23.10.17

A caminhada sem girassol

Sem girassol, o meu olhar é turvo. Só vislumbro, nos rasgões que abrem para o longe, formas imperfeitas; só oiço acusações de falta de amizade, de falta de educação - na rua, o que ganham em intensidade perdem na distância dos interlocutores...
E eu caminho, caminho para distender os músculos e aliviar a tensão ou talvez o esforço por compreender não o outro, mas o modo de lidar com a depressão... Essa depressão sazonal que só quer adormecer, mas que, lá no fundo, é uma nova forma de poder... que imobiliza, que asfixia até a um ponto que só a caminhada pode combater...

22.10.17

Refrear e enganar

Numa manifestação realizada ontem, no Terreiro do Paço, os manifestantes aproveitaram para desatar à pancada. Pelo que vi, as forças da ordem, esforçadamente, lá os separaram... Bem sei que estas forças foram criadas para assegurar a ordem! De qualquer modo, quero crer que, nestas circunstâncias, o melhor seria deixá-los esgotar as energias, pois,  um destes dias, vamos vê-los a acolitar gente manhosa que aspira a ser poder, a ser governo. E para quê?
Bernardo Soares (Fernando Pessoa) é esclarecedor:

«O governo assenta em duas coisas: refrear e enganar. O mal desses termos lantejoulados é que nem refreiam nem enganam. Embebedam, quando muito, e isso é outra coisa

Parece-me claro que alguém anda a desenhar um frente-a-frente entre a direita e a esquerda, em nome da chamada alternativa democrática, mas em breve será a extrema-direita a sorrir, como já está a acontecer um pouco por toda a parte... 
E como bem sabemos, a bebedeira é inimiga da memória!

21.10.17

Quem não sabe é que decide!

Milhões e mais milhões para compensar perdas humanas, de animais e haveres; para compensar empresas e empregados... para tudo o que estava, quase sempre, mal. E para reorganização do território, pouco se sabe...
Há por aí quem pense que basta dar uns milhares de euros às vítimas, reconstruir as casas e as fábricas, plantar uns milhares de árvores, restabelecer a luz elétrica e as comunicações, mas, infelizmente, isso é o mais fácil...
Reorganizar leva tempo, exige projetos e, sobretudo, o envolvimento de quem tem capacidade para executar. Em Portugal, há conhecimento e há empresas internacionalizadas que poderiam dispor de 15 ou 20% dos seus recursos para tal efeito... Mas não vejo que o poder político tenha lucidez suficiente para entregar tal programa de reorganização a quem sabe...
Quem não sabe é que decide!
E ainda há os abraços, os minutos de silêncio, as manifestações ora silenciosas ora espalhafatosas...

20.10.17

Há comportamentos que não entendo

Há comportamentos que não entendo e que já não menciono. Se ousasse escrever uma novela, talvez revelasse aquilo que certos jovens tanto procuram deixar a nu. Não sei se o fazem gratuitamente ou se porque alguém lhes sugeriu que essa era a técnica mais adequada à melhoria de classificações... Não creio, porém, que o objetivo seja regressar ao estado primitivo, pois os acessórios de marca nada revelam do estado vegetal inicial...
Há outros comportamentos que não entendo e que resultam de não compreender a vantagem que se possa tirar de começar tão jovem a copiar... Hoje foi um desses dias em que me vi no papel de polícia de ronda, inofensivo e com vontade de zarpar.
Mas esta minha incompreensão é um pouco artificiosa, pois sei muito bem que o sucesso está cada vez mais associado ao parasitismo...
Entretanto, acabo de me lembrar que voltei a confrontar-me, numa turma de 12º ano, com um grupinho da sueca.

19.10.17

Acender e deixar arder

Acender e deixar arder são dois atos indissociáveis, mesmo que os sujeitos possam ser distintos.
Apagar, só as casas se ainda sobrarem acessos e ainda houver água nos depósitos terrestres e aéreos. E depois esperar que as nuvens de fumo não reduzam a visibilidade a zero.
Com a floresta a arder, os acessos inutilizados e o céu que nem breu, só resta esperar, deixar-se filmar e contar as vítimas... e depois chafurdar na lama...
A estratégia escolhida não é de agora, é dos dias em que a gente lorpa se apoderou da governação, sem qualquer tipo de formação e que se algum grau académico possui é porque o adquiriu numa  das muitas chafaricas de ensino que foram abrindo de norte a sul do país de abril...
No entanto, essa gente lorpa sempre odiou a escola, tudo fez para a vulgarizar e desclassificar... Essa gente lorpa que organiza as praxes, que alimenta as juventudes partidárias, que inferniza a vida daqueles para quem o mérito se atinge pelo trabalho e pelo estudo...

18.10.17

É tudo tão absurdo!

Já não consigo nem vê-los nem ouvi-los. Abrem a boca e eu desligo a TV.
Desde os noticiários aos programas de encher chouriços, é tudo tão absurdo que o zapping esgota as pilhas do comando à distância. Por vezes, até pareço o Álvares de Campos da Ode Triunfal antes do seu coração se ter quebrado sem motivo real.
E escrevo "é tudo tão absurdo" num dizer superlativo inexplicável. Se é absurdo, para quê acrescentar tão?
O absurdo não é mensurável! É ou não é, simplesmente. E o que o é, não necessita de graduação.
Por exemplo, é absurdo, para mim que não para certos políticos e gestores bancários, haver investidores que não dispõem de capitais próprios, mas que não desistem de pedir empréstimos que sabem nunca vir a amortizar...
E também é absurdo que haja investidores que não dispõem de capitais próprios, isto sem me querer pronunciar sobre o material militar que foi recuperado sem nunca ter sido roubado... 

17.10.17

Um presidente incendiário

Depois dos pirómanos, dos vampiros, das chefias incompetentes, da amnésia dos antigos governantes,  da pesporrência ministerial, do fundamentalismo dos relatórios científicos, eis que acaba de se pronunciar o presidente dos afetos que, afinal, se revela um incendiário político...
De imediato, a grande maioria dos comentadores acerta o tom e dá início à época das loas....

