31.5.13

Visão bipolar

Nestes dias em que as ideias se repetem, espanta-me que, num mundo tão vasto e com tantas mentes, não surjam soluções para os problemas que nos ocupam. E o que mais me admira é a visão bipolar que nos carateriza.
Ou estamos a favor ou estamos contra! Quando posicionados, levamos a fé (a convicção) até aos limites, sem percebermos que o fundamentalismo mais não é do que a base da guerra santa.
Como deveríamos saber, a morte das sociedades é o efeito maior de qualquer guerra santa.
 
Nos últimos dias, os sinos têm repicado a apelar à guerra santa. Compreendo que o Dr. Mário Soares procure levantar o povo contra o governo e contra o presidente da república, mas não entendo que as vozes que o acompanham não apresentem de imediato um programa de ação a ser amplamente debatido.
 
Aparentemente, ainda há mentes capazes de investigar rigorosamente o passado, apontando os erros. Mas essas mentes afastam-se da luz quando se trata de pensar o presente e o futuro. Entrincheiram-se ao longo da linha maginot.
E esperam pelo Redentor! Para o Dr. Mário Soares já é tarde! A não ser que ele seja o novo S. João Batista! E nem lhe falta o cordeiro...

30.5.13

Sob ameaça...

Vivemos sob ameaça!
O Governo ameaça atirar para o desemprego e para a miséria uma boa parte da população e encontra justificação na necessidade de prestar contas a quem nos empurrou para a presente situação... Ameaça deixar morrer os doentes e acelerar a morte dos idosos porque mais não são do que uma fardo para a comunidade... Ameaça baixar os níveis de instrução e de cultura, empurrando os jovens para a delinquência... O Governo diz que reduzidos os postos de trabalho e os vencimentos, mortos os doentes e os idosos, alienados os jovens... teremos um país refundado!
Do outro lado da barricada, a oposição pede a demissão do Governo, mas não diz como é que vai resolver os problemas criados ao longo das últimas décadas...
E os sindicatos estão felizes, cada vez mais unidos, preparam-se para ajudar o governo a poupar uns milhões de euros, e para deixar o país ainda mais destroçado. Por exemplo, quem é que ganha com a greve do METRO de hoje? Os trabalhadores? A empresa? Os passageiros? A economia?
Infelizmente, há perguntas a que ninguém quer responder! Há responsabilidades que ninguém quer apurar? 
Um destes dias, damos as mãos e inventamos novas caravelas que nos levem de vez à Ilha Perdida...

29.5.13

A décima irrelevante

Há muito que a décima me surge associada à extraordinária meditação de Camões:
Sôbolos rios que vão
por Babilónia, me achei,
Onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali, o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e, tudo bem comparado,
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.
(...)
Claro que a polissemia da palavra já me tinha confrontado com outros significados: Já os meus avós, que da Babilónia e de Sião só conheciam a lição bíblica, se queixavam da obrigação de pagar a décima. E depois havia a décima parte de qualquer coisa...
 
Hoje, no entanto, despertei para a décima do Dr. Gaspar, que, asnaticamente, nos vai explicando que a projeção da OCDE, superior em três décimas à do Governo, é irrelevante.
Os interlocutores ouvem, registam e replicam os sofismas ministeriais sem se interrogarem sobre os efeitos de cada décima em termos do aumento do número de desempregados e do empobrecimento do país.
Bom seria que o Dr. Gaspar fosse capaz de quantificar a décima!
 
UMA DÉCIMA = + 50.000 desempregados(?)
UMA DÉCIMA = + 100.000 pobres (?)
 

28.5.13

O rumor das águas

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( Na hora em que as palavras tecidas de luz são já a noite.)

Ainda há quem pense que o encanamento das águas é a melhor forma de controlar os aluviões, mas estes, resolutos, rompem os diques e arrastam tudo à sua volta…

Por tudo isto entendo que há momentos em que mais não devemos fazer do que ouvir o rumor das águas porque, ao fazê-lo, adiaremos a chegada à foz.

No caso dos rios, de nada serve a estratégia do contrafogo! Aos rios há que deixá-los fluir livremente…

As águas misturam-se e num caudal único correm para a foz. A junção dos rios contorna a sedimentação externa e não exige qualquer tipo de mediação.

