31.8.14

O escritor no mercado

«Em relação ao futuro, o Brasil será cada vez mais um país fundamental para quem escreve em português. Ainda não é assim, mas os nossos leitores no Brasil estão e vão continuar a crescer, porque em Portugal não têm como aumentar.» José Eduardo Agualusa, DN, 31 de agosto de 2014. 

Palavra fácil e cristalina!
O escritor conhece a importância do mercado e por isso é, cada vez mais, um mercador da lusofonia. Uma boa parte do tempo, gasta-o a viajar, a promover o último livro. Encontramo-lo onde a procura aumenta, onde os mecenas gostam de produzir o acontecimento literário. 
Coitado, o escritor anda numa roda viva, tantas são as solicitações!
Por vezes, penso que a exposição pública do escritor não é muito diferente da do político. O que me aflige é não perceber onde é que eles arranjam tempo para pensar, para escrever, para agir...

A única alegria que me sobra é ter, finalmente, percebido que, neste verão, os portugueses passaram o tempo a ler - porque em Portugal (os leitores) não têm como aumentar.

PS. Creio que o mapa está desatualizado! Um dia destes, os escritores lusófonos passarão a viajar para a Guiné Equatorial... Se eu fosse escritor, estaria atento à palavra do Presidente Teodoro Nguema Obiang...

30.8.14

Fora de água

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Terminei a leitura de OS MEMORÁVEIS. É um romance que se lê com gosto. Li-o em menos de uma semana. Primeiro com curiosidade, depois com entusiasmo e, finalmente, com uma certa frustração. Terminadas as entrevistas aos homens de Abril, a narração procura explicar o enigmático António Machado, mas fá-lo de forma  estereotipada, criando um tempo omisso de 6 anos (2004-2010). Talvez a escritora, Lídia Jorge, tenha decidido guardar esse “tempo omisso” para o próximo romance… Veremos!

No lugar do lago, pensava colocar um banco vegetal, mas a fotografia foi interrompida por uma chamada. Na verdade, o que estou a querer dizer é que a contemplação da natureza pode reservar-nos tanto prazer como a leitura de um livro, de um semanário…

Para além da leitura e da contemplação, a vida também pode ser fruída nos seus momentos de euforia e de disforia. O problema é quando a disforia se torna dominante…

29.8.14

Lanço de escada no Hospital dos Capuchos

Sempre que vou ao Hospital dos Capuchos, saio a pensar naqueles idosos, muitos, diabéticos e quase invisuais, armados de próteses, umas visíveis, outras invisíveis que, diariamente, são obrigados a subir um lanço de escada, situado à direita da porta que dá acesso à consulta de oftalmologia.
Sentados, em duas filas, os pacientes falam do atraso do respetivo médico, do desrespeito pela ordem de marcação: há quem chegue mais tarde e seja atendido primeiro, apesar de não ter sido recentemente operado. Alguns falam da surpresa de serem obrigados a pagar atos médicos anteriores, como, por exemplo, a dilatação dos olhos. Cada gota tem um preço!
Só ninguém dá atenção àquele lanço de escada que uns tantos, em função do diagnóstico, acabarão por subir trôpega e lentamente...
Há, apesar de tudo, uma enfermeira que valoriza a leitura e que acabou por me dizer que eu devo ser uma pessoa que gosta de livros. Ao colocar-me as gotas, ela olhava repetidamente para o livro que eu colocara na cadeira vizinha...
E aí eu aproveitei para lhe recomendar a leitura de Os Memoráveis, um romance muito bem construído e, sobretudo, capaz de nos questionar sobre o passado recente, tal como acontecia com a personagem Margarida Lota sempre que entrevistava um dos "heróis" do tempo perdido.
Finalmente, a escada surgiu-me como uma bela metáfora do ato de ler. E se, em cada degrau daquele lanço de escada, estivesse aberto um livro?

27.8.14

Os Memoráveis (i)

Na Primavera de 2004: «Pode-se dizer que em trinta anos, como é natural, a revolução, numa primeira fase, deu lugar à devolução. Depois da devolução, como é natural também, passou-se ao período normal da evolução, e da evolução, como é comum em todos os processos semelhantes, passou-se à involução, e daí à denegação,  foram apenas uns anos.» Lídia Jorge, Os Memoráveis, pág. 183.

E hoje, passados 40 anos, em que fase nos encontramos? Espero pela resposta da Lídia Jorge.

Ao ler o último romance da autora, vou pensando nos escritores românticos que não tinham receio em abordar os acontecimentos recentes, fugindo à tentação do romance histórico. Lídia Jorge situa-se nessa linha que procura influenciar a decisão, contribuindo para a abordagem da política no sentido nobre do termo.
Por isso a leitura de Os Memoráveis se torna prioritária, nem que seja para permitir uma análise descompreceituada do estado atual da nação.

25.8.14

Farto do assédio da NOS

Por razões várias, hoje não tencionava queixar-me de nada: nem dos 3 antibióticos que sou obrigado a tomar de 12 em 12 horas, nem dos inaptos que não vale a pena identificar, nem das mentiras de quem nos desgoverna...
Só que às 21h15, a NOS resolveu atacar: primeiro para o telefone fixo, depois para o móvel.
Por causa da NOS, paguei há dias 11 euros para bloquear as chamadas anónimas. Entretanto, a NOS deixou-me em paz durante três dias, mas, como são persistentes, resolveram o problema, passando a ligar dum número identificado.
Explica-se-lhes meia dúzia de vezes que não estamos interessados, que estamos fidelizados, que não gostamos de ser assediados com perguntas sobre "quanto paga?", "quem é o seu prestador de serviços?" "se não gostaria de pagar menos?"... e desculpam-se que a culpa é do computador que parece encontrar-se em roda livre...
Mais comentários para quê? A liberdade, afinal, também serve para assediar o consumidor...

24.8.14

Os Memoráveis: há um limite para tudo...

