31.1.13

Os láparos e as cobras

Contra acessos febris, uma mistura de gordura de cobra com azeite; contra a tosse, chá de pele de cobra; contra o reumatismo, sopa de cobra... À exceção do veneno de cobra, nenhuma destas mezinhas surte efeito. No entanto, a magia da palavra da cobra é tão empolgante que até as tristes maçãs se viram envolvidas no desterro dos pais fundadores...
(...) Houve tempos em que o o caixeiro (viajante) chegava ao Largo e, qual tenor, vendia pilhas de colchas, cobertores, tachos, panelas, unguentos, tudo pelo preço da uva mijona... Era tudo tão barato e fácil que ninguém resistia à inesperada necessidade. Depois faltava o dinheiro para o petróleo, para o azeite e até para o pão de milho - a broa.
De qualquer modo, o comprador compulsivo, de regresso ao tugúrio, sabia bem que acabara de ser ludibriado pelo vendedor de banha da cobra.
Mais tarde, na defunta Feira, vi acumularem-se os caixeiros e as quinquelharias, sem nunca ter percebido bem o que havia de tão fascinante em regressar a casa carregado de bujigangas inúteis... Até que mortos o Largo e a Feira, os vendedores de banha da cobra passaram a entrar pelas casas dentro, ocuparam as mochilas e os bolsos e, agora, nos cegam os olhos e destrambelham os neurónios...
Até agora, a ironia ajudou-me a resistir aos caixeiros  e às suas cobras, mas parece-me que vou acabar por soçobrar: os láparos reproduzem-se com tal facilidade que nem as cobras conseguem dar conta deles... 
Hoje, 27 de fevereiro de 2013, surgiu um láparo esfolado à entrada da Faculdade de Direito! Sinal de que os estudantes já abriram a época da caça...

30.1.13

Culturas sem diálogo

Infographie "Le Monde" | Ipsos: Rarement la défiance envers l'islam aura été aussi clairement exprimée par la population française. 74 % des personnes interrogées par Ipsos estiment que l'islam est une religion "intolérante", incompatible avec les valeurs de la société française. Chiffre plus radical encore, 8 Français sur 10 jugent que la religion musulmane cherche "à imposer son mode de fonctionnement aux autres".
 
Os franceses acreditam que os muçulmanos lhes querem impor o seu modo de funcionamento. Apesar de se dizerem cartesianos, os franceses facilmente se deixam mover pelas emoções e abdicam do raciocínio para acusarem o outro daquilo que eles próprios praticam, tal como a maioria dos "cristãos" ocidentais, sejam ortodoxos, católicos ou reformistas.
Em Portugal, não precisamos de lançar a suspeita sobre os muçulmanos. Ensinaram-nos, desde o berço, que eles são o inimigo: os cristãos conquistaram-lhes os castelos e sobre as mesquitas edificaram igrejas. Até n'Os Lusíadas, os mouros continuam a ser o inimigo!
Em Portugal, os muçulmanos dissolveram-se na paisagem humana. Em França, vivem entre barreiras... e as fronteiras sempre travaram o diálogo.
 
 
 
 
 
 
 

29.1.13

Descaminhos

Olhando as páginas dos jornais, mesmo que de esguelha, percebo que por falta de fé, perdi inúmeras oportunidades. Houve um tempo em que poderia ter caído nos braços da «opus dei», mas a obstinação de tudo querer compreender expulsou-me por tempo indeterminado do caminho divino...
O caminho terreno tornou-se espinhoso, mas, por um bambúrrio dos capitães de abril, deixei de pisar uma mina em solo africano. Fiquei por cá, incapaz de me alistar em uma qualquer confraria, com ou sem avental. A porta secreta esteve sempre aberta, mas nunca entrei...
Tendo desistido de ser pastor, nunca aceitei ser ovelha! E, assim, por falta de fé, continuo a tentar compreender se, na verdade, há algum caminho ou se tudo não passa de uma imperceptível variação na (in)suportável repetição da condição humana.
E de súbito, da desmória dos caminhos, surge Pascal:
L’homme n’est qu’un roseau, le plus faible de la nature ; mais c’est un roseau pensant. Il ne faut pas que l’univers entier s’arme pour l’écraser : une vapeur, une goutte d’eau, suffit pour le tuer. (fragmento 397)
   

28.1.13

Irremediavelmente atrasado!