O Caso de Barbacena

O Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica realizou, ontem, a apresentação da obra O Caso de Barbacena: um pároco de aldeia entre a Monarquia e a República da autoria de Margarida Sérvulo Correia.
Na perspetiva do prof. João B. Serra, esta obra deve ser classificada como um ensaio biográfico sobre a vida do Cónego João Neves Correia, mas que abre caminho a uma melhor compreensão do modo como a Igreja Católica intervinha nas questões que opunham o povo, na defesa do direito ao uso comunitário do solo, aos interesses dos latifundiários que se iam apropriando das terras, condenando a população à fome ou à emigração.
Desde já agradeço à professora, investigadora e amiga Margarida Sérvulo Correia o convite que me fez para estar presente na apresentação da sua nova obra , convencido que, em tempo oportuno, voltarei a referir-me ao seu contributo para um melhor esclarecimento de questões que, se bem analisadas, poderão ajudar a melhor compreender as desigualdades que ainda hoje minam a sociedade portuguesa.

26.5.13

Nem sombra…

Nem sombra de areia na praia do matadouro. Só vento frio! A situação pode parecer ocasional, mas duvido.

O parque de campismo da Ericeira está quase vazio, o percurso pedonal ao abandono. Na autoestrada, Ericeira – Lisboa e vice-versa, quase ninguém: um ou outro veículo com marcas de final de taça (de Portugal? da Liga?) ventosa lá para o Jamor!

Um regresso antecipado, mas tranquilo! Ruas desertas, o quiosque dos jornais vazio, só na boutique do pão, a fila cresce desmesuradamente, talvez, porque já só sobra para  enganar o estômago.

Enquanto isso, vou lendo os títulos da imprensa online. A maioria vai dizendo que os portugueses estão no bom caminho! Só se for o dos defuntos!  

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25.5.13

Aqui chegado…

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Aqui chegado , de pouco me serve a revolta ou o compromisso, o caminho que me falta percorrer exige que olhe atentamente o solo  onde coloco pés e que não desperdice energia, pois o vento se encarregará de aproveitar qualquer distração.

É mais fácil lançar-se ao mar do que regressar!

24.5.13

Um banco vegetal

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No caso de morar ali alguém será por pouco tempo. Todavia uma coisa o desalojado terá assegurada: um banco vegetal! Pode parecer pouco, mas tem assento e espaldar para poder descansar e, se quiser dormir, a enxerga é de relva aparada.

E como há quem diga que o futuro a deus pertence, fico-me pelo presente!

7 não rima com 17!

7 não rima com 17! Uma greve no dia 7 de junho em vez do dia 17 não tem qualquer impacto. Será compensação pela redução do raio da mobilidade? Mobilidade que não pode ultrapassar os 65 quilómetros, grande vitória!
Parece-me, até pelos ilustres antecedentes, que alguém irá ser nomeado brevemente para um dos anexos do poder. Resta saber, quem e para onde!
Assim, não!

23.5.13

Uma película muito fina...

Há quem, preocupado com o futuro da língua portuguesa, organize um «encontro mundial» em Paris. Estranha escolha! A velha Sorbonne continua a cativar paisanos deslumbrados com a cidade da luz...
O "futuro da língua portuguesa" é um tema promissor, mas, no meu entender, melhor seria que se olhasse para o presente da língua nos lugares onde ela se realiza, no significado das variedades do português e no modo como estas consolidam ou inviabilizam a construção de identidades culturais.
Basta entrar numa sala de aula para perceber que a língua está reduzida a uma película muito fina que nada conserva da sua génese, da sobranceria do colonizador, da revolta do colonizado e das tentativas de diálogo entre grupos de matrizes bem distintas. A dimensão histórica da língua é ignorada a cada passo e esta não passa de um tolo catavento.
Se não arrepiarmos caminho, a "língua portuguesa" não terá qualquer futuro, a literatura tornar-se-á incompreensível, ficando apenas ao alcance de uma minoria, as pontes de diálogo quebrar-se-ão.
Não se trata já de saber se continuaremos a falar a mesma língua, mas se nas últimas décadas não matámos a língua portuguesa, pelo menos na variedade europeia.
A escolha de Paris para realizar o "encontro mundial" é já um indicador seguro da competência de quem gere a política da língua portuguesa.
Mas compreende-se! Haverá sempre quem prefira Paris, Berlim, Londres, Nova Iorque, Camberra, Pequim, Tóquio...  
 