16.10.17

A nau Catrineta não volta mais

Ao calcorrear o país durante muitos anos, a imagem gravada era a de uma terra diversa, rica florestalmente, embora maltratada pelo primitivismo dos seus habitantes e, sobretudo, por projetistas em busca do el dorado.
Não será difícil perceber que o empreendorismo português, nos últimos 40 anos, não olhou a meios para capturar recursos, destruindo caminhos e linhas de água e, sobretudo, construindo vias rápidas que trouxeram consigo a desertificação.
As populações residentes, cada vez mais reduzidas, viram desaparecer a escola, o posto de correio, o mercado, a mercearia e a taberna, a agência bancária, e até as ermidas se tornaram apenas objeto de romarias estivais dos emigrantes que por alguns dias regressavam ao lugar que os viu nascer - o progresso, a austeridade, a troika, o centralismo...
Agora, já não é só o pinhal do interior, é também o de D. Dinis que é devorado pelas chamas gulosas dos abutres, políticos e seus comparsas.
Com a chegada do inverno, chegarão as marés vivas que não olharão a dunas e a edificações alcandoradas. O mar entrará terra adentro e destruirá tudo o que se lhe opuser... e depois alguém gritará que a culpa é das alterações climáticas.
A verdade é que a culpa é nossa, porque não sabemos escolher os governantes. Gostamos dos incompetentes, dos demagogos, dos manhosos, dos intriguistas e até dos corruptos, sem esquecer aqueles que, de tempos a tempos, nos dão com o pau...

15.10.17

A Acusação

Estive a folhear a Acusação e fiquei com a ideia de que, afinal, neste país, há pessoas com muito espírito empreendor. 
O crescimento dos negócios é de tal ordem e tão célere que a velha de ideia de que o catolicismo sempre fora um entrave ao desenvolvimento industrial e comercial se me apagou. Vou deixar de ler o velho Antero das Causas da Decadência dos Povos Peninsulares... (Terei, entretanto, encontrado a explicação para o facto do Partido Socialista, nascido na Alemanha luterana, nunca reivindicar a herança da Geração de 70 do século anterior...)
Por outro lado, parece que o crescimento do negócio transfronteiriço é inseparável da criação de fortes laços de amizade, mesmo nos casos em que as relações terminam em divórcio. Há ainda um outro dado a não descurar, a província leva a palma à capital na sua capacidade de expansão e de internacionalização. E não menos importante, os amigos tudo fazem para promover a formação do Amigo Maior, mesmo que este ame o fausto e a prosápia...
Finalmente, começo a desconfiar que a fraternidade é tão profunda que há amigos tão poderosos que nem sequer são mencionados pela Acusação. Pelo menos, o localizador não os conhece pelo nome que lhes terá sido dado na pia batismal...
(Um destes dias, voltarei à Acusação!)

14.10.17

Ontem, senti pena do jornalista Vítor Gonçalves

Ontem, senti pena do jornalista Vítor Gonçalves. Senti que na sua contenção morava uma alma isenta e nobre que, de algum modo, desejava que o seu entrevistado se redimisse.
Mas era absolutamente impossível cumprir o guião. Ao entrevistado pouco interessavam as perguntas; as suas respostas apenas visavam encobrir as causas da megalomania que deixou um país de pantanas...
A certa altura, apeteceu-me regressar a Platão e reler os diálogos socráticos, em que o filósofo utiliza os seus interlocutores para os rebaixar, expondo-lhes a mediocridade e a sordidez dos seus pensamentos...
Sem público, Sócrates não existiria, e é isso que explica a necessidade de controlar o entrevistador, exigindo-lhe submissão e denegrindo-o.
Afinal, o público ama a megalomania e a hipocrisia do poder...

12.10.17

Em dois pés

Nada avança, nem sei se não será melhor assim.
À volta é só especulação e depressão!
Uns presos ao passado, outros a um futuro impossível.
Por mim, cansado de formular perguntas e de fazer reparos, creio que o melhor é desligar, e, de preferência, em dois pés, desatar a andar... seguro, no entanto,  de que não irei longe.
Até que um dia lá terão que se habituar!

11.10.17

Um romance com 4000 páginas é obra!

Bem sei que uns tantos juristas desistiram do Direito para se dedicarem à Literatura. Outros, como a Literatura não mata a fome, lá foram vivendo com um pé num lado e outro no outro, mas sem grande arruído...
Hoje, ouvi, no entanto, um advogado afirmar que a acusação no "caso Marquês" não passa de fantasia, de um romance com 4000 páginas...
Um romance com 4000 páginas é obra! O que é que terá passado pela cabeça do romancista? Não vai ser fácil encontrar leitores com tempo e fôlego para fruir tal obra... 
Face a tal desconchavo, vou esperar que o engenheiro Sócrates não seja condenado por ter escolhido mal o crítico literário. 
E já, agora, recomendo que uma obra de tal dimensão seja lida longe dos meios de comunicação, dita, social, para não envenenar a populaça...

10.10.17

Carles Puidgemont, uma figura messiânica?

Fui ler o artigo da Wikipédia sobre Carles Puigdemont i Casamajó, e o que me desperta a atenção é a sua formação, o seu percurso profissional e político centrados na identidade cultural catalã, como se estivesse a ser preparado para a cumprir o destino nacionalista... Uma figura messiânica?
Quanto à aspiração catalã de independência, ela não me surpreende, pois se não é tão antiga como a portuguesa, anda lá perto. Como se sabe, no século XVII, a restauração da independência portuguesa só foi possível graças à subjugação da Catalunha. Se os ventos independentistas tivessem soprado de outro modo, o rumo português teria sido certamente bem diferente!
Apesar de ser defensor de uma Ibéria reunida num estado federal, creio que, do ponto de vista português, no contexto atual, a Catalunha satisfaz as condições para declarar a sua independência e de que nada serve esperar que Castela lha reconheça...
O que me preocupa, no entanto, é o messianismo de que Carles Puidgemont parece investido...
(...)
Está declarado o estado de nevoeiro - temos agora um novo conceito: A República da Catalunha suspensa...