As palavras não me eram dirigidas, mas não pude deixar de as ouvir. Eram palavras de pesar! Morrera o professor José Viana!
Quem dele falava, conhecera-o na Escola Secundária de Camões. Mas eu que não soube, a tempo, da sua última viagem, também fui seu colega na referida escola, mas, na verdade, o nosso conhecimento era mais antigo. Remontava ao ano lectivo de 1977/1978!
Nesse ano, fiquei a dever-lhe muitas viagens a Mafra, com paragem nas "trouxas" da Malveira... Foi na Escola Secundária de Mafra que o conheci, sempre afável, sempre prestável.
Espero que a sua última viagem tenha sido tão tranquila como todas aquelas que partilhámos no longínquo ano de 1977/78! 

25.1.13

A vulgaridade democrática

«A democracia é uma inundação de vulgaridade, e é necessário uma fé robusta, no futuro da sua evolução, para a não amaldiçoar...» Antero de Quental, Carta de 1888
 
Com o regresso ao mercados, somos inundados por enunciados patéticos, como o do conselheiro borges para quem a austeridade terá chegado ao fim. 
O regime democrático permite que o iluminado borges nos insulte diariamente, permite que políticos vulgares brilhem lá fora à custa de medidas que condenam à miséria milhões de portugueses.
O regime democrático permite que opositores irresponsáveis comam à mesa do orçamento, sem se preocuparem em apresentar argumentos e medidas que desmontem a propaganda que nos torna insanos.
Muitos são aqueles que começam a amaldiçoar a democracia, não porque lhes falta fé, mas porque nos contentamos com a mediocridade. 

23.1.13

O regresso aos mercados

Como a batalha verbal já está no terreno, vou aproveitar para deixar aqui o meu critério para avaliar o alcance da operação e este consubstancia-se numa pergunta primária: - No final da operação, a dívida dos portugueses aumentou ou diminuiu?
No que me diz respeito, todos os dados de que disponho me indicam que a minha dívida ficou maior. Mas, provavelmente, a responsabilidade é minha, pois não sou nem banqueiro nem credor nem político nem sábio!
 
Em rodapé, não posso deixar de estar preocupado com a ética dos sábios que elaboraram o último relatório do FMI sobre as medidas que Portugal deve aplicar para cortar permanentemente 4 mil milhoes de euros.
«Carlos Mulas, director de la Fundación Ideas, tiene registrados el nombre y el logo de una falsa columnista llamada Amy Martin. Cobraba hasta 3.000 euros por cada artículo que sólo se publicaban en la web.»
«El creador de Amy Martin aseguraba que para combatir la corrupción la clave era 'reducir los espacios' de oportunidad para que se produzca»
 
 

22.1.13

Como diria o japonês

O regresso aos mercados, acertado entre banqueiros e credores, está a gerar uma onda vergonhosa de aplausos e de vaias.
Onde uns enxergam sucesso, outros enxergam impotência. Uns e outros, no entanto, ganham com o aumento do endividamento. Já lá vão 200 mil milhões de euros! Ou será mais? Como amortizar tanto dislate?

Como diria o japonês, isto só lá vai se deixarmos morrer os velhos! Segundo a notícia, o limite de idade começa aos 60 anos, apesar dos esquecidos protestos de Vitorino Nemésio:
(...)
- «É bom não pôr limites à Misericórdia divina»
Disse um Papa velhinho
A quem exígua prece
                                 Votava uns anos mais
Como é próprio da Caixa de Descontos
         Dos pequenos mortais.
(...)
18.7.1971

21.1.13

Acabar sinónimo de integrar?

