30.6.14

Eternas crianças

«Há já mais de um século que se deixou de as educar para se tornarem adultos. Muito pelo contrário, e o resultado é que os adultos da nossa época estão educados - estamos educados - para que continuem crianças.» Javier Marías, Todas as Almas, pág. 104, Quetzal editores

Enquanto que os pais vivem em permanente alarme, os filhos, eternas crianças, reivindicam direitos pelos quais nunca mexeram uma palha, e evitam os deveres que poderiam sinalizar a necessária passagem da infância para a vida adulta.
Aparentemente, foi criado um estado de adolescência que deveria durar, no máximo seis ou sete anos, mas que, hoje, parece prolongar-se indefinidamente. Basta observar que as birras, os amuos, as zangas, os acertos de contas, as invejas, as traições se tornaram na matéria noticiosa mais consumida...
A irresponsabilidade, o parasitismo, o logro são expressão de um ajustamento do sistema educativo que caducou a partir do momento em que o hedonismo substituiu o estoicismo e o capitalismo deixou de necessitar do mundo trabalho...

29.6.14

As ameixas já chegaram…

Carvalhal do Pombo 017

As ameixas chegaram! Suculentas, doces… Serão as últimas deste cerrado? Junto à eira, agora em ruínas, a ameixeira cresceu e floresceu sem que o hortelão a tenha mimado. Quem a terá plantado?

A resposta talvez tenha sido dada no último post… Houve um princípio promissor que agora se vai extinguindo. Entretanto, como estas últimas ameixas sem remorso.

28.6.14

Desperdício

Carlos Rodrigues Cabeleira
«O resultado do discernimento é essa obra que impõe o seu próprio termo: quando o caixote transborda está concluída, e então, mas só então, o seu conteúdo é desperdício.» Javier Marías, Todas as Almas

Estou aqui a olhar para centenas de livros mal arrumados; se der mais dois passos, encontro mais uma ou duas centenas; na garagem, já lhes perdi a conta... Verifico que já há títulos repetidos. Passei a tarde, a desempoeirá-los e fui me apercebendo de que não terei tempo para os ler todos ou para repetir a leitura. 
Não sei quanto investi, mas estou consciente de que não soube tirar partido da riqueza que estes livros, se devidamente partilhados, poderiam trazer...
Fechados e empoeirados, estes livros são a expressão de um desajustamento. A cada dia que passa, sinto que desperdicei demasiado em trabalhos que me limitaram  o tempo de leitura, o tempo de partilha da leitura...
E a minha perturbação cresce todas as vezes que entro numa biblioteca para desempenhar qualquer outra tarefa diferente daquela que o lugar exige. Ao meu lado, à minha volta, altas estantes emudecidas permanecem sem que uma chave abra uma daquelas portadas... e eu olho-as, pesaroso, por nada fazer que silencie as vozes que me entontecem...
Chego a compreender os incendiários de pequenas e grandes bibliotecas tal é a minha revolta: uns não leem porque não querem, outros fingem que leem, há ainda os que apenas leem o que lhes convém e o pior é que há quem esteja impedido de ler...
O desperdício é tanto maior quanto venho de um lugar e de um tempo onde os livros eram  raros, os jornais e as revistas inexistentes!

27.6.14

O passado e o futuro

"... faço agora este esforço de memória e este esforço de escrita, porque de outro modo sei que acabaria por esquecer-me de tudo.» Javier Marías, Todas as Almas, 1988

Ontem, decidi enumerar uma série de episódios para que não acabasse por esquecer-me de tudo, todavia o facebook impediu-me de partilhar essas memórias...
Hoje, pouco tenho a acrescentar!
De manhã, repetição do protesto do dia anterior;  a prova de Literatura Portuguesa não incomoda ninguém; ignora, por inteiro, o século XX... 
De tarde, obras, stress, limpeza, despesa e mais despesa...
Ao anoitecer, o cansaço e a náusea tornam-se inevitáveis: ainda tento ler o semanário SOL, oferecido por um amigo, mas a primeira página derrota-me: Ricardo Salgado; Portas; Passos Coelho; Guerra no PS; Isaltino Morais admite falha ética... 

Olho agora para  o alinhamento das palavras e apetece-me riscá-las... só não o faço porque nelas descortino muito desconforto e, também, alguma alegria. Espero, assim, que alguém veja neste dia o início de um novo dia...

26.6.14

Faço agora este esforço de memória...