«Há um limite para tudo, até para a memória. Sobretudo para a memória. Além de que todos seremos esquecidos.»
Esta asserção, atribuída à personagem Miguel Ângelo, encontra-se na página 104 do romance Os Memoráveis de Lídia Jorge.
Talvez seja essa a razão que levou a autora a escrever esta obra. Lídia Jorge procura, assim, combater o esquecimento e, sobretudo, a falta de informação das novas gerações. 
Temos, deste modo, aqueles que esquecem por conveniência, por excesso de atualidade ou, simplesmente, por decadência mental; e aqueles que não chegam a tomar conhecimento, porque, aos primeiros, não interessa que o passado recente se constitua semente do presente e do futuro.
Os primeiros, os que agem por conveniência, são todos aqueles que, conquistado o poder, temem que a memória da esperança e da alegria revele a sua verdadeira natureza...
Estou em crer que o romance Os Memoráveis bem poderia fazer parte do corpus de leituras recomendadas no Ensino Secundário.
(...)

22.8.14

Abílio Jorge Cosme (iiiiii)

XXVIII

Embora não soubesse o que meu ser conseguiria,
Lutei pelas rédeas que controlavam o meu destino;
Em tudo o que encontrei revelou-se-me um ser que guia,
Que fez meu drama só para me expor ao seu ensino.

Aceitei minha vida sem ser vã nem vazia,
Pois senti que trazia em mim um mestre disfarçado
Das tantas dúvidas e dos erros da minha fantasia;
Aprendi a compreender o meu destino traçado.

Tudo o que acontece parece um movimento espiritual
Que me eleva para lá da dor e do sofrimento
Ainda que na minha alma procure ser casual
No meu peito acorda o âmago do ensinamento.

Cada qual, na sua maneira de ser, quer acreditar
Que é um universo que a cada instante acontece,
Mas uma só gota de água é já o universo a meditar
A máxima perfeição do nada que somos neste ser que arrefece.

Por isso trago comigo a gota que me ilumina,
Fecho os olhos e sinto em mim a sua natureza;
Vivo avidamente o que nesse sonho predomina
Pois sei-me da essência da absoluta certeza.

Aqui liberto a minha inocência ao ingénuo acaso,
Tudo é belo e pleno, da natureza do intenso;
Vivo no tempo com a segurança de não ser prazo
Na vida, que brota confiante, imersa no imenso.

XXIX

Indagando aos vãos destinos mais resignados
Vi-me despido de ilusões num mundo de eleitos
Que vagueiam às portas da verdade, em passos desencontrados,
Na mesma ânsia que projectou meus ímpetos insatisfeitos.

Expus meu desespero, que há tanto vigorava sem resposta,
Ao esclarecimento da sageza de uma alma superior;
Minha urgência aumentou a evidência que lhe foi suposta
E deu-se o reencontro eterno fundindo-me no seu interior.

A força da personalidade a quem eu implorava compreensão
Mostrou-se maior, plena de uma atracção de confiança,
Que consagrou meu espírito no seu que vence a dimensão
Da minha razão rejubilante desse ápice de mudança.

Agora sou um só na imensidão de reflexos que alma sente,
Codificada na mesma expressão que concentra o universo;
Tudo se identifica em si que é manifestamente presente
A unidade que nos fez centelhas de um ser disperso.

Assim sou, quem em si é, uma inconsciente sublimação
Refeita de caminho, nesta alma fugaz mais resoluta,
Ciente de um rumo que apraz a sensibilidade da devoção
De ser um só numa meditação totalitária e absoluta.

Não há dois nesta vida complexa de razões contrárias,
Feita de espelhos que só iludem a integridade de cada ser;
Pois faça-se luz em todas as certezas arbitrárias
E fique certo que é em si que flui o auge do amanhecer.

XXX

Da psique cósmica ao indestrutível mito
Mataram Deus, mas imortalizaram a luz
Pilar que a minha identidade reproduz
Dentro de si, onde pulsa o eco do infinito.

XXXI

Insustentada pela pobreza da resignação,
A mente consegue abstrair em cada certeza
A verdade, que é tão emocional e simbólica,
Na potencialidade da nossa sublime natureza.

Meu ser, dominado pela criação,
Despoja-se da ânsia da procura
E medita na grandeza da sua essência,
Sensível à totalidade em que perdura.

Sem dar sentido à existência,
Meu corpo rejubila o céu e a terra
Em conformidade com a fé que o eleva;
Ele é a prova viva que a resposta encerra.

Sou uma partícula que flutua à deriva
Dos sentimentos que aprazem sublimados
Na expressão máxima da potencialidade do ser
Que se extasia na certeza dos inconformados.

Os anseios que minh'alma exprime
Dirigem-me ao limiar da perseverança
Para reencontrar a minha verdadeira riqueza
Na unicidade que a harmonia alcança.

O desassossego não é tão incompreensível;
Eu concluo, receptível a esta auto-terapia
Do que é passivo e consciente da sua perfeição,
Que é pelo dom de si que cada ser principia.

Absorvido pela água e envolvido pelo firmamento,
Sou o que sinto: a paz, o pleno, o eterno, o sublime;
A ânsia, afinal, era a voz desse chamamento:
"Sou em Si! Sou em Si!"
                                       ... Então eu vi-me.

......................... 025

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Exmo Sr. Professor Cabeleira Gomes


Aqui estou, mais uma vez, na qualidade de seu ex-aluno, para pedir-lhe uma crítica sincera, pois eu estou preparado emocionalmente para qualquer tipo de argumentação, a este pequeno ensaio de alguns dos meus últimos poemas. Como o Sr. foi a única pessoa a quem recorri e que muito atenciosamente me recebeu e não me desapoiou, apesar daquilo que (a) escrevia não ter tanta lucidez como espero que agora esteja mais presente neste trabalho despreocupadamente humilde, espero ter a honra de ter uma crítica esclarecedora sua da sua experiência e sageza que me oriente nos próximos ensaios. Aguardo atentamente uma resposta sua e espero não lhe tomar demasiado tempo.
Desejo que a sua família se encontre harmoniosamente feliz.
Peço desculpa, mais uma vez, pelo incómodo

                               Do seu "insatisfeito" ex-aluno e amigo
                                                                                                                                                                                                                                                                            Abílio Jorge Cosme
                                
                                                                             


21.8.14

Abílio Jorge Cosme (iiiii)

XXIII

Vi no azul eterno do teu olhar
Quanto padece quem vive tristonho,
Quantas folhas do diário deve molhar
Pelas mágoas incapacitadas do teu sonho.