Político em ascensão: 'Quando eu disse "acabar" com a ADSE estava a querer dizer "integrar"... Um raciocínio coerente, pois quando a morte chega e acaba com o ser, ela mais não faz do que integrá-lo no cosmos. 
Na verdade, o temporal deste fim de semana apenas quis  acabar com os privilégios de  uns milhares de árvores de grande porte, que insistiam, contra ventos e marés, em altear-se nos areais de Leiria, nas serras de Sintra e do Buçaco... Havia mesmo um cedro que resistia há 370 anos!
O temporal nivela, torna igual o que é diferente e cresce à custa dos suculentos cactos que irrompem das encostas plebeias. 
Já andávamos esquecidos que no dicionário prático da língua portuguesa, "integrar" significou quase sempre "tomar pela força", sem com isso acabar com as nativas. Pelo contrário, paladinos da integração (da miscigenação), demos novos brasis ao mundo.

   

20.1.13

Vassouraria da Esperança

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Ontem, referia que, sem complacência, o governo corta a torto e a direito e nós, complacentes, deixamos fazer. Pensava eu que esta resignação se ficaria a dever a falta de ferramenta democrática, quando, subitamente, dou de caras com a Vassouraria da Esperança (em tempos, propriedade do pai do Raul Solnado!). Fechada como milhares de outros pequenos estabelecimentos!?

Mas não! O atual proprietário teve o bom senso de mudar a Vassouraria para a Rua da Memória. Haja esperança! A memória acabará por nos ajudar a separar o trigo do joio e a varrer os cavacos, os relvas, os gaspares, os salgados, os loureiros, os coelhos e os selassiés deste mundo, sem ofensa para todos aqueles que continuam a merecer maiúscula…

19.1.13

Sem complacência

O Senhor Selassié diz ao governo português que «não é tempo de complacência». E talvez tenha razão! Os 82 mil milhões são para ser devolvidos com juros leoninos, sem cairmos na tentação de imitar os Gregos!
Por isso, sem complacência, o governo condena as empresas à falência, os empregados ao desemprego e à fome, corta nos vencimentos e nas pensões. Sem complacência, esvazia as universidades e os hospitais, e prepara-se para cortar 100.000 funcionários públicos - desde 2005, já saíram 166.000, e a Caixa Geral de Aposentações tem 34.000 em lista de espera!
Toda esta gente que sai da fábrica, da empresa, do hospital (no caso de ter tido a sorte de ter entrado e de ter sido bem tratada!), da universidade, da repartição, é atirada para uma terra de ninguém, à espera que a morte a liberte...
Sem complacência, o governo, às ordens do senhor Selassié, prepara-se para anunciar, em fevereiro, mais um conjunto de cortes, e, nós, complacentes, deixamos. Parecemos os judeus ordeiros a caminho do forno crematório alemão! 
A diferença é que os judeus eram uma minoria... e nós somos a maioria!

18.1.13

A eira

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A memória era feita de tabuleiros ao sol de verão. Secavam-se as uvas e os figos! Por vezes, era o milho que esperava que o descamisassem…

Entretanto, a eira iniciou o retorno à origem… tal como a memória! Tudo naturalmente, com ou sem flores de alecrim.

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17.1.13

Deus lhe pague

Não sei se é impressão minha, mas continuo a ver muitos jovens alheados dos problemas que assolam a maioria dos portugueses. Acreditam que o dia de amanhã lhes sorrirá como até aqui!
Claro, há sempre exceções! Ainda, hoje, uma jovem aluna apresentou oralmente a peça de teatro DEUS LHE PAGUE, de Joracy Camargo, mostrando, de forma singela, a sua surpresa face ao modo como o dramaturgo desmonta os preconceitos que ofuscam as ideias que devem mobilizar a atenção de cada um de nós. 
 
