31.7.14

A mim, o que me espanta...

Há uns dias, referi-me, aqui, aos Contos Municipais do António Manuel Venda, omitindo deliberadamente uma parte do que caracteriza a construção da narrativa: o recurso à hipérbole, à animização, à caricatura... Apesar do mérito do autor, o impacto da obra não é grande. Afinal, o meio retratado é provinciano, quase magrebino. E as elites da capital têm mais em que pensar e, sobretudo, APOIAR...

Não sei por onde é que andam os caricaturistas, mas matéria não lhes falta...Talvez, tendo ido ao BES, não tenham vontade de sorrir nem de fazer rir...

A mim, o que me espanta é a expressão hiperbólica do fenómeno: "torpedo", "hecatombe", "catástrofe", "nunca visto neste jardim, nem no tempo do BPN", "colossal", "trágico", "uma ministra desesperada por não conseguir ver-se livre disto, refugiando-se em bruxelas", "um seguro espantado por ter sido enganado pelo governador do banco de portugal (outro costa!)...

A mim, o que me espanta é que ninguém esteja preso ou, pelo menos, que alguém se tenha suicidado...

30.7.14

Qual é a pressa?

O médico de família, na sequência de observação através de ecografia feita e avaliada por médico especialista, entende que o paciente deve submeter-se com  urgência a uma TAC – tomografia axial computorizada. Só que o exame complementar de diagnóstico tem de ser autorizado pelo chefe da Unidade de Saúde Familiar (UHF).

Hoje é 4ª feira, a TAC poderia ser realizada amanhã, 5ª feira. No entanto a autorização só será concedida (?) na próxima 3ª feira, à tarde.

Consequência: o exame só será realizado no dia 14 de Agosto.

29.7.14

Não sei o que pense desta fraternidade

O investigador imagina-se caçador. O investigado não quer ser tomado como CAÇA, pois ainda sonha ser a pessoa que nunca chegou a ser. Não se nasce pessoa e muito menos boa pessoa!

O candidato tudo faz para destruir o candidato. A única finalidade é ser ELEITO! Depois se verá, se ainda houver povo... Já começo a pensar em tornar-me candidato para destronar o candidato a candidato. Só não o faço porque o meu boletim clínico é agoirento e me falta a estrutura acionista...

O estadista reivindica ser filho do povo, o banqueiro não se importa de ser bastardo do patrão da criada que o trouxe ao mundo...

O acelerador de partículas desfaz os miolos a pessoas que se fazem passar por respeitáveis, mas que, no íntimo, sabem que não passam de pequenos traidores.

Nada do que possamos fazer ou padecer é original. Há sempre quem tenha experimentado as mesmas dores, conheça, de antemão,  o nosso futuro. Há sempre quem queira tomar decisões por nós. Ser senhor de nós. 
Não sei o que pense desta fraternidade, se age por amizade, por piedade ou porque receia a solidão. É, no entanto, uma fraternidade que nos esvazia, que nos impede de SER.

Quando deliro, chego a pensar que a culpa de tudo isto é da estrutura acionista e da robótica.
  

28.7.14

Contos Municipais, escritos de baixo para cima...

Terminada a leitura de Contos Municipais, de António Manuel Venda, quis registar uma ou outra ideia, o problema é que fui assaltado por uma associação mental... (Trata-se de um conjunto de estórias sobre um meio pequeno: o presidente da câmara, manda-chuva; a vereação conformista; a secretária discreta e prestável; a bruxa milagreira maria cadela; o vereador, chico esperto; a oposição diabolizada - um meio animizado, com joaninhas e ouriços, dióspiros, um elevador, e o imprescindível whisky presidencial... E claro, um meio que abomina qualquer intervenção externa, da capital... do ministério das finanças...). 
Entretanto, a associação mental está a ficar para trás, ou, melhor, está a dar lugar a outras ligações umbilicais: de Mário de Carvalho a Mia Couto, sem descurar José Eduardo Águalusa. Não querendo comprometer o António Manuel Venda em qualquer ligação perigosa, regresso à primeira associação mental: Gabriel Mariano, Cultura Caboverdeana, Ensaios... 
Pensava eu que me seria fácil recorrer a uma citação  do poeta e ensaísta Gabriel Mariano (aliás, José Gabriel Lopes da Silva) sobre a importância dos meios pequenos, quando me apercebi que a relação entre a memória e o lugar na estante pode tornar-se uma dor de cabeça... Da estante, saltaram, à vez, Vida e Morte de João Cafume, Ensaios, Claridade revista de Arte e Letras... e nada ou quase:
A cultura fez-se de baixo para cima. Não se fez da Casa Grande para a sanzala como sugere G. Freire.
No essencial, o que tenho a dizer da obra Contos Municipais é que ela foi escrita de baixo para cima, mesmo quando as nuvens pairavam sobre a Câmara Municipal de Monchique, de Portimão, de Tavira...