22.5.13

Lisboa, às 14 horas…

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Quatro fotos, quatro tempos! Do fontanário monumental ao pink! No intervalo, o pragmatismo de Ventura Terra, já distante do espiritualismo, mas ao serviço da res publica. Entretanto, houve tempos em que no templo se defendiam  ideias semelhantes às do falanstério socialista.

Hoje, o rosa alastra, só o consumo interessa! No entanto, às 14 horas, as ruas da cidade estão quase desertas…

21.5.13

Misérias

Irrequietos, olham para trás, galhofam baboseiras e soltam risinhos cúmplices, senhores de um saber temporão.
Sem pudor, desaproveitam as palavras da experiência e da ciência, preferindo exibir a brutalidade e a boçalidade de ações, cujas consequências, por princípio, nunca aceitam.
Apressados, olham as horas como se elas lhes fossem mais favoráveis no pátio ou na mortalha de um cigarro.
Quando chamados ao palco, repetem receitas apressadas ou, simplesmente, emudecem, incapazes de ter e desenvolver uma ideia.
"Copiam" e "colam". Vivem em rebanho, não precisam de pastor!

20.5.13

Vidros esfumados

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Passamos, mas não vemos; sobrevoamos, mas não vemos! É aqui ao lado!
O tijolo e o zinco a descoberto esperam novos moradores. Há até um cadeirão para os mais snobs ou para os mais cansados.
Os governadores em ano de eleições mandam pintar as fachadas. A faixa da Gebalis já está a ficar vermelha… e mais perto do Tejo, lá para Belém, os conselheiros irão ver e ouvir tachos e panelas! Ou talvez não!
Os vidros começaram por ser blindados e agora são, também, esfumados…

19.5.13

"Última Vontade" de Ruy Belo

( Para a Teresa Belo e para os meus alunos de Literatura)
Já sabíamos que havia um deus desconhecido (Ignoto Deo) na poesia de Almeida Garrett e de Antero de Quental, hoje encontrei-o em ÚLTIMA VONTADE de Ruy Belo:
 
Quando a sereia se ouvir
no coração desolado como uma cidade
recorda que te procurámos através das árvores
E tu escondias-te por trás dos frutos
e recolhíamos as mãos
cheias apenas de tempo
Sempre brincaste connosco
desde os dias da nossa juventude
Puseste-nos nos olhos
estação sobre estação e a vida dava as mãos
de árvore para árvore à volta da terra
Ia de ramo morto para ramo vivo
como um pássaro mais e nós ríamos
na tua transparência
 
Fechem-se-te agora os lábios
sobre a palavra que somos
Perdoa se algum dia
errámos com o coração
Não nos deixes morrer longe de jerusalém
 
Leio e no lugar da sereia vejo a harpia! Mas o Poeta prefere a sedução mesmo quando a desolação lhe enche o coração perdido na cidade ( a triste cidade humana nunca será capaz de substituir a natureza celestial!).
E deus está lá desde sempre, nos frutos, no tempo... escondido, invisível e, indiferente à fraternidade dos homens, brinca com eles, estende-lhes os dias até...
E o Poeta descobre o jogo do deus desconhecido, vê-o nas palavras e com elas suplica que, apesar da eventual falta de comunhão, não nos deixe morrer longe das portas de Jerusalém, da terra prometida...
O deus escondido mora nas estações, nos ramos das árvores, nos frutos, no tempo... e não precisa de qualquer templo! 
 

18.5.13

Na cidade

 
A casa da cidade lembra a do campo, abandonada pelo homem. Sempre que tal acontece, a natureza retoma o que era seu.

As torres crescem ao fundo, indiferentes ao passado das fábricas de tijolo e de telha. Os arquitetos deixaram de percorrer os caminhos e vivem em redomas translúcidas.
 
Apesar da falta de planeamento, a oliveira e a nespereira insistem em crescer na cidade.
Como de nada serve rir ou chorar, hoje, decidi apenas caminhar pela cosmopolita cidade de Lisboa e o que vi, ou quis ver, foram sinais de subdesenvolvimento e de ruralidade. Uma cidade indecisa que acolhe a flor da oliveira, mas que, lá no fundo, a escorraça para a periferia.
 