Mendigo: Na sua opinião. O que o povo quer é a coisa mais simples deste mundo.
Péricles: Qual é?
Mendigo: A supressão de uma palavra do dicionário.
Péricles: Qual?
Mendigo: Miséria!
Péricles: Só isso?
Mendigo:
 

Não basta suprimir a palavra do dicionário! Vamos ter que fazer mais alguma coisa. Nem que seja aprender com Joracy Camargo.
(Aqui fica uma sugestão de leitura, lusófona, e bem adequada ao momento que atravessamos!)

16.1.13

O riso e a ação direta

Nestes dias, já não sei se hei de rir ou de chorar! Falar deles começa a tornar-se uma maçada. Uma ENORME maçada!
Pelo que observo nas redes sociais, a maioria prefere rir. No entanto, vale a pena refletir sobre os efeitos do RISO.
Dizia Antero de Quental, em carta de 1879, ao amigo Guilherme de Azevedo:
O riso amolece, relaxa e acaba por tornar imbecis aqueles mesmos que o empregam contra a imbecilidade alheia. É uma arma perigosa, de dois gumes, uma arma má.
A ética anteriana impunha-lhe a condenação do riso, até porque o mal-estar psicológico minou-o desde muito jovem, tornando-o indeciso e, sobretudo, criando nele uma culpabilidade verdadeiramente inibidora da ação. (Na realidade, só o elevado sentido de humor de Eça foi capaz de nos convencer da santidade do suicida açoriano!) 
Eça ria ou, no mínimo, troçava de uma nação inteira, e a sua leitura ensina-nos a rir da imbecilidade do outro.
Hoje, começo acreditar que o riso nos está envenenar a alma e a inibir-nos a ação. A ação direta!

15.1.13

Garraios

Dois ou três estrangeirados decidiram refundar Portugal. Um deles, o secretário moedas, declara não querer ouvir palavras de aplauso e que espera que as intervenções sejam de confronto - palavras capazes de pôr em causa as suas divinas certezas.
Concluído o intróito, começou a garraiada, à porta fechada!
Amanhã, ao entardecer, o primeiro coelho anunciará o desfecho da faena.
 
Em 48 horas, o relatório do FMI terá sido transformado em ouro!

14.1.13

Assim não vamos lá!

O Partido Socialista está convencido que estão criadas as condições para voltar ao poder. Para o efeito, terá criado grupos de trabalho cujo objetivo será apresentar ideias que, simultaneamente, possam ser alternativa ao desconchavo governativo e, sobretudo, ajudar o país a sair do protectorado em que se afundou.
Ora, quando um desses chefes de missão decide dar uma entrevista a explicar que o serviço nacional de saúde (?) só poderá sobreviver se, de uma vez por todas, se puser termo aos sistemas corporativos de saúde, logo o porta-voz de serviço veio desautorizar o grupo de trabalho que terá proposto a extinção da ADSE.
Este é apenas um mau exemplo do modo como os partidos silenciam aqueles que arriscam   fazer propostas que questionam o conservadorismo vigente.
Se o Partido Socialista quer ser uma verdadeira alternativa de poder, terá que mudar de rumo. Deste modo, mais não será do que o reverso da atual coligação, e sem maioria parlamentar!
Para bem do país, o atual secretário-geral (ou o próximo, se for caso disso) vai necessitar de se rodear de mulheres e de homens que conheçam o país e os seus problemas e que apresentem soluções capazes de nos libertar da canga externa e interna.
Assim não vamos lá! 
 
