

1. Comediante ou jogral, na antiguidade romana.
2. Actor cómico.
3. Actor com desempenho exagerado.
4. Pessoa que diverte ou que não é levada a sério. = BOBO, PALHAÇO
5. Homem vil.

Esta é uma daquelas personagens (tipo) que melhor representa o novo-riquismo do século XIX. Pelo gesto excessivo, pelo registo de língua inadequado e pretensioso, pelo parco saber e, sobretudo, pela mania da imitação. 

Mais do que saber de cor as particularidades da personagem, importa ser capaz de desenvolver, de forma sumária, cada um dos tópicos apresentados, tendo o texto como suporte.

Relembro, no entanto:

I - No Grupo I, avaliam-se conhecimentos e capacidades de Leitura e de Expressão Escrita através de itens de construção. Este grupo inclui duas partes: A e B. A parte A, com uma cotação de 60 pontos, integra um texto, selecionado a partir do corpus literário do 12.º ano, que constitui o suporte de itens de resposta restrita. A parte B, com uma cotação de 40 pontos, é constituída por itens de resposta restrita sobre conteúdos declarativos do 10.º ou do 11.º anos relativos ao domínio da Leitura, podendo apresentar um suporte textual. No Grupo I, além da interpretação de textos/excertos em presença, a resposta aos itens pode implicar a mobilização de conhecimentos sobre as obras estudadas.

15.6.15

A ataraxia na poesia de Ricardo Reis é uma questão mal fundamentada

Definição:
«Constituindo (a ataraxia ) um estado anímico, exprime um ideal de sabedoria, um fim ou telos a atingir pelo filósofo (...) É concebida como uma ultrapassagem racional da demasiada humana vulnerabilidade e sujeição à fortuna e aos acidentes, sejam estes de origem interna, as paixões, sejam provenientes do exterior, como as doenças, a pobreza, as desgraças, o mal físico, ou o desaparecimento de entes queridos.» Rui Bertrand Romão, in Dicionário de Filosofia Moral e Política.

O conceito de ataraxia é fundamental para a compreensão da filosofia de vida de Fernando Pessoa / Ricardo Reis:

Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.

Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.

Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,

Se cada ano com a Primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam?

E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?

Nada, salvo o desejo de indif'rença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.
Ricardo Reis, 1/6/1916

(...)

Apesar do que é habitual afirmar-se sobre a indiferença de Ricardo Reis em relação aos acontecimentos exteriores, creio que este heterónimo é mais a expressão do desconforto de Pessoa perante o sacrifício da vida humana (8642 homens) em guerras que nada acrescentam à vida do que uma posição de alheamento da realidade envolvente.
Este poema foi escrito precisamente quando terminou a Batalha da Jutlândia:

Segundo os historiadores, trata-se da mais importante batalha naval da I Guerra Mundial. Ocorreu no dia 31 de maio de 1916, nas águas da península da Jutlândia (Dinamarca), e opôs a frota britânica comandada por Sir John Jellicoe e a frota de Alto Mar alemã do almirante Reinhard Scheer. Tal como outros combates desta guerra, a batalha teve pelo menos duas fases e viria a terminar com a fuga da frota germânica. A dureza do combate fez-se sentir nas baixas de cada lado. Nesse combate os ingleses perderam 3 cruzadores, 8 contratorpedeiros e 6097 homens contra 1 couraçado, 1 cruzador pesado, 4 cruzadores, 5 contratorpedeiros e 2545 homens por parte dos alemães. Contudo, apesar de, aparentemente, as perdas britânicas terem sido superiores às germânicas, depois deste confronto os ingleses tornaram-se senhores dos mares controlando toda a navegação. A tal ponto que, até ao final da guerra, a frota alemã de superfície teve de permanecer imobilizada nas suas bases. (Infopédia)


14.6.15

E toda aquela infância / Que não tive me vem...

«Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar ,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no meu coração.»

Fernando Pessoa

Ontem, referi que não encontrava grandes motivos para que o Poeta, qual náufrago do presente, se recolhesse no passado. Hoje, retomo a questão para reforçar a ideia de que, para Pessoa, só o presente (criativo) lhe podia trazer plenitude.
O passado é "enigma" e o futuro é "visão"! Nenhum destes tempos lhe pode devolver a infância que não teve ou antecipar o que o coração lhe pode dar - isto é, o alimento de que a razão necessita para poder levar a cabo a sua criação.
(...)
O passado é "enigma" e o futuro é "visão"!
Entretanto é bom não esquecer que em MENSAGEM, o trabalho do vate ´parece querer provar o contrário. Através da mitificação dos heróis, o Poeta aponta a solução para o futuro. Uma solução messiânica. 