Apontamento: Se me estivesse a confessar, diria que Montaigne nada tem que ver com as minhas caminhadas, mas, na verdade, desde ontem que ele me recorda que podemos chorar de alegria e rir de tristeza. O homem tem necessidade de esconder os seus verdadeiros sentimentos. Por outro lado, também Fernão Mendes Pinto (ou melhor António José Saraiva) insiste em lembrar-me que o exotismo pode ser um sinal de complexo de superioridade ou de inferioridade. Na verdade,estas últimas palavras são de Freud! O que António José Saraiva diz é que em F.M.P. convivem um exotismo «crítico» com um exotismo «simpático». Tudo muito diferente do que viria a acontecer com o exotismo romântico. E por razões que só alguns poderão compreender, reli o exótico Camilo Pessanha e do seu Oriente só encontrei o Ocidente. Saí. E ao voltar, surgiu-me o Ruy Belo com o seu PERCURSO DIÁRIO:
 
Eu vou por este sol além
e ele é quotidiano até ao fim
como se até hoje ninguém
tivesse no sol e fora do sol também
morrido a morte por mim     
 
(A ordem das fotos respeita a sequência da caminhada. E esta só pode ocorrer em maio, mas não, obrigatoriamente, no dia treze...  )  

17.5.13

Golpes baixos

  1. Para o CDS «a greve dos professores é um golpe baixo». E eu estou de acordo, pois o PP já percebeu que a sua defesa intransigente dos aposentados e pensionistas está a ser posta em causa. Assim, não irá ser possível sacrificar uns milhares de professores  para assegurar uns milhões de votos.
  2. De qualquer modo, em matéria de «golpes baixos», o CDS não está sozinho. Sempre que o vento sopra de feição, os sindicatos não descansam enquanto não deitam o porta-aviões ao fundo. A decisão de fazer greve começou por não ser abrangente: há sindicatos que ainda vão pensar, isto é, vão escutar os diretórios políticos. Outros, que ainda vivem no tempo da fava rica, analisada a situação, resolveram marcar não um dia de greve aos exames nacionais, mas 4 ou cinco, para além de uma manifestação. Não há fome que não dê em fartura!
  3. Olhando a estratégia, não se percebe a qualidade do raciocínio sindical. Os sindicatos deveriam saber que, sem afixação das classificações do 3º período, não poderá haver exames no dia 17 de Junho. Deste modo, não faz qualquer sentido convocar uma greve para as avaliações e uma outra para o primeiro dia de exames. Basta olhar para o calendário! Esta estratégia acaba por ser contra os professores que, mal remunerados e sobrecarregados com trabalho, acabarão por se alhear da defesa da escola pública.
  4. E claro, nesta situação, já começam a levantar-se as vozes contra os professores: os madraços não querem saber dos alunos, as verdadeiras vítimas...
  5. É tudo tão primário e previsível neste país!

16.5.13

Co'a palmatória

Para quem governa, a profissão de um militar ou de um polícia impõe um desgaste físico e psíquico acelerado. Pelo contrário, o professor não passa de um madraço que se limita a debitar uma bolorenta sebenta a meia dúzia de meninos bem comportados.
O militar e o polícia correm permanentemente riscos ao enfrentarem o inimigo (muitas vezes, imaginário!) e, pelo facto, merecem passar à reserva, aposentar-se ou reformar-se mais cedo do que outros grupos profissionais.
Na formação de professores, enquanto teve algum espaço, o aperfeiçoamento da capacidade relacional era fundamental. O papel do professor ia muito para além da função transmissiva de conhecimento, pois era sabido que a aprendizagem dependia fundamentalmente da interação professor - aluno, e não de regulamentos impostos por palmatórias ou seus ersatz.
Só uma visão míope do ato pedagógico pode impor uma carreira docente que, um dias destes, poderá estender-se por cinquenta anos, ao mesmo tempo que os jovens deixam de ter acesso a esta profissão.
Tal como o Poeta confessava a D. José I, estou a pensar em «co'a palmatória / cavar num canto da aula a sepultura.» 

De bolorentos livros rodeado,
Moro, Senhor, nesta fatal cadeira:
De quinze anos a voraz carreira
Me tem no mesmo posto sempre achado.

Longo tempo em pedir tenho gastado,
E gastarei talvez a vida inteira;
O ponto está em que quem pode queira,
Que tudo o mais é trabalhar errado.

Príncipe augusto, seja vossa a glória,
Fazei que este infeliz ache ventura,
Ajuntai mais um fato à vossa história;

Mas se inda aqui me segue a desventura,
Cedo ao meu fado e vou co'a palmatória
Cavar num canto da aula a sepultura.