27.7.14

Situações de exceção

Cito o Expresso, Economia, 26 de julho de 2014:

a) O secretário de Estado da Administração Pública está neste momento a negociar com os sindicatos a tabela salarial única e a revisão dos suplementos.
b) O atual secretário de Estado da Administração Pública, José Leite Martins, nomeado no final de 2013, depois de quase uma década como inspector-Geral das Finanças, criou e manteve uma situação de exceção para muitos quadros de topo da Inspeção-Geral de Finanças (IGF) que dura há vários anos. (...) Existem atualmente 24 inspetores cuja remuneração é ainda calculada com base nas regras anteriores a 2009, o que, na prática, representa uma diferença na ordem dos €1500 brutos por mês face ao que ganham os seus colegas que assumiram o cargo depois dessa data.... 

- Quantas serão as situações de exceção neste inefável país?
- Como é que o criador da exceção citada pode ser o negociador da tabela salarial única?

Hoje também poderia falar de outras situações de exceção: Marcelo Rebelo de Sousa a comparar o pobrezinho do amigo Ricardo Salgado com o Paulo Bento; o tristonho presidente da República a comparar a Guiné Equatorial com a Coreia da Norte...
Vou ficar por aqui, pois não sei o que pensar. Lembro-me, contudo, que, há pouco tempo, na Coreia do Norte, foi encontrada uma professora que ensinava Português sem nunca ter tido a possibilidade de cavaquear com um nativo desta ditosa pátria... 


26.7.14

Suspenso do tempo

Assinamos um título de responsabilidade, absurdo. Se não voltarmos a despertar, essa assinatura é uma garantia preciosa para a instituição (anestesista, médica, enfermeira). Quanto a nós, que importa?
(...) Antes da suspensão, ainda ouvi pense 'em alguma coisa agradável' e a ilha do Pico, subitamente, eclipsou-se... até que uma voz máscula gritou 'senhor manuel, acorde, acorde', cada vez mais alto.
E acordo, estremunhado, sem perceber o que aconteceu no intervalo; apenas uma mancha vermelha no resguardo. Ponho-me de pé para me vestir, vejo ao lado as roupas que deixara no gabinete de acesso e pressinto que o espaço está diferente, e penso que devo estar na sala de recobro... tudo tão rápido ou, pelo menos, parece...
O tempo de ontem era tão lento e o de hoje tão apressado, a não ser que, por momentos, ele tenha estado suspenso.
Recebo os resultados em videograma: as imagens são esclarecedoras, as palavras nem tanto...    

25.7.14

Palavras estranhas

Endofalk é uma dessas palavras que associo, de imediato, a cadafalso. Porquê, não sei... O termo designa um «pó para solução oral constituído por uma mistura de sais e macrogol» - outra palavra que associo a mongol. Associação inapropriada, pois trata-se de um laxante, vocábulo imaginado por algum preguiçoso...
As minhas associações revelam-se primárias, com leve vestígio assonântico (ou será aliterado?)...  
A verdade é que estas palavras estranhas acabam por se liquescer, obrigando-me bebê-las durante três horas à média de 200 a 300 ml a cada 10 minutos. No total, três horas de progressiva bebedeira adocicada! E para quê?
Para que ao fim de três longas horas, o líquido volte a sair límpido... e tudo, assim, se mantenha por mais 14/15 horas...