Vi no azul eterno dos teus olhos
Quanta sombra invade o teu jardim,
Quantos barcos naufragam quantos escolhos,
Quantos dias negros quantas noites sem fim.

Na tua canção até a melancolia era doce,
Embalando meu ser que já não resistia
E até ser dia, abraçámo-nos e chorou-se .

Abençoada ternura que não pede por desgosto,
Tua alma isolou a beleza da dor que existia
Naquela gota de eternidade caindo pelo meu rosto.

XXIV

Vesti-me para te amar,
Mas a traição vestiu-se primeiro;
Tudo ficou vago como o mar
E o meu ser não tem paradeiro.

Corre à procura do porquê.
Morre aos olhos de quem o vê;
É pesadelo aquilo que sonhou.

Não há trevas que o escondam
E nem as verdades que o sondam
Mostram a realidade que o apanhou.

Dispo-me do corpo adolescente,
Quero voltar a ter esperança;
Meu ser quer volver à nascente,
Ser semente ávida de mudança.

Tu foste a mensagem cruel selada a lacre
Que eu, ingénuo e convidativo, solicitei.
O que torna a minha vida acre
É esta inocência com que te acreditei.

XXV

O meu coração padeceu por mil
Em todas as batalhas sem dó,
Ergueu um muro de betão e aço,
Procurou um abraço mas teve-se só.

O meu coração padeceu por mil
Por todos os destinos que se separaram,
Procurou almas que se unissem em conforto,
Mas meu ser está morto nos olhos que cegaram.

No infortúnio deste mundo vil
Encontrei agora a paz derradeira
Para o meu coração que padeceu por mil.

Leguei a um forte talismã a sorte
De padecer por mil uma dor verdadeira;
E eu, já livre, ergui-me àquela morte.

XXVI

Quem da vida aproveita
Todo o seguro que se lhe ofereça
Merece a alma de uma colheita
Que, depois de feita, ainda amanheça.

XXVII

Abençoada solidão
Que me lega a doutrina
Onde me revelo a imensidão
Que a unidade imagina.

Nem religião nem crença
Explicam o que eu sinto;
Meu ser humilde pensa
Com um coração distinto.

Qual é a força que elege
O sentimento mais puro,
E o destina e protege
Até que singre maturo?

Dispo uma estrela do céu
Da distância que nos separa:
O firmamento também sou eu
despido da minha cara.

Do universo, a única visão
Que atinge o infinito
É que meu corpo é, sem divisão.
A totalidade do que eu acredito.

É aqui que eu estou só, sendo pleno
Tomara ter outra vez um metro e oitenta,
Estou certo que cego estaria mais sereno
Mas esta é a solidão que meu ser inventa.

Abílio Jorge Cosme (iiii)

XVI

Perco-me na esperança de ser alguém
A quem a vida instruísse por aparências
Os símbolos da comunhão interna do além
Que são dentro de nós falsas demências.

Se o que hoje é confuso o amanhã o explica,
porque é que não adormece a minha mente,
Que está tão inquieta a desmontar a sua réplica,
E amanhece noutra visão de carácter diferente?

Este é o carma que me traz contrariado
Pois não estou contente com os donos do absoluto;
Dizem que são traumas, mas eu estou só avariado
Por ter neste teste um código irresoluto.

A vida é quem nos dá a propriedade distinta,
Mas a mim a vida deu-me uma insatisfação tão ingrata
Que me mata num laboratório aos trinta,
Com sedativos e relaxantes, e não me trata.

Cobaia é como me sinto, dentro da jaula,
À espera de vez para ser mais um teste;
Só espero estar livre, findando a aula,
Desta minha pele, identidade cruel que me veste.

Muito já eu aprendi sem julgar ninguém:
Dentro de mim perco-me num labirinto
De emoções explicadas em termos que seguem
Não só o que eu penso mas mais o que eu sinto.

Se na alma a vontade de ser eu amarga,
Que outro poderia ser que mais me agradasse?
Apercebo-me agora do conteúdo desta descarga:
- Aceitem-me, por favor!   ... E a fusão dá-se!

XVII

No teu rosto pairam dúvidas,
As mesmas que a tua alma concebe;
Só que ao teu ser são repetidas
Na plenitude em que ele as recebe.

No teu rosto flamejam ânsias
Dirigidas pela tua alma inquieta;
Para o teu ser não há distâncias
Tudo é já, numa visão concreta.

No teu rosto apelam saudades,
Alma que retém o que não ficou;
No teu ser são tudo eternidades,
Auges que o acaso gratificou.

A tua realidade está presente:
O teu ser é trigo, bago a bago,
Que nutre a alma carente.
No teu rosto resta o meu afago.

XVIII

Pela resistência do teu sentimento
Na paciência que me dedicaste:
Amaste! Mas deixaste no convento,
Sem alento, meu coração em desgaste.

Sofro o desencontro na saudade,
Mas ainda invisto seguro no destino,
Pois acredito que toda a casualidade
Se revelará mais tarde em ensino.

Minha ausência foi próxima à fuga
Da amálgama de contrastes indefinidos;
Só agora minha esperança o olhar enxuga
Da distância em que meus olhos morriam perdidos.

Talvez teu pensamento nada diga à minha razão,
Ou teu corpo esteja deformado à minha imagem,
Ou não haja mais fervor para a nossa fusão,
Ou seja só eu debitando uma nova coragem?

Não sei se medito a culpa se a frustração?
Só depois do Inverno a Primavera se estabelece,
Resplandecentemente, ciente de que é a nova estação;
Assim fosse o ciclo deste coração que se esclarece.