8.10.17

Na minha vida de campónio

O sargaço e o pilado

«Minha alma é lúcida e rica
E eu sou um mar de sargaço
              Fernando Pessoa

Compreender a ideia ( a metáfora) pressupõe uma experiência do leitor que, muitas vezes, este não detém.
No meu caso, por exemplo, levei algum tempo a interpretar o verso, pois nunca me passara pela cabeça que o sargaço pudesse ser uma alga utilizada como fertilizante, tal como o pilado (caranguejo voador)...
Na minha vida de campónio, o mar era uma miragem, os adubos químicos eram caros, e o único fertilizante natural era o estrume. 
Imagine-se, agora, que eu era aprendiz de poeta e ousava escrever "Minha alma é lúcida e rica» / E eu sou uma courela de estrume
Já estou a imaginar a jovem professora, algarvia e marítima, Lídia Jorge, a dizer-me "o menino está a assassinar a poesia..."

Em tempo de agricultura biológica, será que o jovem leitor ecologista terá tempo para recuar à época em que não havia adubos químicos e, sobretudo, para se googlar  e observar atentamente: 
Sargaço
Hoje, dispomos de tantas ferramentas que é pena que as escolas não estejam devidamente equipadas para suprir as insuficiências que nos distanciam de outrora... Por exemplo, amanhã, se quiser utilizar este post, o mais provável é que o computador tenha adormecido ou que o sinal de Internet seja tão fraco que a estratégia morra no momento... e a Escola a que me refiro, em particular, está localizada em Lisboa a 100 metros da sede da Altice - ou será da PT?

7.10.17

E depois há o leitor

Observemos o seguinte fragmento do Livro do Desassossego:

«Para alguns que me falam e me ouvem, sou um insensível. Sou, porém, mais sensível - creio - que a vasta maioria dos homens. O que sou, contudo, é um sensível que se conhece, e que, portanto conhece a sensibilidade.»

Nele, as emoções são objeto de fina análise, através da imaginação verbal, o que lhes dá uma poeticidade única. 

(E depois há o leitor que insiste na identificação, umas vezes, narcísica, outras vezes, malévola, sem esquecer o leitor besta, mas doutorado... )

6.10.17

Competência essencial

Saber interpretar é uma competência essencial. Fernando Pessoa é um dos maiores intérpretes da condição humana. Fê-lo com um rigor inexcedível. Todas as suas "máscaras" são a expressão de um espírito geométrico que permanentemente procurou desmascarar o conhecimento tido como definitivo...
Nos tempos que correm não basta escrever sobre esta convicção, é necessário saber ilustrá-la... e mesmo assim!
Vem este arrazoado a propósito da resolução, inscrita no manual Sentidos 12 (versão professor), da seguinte pergunta: - caracterize o sujeito poético, justificando a sua resposta com elementos textuais pertinentes: O sujeito demonstra alguma confusão interior como se percebe pela primeira estrofe quando afirma "Tenho tanto sentimento / que é frequente persuadir-me de que sou sentimental..."
O problema é, no entanto, outro. Bastaria saber que a referência de sentimento é, à luz do conhecimento da época, distinta da de sentimental. É sentimental todo aquele que se deixa conduzir pelas sensações, pelas emoções... Por outro lado, o sentimento, embora possa ter origem na sensação, é uma realidade mental, drenada pela razão; é fruto da autoanálise e da imaginação: Mas reconheço, ao medir-me / Que tudo isso é pensamento / Que não senti afinal
Onde é que paira a confusão interior?
(...)
O que este poema demonstra é que o homem, por mais que racionalize, não tem qualquer ferramenta que lhe permita saber distinguir a vida verdadeira da vida errada, mesmo se as Ciências Humanas (Teologia, Filosofia, Psicologia...) insistem em defender que os sentidos são fonte de erro e a razão fonte de certeza, de verdade...

5.10.17

Preocupante

Quando tanta gente ignora o que é o sebastianismo, anda por aí um político que ainda não regressou à toca, mas que já promete voltar... E enquanto não regressa, procura-se um cordeiro que por ele se imole...

A Academia sueca diz que o Prémio Nobel de Literatura de 2017, Kazuo Ishiguro, é uma mistura de Jane Austen, Franz Kafka e de Marcel Proust... Uma mistura! Estou em crer que o António Lobo Antunes, para a Academia sueca, deve ser uma máscara do Rui Rio.

No dia República, também se celebra o dia do Professor. Nunca percebi porquê. Será porque a República os trata tão mal?

Em Espanha, continua o conflito entre o estado central e uma das regiões autonómicas. Será que ambos sofrem de amnésia?

Entretanto, já há previsão do número de mortos para o caso da Coreia do Norte insistir no confronto militar. Mais de dois milhões!

« A nossa inteligência abstrata não serve senão para fazer sistemas, ou ideias meio-sistemas, do que nos animais é estar ao sol.» Fernando Pessoa / Bernardo Soares

4.10.17

Da compreensão

"... uma zebra é impossível para quem não conheça mais que um burro." Fernando Pessoa / Bernardo Soares 

Nenhum burro está obrigado a reconhecer a existência das zebras. Com ou sem palas, o burro apenas procura o pasto, mesmo que tal signifique afastar-se do caminho. Na verdade, o burro nem sequer procura o espelho, só lhe interessa a cumplicidade asinina...
Se lhe passarmos a mão pelo pelo - ai o (des)acordo ortográfico! - a resposta é imprevisível. Vai do coice ao relincho!

Perguntaram-me hoje por que motivo não escrevia um livro. Fiquei sem avançar qualquer explicação, embora tenha pensado que, talvez, por preguiça ou, sobretudo, por desencanto...
Um livro para quê? Há tantos e tão maus, e se algum revela alguma qualidade é tão maltratado.

3.10.17

Por lá e por cá...

Por lá, Catalunha, greve geral contra o governo central de Espanha.
Por cá, notícia de que Passos Coelho vai recolher à coelheira.