"... faço agora este esforço de memória e este esforço de escrita, porque de outro modo sei que acabaria por esquecer-me de tudo.» Javier Marías, Todas as Almas, 1988

a) Encostado a uma parede, espero pelo serviço e, mesmo que queira alhear-me da barafunda, sou obrigado a encaixar um conjunto de protestos já habituais. Parece-me que o que está em causa é o desrespeito pela hora sagrada do almoço. Fico a pensar na duração e na extensão da hora: imagino, entretanto, uma lauta mesa desdobrável em divã para poder gozar a merecida sesta... Por mim, bebo um café e como uma empada!
b) Atento aos esgares dos examinandos, tomo conhecimento da preocupação da colega que não sabe se o seu automóvel foi rebocado, roubado ou, simplesmente, se esqueceu do lugar onde o estacionou. Horas de angústia da vigilante e dos alunos, embora por razões distintas. Para não exteriorizar as dores que sinto, bebo pequenos goles de água e espreito o pátio à espera que uma qualquer ave anime os plátanos. Relativizando, a minha dor não é nada que se compare ao sofrimento dos meus parceiros de infortúnio - alguns, em 210 minutos, não chegam a preencher três páginas... Durante este tempo, ainda tive oportunidade de ouvir o trinado de um rouxinol e testemunhar duas situações de sobressalto que prefiro não relatar e que assim irei esquecer. 
c) Ao princípio da tarde, vivo duas situações inesperadas. A primeira, perturba-me porque só agora tomo conhecimento de que o Caruma  terá afetado a autenticidade crítica de uma colega, vendo-se ela a braços com uma contestação que revela o estado mental do país em que vivemos (passado e presente). A segunda situação, de certo modo articulada com a primeira, deixa-me a pensar na dupla face da moeda ou, se quisermos, na imagem de que a mão direita ignora o que é feito pelo esquerda... Para não esquecer deveria ser mais explícito ou até mais frontal, bem sei...
d) Ao fim da tarde, Cristiano Ronaldo é eliminado do mundial do Brasil. Situação previsível: o Brasil, país independente há quase 200 anos, não iria querer assistir ao regresso de Cabral...  


25.6.14

Não sei do que espero...

Se para tudo há um limite, não sei do que espero...

Na verdade, o limite parece que é mas não é, pois continua a surpreender sob a forma de dor incapacitante, superável, no entanto, por analgésico em dose dupla, enquanto que a frase ondula em cotovelos surpreendidos...
Para evitar lamechismos incontrolados, comecei a ler a novela Todas as Almas, escrita por Javier Marías, nascido em Madrid, em 1951, e a pensar, sem saber porquê, na  Senhora do Tempo Antigo (de Bernardim), deixando-me fascinar por algo que eu já imaginara saber, sem o saber fazer:

«Aquele que aqui conta o que viu e aconteceu não é o que viu isso e a quem aconteceu, nem sequer o seu prolongamento, nem a sua sombra, nem o seu herdeiro, nem o usurpador.»

Este narrador vive um piso acima ou um piso abaixo, fora do mundo e do tempo, mas deixa rasto... E quanto ao autor, embora um pouco mais novo do que eu, considero-o, desde já, meu familiar distinto, pois foi professor de Literatura espanhola na Universidade de Oxford, sendo licenciado em Filosofia e Letras..., tudo domínios que sempre me interessaram. A diferença é que eu não nasci em Madrid (nem mesmo em Lisboa!)
E de Literatura, pouco sei, até porque não há nada por saber quando tudo está por fazer...  


24.6.14

Se para tudo há um limite...

Em casa, tudo do avesso - até a roupa foi feita refém! No pátio do prédio, um arranque simultâneo só não terminou em acidente por uma unha negra.
Na Unidade de Saúde de Moscavide, a entrega de análises clínicas só com consulta! Ficou marcada para daqui oito dias, independentemente da urgência...
A cidade tem ruas onde não é possível fazer entrar qualquer veículo de mudanças, até porque há quem bloqueie a única entrada. Na mesma travessa, as escadas de acesso aos andares são íngremes. São tão inclinadas que nem à força de braços se consegue fazer subir o mobiliário...
Travessa dos Pescadores! Fiquei com com a sensação de que o melhor seria ter à mão uma catapulta ou, em alternativa, um cadafalso. Só para mim!
Entretanto, o cansaço vai fazendo o seu caminho: ataca, em simultâneo, os rins e a cabeça, isto sem falar das pernas, dos joelhos, dos pés. 
O corpo virou rotunda, enrola-se sobre si próprio, misturando as saídas... e ainda faltam quatro horas de circunlóquios. São horas pesadas, adiadas, que, em certos momentos, parecem trazer consigo um inevitável desfalecimento...
Se para tudo há um limite, não sei do que espero...

23.6.14

O IAVE erra porque persiste no erro

Na dúvida, a questão 2.3 deve ser excluída (Exame 639). Neste tipo de pergunta, a ambiguidade é inaceitável.
O IAVE erra ao prolongar a polémica porque:
a) descontextualizou o enunciado (o leitor desconhece a sequência do texto ensaístico);
b) recorre a especialistas independentes, pressupondo que existem especialistas ajuramentados;
c) confunde a verdade com a opinião;
d) insiste em verificar conhecimentos de natureza pragmática com recurso a um tipo de exercício inadequado.