(Estou a meio da função! Alguém me disse que este procedimento libertar-me-á da melancolia. A ver vamos, embora já comece a sentir as entranhas...)

24.7.14

Prosa delirante

Hoje, encontrei um Eurico (noutra versão, um TEO DURÍCO) na "Relíquia", um Malhadinhas nascido na "Beirra alta", um episódio romântico entre Carlos da Maia e Maria Monforte, um avô Maia amante da neta, um existencialista acabrunhado com a falta de memória, um romance ("Amor de Perdição") escrito em apenas duas noites, pois Camilo estava a ficar cego e admirava os suicidas... 
.... uma personagem (Carlos da Maia) que conheceu uma rapariga (Maria Monforte) que ficou presa na sua cabeça... 

Todos estes escreventes admiram a prosa de Eça, de Camilo e de Vergílio Ferreira.

Ao evitar a citação procuro fugir do internamento numa casa de saúde mental...


23.7.14

“Onde é que estão os países árabes?”

gaza_destr2

A pergunta é de uma palestiniana sob intenso bombardeamento israelita. Entende-se o desespero da mulher, mas, na verdade, o problema não é israelo-árabe.

Na Palestina, na Síria, no norte da Ucrânia ou em qualquer outra parte do globo, o problema tem origem no relativismo cultural que, desde sempre, desculpabiliza o mais forte…

Enquanto forem permitidos dois pesos e duas medidas para tratar o desespero humano, tudo continuará como sempre… E para além do desespero humano é melhor nem pensar!

As imagens de hoje são reveladoras da incongruência humana – da Holanda, da Palestina, de Israel…

22.7.14

Muito pode o galo no seu poleiro

Hoje, foi dia de 2ª chamada para os candidatos à docência com menos de cinco anos de exercício. O senhor ministro persiste em selecionar aleatoriamente os futuros docentes, mandando às malvas a formação universitária e até a experiência, entretanto, adquirida. O senhor ministro, saído de um qualquer faval algarvio, persiste na ideia de que governa um país de néscios desmiolados... 
Se ao menos o senhor ministro tivesse coragem para avaliar as faculdades que certificam os candidatos à docência com menos de cinco anos de exercício, não teria necessidade de fazer figura tão triste: Muito pode o galo no seu poleiro.

(...)

No meio de tanta prova, também eu fui a exame - médico. De acordo com os primeiros indicadores, o mais provável é que tenha reprovado. No decurso do exame, o examinador foi dizendo que o melhor é fazer um novo exame - mais sofisticado.
Comigo está a acontecer o contrário do que é habitual: em vez de voltar a estudar a matéria e de repetir a prova no próximo ano, vou ser examinado até que o SNS se canse de mim...


21.7.14

Agridoce

PICT0082PICT0080

Custa-me que os bancos permaneçam vazios, apesar da pátina do tempo. Custa-me que as pessoas tenham de ficar de pé, distantes  dos bancos vagabundos, mesmo se os encontros forem de ocasião ou de negócio clandestino.

Durante a madrugada, chovera; o piso ainda húmido apenas testemunha o que agenda esconde. Não há, todavia, qualquer sinal de acrimónia. Parece que há acordo sobre o assunto abordado – negócio, crime… algo em construção

Pelo chão, uma estrutura desfeita, da noite anterior…

Entretanto, hoje, o amigo Jorge Castanho ofereceu-me o meu próprio retrato, feito por ele em menos de trinta minutos. Como eu admiro os artistas que, com um simples lápis, nos fixam a identidade e, ainda por cima, nos tornam mais jovens!

20.7.14

Na Figueira da Foz, vi um bispo à venda…

PICT0075

Pormenor do Palácio Sottomayor (1920 –1980). Propriedade atual de um casino – vitrais quebrados.

(Na Rua Joaquim Sottomayor)

IMG_20140720_083737

Santana Lopes reabriu o mercado da Figueira (1999). Requalificado em 2003. Porquê?
Gosto da ideia: Na praia use só loiça de Sacavém!

IMG_20140720_083820

Hoje, no mercado da Figueira, havia muita fruta  e muito peixe fresco… e pouquíssimos clientes… Na rua, havia fartura de arte  sacra à venda. Era possível comprar um bispo bem paramentado e melhor sentado.