Trago a afeição acorrentada à carência
Daquela paixão única que levaste contigo;
Só as vivas memórias dessa experiência
Me preenchem ainda que para meu castigo.

XIX

Trágica foi aquela noite
Nas verdades que me disseste:
Foi o espelho, foi o açoite...
Rasgaram-me ... E tu morreste.

Recusei-me crescer até ti;
Cobarde, meu coração ainda dói.
Naquela noite eu não senti,
Mas o amor é quem constrói.

Foi cruel minha vaidade
(Palavras julgaram por nós);
Decidiu-se na meia verdade
O silêncio que nos sufocou a voz.

Desde aí, é nesse silêncio vão
Que minha mágoa deposita
A força da incompreensão.

Se eu pudesse voltar atrás
Mostrava-te o medo que me habita
E que me impossibilita de estar em paz.

Essa paz que tu hoje és.
E eu aqui ainda na ânsia
Beijo teus mortos pés
Para matar a dor desta distância.

XX

Viver é ser pleno do seu sonho,
Iludir-se pelo ínfimo mais deserto;
Amar é preencher e dar tamanho,
Acreditar esse sonho mais de perto.

XXI

Sonhei que eras um Sol
Num outro sistema planetário,
Originavas as estações do ano
Mas num outro calendário.

De manhã: um brilho azul.
Ao te pores: um mais violeta;
E davas uma vida breve
Ao sétimo planeta.

Harmonizavas a natureza
Daquela terra sem nome:
Eras a mãe da sua beleza,
Eras o pão para a sua fome.

Era daí que eu te admirava
Todos os dias com devoção,
Ansiava meu pequeno ser
Chamar a tua atenção.

Certo dia cedo morri
Empedrado de absoluto;
Fizeste-me em segredo
Um eclipse no teu luto.

Meu sonho transfere-me:
Acordo a teu lado,
Chamo-te por menina:
Desculpa ter-te acordado.

Fixaste os meus olhos
Contrariamente feliz;
Reparei então nos teus
Uma expressão que sempre diz:

" - Estou aqui! Sou eu!"
Não morri! Estou a vê-la!
Seu brilho ainda cintila
No teu olhar, minha estrela.

XXII

Quanto custa pôr um sorriso no teu olhar?
A noite vem devagar amordaçar-me de beijos,
Arrefece lá fora e eu por dentro a fervilhar
Aqueço os abraços que nos fundem como desejos.

Esqueço que este planeta tem rotação,
O mundo pára na expectativa do momento:
O meu mar invadiu o teu em turbilhão
Tornando-nos no mais belo espelho do firmamento.

Surgem das cinzas sorrisos incandescentes,
Voltam as estrelas aos céus cintilantes,
Sente-se a fé, no eco dos meus olhos crentes
Criar o dia da luz para os ensejes delirantes.

Teu mundo renasce para que o meu se recomponha.
Dou sem negar, nenhuma sofreguidão me assusta;
Sou árvore eterna, sou auge que a alma sonha.
E um sorriso no teu olhar, quanto custa?







20.8.14

Abílio Jorge Cosme (iii)

XII

Minhas garras sôfregas e possessivas
Libertam meu desespero e inquietude;
Um pássaro veio morrer nas mãos passivas
De um novo homem, mais pleno da sua atitude.

O Inverno alojou-se pleno de frio intenso
Gelando um mar de ilusões sem esperança;
Em tudo se manifesta o que eu penso
Mas nada herdo do que o sentimento alcança.

Visto de vazio o eco das minhas pretensões,
Nada do que ambicionei se manifestou real;
Na verdade ilustrei fugazes emoções
Na incerteza de promover meu ideal.

Uma ideia transtorna meu dúbio caminho:
Até que ponto se revela minha fantasia?
É que mesmo hoje ainda faço sozinho
O que de errado, outrora, eu tanto fazia.

Não posso corrigir defeitos dos quais não estou certo,
Nem posso continuar a mentir-me com falsas qualidades;
Mas ingenuamente sincero entrego-me mais aberto,
Só que tão de perto que sou eu só nessas verdades.

Assim eu me vejo pássaro morto em tortura
Naquilo que tentei agradar para ser sem rejeição:
Foi o desespero que resgatou na íntima procura
A cobardia derrotista dos meus gestos de afeição.

XIII

A verdade é um pilar inconstante
Da cegueira da nossa firmeza;
Quem dela está perto é mais adiante
Sendo o último a ter a certeza.

XIV

Na minha  vida, um dilúvio de dúvidas
Inundou a parca esperança de saber responder
Às necessidades emocionais mais escondidas
Pela desvalorização da intimidade a se dissolver.

Mas um dia acordei já muito diferente,
Minha vontade foi começar tudo de novo:
A casa, a obra, novo espírito, nova mente;
Hoje a vida é bem mais aquela que aprovo.

É nas pausas que repouso pensativamente:
"Como seria se tivesse decidido outro rumo?"
Mas a alegria de estar como estou é proeminente.

Agora peço por amor, coragem e estabilidade,
Pois minha vida renova o que assumo:
Nada me retém! Nem a ânsia da saudade!

XV

A opinião ilude quem a defende
E a usa como razão que protege.
Minh'alma egotista só compreende
A dignidade do caminho que ela elege.

Assim, não recebo a harmonia do engodo
Das tuas versões sóbrias e inteligentes.
Com desconfiança, analiso esse todo,
Mas o que sinto é meu, pois somos diferentes.

Se de repente teu olhar desaprovasse
Um mero raciocínio de carisma ilógico,
Creio que pudesse aceitar a ironia e a calasse
Pois, face a face, meu delírio é trágico.

Meu coração trava uma luta simbólica,
E não é por vencer que se torna feliz.
Sua natureza é de resistência melancólica,
Pois nem eu compreendo o que ele quis.

Meu mundo interior manifesta-se incompleto,
Incoerente com o ímpeto da minha conduta:
Ambiciono revolucionar meu discurso directo,
Ser mais concreto com o que a alma escuta.