22.6.14

A Madona, de Natália Correia

A Madona, de Natália Correia, é um romance que exige do leitor atenção redobrada.
O título deve a sua origem ao estatuto social da protagonista, Branca. Madona (do latim, mea domina), figura senhorial que, como norma de vida, quer submeter o homem: « Eu acabava de fazer uma descoberta que satisfazia o que quer que fosse que emprestava à minha alma soturna beleza de uma flor carnívora. Torturar um homem! Reduzir a cinzas a sua força bruta! Uma gruta cuja escuridão ia explorar.»
Esse programa é cumprido na exploração mental e física de Miguel, do Anjo e de Manuel - que acabará por se suicidar. Este suicídio é, por outro lado, a expressão da (im) potência da ruralidade portuguesa. Branca reduz Manuel a um objeto bestial, incapaz de compreender que a domina é estatutariamente mais forte que o vil servo...
A autora, neste romance, evita a contextualização histórica e geográfica, apesar de criar um lugar bem português - Briandos. Um lugar onde as ménades (bacantes) e as erínias (fúrias) se procuram libertar das grilhetas masculinas, à semelhança do que vai acontecendo um pouco por todos os lugares europeus percorridos por Branca...
E tudo decorre, sob a forma de evasão do torrão natal, até que Ereshkigal (divindade suméria, rainha da terra do não retorno) dite a sua lei.
Sob os fumos de Maio de 68, Natália Correia pratica uma escrita densa, elaborada, barroca, surrealista, intimista, feminista, em que as personagens se encontram ora em fase de construção ora em fase de demolição identitária pessoal e cultural. E, sobretudo, esta escrita foge à ideologia explicita, deixando- nos navegar em turbulentas águas míticas que nos levam dos mitos cristãos aos sumérios, com passagem obrigatória pelos greco-romanos...  A sua escrita é simultaneamente crua e suculenta...

21.6.14

Preciso de sossego

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Preciso de sossego. Há anos ainda cheguei a pensar que ele chegaria antes de morrer. Hoje, sei que ele já só é possível na morte.
Outrora, aprendi que o sossego era um estado interior. E até podia parecer verdade, mas, à época, as paredes chegavam a ter um metro de espessura e o silêncio só abria em ruído com hora marcada. Hora efémera!
Agora, instalo vidros duplos que insonorizam a morada, só que o ruído é um estado interior…
A informação é antevisão, é proclamação, é repetição, é aclamação, é negação. A informação passou a controlar todos os meus passos: sei o que não me interessa; sei o que me desestabiliza; sei, de véspera, ou inopinadamente, que continuo a ser bengala ou bordão; sei que não tenho tempo para acabar o que comecei… e por isso vou continuar a ler, devagar, A Madona, de Natália Correia, ciente de que chegado ao fim, talvez ainda tenha tempo para voltar ao princípio, sem, contudo, regressar a uns anos 60 que nada tinham a ver com o que eu era nesse tempo…
É, assim, o país, entre tempos e a vários tempos!
(E eu com saudades do silêncio...)

20.6.14

Apenas tempo ou um pouco mais…

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O que faço eu aqui? O que fazem eles aqui? Apenas tempo ou um pouco mais?

As fotos revelam e escondem… as palavras, neste caso, são apenas um complemento, talvez uma última prova de vida neste mundo palavroso.

Na primeira, o contraste revela o estado da governação. Deixo as palavras para o observador.

A segunda  esconde vários dramas: o idoso doente e ignorado, o emprego precário, a imigração prostituída e alcoolizada,  a juventude alienada pela ociosidade e pela droga… Tudo suavemente emoldurado pelo poder autárquico…

Há, também, por trás, um presidente do município que gosta de marchas, de magustos… loquaz, mas que cala demasiado, talvez por falta de tempo para se sentar num  banco de jardim… longe dos holofotes…

19.6.14

Gente irritante

Há por aí tanta gente irritante! Uns governam, outros aspiram a governar! Em comum, uma inteligência mínima, mas ardilosa...
Duvido que, apesar dos títulos académicos, esta gente irritante saiba ler e escrever... No entanto, reconheço-lhe o mérito de saber acolitar qualquer poder emergente e de saber escolher o lugar que mais lhe convém.

Na verdade, esta minha irritação tem origem num pequeno enunciado:  O exame de Português do 12º ano de escolaridade (obrigatória!?) serve para avaliar se o aluno sabe ler e escrever.

E eu que pensava que esse era o objetivo do exame de Português da quarta classe de há 50 anos! Se fosse hoje, eu teria entrado diretamente em qualquer Faculdade...

18.6.14

Exame de Português 12º Ano

ONTEM
«Castiguem-se lá os negros e os vilões para que não se perca o valor do exemplo, mas honre-se a gente de bem e de bens, não lhe exigindo que pague as dívidas contraídas, que renuncie à vingança, que emende o ódio, e, correndo os pleitos, por não se poderem evitar de todo, venham a rabulice, a trapaça, a apelação, a praxe, os ambages, para que vença tarde quem por justa justiça deveria vencer cedo, para que tarde perca quem deveria perder logo. É que entretanto vão-se mugindo as tetas do bom leite, que é o dinheiro, requeijão precioso, supremo queijo, manjar de meirinho e de solicitador, de advogado e inquiridor, de testemunha e julgador, se falta algum é porque o esqueceu o padre António Vieira e agora não lembra.»