Como acordei muito cedo, não me sinto capaz de avaliar os efeitos de tais comportamentos. De qualquer modo, o Governo de Madrid revela não saber ouvir as vozes do dissídio, tal como Passos Coelho não soube, atempadamente, tirar ilações do dia em que ganhou as eleições nas urnas e as perdeu no Parlamento...
E quando assim é, por muito que os adversários cantem vitória, os prejuízos são sempre irreparáveis...

Agora, sim, toca o despertador

Acordo, mal adormeço, mas só tomo consciência disso quando olho as horas. Preocupa-me a gata, não vá acordar do sono pesado e relutante quem não deve. Adormeço.
Volto a pegar o sono, mas os miados alertam-me para o perigo que só diminui quando a bicha se aninha no meio das minhas pernas.
Adormecemos, parece que o tempo decorre sossegadamente, mas agora é o calor de outubro, a boca seca que interrompem aquilo que costuma obedecer às leis do despertador.
Dou uma olhadela à lista dos amigos facebookianos despertos e, espanto, são vários, alguns da vida real que entram no trabalho à mesma hora... O que estarão a fazer, despertos a esta hora?
Pego no Livro do Desassossego e lembro que o volume, quebrado, que folheio, nunca chegou a ser um livro nas mãos de Bernardo Soares que, de verdade, não as tinha... folhas soltas, pedaços de deambulações plasmadas em fragmentos - plasma ou talvez magma de outras vidas, também elas imaginadas....
Agora, sim, toca o despertador. Foge-me a  página, insisto e registo  o que não é meu nem dele:

«Ah, outro mundo, outras cousas, outra alma com que senti-las, outro pensamento com que saber dessa alma! Tudo, até o tédio, menos este esfumar comum da alma e das coisas, este desamparo azulado da indefinição de tudo!» Bernardo Soares

2.10.17

Há por aí muitas caçadeiras já obsoletas...

A caça ao voto já terminou. Há caçadores mais satisfeitos do que outros e muitos de mãos vazias.  Agora, é esperar que os coelhos e as perdizes voltem a crescer, caso o Céu saia da sua impassibilidade e se digne regar os campos, já que os citadinos passam bem sem chuva...
Por mim, os resultados da caçada são os possíveis, pois, em democracia, há que aceitar a decisão do povo, até porque este povo é múltiplo nos interesses e nos anseios, sendo sonho maior deixar de ser caça e passar a caçador...
Finalmente, sinto que há por aí muitas caçadeiras já obsoletas, incapazes de deixar o terreno. De qualquer modo, o tempo se encarregará de as  encravar de vez...

1.10.17

A votos, em Portugal e na Catalunha

Lá fui votar. Cedo. Afluência reduzida.
Regressei duas horas mais tarde, mas não para votar, descansem. As filas tinham engrossado como já não via há muito.
Perplexo, pus-me a pensar na causa. Será expressão de um acréscimo de responsabilidade cívica? 
Mais logo, saberemos.

Entretanto, a nação catalã não desiste de mostrar ao estado espanhol que deixou de confiar nele e este vai dando provas de que não sabe negociar. E quanto ao rei espanhol, o que será feito dele, perguntará o ditador Franco...
Creio que a opção monárquica de Franco visava assegurar a união das nações... ou seria das freguesias?

30.9.17

Suspendo a má razão destes últimos anos

(Não era isto que eu queria referir. Absurdo, isto sem antecedente...)
Tive, quando, por perto não tinha papel nem caneta, intenção de mostrar os cogumelos que no dia anterior tinham desabrochado no velho tronco, só que, naquele momento, apercebi-me que alguém os tinha destruído, provavelmente, à biqueirada. Ainda saquei da câmara fotográfica, mas a manhã cinzenta ou a falta de jeito devolveram-me uma imagem imprecisa - e essa imagem persiste, embora não seja editável.
Tudo surge impreciso nos bastidores da certeza anunciada. E eu, descrente, medito sobre todos aqueles que nunca puderam votar, sobre todos os que perderam a vida para que todos pudéssemos votar. Suspendo a má razão destes últimos anos e conto os metros que me separam da mesa de voto, de todas as mesas de voto, não vá surgir alguém que as queira suprimir, como está acontecer nessa outra parte da Ibéria intolerante...

29.9.17

É isso!

De um lado, os sentidos, as sensações, as emoções, os sentimentos - o coração. Do outro, as imagens, as representações, as combinações - a razão...
No meio, o distanciamento, a rutura, o jogo. Como resultado, essa coisa linda que é a obra, o poema, o quadro, a estátua, a sinfonia...
Se fica acima, se fica abaixo, pouco interessa porque, afinal, a terra é um corpo no firmamento e nós, perdidos, apenas, podemos jogar no balanço da deriva para evitar a depressão e  a solidão a que nos condenámos ao querermos matar a transcendência....
Para trás, vão ficando Comte, Marx, Darwin, Nietzche, Freud, Marcuse, Lacan, Foucault ... Eles cantavam sem razão na soberba dos dias.

Depois, há ou não há interesse, curiosidade, vontade de traçar um projeto, de se libertar de enleios, de se atirar para os braços de um eu coletivo que dê asas à loucura, à doença das nações... Nova transcendência que nos culpe, nos desculpe, nos redima....
Em Camões ou em Pessoa, lado a lado, caminham a identidade individual e a identidade coletiva, sempre a tentar adivinhar o futuro...

27.9.17

Take 2 do projeto de intervenção na Escola Secundária de Camões

«Se não sabemos em direção a que futuro o presente nos leva, como poderemos dizer que este presente é bom ou mau, que merece a nossa adesão, a nossa desconfiança ou o nosso ódio?» Milan Kundera, A Ignorância

Ao ouvir o arquiteto Falcão de Campos referir-se  ao take 2 do projeto de intervenção na Escola Secundária de Camões, surgiu-me de imediato a pergunta de Kundera, reformulada: Como poderei dizer que este projeto é bom ou mau?
Do que mostrou do (novo) projeto - condicionado pelo número mágico 11 milhões de euros - tudo me pareceu fazer sentido na perspetiva da preservação do património.
Só não sei (e como sabê-lo?) se a escola, tal como a experimentamos atualmente,  continua a ter futuro... No íntimo, estou em crer que não. Em termos de programação logística do ensino, provavelmente estes espaços tornar-se-ão obsoletos. 
No entanto, hoje, estou com aqueles que querem ver o projeto do arquiteto Falcão de Campos concretizado, nem que seja por uma questão de justiça e, sobretudo, de segurança...