Nicolau Tolentino (1740-1811)

15.5.13

Contra os professores

O Governo aproveita todas as oportunidades para mover a opinião pública contra os professores lançando para o ar argumentos insuficientemente fundamentados. Por exemplo, são necessários menos professores e menos escolas porque a população escolar está a diminuir! E simultaneamente omite as medidas que quer implementar e que têm como consequência a redução do número de docentes. No dia 15 de Maio, o ministério da educação e ciência já deveria ter explicitado as instruções necessárias à organização do próximo ano letivo, mas não, prefere esperar pela anestesia da opinião pública.
As medidas contra os professores não são alheias à encenação de que é possível não sobretaxar pensionistas e reformados. Se estivermos atentos às linhas dominantes do discurso político, verificaremos que professores, por um lado, pensionistas e reformado, por outro, surgem interdependentes. Quanto mais o estado poupar com a redução do número de professores, maior será a possibilidade de preservar as reformas e pensões recebidas por quem descontou e, sobretudo, por todos os privilegiados que não o fizeram...
Curiosamente, os ministros das várias pastas vão subindo ao palco para declarar que os funcionários que tutelam não irão ser abrangidos pelas medidas enunciadas: juízes, polícias, militares, diplomatas, médicos, enfermeiros, pensionistas, reformados... O que se subentende é que os professores passaram a ser o bombo da festa. A esta hora, dezenas de milhar de professores não fazem a menor ideia do que os espera no próximo ano letivo só porque, repentinamente, há menos alunos...
A encenação é rigorosa: não há meninos em idade escolar; os professores são todos iguais em idade e em serviço prestado à comunidade (argumento que irá justificar o nivelamento dos salários e o aumento do número de horas de trabalho letivo); o sucesso escolar tanto pode ser obtido com turmas de 22 alunos como de 30 alunos; o sucesso escolar  pode ser obtido com dois blocos semanais de 90 minutos, independentemente da idade ou da especificidade das disciplinas; as aprendizagens informais têm o mesmo peso das aprendizagens formais; as escolas têm autonomia pedagógica ( para fazer o quê?); as escolas públicas, se comparadas com as privadas e confessionais, têm menos sucesso e são mais caras...
Com esta encenação do governo e seus tentáculos, vamos assistir a tentativas de resistência local,  fragmentada e inconsequente, como, por exemplo, fazer greve à avaliação do 3º Período...
Creio, no entanto, que chegou a hora dos professores e restantes funcionários da escola pública dizerem: BASTA!
É a hora de iniciar um movimento de base que tenha o seu corolário na manhã do dia 17 de Junho: GREVE aos exames marcados para esse dia.
Neste momento, não é hora de olhar para o passado! O estatuto da carreira docente já foi rasgado...

14.5.13

Lisboa, a porta da Europa

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Não sei o que é feito do Dr. António Costa, presidente da câmara municipal de Lisboa, mas há qualquer coisa de muito errado na capital que ele governa!

Basta observar a porta ao lado para ver a degradação da paisagem e, sobretudo, para entender que quem ali se esconde está muito longe dos costas, dos passos e dos portas deste país…

13.5.13

Matizes

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Vou ficar a olhar para a multiplicidade dos matizes. Sei que não os consigo diferenciar a todos, mesmo ampliando a imagem… e enquanto o faço deixo de pensar nos jogos malabares dos corifeus que nos desgovernam.

Há, no entanto, uma pergunta que me atormenta: – Quem é que nos garante que o rosário de contas que nos desfilam não é falso?

12.5.13

Se Alberto Caeiro…

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Se Alberto Caeiro aqui tivesse posto os olhos

ninguém lhos arrancaria dali!

As cores das flores e das borboletas não o deixariam partir

os zumbidos dos besouros e das abelhas seriam a música de todos os dias.

Pelo menos até que a Primavera se despedisse…

ou os frutos maduros o inebriassem de vez.