Não há noite sem dia que a complemente;
E o que hoje é um entrave à minha evolução
Não é senão o que germinará da semente
Do que sinto urgente, inconsciente e sem solução.

19.8.14

Abílio Jorge Cosme (ii)

VII

Que diz o poeta que nos desmonta
As máscaras com que nos defendemos?
Brinca no sofrimento ao faz-de-conta
E chora os ridículos fundamentos que temos.

Acredito o quão perigosa é esta arte
para as certezas que envolvem a personalidade;
O intruso penetra-nos e, depois, põe-se de parte,
Que nem nos apercebemos de tal agilidade.

A descoberto fica a alma que nos sustenta,
Desprotegida para a sensibilidade perigosa
Daquele que nos atrai numa sedução lenta
À falsa intimidade da maleabilidade que goza.

E nós confiantes em quem nos compreende,
Seduzidos pela visão que nos traz a resposta,
Perseguimos a razão que nossa alma depreende
E confundimos a individualidade que nos é suposta.

Quem nos obriga a ter uma maneira de ser,
Corpo ou nome que nos matam o infinito?
O poeta responde que tudo flui do padecer
Das emoções que nos interceptam em delito.

Identificamo-nos com as sugestões que creditam,
Dentro de nós, a confiança na sensibilidade;
Vivam os poetas que não nos acreditam
Mas que nos projectam para dentro da nossa realidade.

VIII

Quero dar cor a cada palavra,
E melodia ao que eu digo;
Mas o que penso é força que lavra
A terra árida que eu mendigo.

IX

O mar é o eco do movimento,
Desassossego pleno de vaivém,
Tão inquieto como o meu tormento
Que me tortura a chaga que lhe convém.

Sedenta minha angústia reflecte-se
Sentindo minha alma sempre assim;
A saudade prolonga e compromete-se,
Repete-se o mesmo mar dentro de mim.

IX

Meus olhos crescem
No meu sonho que se evidencia,
Quero ser mais completo
D'amor de mãe ou de maresia.

Quero fazer por amar
Sem engolir o fruto,
Rejubilar sem vergonha
Pleno do reflexo que é bruto.

Os fragmentos são sociais:
- Pára! Será que existes?
Sem qualquer tentativa
É outono e tu desistes.

Com tanto para amar
Adoptei eu a ironia:
Defendo ser incapaz
Mas nem tento essa sintonia.

Como me refaço
De tal anomalia
Se insatisfeito me reprimo
E me mato em hipocrisia?

O jogo é eterno sedutor
Para quem se conhece na fraqueza;
Reconheço a minha pobre aptidão
Pois meus olhos cresceram na incerteza.

X -  ( Transcrito  pela 1ª vez no dia 17 de junho de 2006, em CARUMA - sem  qualquer efeito...)

Não sei ao que me disponho
Nesta angústia que me enlaça;
O tempo é só o que a alma passa
E eu só quero viver outro sonho.

Já não sei mais amar esta vida
Nem defender o que ela me oferece;
Minh'alma mora num corpo que arrefece
Favorecendo esta mágoa tão sentida.

Sou uma substância inerte em peso
Cujas qualidades se perderam na viela
Onde supus uma luz, a mais bela,
Mas que escureceu meu coração indefeso.

Já nem sei bem o que é sofrer;
Acabo por não ter o que me enlaça
E, cadáver rejeitado só de massa,
Esqueço a fonte que me fez viver.

XI

Procuro no mar o meu empobrecer:
- Será que à minha vida virá o ser,
Que ontem fui, à procura do infinito?
Caio no desespero e já não acredito.

Fui pleno e belo no meu acontecer,
Mas já sou o que está a morrer;
Trago o tédio que me faz demorar,
Pois sou a lágrima que não sabe chorar.

Vítima do que fui eu não errei
(Socorro! Socorro!Que já não sou rei!).
Já não sei da razão do meu existir,
Quero poder e já só sei desistir.

Já não há vontade que me iluda,
Até a verdade se tornou absurda.
Projecto um mundo menos rico,
A fortuna passa e eu justifico.





18.8.14

Em dívida com o Abílio Jorge Cosme (i)

Em dívida com o Abílio Jorge Cosme! Já passaram tantos anos... O que irei transcrever neste e nos próximos posts não é da minha autoria. Foi me deixado numa caixa de correio, em Ouressa, Mem Martins.

Sou em Si, de ACosme

Breve Prefácio
Eis-nos perante um exemplo em que o poeta se projecta no espaço que cria e transmite ao leitor com convicção uma vivência toda ela muito sofrida e muito pessoal. Mas, como em tudo o que é real, ou seja, a realidade é variável assim como o que é projectado. Com isto pretendo alertar para o facto de que o "Sou em Si" não é mais do que o ser projectado do autor. Deparamo-nos com o exemplo de poesia viva, ou seja, que toda ela nasce, vibra e se alimenta do muito real caso humano. Muito poderia ser dito mas talvez nada se revele necessário dizer, pois as palavras confundem uns e outros e a poesia é já por si um todo.
                                                                                                                                    VANDA SUSANA

I "Esta breve romagem
   Ao interior das nossas feridas"

Acho que já escutei a tua voz ecoar
nas esquinas da minha vida, ...

Acho que sempre te conheci:
Há algo de ti
Que também habita em mim
E sempre habitará até ao fim.
Há no teu olhar uma enorme profundidade
Inquieta, penetrante, ansiosa,
Tão vasta como aquela verdade
Que eu procuro no escuro
Entre as quatro paredes de um quarto fantasma
Onde meu rosto transfigurado
Se vê, perante um espelho, bem delineado.

As tuas palavras são remates certeiros
Desferidos a favor do vento;
Há na nossa existência de guerreiros
Algo que transpõe os limites do tempo.

Pois é amigo
Eu estou contigo na madrugada;
O autocarro onde transitamos
Funde-se numa só estrada.

E se a nossa magia se perder
Por entre os rostos da multidão.
Nós teremos de aprender
A domesticar a solidão.