19.7.14

Dois faróis

PICT0073 PICT0087

 

Dois faróis! Em Portugal, farol é equipamento que não falta! No entanto, o país continua sem rumo.

Acabo de ler no Expresso, pág. 07, caderno de Economia – página de publicidade BES - “MAIS DE 17.000 EMPRESAS PAGAM E RECEBEM À HORA CERTA.» E no mesmo caderno, pág. 8 “ GARANTIA APOIA BANCO SEM CONDIÇÕES”: José Eduardo dos Santos autorizou, em 31.12.2013, o “Ministro das Finanças a emitir uma Garantia Autónoma até ao valor de USD 5.700.000.000,00 a favor do Banco Espírito Santo Angola, SA

Será tudo isto verdade?

18.7.14

Há trinta e um anos...

PICT0085
Há 31 anos, neste lugar, não era possível enxergar esta moderna torre sineira. Talvez, o farol fosse o único ponto de referência. O relógio era um privilégio da Igreja, inimaginável numa praia…

Na verdade, há 31 anos era possível ver a torre sineira, inaugurada em 1947. Ver: http://arquivoartigospalhetas.blogspot.pt/2011/09/torre-do-relogio-da-figueira-da-foz.html

Há 31 anos, o dia de cinza acabou numa trovoada que, por largos minutos, gerou insegurança. Esse acontecimento bem pode explicar  muito do que acontece hoje, sem que alguma vez os protagonistas tenham colocado tal hipótese.
Há uma dimensão do tempo que nos escapa a  todo o momento, apesar de haver uma hora certa para tudo.
Quanto à altaneira bandeira, às 17h05, ela não era mais do que um símbolo de caducidade. Um símbolo quase invisível.
E o farol, esse  deixou-se cercar, não de ondas, mas de casario…

17.7.14

Se tivesse aprendido a arte da poda...

(Sabe-se que a poda orienta o crescimento e apura a produção) Porfírio Silva, Monstros Antigos

Neto de agricultor, nunca cheguei a aprender a arte da poda. Jovem desatento, nunca dei a devida atenção ao ato, se bem que soubesse identificar a tesoura... Pensava que o futuro seria mais promissor se aprendesse  a classificar orações concessivas! 
Passados tantos anos, ainda dou comigo a interrogar-me sobre essa questão fundamental para a «fábrica do mundo» (P.S.): classifique a oração « se bem que apreciadas por alguns» linha 25, grupo II, Prova 639 /2ª fase, 2014.
Se tivesse aprendido a arte da poda saberia orientar o crescimento e não estaria nesta absurda função de censor...
E certamente este meu dia, como todos os anteriores, seria menos amargo...

15.7.14

Ainda há alunos que querem estudar Latim

Ainda há alunos que gostam de estudar Latim - alunos que aprendem a amar a cultura clássica; alunos com resultados de excelência no exame nacional.
O desejo de estudar uma língua clássica pode parecer surpreendente e anacrónico, pois continua a haver quem pense que o latim é uma "língua morta", cujo enterro foi oficializado por Eça de Queiroz e, mais recentemente, confirmado pelo Portugal democrático.
A matéria nunca mereceu grande reflexão ao MEC, se exceptuarmos um ou outro parecer devidamente pago e alinhado.
Na verdade, nos últimos anos, os alunos têm procurado vencer os entraves à oferta de Latim B, mas sem êxito. As escolas, apesar da apregoada autonomia pedagógica, inviabilizam sistematicamente esse desideratum e o MEC refugia-se na austeridade, na eficácia da utilização dos recursos...
Hoje, continuo impedido de responder positivamente a um direito dos alunos e a uma necessidade do país!

14.7.14

No divã

Há consoantes ásperas no ar...
Apetece-me nada escrever para esquecer, ao contrário de outras dias em que escrevo para não esquecer... Da primeira vez que me imobilizei na ideia de nada dizer, surgiu Freud que me alertou para o perigo dos recalcamentos tardios, apesar da proliferação dos traumas infantis...
E estava nisto quando Porfírio Silva me alertou:

«O amigo é um animal ingénuo,
que pensa que os outros só podem ver
o que existe.»
Excerto do poema os humanos são grandes caçadores, Monstros Antigos, pág. 54, Esfera do Caos Editores

Em síntese, o melhor é ler os poetas e depois ir dormir...