Bem sei que o exame não visa medir a inteligência do examinando, mesmo assim, se começássemos por verificar a ligação de Saramago com Vieira (a intertextualidade), o que é que encontraríamos?
E se o tema da dissertação fosse a "justiça" neste sorumbático país?
Talvez seja pedir demais...

HOJE
Saramago e Vieira. 
Não vale a pena ter lido o romance e o sermão! Intertextualidade nem cheirá-la! Em vez da "Justiça", a "Ambição" fundamentada no palpite... Quanto aos restantes conteúdos declarativos, sumiram... A Gramática está reduzida à rasteira...

Considerando o programa em vigor, bom seria que alguém esclarecesse quais são os objetivos da Prova de exame, 1ª fase, código 639...

17.6.14

Qual é o seu palpite para o exame de amanhã?

«Palpite não é opinião. Esse é o erro mais comum entre os palpiteiros amadores. Palpite está para a opinião como a crença está para o conhecimento. O palpite se funda no que o palpiteiro acha que sabe. A opinião sobre o que realmente se sabe.» http://blogdopierri.blogspot.pt/2008/09/teoria-geral-do-palpite.html

À pergunta cerimoniosa, respondo que não arrisco qualquer palpite. Nem mesmo o argumento  defensor de uma envenenada homenagem a Saramago me persuade. A coligação já  faz tempo que enterrou a voz do prémio nobel, a voz do povo esmagada pelo peso do desemprego, da austeridade e do estrangeiro...
No entanto, enquanto me interrogo se haverá uma teoria geral do palpite e se, na verdade, não é esta que impera, por exemplo, nos exames de História, Filosofia e Português, aqui transcrevo um excerto de Memorial do Convento que bem poderia servir para verificar a qualidade do ensino e da aprendizagem:

«Castiguem-se lá os negros e os vilões para que não se perca o valor do exemplo, mas honre-se a gente de bem e de bens, não lhe exigindo que pague as dívidas contraídas, que renuncie à vingança, que emende o ódio, e, correndo os pleitos, por não se poderem evitar de todo, venham a rabulice, a trapaça, a apelação, a praxe, os ambages, para que vença tarde quem por justa justiça deveria vencer cedo, para que tarde perca quem deveria perder logo. É que entretanto vão-se mugindo as tetas do bom leite, que é o dinheiro, requeijão precioso, supremo queijo, manjar de meirinho e de solicitador, de advogado e inquiridor, de testemunha e julgador, se falta algum é porque o esqueceu o padre António Vieira e agora não lembra.»

Bem sei que o exame não visa medir a inteligência do examinando, mesmo assim, se começássemos por verificar a ligação de Saramago com Vieira (a intertextualidade), o que é que encontraríamos?
E se o tema da dissertação fosse a "justiça" neste sorumbático país?
Talvez seja pedir demais...

16.6.14

Sem nunca terem entrado em campo

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A história da decadência é antiquíssima e a receita para a superar sempre a mesma. Assenta na criação de ilusões – o sebastianismo. O rosto vai variando: índia, sebastião, joão, brasil,  josé,  saldanha, bandeira,  costa, sidónio, antónio, império, angola, mário, eusébio, fátima, língua, rui, figo, ronaldo… Sempre a esperança no retorno do messias!

A esperança e a desilusão!

Na rua, nas paragens de autocarros, só mulheres! Esperam conformadas, indiferentes aos ecrãs. Nas televisões, enxames de comentadores! Só homens! Acusam e deliberam, humilhados sem terem entrado em campo…

Sem nunca terem entrado em campo…

15.6.14

A época é de pasmaceira e coincide com os exames

O sol cega, o calor mata a leitura - a época é de pasmaceira e coincide com os exames...

Consciente da inutilidade das letras, registo, em mofina hora, excertos de Vieira, Garrett, Pessoa, Ruy Belo. Por razões nem sempre distintas, todos estes excertos deveriam merecer a (nossa) atenção: o ofício do escritor, a intencionalidade, a expressividade dos recursos estilísticos, a tipologia textual, a visão do mundo (a identidade e a alteridade; a temática de cada um, em termos de convergência e divergência)...   

A - «Perguntado um grande filósofo qual era a melhor terra do mundo, respondeu que a mais deserta, porque tinha os homens mais longe. Se isto vos pregou também Santo António, e foi este um dos benefícios de que vos exortou a dar graças ao Criador, bem vos pudera alegar consigo que, quanto mais buscava a Deus, tanto mais fugia dos homens. Para fugir dos homens deixou a casa de seus pais e se recolheu ou acolheu a uma religião onde professasse perpétua clausura. E porque nem aqui o deixavam os que ele tinham deixado, primeiro deixou Lisboa, depois Coimbra, e finalmente Portugal. Para fugir dos homens, mudou de hábito, mudou o nome, e até a si mesmo mudou, ocultando sua grande sabedoria debaixo da opinião de idiota, com que não fosse conhecido nem buscado, antes deixado de todos, como lhe sucedeu com seus próprios irmãos no capítulo geral de Assis. Dali se retirou a fazer vida solitária em um ermo, do qual nunca saíra, se Deus como por força o não manifestara; e por fim acabou a vida em outro deserto, tanto mais unido com Deus quanto mais apartado dos homens.»