26.9.17

Surpresa!? Não vejo como...

João Lourenço enumerou vários países que considera estratégicos para o governo angolano, como os Estados Unidos, a China, a Rússia, o Reino Unido e Espanha, mas surpreendentemente ou não, não fez qualquer referência a Portugal. A parceria luso-angolana

Não creio que o novo presidente de Angola se tenha esquecido de Portugal. A verdade é que Portugal precisa mais de Angola do que o contrário. E sempre foi assim desde que o Brasil se tornou independente...
O resto é conversa de comadres desavindas! E claro, o resto também é reflexo do modo como certos vassalos limparam o tesouro de cada um dos estados, criando uma fraternidade indissolúvel, mas que convém agitar um pouco para que os povos acreditem que aos seus governantes (agora, democraticamente eleitos!) só interessa o bem comum e... um banho revigorante nas velhas águas atlânticas...

25.9.17

O regresso dos dinossauros

Não quero tecer grandes comentários. É um género desacreditado, tantos são os comentadores.
Quero, no entanto, deixar aqui um reparo: aborrece-me que os dinossauros estejam de volta.
A voracidade deles é tão grande que muitos dos munícipes acabarão por ser devorados... 

24.9.17

Não gosto nem do meio nem do conceito

É com tristeza que recebo a notícia do falecimento de D. Manuel Martins, grande referência da consciência social. https://twitter.com/antoniocostapm

Detesto que o primeiro-ministro de Portugal reaja à morte de um dos prelados mais ilustres do Portugal de Abril através do twitter. (Não me estou a referir à reação do cidadão António Costa...)
Detesto a restrição imposta pelo adjetivo "social". D. Manuel Martins travou um combate na diocese de Setúbal que, de verdade, era "político" na verdadeira aceção do termo...

23.9.17

Apagamento clarificador

Com a chegada do outono, decidi iniciar a poda antes que as folhas apodrecessem. E a poda foi significativa, pois muitos dos amigos apagados, que figuravam na minha extensa lista facebookiana, há muito que deixaram de dar sinal... Alguns, provavelmente, nem saberiam que estavam associados ao meu perfil...
Espero com tal gesto não ter defraudado algum seguidor silencioso.
Isto não significa que tenha decidido acabar com a amizade de quem quer que seja. Apenas, decidi pô-la à prova... 

22.9.17

A missão de Portugal no mundo e A Ignorância de Milan Kundera

«Os escandinavos, os holandeses, os ingleses gozam do privilégio de não terem conhecido qualquer data importante desde 1945, o que lhes permitiu viver um meio século deliciosamente nuloMilan Kundera, A Ignorância, 2000, Parte 3

Leio atentamente o trabalho de contextualização da migração da personagem checa para Paris. Fixo cada data, cada bloco político, cada estado, cada conflito e de súbito interrogo-me sobre qual era o lugar de Portugal no mundo de Milan Kundera e concluo que estivemos fora - nem sequer há referência à guerra colonial de 1961 a 1974..., uma guerra a que a União Soviética não foi de modo nenhum alheia...

1914 (início da I Grande Guerra); 1918 (independência da República Checa); 1936 (início da Guerra Civil Espanhola); 1938 (termo da independência da República Checa); 1939 (início da II Grande Guerra); 1948 ( sob a influência do Terror comunista, ressurgimento da República Checa; os Jugoslavos batem o pé a Estaline); 1956 (invasão russa da Hungria); 1968-1969 (ocupação da República Checa pela Rússia); 1989 ( termo da Guerra Fria), os russos abandonam a República Checa e os restantes regimes comunistas - URSS); 1991( República Jugoslava - começam todos a assassinar-se uns aos outros...

É isso! Continuamos convencidos de que tivemos e continuamos a ter um papel no mundo, mas basta ler um romance mais ou menos engajado para perceber que já não existimos... Ou será, apenas, ignorância de Milan Kundera?

21.9.17

Se me preocupo...

Estou em dificuldades: não consigo, sociologicamente falando, aproximar-me da média atitudinal. Por mais que pense que o meu interesse particular corresponde ao interesse coletivo, não obtenho resposta que confirme tal ideia. 
Por mais que pense que vale a pena agir em função de uma visão global, verifico que tudo está determinado pelo interesse individual.
Se me preocupo com o destino da Ibéria, há logo quem me diga que o problema não é meu. Quando tento explicar que, aqui ao lado, e não nos antípodas, há um estado (espanhol) constituído por várias nações e que estas são, em regra, configurações grupais anteriores à formação do estado castelhano, o desinteresse é manifesto. 
Quando procuro explicar que o fenómeno do nacionalismo já teve como corolário múltiplas guerras sangrentas, fico com a sensação de que estou cercado por muita gente que (des)valoriza a GUERRA...
Quando arrisco que nem tudo depende do contexto e que este nem sempre é relativo, olham para mim como se fosse o E.T....
Afinal, se começar a descascar uma cebola, há sempre um momento de fixação inicial... e este é radical...

20.9.17

A carreira 722 e a abstenção no dia 1 de outubro

Certo dia a carreira 22 da Carris passou a 722 em homenagem às míticas 7 colinas de Lisboa. Entretanto, as obras na Zona do Marquês de Pombal impuseram um encurtamento do percurso que passou a efetuar-se entre a Praça de Londres e a Portela (de Sacavém, Loures)...
O povo lá se foi adaptando na esperança de que, terminadas as obras, os "donos" da Carris restabelecessem o itinerário, mas nada disso sucedeu...
Porquê? Ninguém sabe!
A autarquia diz que luta para que a linha do Metro seja alargada até Loures, passando pela Portela e Sacavém. Quanto a essa reivindicação, todas as forças políticas locais parecem estar de acordo, embora não se saiba se o metro algum dia chegará a esta zona, mas sobre a carreira 722 ninguém abre a boca - uma medida justa, imediata e barata que poderia melhorar a ligação da periferia ao centro da cidade e vice-versa...
Eu, por mim, sinto-me desprezado pela Carris e pelas forças políticas que se digladiam pelo controlo do poder autárquico no concelho de Loures e, como tal, começo a acreditar que, não podendo votar contra, o melhor é abster-me... até porque as restantes carreiras, 782 e 728, também não servem devidamente a população, a primeira é intermitente e a segunda só aparece quando o rei faz anos...