Da arena à ágora

Vi o Alemanha - Argentina, e a força alemã sobrepôs-se à força argentina. Já era assim nas arenas romanas! Doravante, o tempo futebolístico será de organização e de músculo... 
Quanto à arte, escassa - apenas a sombra de Messi! Não compreendi porque representava a Argentina. Ainda se o deixassem jogar do lado adversário, talvez ele, por um instante, conseguisse sorrir... Deram-lhe um troféu, e ele, desconsolado, caminhava fechado sobre si, como se quisesse fugir dali.

Ainda sob o efeito da arena, volto-me para ágora com vontade de esquecer o tempo perdido, e leio um poeta, para mim, desconhecido - Porfírio Silva, Monstros Antigos, pág.15, Esfera do Caos Editores, 2013:

Um avião com fadiga do metal
já não é um avião; é outra coisa;
talvez uma escultura
uma escultura perigosa para os passageiros.
(...)
Um corpo com fadiga do metal
já não é um corpo; é outra coisa;
talvez uma escultura;
uma escultura perigosa para os seus íntimos
e reservados passageiros.

E demoro-me a pensar naquele avião que, há dias, deixou cair umas tantas peças sobre Camarate, sobre o Catujal, talvez uma escultura perigosa para os moradores...
E demoro-me a pensar se um corpo, como o meu, cansado, não será outra coisa; talvez uma relíquia de que os  passageiros já não querem ouvir falar...
  

12.7.14

O último projeto

Entre dezembro de 2005 e julho de 2014, os acontecimentos fúnebres sucederam-se, uns mais distantes outros mais familiares - as ausências foram substituindo as presenças... 
(Enquanto que os rostos se diluem, as silhuetas demoram-se crepusculares.)
 Hoje, dei comigo a abrir gavetas e a esvaziá-las. Imóveis, as gavetas esperaram quase nove anos, e lá de dentro, por entre aranhiços, ganharam vida os objetos mais inesperados: víveres putrefactos, perfumes pestilentos,  ferramentas enferrujadas, líquidos aviltados, pagelas conspurcadas, sapatos sem alma e sem par, caixas e caixas de comprimidos fora de prazo... 
(Foi tudo deitado para o lixo - esse lugar derradeiro que nos faz voltar atrás e (re)ver os excessos em que vivemos.)
Se, pelo menos, soubéssemos a hora certa para deitar fora o nosso lixo, as memórias seriam mais leves. 

Involuntariamente, abri as gavetas porque,  num certo momento, comecei a pensar que o lixo herdado não deve sobrecarregar as memórias alheias... Na verdade, hoje aprendi que não posso esquecer-me de esvaziar as minhas gavetas... 

10.7.14

Nas caves do GES...


FRANCISCO SARSFIELD CABRAL
«O Banco de Portugal impediu o BES de emprestar dinheiro ao Grupo Espírito Santo (GES), o grupo da família. E o BES, o banco, está suficientemente capitalizado para fazer face a eventuais créditos que tenha dado a empresas da família Espírito Santo antes da intervenção do Banco de Portugal.»



Este enunciado não passa da expressão de uma crença enraizada na velha cumplicidade entre a política e a finança. 

O Governo (e não o Banco de Portugal) deveria esclarecer qual é a fatia do tesouro português envolvida no capital "espírito santo" e, também, que montante da dívida portuguesa está "escondida" nas caves do GES. Infelizmente, o que os políticos e os banqueiros melhor sabem fazer é atirar os problemas para debaixo do tapete. 
Nos últimos anos, a propaganda e a ação partidária do eixo da governação, sob o patrocínio de várias organizações internacionais e do presidente da república, à força de proclamarem as vantagens da capacidade de autorregulação da iniciativa privada, condenaram uma parte da população portuguesa ao empobrecimento, ao desemprego, à emigração e, sobretudo, a um aviltamento inclassificável...
Depois do que aconteceu com o BPN ( e a Sociedade LUSA), este descalabro era previsível. A própria queda de Sócrates já resultou da revolta dos banqueiros... Só que o novo poder foi chocado precisamente nas caves "espírito santo". Mudou a plumagem, mas os corvos continuaram à solta...
Pode parecer que não há solução, mas há... e ela passa pela separação do Estado da Fazenda, tal como no passado foi necessário separar o Estado da Igreja. E cuidado por que a Igreja continua viva, continua a incubar nas caves do espírito santo, do Millenium e do BPI...