B - «MANUEL - Para mim aqui está esta mortalha (tocando no hábito) morri hoje... vou amortalhar-me logo; e adeus tudo o que era mundo para mim! Mas minha filha não era do mundo... não era Jorge; tu bem sabes que não era: foi um anjo que veio do céu para me acompanhar na peregrinação da terra, e que me apontava sempre, a cada passo da vida, para a eterna pousada donde viera e onde me conduzia...»

C - «Senhor, a noite veio e a alma é vil. / Tanta foi a tormenta e a vontade! / Restam-nos hoje, no silêncio hostil, / O mar universal e a saudade.»

D - «Se às vezes digo que as flores sorriem / E se eu disser que os rios cantam, / Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores / E cantos no correr dos rios... / É porque assim faço mais sentir aos homens falsos / A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.» 

E - «Deixai que em suas mãos cresça o poema / como o som do avião no céu sem nuvens / ou no surdo verão as manhãs de domingo / Não lhe digais que é mão-de-obra a mais / que o tempo não está para poesia  //(...)// Chorai profissionais da caridade / pelo pobre poeta aposentado / que já nem sabe onde ir buscar os versos / Abandonado pela poesia / oh como são compridos para ele os dias / nem mesmo sabe onde pôr as mãos /»

14.6.14

A vida invisível

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Depois do filme, fui à Feira do Livro, onde tive oportunidade de trocar algumas palavras com Lídia Jorge…
Uma leve emoção  expressa num aperto de mão, repetido…
Lídia Jorge foi minha professora de Português, em Tomar, no longínquo ano de 1972/73.
No filme de Vítor Gonçalves, tudo ganha vida desde que a câmara repare, isto é, pare e volte a parar. A câmara, por vezes, parece imobilizar-se por falta de luz. A penumbra assombra os interiores como se estes fossem apenas a projeção das personagens masculinas – António e Hugo. A primeira está lá para que, na morte, anuncie qual será o futuro de Hugo, cujos últimos seis anos foram de completa submissão ao passado.
Hugo é, assim, uma personagem sem presente nem futuro; só passado. Até o Terreiro do Paço promete ter melhores dias! Se estas duas personagens foram delineadas para simbolizar o estado da nação, o objetivo é alcançado, mas com tal lentidão que desespera qualquer espectador…
Hoje, na sala dois do Monumental, às 15h15, não estavam mais do que dez espectadores. Entre eles, uma velha senhora que ia comentando a inação, lembrando que Vítor Gonçalves pertenceria à “escola” de Manuel de Oliveira, que os parisienses é que iriam delirar com o filme, que Hugo era “psicótico”, e que Adriana estaria melhor em Amsterdão…
À saída, encontrei um colega, professor de Filosofia, que já tinha visto o filme e que, de chofre, me disse que não recomendava A Vida Invisível a ninguém… Eu, ao contrário do companheiro da velha senhora, não adormeci, tendo apreciado alguns planos crepusculares, mas penso que o argumento foi muito maltratado e arrastado…
Finalmente, gostaria que, na ficha técnica, não tivessem chamado Fabiana à minha filha. Ainda se fosse Sofia!

13.6.14

Miguel Rovisco procurava estabelecer analogias...

Agora que as aulas acabaram, os exames se aproximam, o calor abrasa e o futebol escraviza, Caruma vai regressar a velhas páginas de jornais e de revistas com o propósito de (re)parar a ligeireza do tempo vivido. Por outras palavras, com o propósito de volver sobre si própria...
Vamos começar pelo (aprendiz de) dramaturgo,  Miguel Rovisco (1960-1987). Aprendiz porque passou a sua curta existência a interrogar-se, a interrogar o lugar ( Portugal), a ensaiar a escrita de teatro, sem ir ao teatro, mas a ler teatro...
Escrever para o teatro é em Portugal uma arte menor! Ir ao teatro é um pouco como fazer um safari... É caro, mal acomodado e arriscado, por lapso ia escrevendo arricado, neologismo não autorizado...
Em 1988 (Capital, 26 de fevereiro), Tito Lívio, no artigo "Teatro de Rovisco Revisita a História", escreveu:
«Miguel Rovisco era um grande admirador das tragédias de Corneille e de Racine de que o seu teatro acusa claramente a influência ao debruçar-se sobre um tempo passado, ao estabelecer as analogias claras com o presente que vivemos, mostrando o quão pouco se terá evoluído em certos aspectos, nomeadamente  a tíbia industrialização do país e a dependência face ao estrangeiro sob o ponto de vista da importação dos géneros mais fundamentais.»
O crítico, referindo-se à "Trilogia Portuguesa", no D. Maria II, retrata Rovisco como um incipiente carpinteiro teatral, desritmado, atabalhoado e desenhador de personagens alienadas - pobre D. Maria I! Ora essa dificuldade era bem conhecida do aprendiz que, ao contrário de outros, tradutores apressados de tudo quanto era moda anglo-saxónica, batalhava, entre quatro paredes, por escrever em português sobre a questão mental que nos persegue há séculos... Doença coletiva que procurava exorcizar em si e no palco e que acabou por o levar ao suicídio... 
A consciência da imperfeição fê-lo rasgar muitos dos seus textos, porém isso não faz esquecer o caminho: a indagação do presente através do conhecimento do passado, a leitura dos grandes dramaturgos e, sobretudo, a dedicação à escrita até que o texto se autonomize do escrevente...