13.6.15

As crianças de Fernando Pessoa

Se Pessoa não tivesse sido forçado a abandonar a infância, estaria hoje a celebrar o centésimo vigésimo sétimo aniversário. A hipótese é atrativa, mas absurda, pois o tempo teria deixado de ser mensurável.
Ele bem gostaria que tal tivesse acontecido e por isso fez da vida o estaleiro da arte, o único lugar em que as crianças podem brincar eternamente.
Embora, ao longo dos anos, tenha procurado rumar contra os estereótipos que poluem a "leitura" de Pessoa, a verdade é que a Madalena acaba de me dar a oportunidade de insistir no tópico de que a poesia de Pessoa é anti-romântica, sem ser necessário regressar à "autopsicografia"...
As crianças de Pessoa vivem todas libertas da duração, como se se movessem numa extensão, sem princípio nem fim... Basta pensar no menino Jesus de Alberto Caeiro!
E já agora acrescento que a infância de Pessoa não esteve livre de tristezas e de escolhos.

(...)

As crianças, que brincam às sacadas altas,
Vivem entre vasos de flores,
Sem dúvida, eternamente.
(...)
Álvaro de Campos

As crianças vivem eternamente!
A infância,em si, é eterna, porque não tem consciência da passagem do tempo (ou da duração). O argumento da nostalgia da infância é arriscado, porque o Poeta não se está a referir à Sua infância, mas, sim, às crianças «que brincam às sacadas altas». 
Para Pessoa, a arte é um estado lúdico absoluto e não um espaço confessional, romântico.

12.6.15

O estado da memória

Parece indiscutível que um dos indicadores do envelhecimento é a diminuição ou, até, a perda de certas memórias consolidadas, já que das efémeras se aceita a sua caducidade... Esse empobrecimento da memória resultará, por exemplo, de dietas desapropriadas, da qualidade do sono, de medicação agressiva,  ou de um excesso conflituoso e errático de informação ...
A explicação é, talvez, simplista, porque se as quatro causas apontadas estiverem corretas - dieta, sono, medicação, informação -, então o empobrecimento da memória começará a ocorrer muito mais cedo.
Basta olhar para os jovens, que por esta altura do ano se submetem a exames externos e internos, para perceber que boa parte do insucesso deve ser procurado fora da sala de aula. 
E na véspera dos exames, a situação agrava-se ainda mais...

O estilo de vida atual é a principal causa do envelhecimento precoce e, principalmente, do insucesso escolar dos nossos jovens e da inexistência de um modelo de crescimento e de desenvolvimento que transforme a sociedade em que nos vemos como reféns.

11.6.15

O segredo de justiça ou de polichinelo


Lisboa, 11 junho (Lusa) - O Ministério Público abriu um inquérito por violação do segredo de justiça, na sequência da publicação de transcrições de um interrogatório efetuado ao ex-primeiro-ministro José Sócrates, no âmbito da "Operação Marquês".


Um inquérito para quê?

Afinal, quem é que, em tempo real, teve acesso ao interrogatório? Como é que o ato foi registado? Os presentes durante a inquirição puderam gravar por conta própria? Será que ainda estamos no tempo do registo audio, posteriormente, transcrito para o papel ou para outro suporte digital?

De acordo com a minha experiência castrense, toda a transcrição é manipulável, sobretudo se o continuum  for objeto de qualquer tipo de interferência, como, por exemplo, a tosse, a ira...

Na minha perspetiva, para além do inquirido, que já está detido, o melhor seria deter os restantes, isto é, todos os que estiveram presentes no interrogatório... 

10.6.15

Naquele cuja Lira sonorosa / Será mais afamada que ditosa

«Este receberá, plácido e brando,
No seu regaço os Cantos que molhados
Vêm do naufrágio triste e miserando,
Dos procelosos baxos escapados, 
Das fomes, dos perigos grandes, quando
Será o injusto mando executado
Naquele cuja Lira sonorosa
Será mais afamada que ditosa.»

Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, Canto X, estância 128.

Cito hoje esta estância porque me parece ser a que melhor revela a incompetência dos que nos governam e que não têm qualquer tipo de vergonha ao servirem-se da inteligência, do trabalho e, até, da desgraça de muitos portugueses, condenados a partir ou a viver na indigência... sem esquecer os que se arrastam nas cadeias (ou fora delas) à espera que seja feita justiça.
Tal como no tempo de Camões, Portugal é hoje um país em que os valores são constantemente sacrificados ao interesse e à mesquinhez de uns tantos.
E não me digam que estou a ser pessimista!


