Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

26.5.18

O chinelo

Cai pela ribanceira abaixo. Joelho esfolado, mãos arranhadas. Tem vontade de chorar. Mas para quê?
Sacode a poeira, disfarça o rasgão e volta a subir a encosta, como se nunca tivesse saído do trilho...
Sabe de antemão que terá de prestar contas, experimentar, na melhor das decisões, o chinelo... De sola, o chinelo, que melhor seria que fosse de pano ou até de cortiça - modernices!
Fiquemo-nos pelo chinelo, bendito! As alternativas já experimentadas eram muito mais dolorosas, hoje, dir-se-ia, gravosas, pois habituámo-nos a formular juízos de valor condenatórios porque queremos estar de bem com a opinião, pondo de lado a consciência...
Depois de tanta queda e da eliminação do chinelo, mesmo se de pano, vejo-me sem saber se ainda há consciência, se ela era uma imposição cultural ou uma exigência pessoal...
O que eu sei é que só posso usar o chinelo no pé, em casa, na praia... até posso de ir de chinelo para a escola que já ninguém reclama...

25.5.18

Na ilha da Madeira

«Uma flexibilidade de 25% na forma como as escolas trabalham os currículos, fusão e permuta entre várias disciplinas, são algumas das ferramentas que as escolas vão poder beneficiar por via de um decreto de lei.» Tiago Brandão Rodrigues na ilha da Madeira

Com uma autonomia reduzida a 25% - para onde é que vão os restantes 75%? -, os professores, em nome do supremo interesse dos discentes, vão sentar-se a discutir graciosamente os pontos em que os curricula se interpenetram ou, até, os pontos em que a inteligibilidade de uns depende da aquisição dos outros... Será que estão preparados para tal tarefa?
Em reuniões breves e clarividentes, serão construídos 'transprojetos' - que a pluri - e a interdisciplinaridade já tiveram melhores dias! - a executar no próximo ano letivo... se a opção não for a da corrosão disciplinar (fusão)... tudo apadrinhado pelas novas tecnologias de bolso que, entre outras soluções fabulosas, vão finalmente libertar os docentes da agrura de corrigir e classificar testes e exames...  Se se optar pela corrosão disciplinar (fusão) é mesmo possível acabar com o conceito de "ano letivo"...
Pessoalmente, acho que o ministério de educação só falha nos 75% que vai querer controlar, porque se decretasse a autonomia a 100% até poderia encerrar as escolas, despedir os professores...
Desta vez, não vou querer cair para o lado da autonomia... não sei se estão a acompanhar...

24.5.18

Que loucura é esta?

Hoje é o último dia!

Será este o nosso último email?

Que loucura é esta?
Todos querem os meus dados, todos querem que eu os confirme. Se o não fizer, amanhã deixarei de contar... deixarei de ser ... 
Vamos ver se, finalmente, me deixam em paz!
                                          Viva o Regulamento Geral de Proteção de Dados!

23.5.18

Júlio Pomar, os olhos

Em 4 de maio de 2014... «Por trás dos olhos cegos», creio que o verso é de Fernando Pessoa, revela-se no nº 7 da Rua do Vale um atelier museu pensado e desenhado pelo Arquiteto Álvaro Siza Vieira…» (Caruma)

(A verdade é que o verso é de Fernando Pessoa, por ele atribuído a Ricardo Reis.)

E hoje lá fui até ao Alto dos Moinhos e pude ver os desenhos do mestre... Por um dia, apesar de falhado o objetivo da deslocação, valeu a pena ter apanhado o metro.


Júlio Pomar na minha memória caótica surge-me nas palavras de Rui Mário Gonçalves, nas mãos de Mário Soares, nas confidências de José Cardoso Pires e antecipadamente nos versos de Pessoa...

           VIAJAR! PERDER PAÍSES! (...) DE VIVER DE VER SOMENTE!


Por lapso, ontem, não referi o Eduardo Lourenço, sempre às voltas com o passado e o futuro  da nação.  E já, agora, o José Augusto-França, homem que deu assinalável contributo à divulgação das artes plásticas...














22.5.18

Ainda a trabalhar!

Por aqui, o que há mais são afloramentos do que já foi, do que ainda não é nem se sabe se virá a ser, não esquecendo que o que é está pronto a deixar de o ser... dizer que se trata do tempo é vago, genérico, banal... é pensar que se está instalado, bem ou mal, sem saber que o fio pode estar a ser cortado...
Por isso, hoje, vou amputar O Velho de Rui Knopfli:

Não envelheço. Torno-me antigo.
O velho sempre viveu em mim,
sempre o pressenti no olhar
magoado demorando-se nas coisas,
em certa lentidão não premeditada
dos gestos e nas lembranças confusas
de uma outra recuada idade.

O acaso (outra figura do tempo por explicar) quis que, antes de aqui chegar, tivesse dois breves encontros com presenças de outros tempos (uma mais e outra menos idosa do que eu); em comum, a exclamação: - ainda a trabalhar!
O Rui Knopfli que me perdoe, ele, que nunca me encontrou, sabe dar razão à minha temporalidade...

21.5.18

Relances

«... relances há/ em que creio, ou se me afigura, / ter tido, alguma vez, passado // com biografia...»                      Rui Knopfli, Memória consentida, in nada tem já encanto, Tinta da China, 2017

não sei se são relances, se fulgurações...
de súbito surgem breves histórias inteiras...
mas tão distantes que por mais convincentes se perdem em vagares indiferentes
- não cresce ali nenhuma imagem e muito menos uma qualquer hipotipose...
- dizem-me que o imaginário caiu em crise 
- não sei se acredite... não temos nada em comum a não ser o animal acossado

bem replica o Poeta: « cada homem é uma ilha / cega na mais densa cerração.»
... apesar do outro Poeta: «cada homem é uma raça»...

20.5.18

No mundo imundo

(Poucos revelam reconhecer o mérito do adversário...
Poucos sabem respeitar o vencido...)

Vencer é hoje um objetivo maquiavélico.

Até o Poeta, quando ameaça retirar-se do mundo imundo, é acusado de sobranceria, como se a nova ordem o obrigasse a viver na lixeira mental e material que vai crescendo nas mais diversas instituições...
Como se a Arte devesse subordinar-se a populismos insanos.