Para quem goste de papéis antigos, pode procurar Miguel Rovisco no Expresso de 6 de fevereiro de 1988.

Se algum dos meus alunos do 12º ano ler esta prosa, dedico-lhe a citação, pois, afinal, de Camões a Sttau Monteiro, sem esquecer Almeida Garrett, todos os verdadeiros autores vivem para estabelecer analogias... Entendê-las é um objetivo da aprendizagem!


12.6.14

Símbolos existenciais


Qualquer Dicionário de Símbolos reafirmará que o verde é a cor da esperança, da força, da longevidade; a cor da imortalidade, universalmente simbolizada pelos ramos verdes.
A Literatura dá conta desse simbolismo, por exemplo, em Felizmente Há Luar!, quando, no dia da execução,  Matilde exibe a saia verde que o General Gomes Freire d’Andrade lhe oferecera em Paris.
No entanto, a maioria de nós fica verde sempre que o Governo anuncia as medidas de estratégia orçamental!
O que significa que, em Portugal, os símbolos não são universais…

11.6.14

O dia começou cedo…

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Estremoz
Foram mais de 500 quilómetros!

Toda a manhã: a velocidade, a luz, a cor, o rendilhado – o coreto e o silêncio…

À tarde: o ruído,  a adivinha, a demora, o ensimesmamento, o ar pesaroso e a histeria – o coreto e a revelação de que eu tenho sido uma espécie de “padrinho”.

Fantástico! Eu que só tenho um afilhado e que, por sinal, é meu irmão…

10.6.14

Um desmaio agitou o conformismo

Às Musas agardeça o nosso Gama
O muito amor da Pátria, que as obriga
A dar aos seus, na lira, nome e fama
De toda a ilustre e bélica fadiga;
Que ele, nem quem na estirpe seu se chama,
Calíope não tem por tão amiga
Nem as filhas do Tejo, que deixassem
As telas d'ouro fino e que o cantassem.
Camões, Os Lusíadas, Canto V, estância 99
                              *
«Aceito falar, como eu mesmo, da importância e do significado de Camões hoje, e da necessidade de ter presente ao espírito esta ideia tão simples: um país não é só a terra com que se identifica e a gente que vive nela e nasce nela, porque um país é isso mais a irradiação secular da humanidade que exportou.» Jorge de Sena, Discurso da Guarda, 1977.

Hoje, na Guarda, o ar era frio e fúnebre; apenas um desmaio agitou o conformismo. Até Eduardo Lourenço e Mário de Carvalho se perfilaram!

9.6.14

Saber ler Os Lusíadas

(...)
Veja agora o juízo curioso
Quanto no rico, assi como no pobre,
Pode o vil interesse e sede imiga
Do dinheiro, que a tudo nos obriga.

Este rende munidas fortalezas;
Faz trédores e falsos os amigos;
Este a mais nobres faz fazer vilezas,
E entrega Capitães aos inimigos;
Este corrompe virginais purezas,
Sem temer de honra ou fama alguns perigos;
Este deprava às vezes as ciências,
Os juízos cegando e as consciências.

Este interpreta mais que sutilmente
Os textos; este faz e desfaz as leis;
Este causa os perjúrios entre a gente
E mil vezes tiranos torna os Reis.
Até os que só a Deus omnipotente
Se dedicam, mil vezes ouvireis
Que corrompe este encantador, e ilude;
Mas não sem cor, contudo, de virtude!
Camões, Os Lusíadas, Canto VIII, estâncias 96 a 99

Amanhã, celebra-se o quê? Será que no tempo de Camões ainda havia alguma coisa para enaltecer? De regresso à Guarda, mas não a Jorge de Sena, amanhã ninguém lerá os versos que escolhi e que melhor dão conta do estado em que a nação mergulhou...
Definido o tema - o encantador dinheiro - e o interlocutor, raro, "o juízo curioso", o Poeta constrói anaforicamente o retrato da Pátria: o dinheiro tudo compra, tudo corrompe - realeza, nobreza, clero, ciência, exército, justiça... nem a inocência lhe resiste... nem a hermenêutica foge à manipulação do texto... o próprio povo se deixa endemoninhar...