9.6.15

Quantas vezes a memória

«Quantas vezes a memória
Para fingir que inda é gente,
Nos conta uma grande história,
Em que ninguém está presente.»
Fernando Pessoa

A memória destes dias é a de um ser verdadeiramente aborrecido que memoriza enormes quantidades de informação para poder realizar umas tantas provas de exame, cujos resultados o deixarão mais perto do insucesso na vida...
Talvez ainda não se possa afirmar que se anda a fingir que se é gente ou que desta história não sobrará ninguém para a contar, mas pela incapacidade de interpretar, pela dificuldade de ordenar e de compor, tudo a leva pensar que o mundo, por estes dias, está virado do avesso. 

Provavelmente, nada disto é verdade, e mais não é do que o cansaço de quem passou 90 minutos numa repartição de finanças às voltas com um anexo G... Para quê contar a história, se ninguém está presente?

8.6.15

O outro lado de José Sócrates

"Agora, o Ministério Público propõe prisão domiciliária com vigilância eletrónica, que continua a ser prisão, só que necessita do meu acordo. Nunca, em consciência, poderia dá-lo", responde José Sócrates, numa carta a que a SIC teve hoje acesso.

Deste modo, José Sócrates poupa nas despesas e promove o turismo nacional. No caso, a grande beneficiada é a cidade de Évora!

Face a esta decisão, para que o contribuinte seja menos sacrificado, espera-se que a Justiça faça o que lhe compete, isto é, decida.

Diga-se de passagem que se eu estivesse no lugar de José Sócrates, faria exatamente o mesmo. As pulseiras nem aos rafeiros deveriam ser aplicadas...

7.6.15

O desejo de um rei

«Estando já deitado no áureo leito,
Onde imaginações mais certas são,
Revolvendo contino no conceito
De seu ofício e sangue a obrigação,
Os olhos lhe ocupou o sono aceito,
Sem lhe desocupar o coração;
Porque, tanto que lasso se adormece,
Morfeu em várias formas lhe aparece
(...)
«Este, que era o mais grave na pessoa,
Destarte pera o Rei de longe brada:
- «Ó tu, a cujos reinos e coroa
Grande parte do mundo está guardada,
Nós outros, cuja fama tanto voa,
Cuja cerviz bem nunca foi domada,
Te avisamos que é tempo que já mandes
A receber nós de tributos grandes.»

«Eu sou o ilustre Ganges, que na terra 
Celeste tenho o berço verdadeiro;
Estoutro é o Indo, Rei que, nesta serra
Que vês, seu nascimento tem primeiro.
Custar-t'-emos contudo dura guerra;
Mas, insistindo tu, por derradeiro,
Com as não vistas vitórias, sem receio
A quantas gentes vês porás o freio.»

O sonho de D. Manuel, in Os Lusíadas, Canto IV, estâncias 68, 74 e 75

Sobre a finalidade dos sonhos, Freud estabeleceu que não se trata de concluir que o sentido de todos os sonhos é um desejo realizado pois, muitas vezes, esse sentido resultará de uma expectativa angustiada, de um debate interior.

Quando se esperava uma decisão ponderada pela razão, os argumentos mais sedutores saem do sono real, através do Ganges e do Indo. O Oriente aceita submeter-se ao Rei do Portugal, reconhecendo, no entanto, que a guerra será sangrenta.
O masoquismo dos rios orientais é hoje confrangedor. Só que não podemos ignorar que a voz dos rios (assim como a voz de Morfeu) é o desejo de um rei que se mantinha fiel à missão de Ourique e que teve que recorrer a argumentos que fossem capazes de derrotar a voz do Velho do Restelo.
Não podemos ignorar que a lisonja é em causa própria! E o sonho é uma peça literária!



6.6.15

Para lá do ponto final

Para lá do ponto final, ainda parece haver algum tempo... Suspenso das reticências, vejo-me obrigado a pensar no que fazer. Há sempre uma quantidade enorme de papéis e de ferramentas que esperam por arrumação, mas será essa a melhor forma de aproveitar algum talento que possa ter?
O problema é que, ao contrário da parábola dos talentos, estes não me foram dados. Se algum ainda tenho, terei que ser eu a descobri-lo e a pô-lo a render.

Pode ser que, por entre tantos papéis e ferramentas, acabe por encontrar um caminho que me impeça de me tornar uma inutilidade. 
E os apelos à gratuitidade não faltam! 

5.6.15

Ponto final

11 horas da manhã.
Ponto final na atividade letiva neste contexto.
A sala 42 é testemunha desse momento. Apenas, uma aluna neste derradeiro bloco. Analisámos o discurso de uma "Carta a Camões", com a preocupação de emendar a vulgaridade discursiva de quem confunde o registo oral com o escrito. Infelizmente, a tendência é abrasiva.
(...) Uma colega assoma à porta e confirma a solidão do ato, interrogando-se (me) se este será o desfecho mais adequado... Encolho os ombros e respondo que no dia 11 estarei disponível para dar apoio aos alunos de português do 12º Ano, das 9 às 13 horas.
Ponto final.