 

13.1.13

A Casa Secreta

A Casa Secreta de José Eduardo Agualusa é uma narrativa gnoseológica ou, talvez, arqueológica, pois reinventa a Casa Lusófona, numa viagem do Brasil ao Quénia, na companhia de Richard Francis Burton.
O explorador, involuntariamente, surge como guia do Autor pelo simples facto de se ter interessado pela epopeia - OS LUSÍADAS.
A Casa Lusófona enraíza-se, assim, na « E da casa marítima secreta / lhe estava o Deus nocturno a porta abrindo / Quando as infidas gentes se chegaram / Às naus, que pouco havia que ancoraram.» Canto II, est. 1
A leitura atenta da narrativa dá conta do modo como a viagem do autor ao Quénia se organiza a partir de Vila da Barra do Rio Grande pelo simples facto de, um dia,  Domingos da Paixão Neto lhe ter devolvido a epopeia que deixara cair ao chão...
Uma narrativa secreta, onde o interdito se torna divisa, a carta se torna mediadora, a espada se torna identidade, e um diário se perde na magia do sagrado... e as referências se vão perdendo... 
 

A lei e a inveja

Um autarca termina o mandato no final de 2013 e já não se pode recandidatar. Como o legislador pressupõe que o eleitor é estúpido, proíbe o autarca de de se candidatar a um 4º mandato no mesmo munícipio.
O autarca, candidato ao desemprego, perante o interdito e não querendo impor-se na casa vizinha, olha para a Lei e descobre que esta o autoriza a pedir a reforma. E é o que faz!
(No caso publicitado,  a autarca reformada, a partir de 1 de fevereiro, deveria cessar funções e evitar expedientes que lhe maculam o carácter...)
Até aqui quase tudo bem! Mas. de imediato, surgem os argumentos "ad hominem" surportados pela atávica inveja.
Se a situação, num momento de empobrecimento colectivo, parece abusiva não é certamente porque o cidadão recorre à Lei, mas porque o Legislador a não revê, impedindo que, no futuro, se mantenham situações de privilégio e de desigualdade.
E vale a pena acrescentar que a maioria dos pedidos de antecipação de reformas resulta do Estado não ser pessoa de bem ou, melhor, de  os governantes não respeitarem a palavra dada, pois persistem no princípio da retroactividade, cortando a torto e a direito, gerando assim um mal-estar colectívo propício ao desenvolvimento do sentimento de inveja e, mais cedo ou mais tarde, a desmandos de todo o tipo.

11.1.13

A mão esquerda de Deus

Há uns dias, referi-me ao "tom seráfico" do secretário moedas, mas reconheço, agora que lhe investiguei o CV, que a escolha do adjetivo foi preconceituosa e precipitada. A não ser que se trate de um daqueles serafins que vive a coberto da mão esquerda de Deus!
Foi a proximidade do secretário moedas com o ministro gaspar que me fez pensar que ele também teria sido doutrinado pelo cardeal policarpo. Nada mais errado!
Na verdade, o homem nasceu na planície alentejana e, à falta de ar condicionado, arranjou forma de ir   trabalhar para o Banco de Investimento Goldman Sachs, na área de fusões e aquisições.
Proponho, em abono da verdade, a seguinte redação: «Num tom mesquinho, veio o secretário moedas explicar o seu apreço pelo relatório FMI - um relatório extenso e, sobretudo, quantificado.» (...)



10.1.13

Inutilia truncat

Corta tudo o que for inútil! - divisa dos árcades do século XVIII.
O Governo está pronto para aplicar o conselho arcádico! Deverá, no entanto, começar por explicar o que considera ser "inútil"...
Desconfio que, para a TROIKA, "inútil" significa tudo o que não dá "lucro", à boa maneira reformista e liberal. E o Governo, como aluno sabujo, está pronto para aplicar a receita. Por isso mais do que refundar o Estado, é necessário começar por cortar no Governo, o mesmo que vai procedendo à nomeação de boys e girls para a Secretaria de Estado da Cultura, e que finge extinguir organismos para, na verdade, criar novas estruturas intermédias para acoitar os serviçais, a peso de euros...