19.9.17

De ocasião


Tempos houve que por aqui vivi... Quando, hoje, passo, já só vejo gente apressada, portas e janelas fechadas... e obras de ocasião para turistas de ocasião...
A maioria  das pessoas desse tempo já partiu... 

18.9.17

Tombar, pétala a pétala...

As pedras, uma a uma, podem armar o poema, tal como a flor, pétala a pétala, ou a cor, do azul ao cinzento, emparelham ou alternam...
Só que a ideia esmorece se lhe falta o cimento...
Uma ideia, fora do contexto, até pode ser flor, cor, lágrima, pavilhão G.
Só que a ideia esmorece se lhe faltar a intenção, o rumo, o horizonte...
A ideia, bem enlaçada, até pode ser deia, mas faltar-lhe-á a cor, mesmo se, por acaso, for raiz, tronco, copa e se perder nas fímbrias da abóbada...
Só que a ideia anoitece se a memória desaparece e, então, as pedras, por um instante, uma a uma, ainda poderão florir para, depois, tombar pétala a pétala... 

17.9.17

Esta ideia de tudo alienar...

Num lugar, onde não é possível assegurar a existência de uma escola básica, surgiu agora um comprador do terreno e respetivo edifício escolar a afirmar que gostaria de ali implantar um instituto superior com dinheiros públicos... Provavelmente, um Politécnico que se encarregasse de ministrar cursos florestais e de produção animal... (ver post de ontem)
Pessoalmente, não tenho nada contra a ideia, desde que a obra não implique financiamento público, porque os sonhos, mesmo se infantis, não devem ser apresentados sem caderno de responsabilidade e de encargos...
No caso da Escola Primária, mandada edificar pelo Estado Novo, com dinheiros públicos, mandava o bom senso que o próprio Estado a colocasse ao serviço da comunidade, mesmo que tivesse que a reconverter para outras funções sociais...
Esta ideia de tudo alienar acabará por trazer mais prejuízo do que lucro.

16.9.17

Um instituto superior em Carvalhal do Pombo!?

Todos os dias olho para essa escola”, confessou Luís Cavalheiro ao mediotejo.net no fim da hasta pública. A ideia, adiantou, é recuperar o edificado e criar ali um novo estabelecimento de ensino superior, de âmbito nacional, que dê formação nas áreas da reflorestação e dos produtos naturais. Uma ambição que Luís Cavalheiro tem há muitos anos, tendo surgido agora, sem fazer conta, a possibilidade de adquirir o edifício.
Para já ainda não tem nada em andamento, tendo apenas adquirido o imóvel. O objetivo agora é procurar investimento estatal. “Queria algo a nível nacional”, frisou. Entre os seus projetos está a reabilitação do figueiral de Torres Novas.

Estranho o projeto, apesar da região necessitar de aproveitar os seus recursos naturais! No entanto, há que ter fé! E em Carvalhal do Pombo, a fé é coisa que nunca faltou. Dinheiro, sim, creio.

15.9.17

BB-/A-3

A Standard and Poor’s (S&P) subiu o rating da República portuguesa para o patamar de investimento, no nível BB-/A-3, do anterior BB+B. A revisão em alta “reflete a melhoria das previsões para o crescimento do PIB de Portugal em 2017 a 2020, bem como os progressos sólidos feitos na redução do défice orçamental”, refere o relatório da agência, publicado esta sexta-feira. BB-/A-3

O debate autárquico já passou à história.
Apesar do foguetório que se anuncia, temo que a euforia nos atire para o abismo...
Num país doente, o protagonismo só pode ser dos enfermeiros! Quanto aos enfermos, eles que tenham paciência!
Doravante, todas as lutas são mais do que justas... 

14.9.17

Diagnóstico e rememoração

Provavelmente, noutros domínios, a relação não será significativa, por exemplo, para as ciências da saúde, se excetuarmos a psicanálise, no entanto, na área da didática, confronto-me todos os anos com a mesma ansiedade. ( Qual será a origem deste estado psíquico?)
Ao aceitar que a rememoração consiste em fazer aparecer as coisas do passado com as suas qualidades, sempre que me disponho a elaborar qualquer teste de diagnóstico pressinto que o resultado será frustrante, pois para que haja rememoração é necessário que a mente tenha tido necessidade de guardar informação sem qualquer tipo de diluição... (intenção de...)
Ora, a experiência diz-me que, ou a mente não teve oportunidade reservar qualquer tipo de aprendizagem ou se o fez, no momento do diagnóstico, a consciência só traz à superfície o restolho estival...
Se o diagnóstico não serve para avaliar a qualidade da aprendizagem efetuada, então para que é que serve?

13.9.17

Claro que poderia imaginar

Não o penso o que quero...
Estou sempre a ser submetido a pulsões exteriores ( e estas impedem-me de saber o que quero.) Quanto às interiores, há muito que aprendi a recalcá-las..., o que mata o pensamento...
Claro que poderia imaginar, mas para quê se as imagens são perceções falseadas!
Submeto-me, assim, à vontade dos outros (já desisti de os contrariar) que, talvez, não pensem o que querem, mas que, afinal, não cuidam de saber se as imagens são verdadeiras ou falsas, até porque muitos se contentam com o reflexo luminoso no fundo do poço.

Espero que não espreitem cada palavra, mesmo que vos digam que se trata de metáfora, porque sob a palavra não há nada. Talvez a possam virar do avesso, e segui-la a ver se compreendem porque é que não penso o que quero...

12.9.17

Dá sempre jeito ter um "louco"...