4.6.15

Os trabalhos do avaliador

Há os que se esmeram no que fazem e há os que, sendo desleixados, procuram por todos os meios compensar a falta de aprumo e de rigor intelectual.
Quando olho para os primeiros, vejo-os atentos, disciplinados, insatisfeitos com qualquer falha que descubram em si próprios; não descansam enquanto não superam a dificuldade por maior que seja. Na hora da avaliação, no geral, prezam a modéstia e os rostos brilham quando o esforço é compensado ...
Quanto aos segundos, impera a desatenção, o incumprimento, o atraso, a memorização de última hora e, em particular, o desprezo dos próprios erros; falta-lhes a vontade de aperfeiçoar as competências e veem no avaliador uma entidade mesquinha que não lhes satisfaz as pretensões. A responsabilidade pelo insucesso é sempre do outro...
Enfim, nesta época do ano, o avaliador acaba sempre só! E assim deve ser.

3.6.15

Tempo mal gasto

Só nascemos uma vez! Só morremos uma vez! Há, no entanto, eleitos que renascem e outros que ressuscitam. Não os invejo... a vida tal como está já é suficientemente dura para querer voltar atrás ou para ansiar por qualquer tipo de retorno, e muito menos eterno...
Daria, todavia, uma parte do meu tempo a quem me libertasse das rotinas para que sou convocado e que, na verdade, não acrescentam nada ao livro da vida ou, melhor, só confirmam que a vida mais não é do que uma prisão, cujas chaves o carcereiro usa ao seu belo-prazer.
Ainda hoje tive oportunidade de, a propósito da oficina do poeta, explicar que a condição humana está, desde sempre, determinada pelos mecanismos da repetição e da variação. Chegado aos exemplos, apercebo-me que, do ponto de vista da retórica, a repetição supera claramente a variação, pois se distribui pelos níveis fónico, sintático, semântico e pragmático, ao contrário da variação que se confina ao nível sintático ... da linguagem.

(...)  De momento, tudo me diz que noventa por cento dos enunciados que tive de suportar ao longo do dia já os ouvira ritualmente, ao longo dos últimos 41 anos...

2.6.15

O livro único

«Quando era criança
Vivi, sem saber,
Só para hoje ter
Aquela lembrança.

É hoje que sinto
Aquilo que fui.
Minha vida flui,
Feita do que minto.

Mas nesta prisão,
Livro único, leio
O sorriso alheio
De quem fui então.»

Fernando Pessoa, 2.10.1933 

Em frente de uma estreita tira de papel, o Poeta olha uma vez mais as barcaças que deixam o Tejo e, cansado da imagem que de si o espelho reflete, volta ao único tempo que o não pode defraudar - a infância. E é ela que solta as velas por colorir...Por ela, pode mentir (fingir) que as grades da prisão, onde sempre esteve encarcerado, se rompem. Por ela, pode mentir o momento em que deixou de olhar para o espelho e para Tejo... e sorrir. Não, da alheia cumplicidade da criança que outrora foi, mas da suavidade que escorre das palavras que fluem de forma natural para a vida daquele dia de plenitude.  

De nada serve insistir que o Poeta está triste ou está contente e que o canto é de lamento ou de regozijo. Seguir tal caminho é nada entender do ofício poético.


1.6.15

O Nabão em flor

Fui à procura da praia fluvial do Agroal e encontrei o Nabão em flor. Dois patos descansavam sobre as pétalas enquanto as avezinhas trinavam na copa dos arvoredos. O Sol, atrasado, fazia gazeta, deixando no ar uma friagem inesperada.
Do que observei, fiquei com a impressão de que, nos dias de canícula, os passeantes se apinharão à espera de uma nesga de praia ou, então, perder-se-ão na Serra em tentadoras comezainas.


Enfim, com o Nabão, está a repetir-se uma situação que começa a ser habitual. Só lhe conheço a nascente, já o Sol está na curva descendente...

Na verdade, eu vivi nas margens do Nabão durante mais de um ano e nunca fora ao Agroal...
Até, a certa altura, me habituara a contemplar a Santa Iria das Portas do Sol scalabitanas, antes de conhecer a cidade dos Templários...
Já sem falar dos "tabuleiros" que, para mim, têm um significado bem diferente e difícil de alcançar nos tempos que correm. Refiro-me aos "tabuleiros de figo e uva a secar"...