9.1.13

O secretário moedas

Num tom seráfico, veio o secretário moedas explicar o seu apreço pelo relatório FMI - um relatório extenso e, sobretudo, quantificado.
Custa-me a acreditar que o FMI não tenha redigido uma extensa monografia sobre a situação das finanças públicas, sector a sector, propondo simultaneamente intervenções cirúrgicas para cada um deles. Creio mesmo que o FMI, ao olhar para o resultado da avaliação, terá pensado que o melhor seria eliminar uns tantos sectores, de modo a que, finalmente, pudessem ser levadas a cabo as famigeradas reformas estruturais...
E tenho quase a certeza que a monografia do FMI também contém um capítulo confidencial sobre a capacidade dos governantes, primeiro, compreenderem o que são reformas estruturais, e, depois, implementá-las sem cederem aos interesses instalados.
Chegados aqui, os técnicos do FMI terão concluído que o melhor seria elaborar um relatório com umas tantas medidas quantificadas, que, de antemão, sabem que os políticos mandarão aplicar aos sabujos que os acolitam.
O problema do  secretário moedas é que não sabendo ler monografias, encomenda relatórios, de preferência, quantificados e curtos. 
Hoje, o seráfico moedas surgiu melancólico porque o relatório que recebeu às 12 horas era extenso, embora visivelmente satisfeito com a precisão dos números... 
Daqui até fevereiro, o governo já tem pouco para fazer! Basta aplicar a receita, mesmo que isso signifique ler apenas a conclusão do relatório.
O secretário moedas lembra-me aqueles "catedráticos" que nada conhecendo das matérias se sentam diariamente nas cátedras, à espera que os alunos façam de conta que leram a bibliografia e que apresentem uns "papéis" que eles possam aproveitar para publicar em revistas científicas dirigidas por correlegionários da mesma estirpe!

7.1.13

Ubi sunt?


Ubi sunt qui ante nos fuerunt?

O sol parece desiludido. As sombras povoam os dias. O ouro perdeu o fulgor e os ventres começam a inchar de míngua. As palavras magoadas arrastam-se sem eco. O sagrado invadiu as ruas e perdeu-se em beijos promíscuos... Os mendigos e os vagabundos montam, agora, sentinela aos despojos.

(Este Janeiro convida à meditação.)
Por este caminhar, mesmo os mais distraídos acabarão por, infelizmente, compreender os versos elegíacos de Antero de Quental:  Daquela primavera venturosa / Não resta uma flor só, uma só rosa... / Tudo o vento varreu, queimou o gelo!
Só que a responsabilidade não é do "vento" nem  do "gelo" de Janeiro! E também já não o era no tempo de Antero: Outros me causam mais cruel tormento / Que a saudade dos mortos... que eu invejo.../

6.1.13

A deriva neológica

A neologia raramente é uma necessidade. Ela nasce de uma deriva, da preguiça ou do esquecimento. Claro que o engenho humano necessita de novos termos para os novos brinquedos que vão substituindo os antigos!
Quanto ao esquecimento, basta uma geração para que o que era moda desapareça definitivamente. Há na literatura um número significativo de autores esquecidos, fruto da migração para as cidades e da desertificação do interior. Com eles morreram a língua e os valores ancestrais!
Quanto à preguiça, a falta de tempo para a comunicação presencial e à distância conduz a registos lexicais minimalistas e a um empobrecimento do léxico, arrasadores dos modos de raciocinar e, sobretudo, de argumentar.
Finalmente, a deriva é um mecanismo mais profundo que arrasa a visão do mundo. Por exemplo, na costa do Índico, situa-se Moçambique, antiga colónia / província portuguesa, mas poucos sabem que, anteriormente, essa região se chamaria Ma Sambuco (aglomeração de navios). Aquela costa nunca deixou de seduzir os povos: chineses, fenícios, árabes, indianos, portugueses, ingleses...
Todo este argumentário para quê? Simplesmente para lembrar que o neologismo "eurismo" é fruto da deriva de um povo que se esqueceu, por preguiça, da sua origem portuária, preferindo passar a periferia da Europa do capital.    