11.5.13

O Rei da Helíria

O texto dramático "Leandro, Rei da Helíria", de Alice Vieira, escrito em 1991 para o Teatro Experimental de Cascais, surge, neste fim de semana, transformado num novo texto cénico, em que o rei cede o lugar à rainha Leandra por ação do Grupo de Teatro da Escola Secundária de Camões, dirigido por Maria Clara.
A transformação terá causas diversas, talvez sobrepostas: a) entre 1991-2013, as mulheres lutam pelo poder em condições de igualdade com os homens; a educação dos filhos (e dos alunos) continua, em grande parte, em mãos femininas; c) as mulheres, em contexto escolar, manifestam mais apetência pelas artes da representação; o impacto da atual realidade revela os mecanismos narcisistas, trazendo à luz a crueldade da condição humana, mesmo quando nos esforçamos por ignorá-los.
Ao contrário da maioria das histórias tradicionais, O Rei da Helíria não assegura a continuidade do seu reino, e irá "morrer" num palco que, apenas serve, para expor os seus erros como educador. De nada serve culpar a desumanidade das filhas. Elas são a expressão da cegueira paterna/materna. Só a assunção da cegueira permite ver o quanto iludidos vamos vivendo.  
 
No palco, todos se movimentaram a contento, uns com maior desenvoltura, outros de forma mais inibida. Para além da consagrada Graça Gomes ( uma atriz cada vez mais versátil!), há que seguir com atenção os novos atores (Daniela Lopes, João Silva, Rita Júlio, Teresa Schiappa, João Figueira, Clara Mendes, Marta Fernandes). A cenografia de Mário Rita cativa pelo seu simbolismo e pela modo como regula os espaços. Adereços, figurinos, som, luzes harmonizam e dão força às palavras...
 
(Se não me pronuncio sobre outros atores que participam na construção desta peça é porque só hoje assisti ao espetáculo. Resta-me dar os parabéns a todos, sem esquecer a presença e as corteses palavras de Alice Vieira.

10.5.13

Nesta fúria de convergência...

Pessoalmente, nada tenho contra a convergência desde que o rumo não seja o da mediocridade e / ou o do pé descalço!
 
No caso da convergência das reformas, a desonestidade quer tornar igual o que é desigual, por exemplo, nos descontos para a CGA e para a CNP /SS. Os funcionários do estado descontam o que lhes é imposto, à exceção de todos os que beneficiaram de privilégios resultantes de compadrio e caciquismo políticos.
Sobre os PRIVILÉGIOS cai uma cortina de fumo que asfixia tudo à sua volta. Os mais altos dignatários do estado recebem não o vencimento compatível com a função exercida, mas pensões de reforma, tornando-se indignos dignatários...
Por outro lado, é sabido que na CNP muitas pensões são baixas porque se optou por ocultar as verdadeiras remunerações: há, ainda hoje, uma lista enorme de benefícios e gratificações  que não são tidas em conta para estabelecer os descontos...
Basta olhar à volta e ver quantos não pagam transporte, quantos utilizam carros das empresas e do estado, quantos utilizam cartões de crédito de que não prestam contas!
Nesta fúria de convergência, quem é que identifica os titulares de pensões e de vencimentos que nunca trabalharam ou que não o chegaram a fazer durante mais de 10 anos?
Nesta fúria de convergência, quem é que identifica os falsos doentes que conseguiram reformar-se com pensões muito superiores às daqueles que trabalharam mais de 36, 40, 45 anos?
 
Sejamos sérios! É tempo de ajudar os políticos, da direita à esquerda, a rever os comportamentos! A realidade é bem mais complexa do que a que nos é espelhada diariamente pelo governo e seus apaniguados. Mas a realidade também é muito menos simples do que aquela que nos é prometida pela várias forças de oposição.
 
 
 

9.5.13

Na ausência do referente

Ainda comemos o pão, mas ignoramos o caminho: a semente, a planta, a espiga, o grão, o moleiro, a mó, a farinha, o farelo...
Vem isto a propósito do dia da espiga e respetivo simbolismo. No cesto, não vi a espiga nem a videira, apesar do malmequer, da papoila, da oliveira e do alecrim... Na realidade, faltava o essencial: o pão e o vinho, mas o cesto e o ramo estavam à venda.
 
Não obstante, o que mais me preocupa é a ignorância do caminho, é perceber que o ensino vai matando a referência, esmiolando o pão, incapaz de alargar a alma e de ir além do Bojador, pois não compreende que dobrar não é vergar, mas contornar, de modo a que o cabo submarino não nos faça encalhar...
 
Mais do que o significado, interessa conhecer o referente ( a realidade) e não a referência ou o referencial, tudo significantes utilizados por quem há muito fugiu aos trilhos e vive em circuito fechado, longe dos homens, dos campos e dos rios...
 