9.7.14

O coreto e a saúde

IMG_201407190_0643

Há coreto, mas não há festa! Assim me sinto eu, embora sem o brilho deste – coreto inútil. Talvez o adjetivo seja excessivo, mas a verdade nos diz que, por vezes, ainda somos úteis para os outros, para os outros se servirem, só que, a cada passo, sentimos o peso da nossa inutilidade…

Sempre que avisto um coreto, fotografo-o, e quando não o faço, penso que já houve tempo que havia festa no coreto. Não sei porquê associo-o à banda da GNR… à charanga, mas esse tempo nunca foi meu…

Hoje, um amigo perguntou-me pela saúde, não soube responder-lhe de forma objetiva… e logo pensei no coreto. A saúde é como o coreto: sob o sol ofuscante, brilha, mas por dentro não tem resposta. E como se sabe não há resposta sem diagnóstico… e eu esforço-me por cumprir os ditames do sábio, embora lá fundo saiba que o sábio anda errado. Quando ele baixar os braços, terei oportunidade de lhe dizer que há caminhos sem saída, como coretos sem festa.

Ah! Como eu gostava de fotografar a saúde! Ou aqueles que aproveitam os coretos para dar cabo da saúde…

8.7.14

A máscara caiu: Alemanha, 7 - Brasil, 1

A encenação não basta!
A emoção é inimiga da organização!
O individualismo mata o coletivo!

Com Scolari, já tinha sido assim no Europeu.
Com Bento, já tinha sido assim no Portugal - Alemanha...
Scolari nada aprendeu

A continuar assim, o melhor é proibir as crianças de ir ao futebol!

7.7.14

A intensidade e o peso estratégico

Bairro de lata_ Alcácer do Sal

Dirigindo-se a El-Rei Filipe VI de Espanha, que não de Hispânia, o nosso Presidente, Cavaco Silva, fez-me correr para o bloco de notas: « A intensidade e o peso estratégico do nosso relacionamento…» Apontamento registado, estaquei e fiquei a pensar na profundidade do pensamento…

Sem palavras, procurei na memória e esta devolveu-me, sob um verde intenso, o peso da nossa comum miséria: barracas escondidas, longe do olhar real e presidencial…

A estratégia do relacionamento é demasiado vaga para que os povos hispânicos a possam abraçar, acostumados que foram ao afrontamento.

6.7.14

Ainda cheiro a diluente!

Domingo! Não cumpri nenhum dos rituais em que fui educado. Não fui à missa. Não descansei. Não vesti fato domingueiro...
Ainda cheiro a diluente! Uma toalha colara-se ao tampo (tempo?) da mesa da sala, deixando uma penugem esbranquiçada que só com muito paciência e energia consegui eliminar. À medida que descolava a substância viscosa ia pensando nos elos que me prendem ao passado, na dificuldade em superá-los. Compreendi, no entanto, que escrever é aplicar um diluente que pode dissolver a inabilidade para cortar com o passado em que fui formatado...
Talvez por isso acabo este domingo a sorrir da viagem interminável entre a charneca e as primeiras casas da vila de Sintra, depois de ter dobrado o Arco do Ramalhão, e a pensar que a formação humanística para além da Literatura não deveria descurar a Filosofia...
Mas esse é outro cavaco, com perdão de Sua excelência que amanhã irá receber sua alteza, Filipe VI de Espanha... 