4.1.13

Eurismo

A política, ao contrário da poesia que acrescenta, só restringe!
Tendo uma origem comum, poesia e política seguem caminhos opostos. 
No início, os políticos eram poetas cujas palavras defendiam o reconhecimento do trabalho (ação) da maioria. Hoje, os políticos defendem abertamente o empobrecimento da maioria.
Hoje, há uma linha que separa nitidamente a poesia ( a arte, a ciência, a filosofia, a religião), da política ( o eurismo*).
E se isto acontece é porque o sistema educativo deixou de se nortear por valores humanistas e ecológicos! Hoje, o discurso político faz tábua rasa de todo e qualquer valor porque serve apenas o euro!
Os próprios ministros não se diferenciam: ou não têm a voz ou vociferam contra a maioria em nome do euro.

* Eurismo: forma regional do capitalismo mundial.

3.1.13

A poesia acrescenta...

Hoje, não resisto a perguntar ao ministro Crato se, de futuro, a poesia será excluída dos programas de Português, pois o ato poético - o ato de fazer - é anterior aos atos de informar e de opinar.
O ato poético é primordial e está intimamente associado à percepção da realidade, ao modo como o poeta  aborda sensorialmente o mundo das coisas e dos seres, e essa captura é individual e necessariamente incómoda, pois cabe-lhe, ao moldar a matéria de que se tece, dizer / fazer o que ainda não foi dito / feito...
A poesia acrescenta, não se limita a opinar ou a informar ou a espelhar sentimentos. A poesia foge dos círculos viciosos e virtuosos! E foge do biografismo! De nada serve mergulhar nas suas malhas à procura do sujeito... este serve a expansão do mundo e só é feliz quando o poema se emancipa, e imanente sobrevive à literatura.  
Há mais de 2500 anos que a poesia recria o mundo, ora gerando fronteiras ora diluindo-as, pois cada poeta reivindica para si a liberdade de ver, ouvir, cheirar, degustar, tactear, e que nenhum pensamento geométrico poderá estorvar.

2.1.13

Sobre o espelho quebrado...

Bem sei que para o ministro Crato, compreender o simbolismo deixou de ser uma das metas da disciplina de Português. Basta saber distinguir o ato opinativo do ato informativo!
Para mim, no entanto, o espelho quebra-se não apenas quando o feio esmaga o belo - a morte substitui a vida -, mas também quando a Assembleia da República não espelha o país.
No atual quadro parlamentar não enxergo representantes dos desempregados, dos reformados e aposentados, dos jovens à procura de emprego; da oliveira, do sobreiro e da vinha; da restauração, do calçado, do artesanato; das artes e da economia paralela... Só professores e juristas e uns tantos videirinhos vindos do inefável poder local, distrital... 

1.1.13

O espelho quebrado!

No atual quadro parlamentar, encontramos 65 professores. Somados a 57 advogados e a 27 juristas, temos um total de 149 personagens de papel, num universo de 230 parlamentares.
Estes personagens encontraram na Assembleia da República a escada para a ascensão social que, de outro modo, lhes estaria vedada.
Não sabemos se foram (ou são?) excelentes professores, advogados ou juristas, mas são zelosos cumpridores da disciplina partidária. Talvez seja esse o motivo porque no jornal i, página 15, Margarida Bon de Sousa escreve: «Ter uma licenciatura em Direito ou ser professor, mesmo de uma escola primária, parece ser uma vantagem comparativa na altura de os partidos constituírem as suas listas.» 
Quanto ao governo de Portugal, ele é constituído por: quatro professores, quatro advogados, um jornalista, dois gestores e um administrador.
E na Presidência, mora um distinto de professor!

O espelho quebrado!