 

8.5.13

Encenações

I - Nos últimos dias, Passos e Portas experimentaram um tipo de encenação que visa iludir o cidadão português e o credor estrangeiro. O efeito é duplo: desorientação do povo e desconfiança do credor. A política torna-se, assim, num espaço de intrujice.
 
II - Depois do revés da última 2ª feira, Jorge Jesus antecipa, no tapete vermelho que lhe é servido pelos «media», uma vitória no terreno do adversário, evitando a todo custo proferir a dolorosa elocução: - «Pai! Afasta de mim esse cálice!»
 
III - Hoje, o Clube Ler para Viver e o Museu da Escola Secundária de Camões apresentaram na Biblioteca Central uma encenação feliz. A Biologia, a Literatura, a Música e a Expressão Visual aliaram-se e criaram um espaço dinâmico, onde os jovens leitores representaram 4 personagens femininas à procura de uma identidade que, no entanto, soçobra num universo predominantemente masculino.
Nas palavras encenadas sentiu-se, bastas vezes, a vingança das heroínas oitocentistas, a alegria dos jovens intérpretes e a angústia da encenadora.
 
(Os clássicos do Camões já estão alinhados para subir ao palco! Hoje, por detrás das grades das altas estantes, enxerguei os faunos de Aquilino...)
 
 

7.5.13

A gaivota e a sereia

Era uma vez um menino que nunca saíra da Aldeia do Bispo, a sete quilómetros de Penamacor. Conhecedor deste triste isolamento, o ministro Crato não descansou enquanto não acabou com a discriminação que condenava a pobre criança à boçalidade da parvónia.
Às oito horas em ponto, um autocarro recolheu o menino ensonado, levando-o à sede do agrupamento escolar "Ribeiro Sanches" - distinto enciclopedista do século XVIII...
E qual Ribeiro Sanches, em 90 palavras, o menino dissertou sobre as proezas de uma gaivota que, do rio Pônsul,  raptou uma sereia, levando-a em visita ao Palácio das Laranjeiras do ministro Crato.
 
A esta hora, o menino da Aldeia do Bispo, atormentado, não consegue adormecer: nunca ninguém lhe falara da sereia do rio Pônsul e sobretudo, de gaivotas. E ele bem queria estar à altura do desafio! Ainda se a sereia tivesse sido raptada por uma pega rabuda!
 
 

6.5.13

Um dia sombrio

Acordei ainda o sol não despontara, e logo me veio à cabeça que o dia iria ser longo e sombrio.
Paulo Portas assombrara-me o sono, pois na véspera dera a entender que combinara com Passos Coelho uma estratégia para aterrorizar a população, surgindo, depois, como o redentor da franja grisalha... Esta parelha, sem vergonha, brinca com o povo como o D. João V saramaguiano se divertia a armar semanalmente a miniatura da basílica de S. Pedro.
 
Funcionário público zeloso lá apanhei o 783 para o Saldanha e, de imediato, percebi que a luz solar brincava comigo ao desconsiderar a minha degenerescência macular da idade (DMI): as letras e os rostos insistiam em surgir distorcidos, e os neurónios, cansados de tantas desconexões, arrastavam-me para um refúgio que deveria situar-se longe da luz e do ruído...
 
Mas o que me esperava era bem diferente! Corrigir e classificar dezenas de testes e, sobretudo, viajar até ao Bairro azul para cumprir a missão de avaliador externo.
 
Claro que a parelha desenvergonhada me perseguiu todo o dia, o silêncio deu lugar a gritos frenéticos; só o sol acabou por me fazer o favor de, aos poucos, se esconder, talvez, envergonhado do que ia iluminando cá em baixo.

5.5.13

De regresso

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Fica a sugestão de saída, mas a realidade é bem distinta. Ao invés de antanho, escasseiam os meios. Nenhuma Ordem de Cristo dispõe da verba necessária para que este povo se mude para novo continente, nova ilha afortunada.
Na água boiam os anseios de um povo prestes a submergir às mãos de corsários e de piratas. Os anseios de um povo esmagado pela propaganda de um diretório prestamista sem rosto.
(Ontem, a propósito do significado do exame da 4ª classe referi que a aprovação significava a abertura do caminho que permitia a mobilidade social; hoje, acrescento que um diploma de estudos superiores abre o caminho de retorno à miséria… tudo isto, num tempo, em que o ministro da educação não passa de um ajudante do ministro das finanças ao serviço do diretório prestamista sem rosto.)