      Praia das Maçãs, 28 de Agosto de 1985
                                                  PEDRO SÓ

II - Nota do autor

Vivo em sonho que me procura
Na profundidade que o dignifica:
Tudo me surge sem censura
Numa sublimação que me purifica.

III
   Quando, por alguma razão, nós rejeitamos aquilo que somos e pretendemos modificar o nosso comportamento perante a natureza que nos envolve, então partimos à descoberta de reflexos que o ser mantém nas profundezas ainda inconscientes à nossa personalidade. Quando alguém recupera os sentidos ou a razão diz-se que voltou a si, daí este "SOU EM SI" trata, um pouco arcaicamente, de uma certa evolução de alguns conflitos que marcaram minha vida mais consciente e da tomada de consciência de outros que ainda me acompanham, de uma forma irresoluta, a vida interior ainda pouco tranquila na resposta do equilíbrio emocional.
      "SOU EM SI" procura um caminho através da sublimação das carências mais primárias atingindo mesmo uma certa religiosidade em relação à expectativa do que surge da dificuldade em assumir uma posição frontal com os medos e a inconstância da saúde mental, que são factores que dão uma certa irregularidade ao comportamento. Assim, eu já fui o que não podia ser e ainda procuro uma certa identidade que estabilize e enriqueça a vida que eu espero. E se eu não conseguir ser eu então que eu seja em si.

                                                                                                                                              O AUTOR
IV - DEDICATÓRIA

Ao desconforto da incompreensão
Que impulsionou o que eu venci;
À timidez e ao esforço que me recompensam
Neste ensaio para você, eis que SOU EM SI.

V - SOU
            EM
                SI

VI 

Sou pela lógica prática,
Adepto do pensamento infinito
Sóbria é a beleza matemática
Que demonstra o que eu acredito.
             

17.8.14

Salazar e Passos Coelho: o primado do financeiro

«Não é razoável pôr questões de confiança sobre redução de orçamentos ou a eliminação de verbas. Só quem administra o conjunto sabe do que pode dispor...» notas de Salazar (1939), in Salazar uma Biografia Política, de Filipe Ribeiro Meneses.

F.R.M conclui: Salazar reafirmava o primado do financeiro sobre o ideológico.

Na verdade, o que é que distingue a doutrina de Passos de Coelho da de Salazar? Por outro lado, será que a razão que levou Passos Coelho ao poder é diferente da de Salazar? E quanto à conquista e manutenção do poder, o que é que distingue os dois homens?

Salazar temendo a ideologia (comunista), procurou combatê-la através da "educação" do homem português. E Passos Coelho como é que nos formata? O melhor é perguntar a Nuno Crato, às Universidades privadas ( Lusíada, Católica...)

O primado do financeiro foi tão importante para Salazar que este procurou por todos os meios condicionar o desenvolvimento económico da metrópole e das colónias. 
Ora, a política de cortes nas pensões, nos salários e de controlo dos bancos visa precisamente asfixiar a economia, ao contrário do que repete a propaganda oficial.

Quem quiser rumar contra esta orientação, desenvolvendo a economia, terá que começar por se libertar da mentalidade salazarista. O resto são cantigas!

P.S.: Borges, Gaspar, Crato, Macedo, Luís, Moedas não passam de laboriosos executantes do primado do financeiro, uns com mais mais apetite pelo poder absoluto do que outros...  A Salazar esse apetite nunca falhou!

16.8.14

Abomino...

«Ela passou informação decisiva sobre a real situação das contas públicas. Havia informação sobre falta de dinheiro e falhanços nas emissões de dívida que ele (Passos) recebia primeiro do que Sócrates ou Teixeira dos Santos. Sem ela, nada disto tinha sido assim.» Expresso, Revista, 15 agosto 2014

O mistério que rodeia certas figuras públicas intriga-me, deixa-me desconfiado. Ao ler o Perfil da «Nossa Merkel», compreendo, mais uma vez, que a minha desconfiança tinha razão de ser.
Sempre abominei os procedimentos de D. João II, do Tribunal do Santo Ofício, do Marquês de Pombal, dos reis do Rossio, do Costa Cabral, de qualquer polícia política (da República, do Estado Novo, da Nova República), de todos os informadores, anónimos e públicos (comentadores...).
Sempre abominei as conspirações políticas do passado, e quanto mais reflito sobre o presente mais convencido fico da inutilidade do voto popular.
Afinal, tudo se passa nos gabinetes estatais, partidários e empresariais, onde os informadores são a peça fulcral.

15.8.14

Dúvidas sobre a Prova de Conhecimentos - Curso de Formação de Guardas


Por acaso, tive acesso à Prova de Conhecimentos 2014 (Modelo) a realizar pelos candidatos ao Curso de Formação de Guardas. Uma prova constituída por 80 perguntas (escolha múltipla), distribuídas por quatro Grupos: Língua Portuguesa; Cultura Geral sobre Temas da Atualidade; Lei Orgânica do GNR; Estatuto dos Militares da GNR.

Ao analisar o 1º Grupo, estranho a quantidade de perguntas de natureza gramatical. Os candidatos ao Curso de Formação de Guardas necessitam de ter uma elevada memória de conceitos gramaticais e, sobretudo, de ser capazes de os aplicar em situações de enorme ambiguidade, senão de discutível ciência... Pouco importa se sabem compor um texto, relatar um acontecimento, descrever um acidente, registar uma participação...

Por outro lado, sem questionar a importância dos 3º e 4º grupos, parece-me que o tipo de perguntas formuladas no 2º grupo é pouco relevante para avaliar o conhecimento do território, das suas populações e dos seus protagonistas. Parece que os candidatos estão a preparar-se para o concurso "quem quer ser milionário"...

Finalmente, da leitura do aviso de candidatura a este Curso não consigo entender quem é o júri responsável pela elaboração desta prova tão importante para os jovens que procuram através da entrada na Guarda resolver um dos problemas que mais os afectam...