Nunca soube bem o que é que significa pensar. Que existo, parece-me excessivo...
Com tanta gente a pensar em sanções a aplicar à Coreia do Norte, a minha dúvida cresce, pois não consigo acompanhar o argumento de que se lhe cortarmos o combustível, o gás, os medicamentos, os víveres,  as exportações, ela acabará por ceder, isto é, desistirá do programa nuclear... (Mas quem é que vai desistir de um projeto nuclear?)
Parece-me um argumento absurdo e impraticável, não por causa dos coreanos, mas por causa dos americanos, dos russos, dos chineses e de todas as máfias que se movem por terra, mar e ar...
Acossados, os norte-coreanos só poderão responder / atacar com as armas de que possam dispor, a não ser que estejam dispostos a deixar de pensar, o que, cartesianamente, significaria deixar de existir...
Em síntese, ou não ando a pensar direito ou o pensamento não tem nada a ver com este problema. No mundo dos interesses, dá sempre jeito ter um "louco" que possamos acusar de disparar em todas as direções...

11.9.17

Afetos encenados

Em dia de abraços presidenciais, relembro o "realismo" do anterior PR: "a realidade acaba sempre por derrotar a ideologia" ...
Não vou repetir o argumento utilizado para mostrar a inépcia de Cavaco Silva, mas vou citar Jean-Paul Sartre:

O mundo real não existe, faz-se, sofre retoques constantes, torna-se maleável, enriquece-se; um determinado grupo, tido por objetivo durante muito tempo, acaba por ser rejeitado; pelo contrário, um outro, muito isolado, será de repente incorporado no sistema.» A Imaginação, pág. 88, Difel

Tantos abraços já maçam, sobretudo quando adiam a resolução de problemas e, ao mesmo tempo, reclamam para si um magistério, apesar de incapaz de compreender a mudança, porque as ideias deixaram de determinar a ação, transformaram-se em afetos encenados...

10.9.17

As coisas não se movem...

As coisas.
Não se trata de imagens nem de representações.
As armas clássicas sempre foram tomadas como coisas.
Coisas que podem enferrujar ou, mesmo, desfazer-se em pó...
As coisas, por si, não se movem, mas podem ser deslocadas. 
Em Tancos, dizem que havia armas de vários tipos - umas leves, outras mais pesadas; algumas delas, obsoletas.
Essas coisas, consta que foram roubadas. Também consta que não havia ninguém para as vigiar...
Ora essas coisas (que não as imagens ou as representações) não voltaram, nem podiam por si.
Por causa do sumiço, já houve convulsão na caserna... Vejo agora que um senhor, de seu nome Azeredo Lopes, terá chegado à conclusão de que "no limite, pode não ter havido furto"...

Em Portugal, é bem possível que as coisas se tenham transformado em pó, por falta de uso ou por corrosão... No geral, é o que costuma acontecer com as coisas que tombam na alçada da justiça...
Três teses

9.9.17

A dignidade da função dos juízes

A missiva surge como reação à greve dos juízes marcada pela Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP) para os dias 3 e 4 de outubro, devido à "intransigência" do Governo nas negociações para a revisão do Estatuto dos magistrados judiciais, que "continua a negar aos juízes a progressão profissional adequada à dignidade da sua função", segundo o sindicato. Greve dos Juízes

Será que há funções dignas e que as restantes são indignas?
Será que a progressão profissional deverá depender dessa in(dignidade)?
Por outras palavras, num quadro de dívida pública e de consequente falta de recursos financeiros, é aceitável que o Estado privilegie umas castas em detrimento de outras ? (Quem diz castas, poderia dizer corporações!)

Nos últimos dez anos, a desigualdade remuneratória agravou-se escandalosamente em muitos sectores profissionais. Será que tal aconteceu com os senhores juízes? Por mim tenho que não.
Por exemplo, entre os professores, a inexistência de progressão levou a que haja milhares de professores obrigados a exercer as mesmas funções, mas com remunerações muito diferenciadas, o que avilta o exercício da profissão... Mas como são muitos, o melhor é esquecê-los...
E se os professores, os médicos, os enfermeiros, os bombeiros, os administrativos, os auxiliares de todos os tipos, as forças policiais... se levantassem e fizessem todos greve em nome da dignidade da função, será que teriam razão?

8.9.17

Cogumelos

Oportunistas, estes cogumelos!
Tudo lhes serve. Surgem sorrateiramente, instalam-se e crescem, deslumbrados. 
Engordam, indiferentes a quem os abriga. E depois não há quem lhes sobreviva.

Eu até lhes descubro algum encanto, mas é de curta duração, pois odeio parasitas...

Setembro parece ser um dos meses em que eles proliferam. Não há placard nem ecrã que lhes escape...

7.9.17

Por um instante

Há vários indicadores de que a humanidade caminha para a catástrofe: as ameaças de ataque nuclear; a corrida ao armamento cada vez mais letal; as alterações climáticas; a aposta das empresas na robótica e na desvalorização do trabalho humano; a  eleição de governantes oportunistas e malfeitores; o aumento do emprego e da precariedade; a falência de todo o tipo de valores; o radicalismo religioso; o culto extremo do corpo e, sobretudo, da imagem... a iliteracia galopante...
Os sinais do descalabro são mostrados a toda a hora, mas nem por isso nos incomodamos. Ou se tal acontece, é por pouco tempo...
Vi, hoje, numa televisão, o Presidente da República Francesa a dirigir-se aos habitantes do Ultramar francês, avisando-os da catástrofe que se iria abater sobre eles e, por instantes, pensei: - mas. afinal, todos sabemos o que andamos a preparar e pouco ou nada fazemos para contrariar os indicadores que nos condenam ao extermínio...
E depois há aqueles que se esforçam por remar contra a enxurrada e que todos os dias são enxovalhados....

6.9.17

Os CEO não desistem!

John Cryan, CEO do Deutsche Bank, pediu aos seus congéneres que abracem o “espírito revolucionário da tecnologia”. E alertou para que os empregados que “trabalham como robôs” serão substituídos por eles.Não queira ser robot!

“A verdade é que não precisamos de tantas pessoas”, disse Cryan. “Nos nossos bancos temos pessoas que se portam como robôs, com tarefas mecânicas. Amanhã teremos robôs que se comportam como pessoas”.