4.5.13

Do rigor do exame do 4º ano...


Em 1965, fui à sede do concelho prestar provas do exame da 4ª classe. Provas escritas e orais. Ato solene perante júri desconhecido. Nunca soube o custo, mas lembro que o meu pai fora obrigado a emigrar e que a minha deslocação implicou pagar a carreira, sapatos novos, roupa nova... As provas tinham um peso de 100% e distinguiam o sucesso do insucesso escolar. Reprovar era uma vergonha para o candidato, para a família e para a comunidade.
Ser aprovado era o 1º passo da mobilidade social para muitos portugueses dessa época.
 
Dentro de dias, regressa o exame do 4º ano. Ato administrativo perante funcionários anónimos. De acordo com um secretário de estado da educação, o custo do exame nacional acrescenta 600.000 € ao custo das desprezíveis provas de aferição, não esclarecendo qual era o custo destas últimas. Para ele trata-se de uma insignificância. Acontece, no entanto, que muitos dos pais e dos irmãos dos jovens examinandos estão desempregados ou já partiram à procura de trabalho fora desta bendita terra.
Agora, o peso do exame é de 25% e, caso, o aluno não fique, de imediato, aprovado, os desprezíveis professores vão ser obrigados a recuperá-lo para novo exame, cujo o custo o senhor secretário de estado ignora. Reprovar será uma exceção e nada dirá sobre a qualidade das aprendizagens... e quanto à mobilidade social, o que pensar de um regime que promove a mediocridade na educação, desprezando os agentes que a deveriam promover?
O anunciado rigor dos estadistas do passado e do presente em pouco diverge: no passado, abria as portas do escol que haveria de guiar a nação nos seus messiânicos objetivos; no presente, nivela por baixo, abrindo as portas à escumalha que, inevitavelmente, conduzirá ao fim da nação.  

3.5.13

Um rio assoreado

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Desta vez, fiz o percurso a pé. Quis comprovar se, depois das cheias, o Tejo continuava transbordante. Afinal, está assoreado! Tal como no último Verão!

Triste indicador! A ponte cumpre a sua função, ao contrário da ministra Cristas que, ainda, não percebeu que o desperdício de água se paga caro… e, em maio, o Tejo vai morrendo aos poucos..

2.5.13

Para me contrariar

Ciente de que a burrice me consome o tempo que me resta, insisto, todavia, em explicar que não há conteúdo sem continente, que não há compreensão sem expressão, que a imaginação verbal pode ajudar a diminuir a cerração...
De momento esta explicação, devidamente exemplificada - a bolsa, o baú, o copo, a ânfora, a mochila, o contentor, a jarra, a mala, o táxi, o avião,  o país, a urna,  a europa, a ásia... - interessa a muito pouca gente.
Talvez porque, para me contrariar, uma boa parte da humanidade também insista em explicar-me que não tem conteúdo, e assim, vai ocupando o tempo que lhe sobra a bater com a cabeça na parede em frente até que o coma advenha ou, em alternativa, a pisar a cabeça de todos os que se vão pondo a jeito. 

1.5.13

No 1º de Maio

(A cabeça já circunda os Restauradores enquanto que a cauda se arrasta 500 metros atrás; o tronco, esse, serpenteia ao longo da Avenida; os "língua" apelam à revolta no eco das lagartas das chaimites... É ainda a ideia de que o futuro pode ser mobilizado pelo passado!)
 
Eu não estou lá mas é como se estivesse! Bastou-me estar lá na alvorada para perceber que a repetição me incomoda, me atrasa e me surripia a matéria de que sou feito. Eles ainda têm alma! Eu nunca a tive, pelo menos, nunca tive uma alma encenada que, em certos dias, salta dos bastidores e ocupa o proscénio...
 
Por isso, hoje, trabalho todo o dia em múltiplas tarefas, ciente de que me estou a atrasar e de que a matéria de que sou feito se está a esgotar! Ciente de que todo este trabalho em nada diminui a dívida! Ciente de que tudo isto (e aquilo) é triste e reconhecendo, finalmente, que escrever só pode ser triste.
 
Por isso vou agora sair para apenas caminhar durante uma hora, não na Avenida, mas nas ruelas desta freguesia (e talvez da vizinha). Vou sozinho..., mas regresso (espero!) menos só!