14.8.14

Esta noite vou dormir descansado

Esta noite vou dormir descansado: os cortes salariais mantêm-se em 2014 e 2015. O Tribunal Constitucional sentenciou que só a partir de 2016 esses cortes serão inconstitucionais...

Esta noite vou dormir descansado: os médicos consideraram que não tenho razões imediatas para me preocupar. Porém não me asseguraram que em 2016 o meu estado clínico se mantenha estável...

Esta noite vou dormir descansado: ainda não será amanhã que me aposentarei. A Caixa Geral de Aposentações aconselhou-me a escrever uma carta ao Diretor a requerer que me liberte apenas quando for possível estabelecer o valor final da pensão unificada. Sem a referida carta poderia ser despachado a qualquer momento...

Para bom entendedor...

E termino citando  Salazar, em Março de 1938: A União Nacional devia ser reanimada de modo a levar a cabo a tarefa crucial de «intensificar a educação política do povo português para garantia da continuidade revolucionária.» Filipe Ribeiro Meneses, Salazar, vol. II, pág.71

Esta noite vou dormir descansado...

13.8.14

Ocultação

Quanto mais leio sobre a autoridade que supervisiona o funcionamento dos bancos com alvará para atuar em Portugal, mais convencido fico que os portugueses estão a ser submetidos a um processo de ocultação sem precedentes.
Isto do supervisor dos bancos se sobrepor à autoridade judicial intriga-me, enjoa-me. Afinal, quem é que confere ao Governador do Banco de Portugal legitimidade para, em seu critério, decidir disponibilizar  à justiça eventuais indícios (provas) de fraude praticada pelos banqueiros?

Ao fingir que o Bem  pode ser separado do Mal, o Governador lembra aqueles "ricos" que decidem murar-se em condomínios fechados para fugir dos "pobres" que, inevitavelmente, veem como um risco. Como não podem esconder a pobreza, os "ricos" passam a viver em fortalezas onde tudo é permitido... Os "ricos" não sabem viver sem porta! Claro que estes "ricos" não têm imaginação suficiente para se defenderem e por isso, tradicionalmente, viviam cercados de escritórios de advogados, de seguranças, de sistemas de defesa eletrónicos... Mas isso, hoje, não chega: os "ricos" ( e os ministros, seus servidores, passe a redundância) nomeiam os reguladores, os supervisores, os assessores, os auditores... E com essa estratégia vão afastando definitivamente o poder judicial ...

12.8.14

Filhos, nunca digam que são meus filhos!

Aos 31 anos, Luís Durão Barroso vai integrar os quadros do Banco de Portugal, após uma contratação sem concurso, adianta o Jornal de Negócios. O filho de Durão Barroso terá “comprovada competência” e foi contratado para o Departamento de Supervisão Prudencial.
Os meus filhos não têm culpa do pai não ser presidente, ministro, deputado, banqueiro, administrador, autarca, diretor, empresário... 
Os meus filhos gastam os dias a entregar currículos que ninguém lê, embora, por vezes, cheguem a ser entrevistados. O resultado é inevitavelmente o mesmo: os meus filhos são demasiado habilitados...
Os meus filhos, por serem filhos de quem são, nunca serão contratados por lhes ser reconhecida "comprovada competência"...
O único conselho que posso deixar aos meus filhos: Filhos, nunca digam que não são filhos de presidente, ministro, deputado, banqueiro, administrador, autarca, diretor, empresário...
Espero que os meus filhos me perdoem...

11.8.14

Procedimento Derivacional

Lista homologada dos candidatos excluídos
Divulga-se a Lista dos candidatos excluídos do Procedimento Concursal Comum

Acabo de consultar o sítio da Direção-Geral de Educação (DGE), à procura de confirmação de uma notícia veiculada pelos jornais: os professores que esperam aposentação podem solicitar ao respetivo diretor dispensa da atividade letiva...

Não encontrei confirmação, mas pude confirmar que entre 1 e 8 de agosto não há notícias relevantes, à exceção da pérola em epígrafe...

Curiosamente, em nenhum dos enunciados há um sujeito expresso, um pouco como se, no MEC, tudo fosse fruto de uma engrenagem automatizada.
Não posso deixar de apreciar a subtileza da utilização da maiúscula e da subalternização dos "candidatos excluídos" e, sobretudo, admiro o engenho de quem teve a ideia de substituir o  nome "concurso" pela expressão "Procedimento Concursal Comum". É obra!
Em particular, sinto-me arrebatado pelo adjetivo "concursal". Um exemplo precioso do que é um adjetivo relacional.
Estão a ver: a) é o adjetivo derivado de base nominal, que permite a expressão "relacionado com N", sendo o Nome (N) a forma derivante.
Exemplos: relacional / relação (N); nominal / nome (N); teatral / teatro (N); concursal / concurso (N); educacional / educação (N)...

E quanto ao Procedimento Concursal, se não fosse Comum o que seria?  Eu optaria pela minúscula, o que exigiria, no entanto, homologação prévia. De quem? E lá voltaríamos ao sujeito. Ao Sujeito?

10.8.14

Em Agosto

Caldas da Venda
Dá vontade de perguntar se, em agosto, vale a pena escrever, apesar de nenhum escrevente viver suspenso do leitor estival. No entanto, a pergunta faz sentido. Basta pensar na degradação do gosto, ostentada horas a fio nas televisões e nas redes sociais. Basta pensar na degradação de toda a classe política enfeudada a seitas, a banqueiros, a construtores civis, a dirigentes desportivos…
No país do bocejo e da boçalidade, já não espanta que um artista como Rui Veloso tenha decidido suspender a carreira. Há tempos, Fernando Tordo decidira emigrar…
Infelizmente, dizer que se suspende o que quer que seja  acaba por ser um modo eufemístico de anunciar o fim de uma certa realidade em vias de dar lugar a uma outra ainda mais pobre.
Dá vontade

9.8.14

Em nome dos bancos

Banco autárquico

«… a Constituição de 1933 era o instrumento da vontade de Salazar; ele explorou cada artigo a seu favor, interpretou as suas ambiguidades como muito bem entendeu e reescreveu artigos quando já não lhe convinham. Nada nela era afinal definitivo; nenhuma instituição ou prática por ela criada tinha a garantia de uma vida longa ou de sobrevivência.» Salazar, vol.II, de Filipe Ribeiro de Menezes.