5.7.14

Agendado

Por ordem:
Sangrado - a veia, entretanto, vai-se escondendo; a analista entra em desespero e eu acabo por ter pena dela.
Arrumado, no triplo sentido da palavra - arrumo e sou arrumado, sobretudo, no supermercado; a cada passo, maior cansaço.
Aliterado - basta voltar atrás, e vejo-me arrasado por três aliterações: estado em que me encontro por força da agenda  que me obriga a nivelar ou a desnivelar 40 provas de Literatura Portuguesa...
Entediado - o aspirador parece querer sugar-me o pó que me seca as sinapses...
Esperançado - e se os artistas da bola de hoje tirassem o protagonismo aos caceteiros de ontem...

... e mais não acrescento para não incomodar nem os coelhinhos, nem os porquinhos, nem as galinhas!

4.7.14

A agenda em forma de labirinto

A agenda responde por mim. 
Devo-lhe obediência plena, e se não cumprir, alguém ficará muito admirado pois toda a gente espera de mim pontualidade e eficácia...
Entretanto, eu próprio registo na agenda tarefas e compromissos a que não poderei escapar. Por enquanto, ainda consigo gerir os eventos, embora alguns comecem a sobrepor-se e, sobretudo, a questionar a razão de ser dos restantes.
Legalmente, estou obrigado a cumprir uma quantidade de tarefas medíocres e, se o não puder fazer, serei penalizado. 
Legalmente, estou obrigado mesmo naquelas circunstâncias em que a vida se revela escassa... 
A Lei impõe-se à Vida, ainda que uns tantos insistam em falar na "lei da vida"... Nunca percebi que "lei" é essa, pois a resposta acaba sempre em Morte.
E em tudo isto o mais absurdo é o papel que tenho tido enquanto regulador, avaliador, coordenador. Também eu determino a agenda dos outros, esperando deles pontualidade e eficácia, em nome de uma Lei que se impõe à Vida...
Prisioneiro deste labirinto, escrevo qual Dédalo, mas a minha sorte parece ser a de Ícaro... 
De qualquer modo, agendo, desde já, que, quando as minhas asas derreterem, não quero que os pingos sobrantes sejam objeto da benção e de acompanhamento de qualquer presbítero. De preferência, os pingos sobrantes deverão ser lançados ao vento na serra mais próxima...

3.7.14

Triste polémica!

Agora que Sophia foi afastada para o Panteão Nacional, surge a polémica sobre o lugar da escritora no novo programa de Português do Ensino Secundário.
Triste polémica! 
Sophia faz ou não parte do "corpus" de leituras obrigatórias na disciplina de Português? - Sim. O MEC até se preocupou em selecionar a obra, tal como fez  para os restantes autores, obrigando os professores a ministrar a obra selecionada - Navegações - e não outra, eventualmente, mais crítica ou mais artística...
Na verdade, para o MEC o que é importante é não dificultar a vida ao IAVE. Este, apadrinhado pelo MEC, encontrou uma receita de que não quer abdicar para construir as provas de exame nacional e, deste modo, condicionar a criatividade dos docentes e facilitar a vida às editoras...
O que está em causa para o MEC não é o lugar de Sophia no Programa de Português, mas, sim, uma certa visão da língua e da cultura. Basta pensar no argumento de que Sophia pode ser estudada no âmbito da leitura "orientada", "projeto", "contrato" ou até na disciplina de Literatura Portuguesa... Para o efeito, fazendo prova de grande argúcia, o MEC escolheu como leitura obrigatória Contos Exemplares, obra que, no pós-25 de abril, teve o papel de explicar o que era uma forma simples, mas culta... Será que o MEC sabe quantos alunos frequentaram a disciplina de Literatura Portuguesa no presente ano letivo?

2.7.14

O Panteão, o pior de todos os males…

Heraclito de Epheso
A palavra
Heraclito de Epheso diz:
«O pior de todos os males seria
A morte da palavra»
Diz o provérbio do Malinké:
«Um homem pode enganar-se em parte de alimento
Mas não pode
Enganar-se na sua parte de palavra»
Sophia de Mello Breyner Andresen, O nome das coisas, 1977
Não me posso associar à decisão da Assembleia da República, até porque a tradição ensina que quem é trasladado para o Panteão acaba por ser esquecido…