Camões confessa, mais uma vez, o seu desencanto, sabendo que os juízos curiosos, isentos, são raros porque a isenção só vive naqueles que todos os dias procuram aprender a ler... E quem souber ler estas estâncias reconhecerá que as palavras do Poeta são o retrato da Pátria de hoje e dos homens que amanhã não terão qualquer pejo em citá-lo, mesmo que saibam que o encantador dinheiro lhes comprou a alma.   

8.6.14

Fatias de outro tempo

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Figueira, videira, oliveira, laranjeira, amendoeira… A foto nada acrescenta ao que se segue…
Estávamos nos anos 60 do século passado. O granizo destruíra a vinha, derretera a flor. O salto fora imediato!
E eu, também, acabei por partir. Para lá das muralhas, havia um corredor com 15 gabinetes de banho de cada lado. Seriam mais? Portas sempre abertas para que as sotainas pudessem censurar. O banho era diário, às 7h15, e durava no máximo 3 minutos… Por vezes, a água fria só corria!
Para lá das muralhas, havia um dormitório. As lâmpadas apagavam-se às 21 horas. Inexoravelmente!  Silêncio! Os braços ficavam de fora a acompanhar castas e tácitas promessas…
(…) Eu não nasci em Briandos, nunca lá fui e por isso não poderei lá voltar, ao contrário da personagem Branca (Natália Correia, A Madona, 1968) que de lá saiu para se libertar do despotismo patriarcal, não deixando, contudo de lá regressar.
Branca partiu para Paris com o projeto materno de ser «bailarina ou qualquer outra coisa em que sejas tu mesma (…) para que não te aconteça…». Em Paris entregou-se ao sexo ( e à indagação do amor). Em casa de Françoise, a promiscuidade era absoluta. A emancipação pela assunção da sexualidade! Nas cidades europeias, Branca procura respostas impossíveis para as questões existenciais que se lhe vão atravessando ao caminho…
Nos anos 60, o mundo que nos separava era tremendo: Havia os que procuravam o pão no trabalho ou num Deus castrador, e os outros, os filhos de Deus, procuravam a felicidade no sexo e na droga… (Da emancipação à alienação... Todos queriam SER / PODER. E o que restava era NADA!)
De salto, nos anos 60, chegava-se a Paris. Mas havia quem lá chegasse com o passaporte na mão!
Nos anos 60, havia quem vivesse cercado por muralhas, sem esquecer os que não tinham tempo para conhecer o efeito das minas…

7.6.14

Garras famintas

Cabeço de Vide
Neste lugar, o pelourinho situa-se mais perto da Igreja do que da Câmara Municipal. Terá sido este o meio encontrado para  afrontar o Clero?

Cabeço de Vide

O nome pelourinho tem sua origem na bola que encimava a coluna (em latim, denominada de "pirorium") e que era construída sobre um pedestal, com a escadaria feita de pedras. Na sua origem, o “pelourinho” simbolizava a autonomia administrativa da vila, assegurada pelos homens bons (vereadores)…

Os pendentes de ferro ou de bronze já só servem para me lembrar o quão agrilhoado estou, não por decisão do Fado ou de um Deus irado, mas por pactuar com os homens que vivem segundo os seus caprichos mesmo que tal signifique que os abutres me desfaçam as entranhas…

A diferença é que o pelourinho representava o poder dos povos face à realeza, à nobreza e ao clero e, hoje, enquanto me vejo amarrado à pilastra, apenas sinto as garras famintas.

6.6.14

Sobre o corpo da Ibéria

Como ondulada capa de miséria / A cobrir de negrura a cor das chagas, / Assim és tu, crosta de velhas fragas / Sobre o corpo da Ibéria. Miguel Torga, Ibéria

Hoje, quero destacar a singeleza e a beleza de Cabeço de Vide.
Ao procurar as termas sulfúreas, acabei por me deparar com o que resta do Portugal de outrora –  sinais de grandeza corroída pela desnecessária fronteira…  E, também, comprovei a falta de transporte ferroviário e viário que deveria ajudar a viabilizar a riqueza natural e patrimonial…
Infelizmente, não  tive tempo para visitar Fronteira, apenas relembro  o conto “Fronteira” de Miguel Torga: « E aí começam ambos a trabalhar, ele (Robalo) em armas de fogo, que vai buscar a Vigo, e ela (Isabel) em cortes de seda, que esconde debaixo da camisa, enrolados à cinta, de tal maneira que já ninguém sabe ao certo quando atravessa o ribeiro grávida a valer ou prenha de mercadoria.»
  Novos Contos da Montanha

5.6.14

Entrei hoje no limbo

Peço desculpa por ter cedido à tentação de, em post anterior, ter citado Passos Coelho. Deveria ter evitado tal referência, anódina.

Não deveria envolver-me em questões cavernosas, pois, desde manhã cedo, me interrogo sobre o que irei fazer logo que a Caixa Geral de Aposentações me conceda a reforma antecipada, apesar dos 40 anos de serviço público e privado.
Não tendo sabido responder aos meus alunos do 11º ano se me voltariam a ver na sala de aula em setembro, sei, contudo, que, a breve trecho, terei de encontrar uma atividade remunerada fora do Estado.