Ao ler a biografia política de Salazar,  não posso deixar de pensar nos homens que nos governam.  Com a cumplicidade de Carmona, Salazar gizou um projeto pessoal de poder, manipulando a Constituição e afastando todos os que publicamente se atreviam a contestá-lo, de modo a eternizar-se como homem providencial.

Atualmente, tudo é gizado do mesmo modo, só que somos governados não por um mas por vários salazares. E sempre sob a cumplicidade do presidente de serviço…

Carmona agia em nome do Exército ( a ditadura militar). Hoje quem mais ordena é a Banca (a ditadura financeira).

8.8.14

Os degraus e os girassóis

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Os degraus ajudam a subir ou a descer conforme o apego que temos à casa. Hoje foi dia de desapego pesaroso, apesar da casa materna ser outra  e de há anos  ter sido trocada por esta agora entregue aos novos proprietários…

Os girassóis solares nunca habitaram a casa, mas pode ser que finalmente germinem para assinalar o dia que em ela mudou de mãos. Um primeiro sinal: aquela menina que estoicamente suportou o ritual de passagem…

7.8.14

Das pedras

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Perante a confusão reinante, prefiro contemplar a disposição das pedras. Não sei se estão bem dispostas, admiro-lhes, contudo, a leveza que lhes permite serem solidárias sem fastio.

Estas pedras parecem procurar a harmonia na instabilidade e elevam-se no azul sem procurar qualquer aprovação. Junto delas respiro sem peias, ainda que por pouco tempo…

6.8.14

Na serra da Aboboreira

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Fui à procura de pedras funerárias e olhem o que encontrei… E ainda recebi um telefonema do Diretor a informar-me da decisão do MEC. Ao que entendi, se não me apetecer dar aulas, no próximo ano letivo, posso continuar por aqui. O solo parece fértil, os arroios correm sorrateiros e não deve ser difícil seguir o caminho das feras… Quanto a alimento, sempre poderei descer ao povoado pela calada da noite…

5.8.14

A mesa

Almocreve
Em cima da mesa
um par inútil de lentes
um relógio de aniversário
notícias absurdas do dia
versos em prosa interrompidos

 

Por cima da mesa
sol vozes
sons vibrantes e descontinuados

 

Ao lado da mesa
ainda com sol
cadeiras brancas
um cão invisível que ladra

 

Através da mesa
uma lapiseira que goteja
panos enfunados
uma motoreta que arqueja

 

Para lá da mesa
no lugar de um velho papagaio
imitador de sons vibrantes e descontinuados
só ouço distante o sino das 19 horas

 

Por enquanto atrás da mesa branca sem sol
espero o papagaio da voz vibrante e descontinuada…

Ilusões

Marco de Canaveses PICT0077

Fico surpreendido ao olhar as duas fotografias. Na primeira, nem o jovem parece correr nem o mais velho parece estar parado. No entanto, na segunda, o jovem alcança o mais velho. Como? Na sequência, pensava que apenas um segundo separaria as duas imagens…

Na vida, as coisas não são muito diferentes. Até há pouco tempo, pensava que conhecia relativamente bem a transição da primeira república para o estado novo. Tudo me parecia ter decorrido com uma certa celeridade. Só que ao ler o primeiro volume de Salazar , de Filipe Ribeiro de Menezes, começo a perceber que a minha percepção da realidade histórica é demasiado frouxa e está contaminada quer pela propaganda do regime salazarista quer pela diabolização do regime democrático.

E é pena que tal me esteja a acontecer, pois é um pouco tarde para poder intervir na barbárie mental que nos rege… Tal como na minha infância havia uma casa das cobras na torre sineira da aldeia, hoje também há em nós um banco velho cheio de víboras…

A solução está em voltar-lhe as costas! Quanto às víboras, elas que se envenenem umas às outras!

4.8.14

O destino

O Douro sempre por perto! E eu gasto o dia entre o socalco e a margem, ora a pé ora de carro. As palavras do Porto Antigo parecem sorrir-me; o mesmo acontecera na Venda das Caldas. No entanto, eu vou pensando no destino: uns nascem entre pedras e outros medram nas veigas e nas lezírias...
Em rigor, nasci na terra seca, entre a serra e a lezíria. E a água sempre me fez muita falta, de tal modo que, mesmo no verão, não me importa que chova...
E, hoje, pouco mais quero acrescentar, pois creio que também deve ter sido por decisão do destino que terá nascido o NOVO BANCO - um banco elíseo...

3.8.14

De Tormes à Régua

Marcas de um passado produtivo e de um presente ocioso, impreparado para garantir o futuro desta luxuriante região.
Os sinais continuam a ser de uma economia de subsistência  subjugada por obras palacianas.

2.8.14

Eça revisitado

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A visita à Casa-Museu EÇA de QUEIROZ ajudou-me a compreender que, afinal, o homem exagerava nas queixas quanto à austeridade em que se via obrigado a viver. Eça era um cosmopolita que gostava de viver como tal; de requintado gosto e fino paladar, fruía os prazeres que a vida lhe podia trazer e, provavelmente, experimentava-os ou antecipava-os através das personagens que foi criando…

A visita à Casa-Museu permite que me desfaça da ideia que Pessoa quis impor: a de que o cosmopolitismo de Eça seria fruto do deslumbramento do provinciano…

1.8.14

Portela de Gôve

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Podia ser, mas não é! Tem paisagem natural ou tinha. Mas alguém decidiu escondê-la. Só espreitando por entre as edificações, construídas ao sabor do capricho dos donos… Planeamento?!!

Primeira impressão, num dia de verão cinzento. Exceção: A Casa do Almocreve – acolhedora e bem decorada.