Pode parecer estranho, mas, na verdade, uma penalização de 35% (ou mais), resultante da aplicação da lei 11/2014, de 6 de março, obriga a regressar rapidamente ao mercado de trabalho.
Claro que há quem pense que o melhor seria manter-me como funcionário público. O problema é que nunca acreditei em milagres económicos portugueses! E como não há milagres, os servidores do Estado continuarão sob a espada de Dâmocles: mais trabalho, menos remuneração, menos progressão e menos pensão de reforma...

Entrei hoje no limbo. Vamos ver porquanto tempo! 

Passos quer "melhores juízes" no Constitucional, e nós?

Passos quer "melhores juízes" no Constitucional, e nós?
Nós queremos melhores governantes!
Nós queremos menos e melhores deputados!
Nós queremos o fim das clientelas partidárias!
Nós queremos o fim dos monopólios!

4.6.14

As palavras dos poetas e as palavras do dia-a-dia

04062014302
Uma distinção simples que insistimos em não aplicar…
Cultivamos o idiotismo, a obscenidade e o ruído…

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Ao lado, no Auditório da Escola Secundária de Camões, o Camusicando celebra o 3º aniversário. O Programa é vasto, dando conta da crescente importância que a iniciativa da professora Ângela Lopes foi granjeando…
Creio que, hoje, é justo afirmar que o Camusicando é uma verdadeira atividade integradora, permitindo a aproximação cultural, artística e afetiva a todos os que ao longo de cada ano vão participando no projeto.

3.6.14

Prosa de corrimão

Quando as pernas pesam e os pés hesitam é sinal de que os neurónios entram em colapso, provocando lapsos de memória e, sobretudo, desorientação do olhar e intumescimento do rosto...
Nem é preciso espelho! Basta passar a mão pelo cabelo e pela face para perceber que a disformidade se vai instalando...
Descer a escada começa a ser um ato reflexivo: Quantos degraus? A que distância uns dos outros? A mão que procura o corrimão invisível agita-se desajeitadamente. Pouco falta para cair! E esse pouco encoraja e assusta...
Apesar do ar patético e da voz pastosa, nem tudo parece perdido sobretudo quando a vontade desperta e impõe a disciplina que há muito vai faltando...
O problema é que a vontade consome demasiada energia, porque a vontade é a força que combate a fraqueza e desse combate, sinto que já só sobra ora a leveza ora o carrego.

De qualquer modo, esta prosa não tem qualquer utilidade, a não ser a de poder substituir o corrimão.  

2.6.14

A finalidade da arte é substituir factos

Estou cansado da inteligência.
Pensar faz mal às emoções.
Uma grande reação aparece.
Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo
Na casa antiga da quinta velha.
Fernando Pessoa / Álvaro de Campos

A ideia das tias mortas desatarem a fazer chá / Na casa antiga da quinta velha é bluff. Álvaro de Campos não teve infância nem quinta nem tias. E se tivesse passado, seria sempre o inicial, do qual poderia extrair réplicas que iludissem os breves dias...
Citando Álvaro de Campos: (Fernando Pessoa) esquece que o que define uma atividade é o seu fim; e o fim da metafísica é idêntico ao da ciência - conhecer factos, e não ao da arte - substituir factos.

A arte exige inteligência, força e por isso esgota a energia do criador de réplicas. O artista não pode ceder à emoção, mesmo que as tias insistam em lhe oferecer chá de ceilão...
E porquê?
«Toda a emoção verdadeira é mentira na inteligência, pois se não dá nela. Toda a emoção verdadeira tem portanto uma expressão falsa. Exprimir-se é dizer o que não se sente.
Os cavalos da cavalaria é que formam a cavalaria. Sem as montadas, os cavaleiros seriam peões. O lugar é que faz a localidade. Estar é ser.
Fingir é conhecer-se.
Álvaro de Campos, Ambiente, In «Presença», nº 5, Coimbra 4 de junho de 1927




1.6.14

Ofereço-te um banco onde te poderás sentar a ler...

Vou interromper a minha tristeza para te oferecer um banco onde te poderás sentar a ler aquelas obras que um dia me prometeste ler... 
Refiro-me apenas àquelas que melhor se adequam ao enquadramento: Os Lusíadas (em particular, as lamentações do Poeta); Os Maias ( o romance do fim da Pátria); O Sentimento dum Ocidental (o poema que melhor poetiza as Causas da Decadência, de Antero)  Mensagem ( sobretudo, o fervor patriótico e utópico); A Ode Marítima (do Cais Absoluto)...
Ainda me prometeste outras leituras, mas vou fingir que as gaivotas e os corvos me impediram de te ouvir...
Não quero que te preocupes com a minha tristeza! Ela é antiga! Herdei-a de Sá de Miranda e de Bernardim Ribeiro; de António Vieira e de Bocage; de Garrett, de Herculano, de Aquilino, de Miguéis, de Torga, de Saramago...
Talvez um dia ainda te reencontre sentado no banco que sempre te ofereci!