Lá voltamos ao perfil humano. Desta vez, estou curioso. 
Eles não desistem, com ou sem Hitler. O nazismo continua à solta. E chamam-lhe "espírito revolucionário"! 
Por mim, em vez de começar o processo de substituição pela base, começava pelo topo, pelos CEO...

5.9.17

Azenha(s) do Mar

Azenha do Mar

Azenhas do Mar
Dois lugares com mar, mas sem azenha...
Duas imagens que fixam o instante e obrigam a memória a zarpar..., na maioria dos casos, sem sucesso.










Tempos houve em que a memória nada evitava. Bastava que houvesse Mar e necessidade de moer o grão para que a Azenha se elevasse e desse nome ao Lugar.

Nomear não é imaginar. É apenas identificar o lugar, a coisa, a pessoa... para diferenciar, para facilitar...
.... apesar de todo o tipo de Sacerdotes que insistem no contrário...

4.9.17

E quando tal acontece

As coisas continuam nos seus lugares.
Pelo contrário, as ideias, por não ocuparem espaço conhecido, esfumam-se... Deve ter sido um problema de descuido sintático, no tempo próprio...
Por seu turno, as imagens só resistem se coisificadas... Tal singularidade obriga a que o olhar nelas se imobilize, porém não lhes consigo respirar a voz... e quando tal acontece, as próprias imagens se esfumam...
Tudo caminha para um fim que uns tantos insistem em considerar natural, desde que não seja o deles.
O problema é que, por estes dias, esse fim pode ser coletivo... 

3.9.17

Les cons

«- Ce qui est sûr, c'est que c'est les gros qui cassent les verres et que c'est les petits qui les paient.» Jean-Paul Sartre, Le sursis.

Agora que os franceses redescobriram as cidades e os campos de Portugal, talvez valesse a pena dar um pouco mais de atenção à cultura francesa. Por exemplo, à obra de Sartre por aquilo que ela nos revela da condição humana, tanto dos grandes como dos pequenos...
Na última semana, devorei a grande trapalhada que foram aqueles oito dias de setembro de 1938 ( de 23 a 30) tendo ficado com a ideia de que estamos a viver tempos muito semelhantes, embora em geografias distantes, mas com consequências ainda mais infernais...
E já agora, também tomei consciência de que na chamada literatura lusófona há muita criatividade narrativa que não passa de apropriação da técnica de escrita sartriana, designadamente na trilogia "Les chemins de la liberté"... o que poderia até ser positivo caso ainda existissem leitores de Sartre...

2.9.17

A escrivã da puridade

Rita Faden ganhou uma preponderância junto de António Costa e um poder dentro do Palácio de São Bento que causam até desconforto nos ministros. «Quando vão a Bruxelas, entra o primeiro-ministro, entra a chefe-de-gabinete e só depois entra o ministro ou o secretário de Estado. A chefe-de-gabinete

Deve ser inveja!
António Costa é um cavalheiro que respeita as Senhoras, sobretudo quando são elas que lhe preparam a agenda, lhe guardam os segredos e lhe dão conta do que vão tramando os seus "amigos de berço"...
A História ensina que, à falta de diretor espiritual, as majestades sempre viram o escrivão da puridade como "espelho-meu"... Discreto, ardiloso e sedutor...

31.8.17

Sempre há homens muito pequeninos!

Em Portugal, a piada é tão importante como o Futebol e muito mais importante do que o Fado ou do que Fátima.
Não resisto à piada do atual presidente da República sobre o anterior, a pretexto de não querer comentar a piada cavaquista - são tão inteligentes, as piadas, que nem me dou ao trabalho das citar... Numa coisa, o Aníbal foi profeta: a censura já começou a riscar...
Marcelo acaba de se autocensurar ao garantir que não vai dizer piadas sobre o próximo presidente, logo ele que, a esta hora, já anda em campanha para assegurar o próximo mandato...

Não estivesse eu acabar a leitura de "Le sursis" de Jean-Paul Sartre, e talvez me preocupasse com a pobreza inteletual portuguesa, só que o romancista encarregou-se de me revelar que a estupidez é intemporal e é quem comanda a decisão política, dando, deste modo, expressão à ideia popular de que "o homem é do tamanho do seu sonho", pois, infelizmente, a maioria dos sonhos vira pesadelo...
Isto sempre há homens muito pequeninos!

30.8.17

A realidade vive bem sem ideias...

O ex-Presidente da República Cavaco Silva defendeu hoje que, na zona euro, "a realidade acaba sempre por derrotar a ideologia" e os que, nos governos, querem realizar a revolução socialista "acabam por perder o pio ou fingem que piam".

Não esperou por uma qualquer sexta-feira nem esperou vinte e um anos, regressou simplesmente. O morto-vivo, afinal, ainda respira. 
Nem sequer esperou pela rentrée. Veio dar uma aula de ajuste de contas neste final de agosto, marcado por incêndios que, em grande parte, resultam da política de desertificação que sempre incrementou e tolerou...
Um pouco de autocrítica ficava-lhe bem ou, pelo menos, algum arrependimento que nem necessitaria de ser público...

Quanto à lição, ela é reveladora de como se pode governar sem ideias. Nem Salazar teria ido tão longe. Salazar procurou construir uma ideologia, conseguindo, infelizmente, muitos adeptos. Cavaco, não, embora insista em perpetuar a sua corte.
Não compreendo porque é que Cavaco teme o regresso da Censura. A Censura sempre combateu a dissidência, sempre vigiou as «ideias». Ora, para o Professor, a "realidade" vive bem sem ideias... Divertida, malgré tout, é aquela ideia de que a classe política é constituída por mochos, corujas .... Ele lembra-me um morcego que esvoaça, esvoaça...

29.8.17

Na guerra em espera...

Na guerra em espera há mísseis apontados a Lisboa pelos russos. Fonte: Presidente da Lituânia. Não sei se a fonte é fiável!
No entanto, importa conhecer a reação do Estado português e, sobretudo, quais são as medidas que estão a ser tomadas para proteger a população portuguesa...
Bem sei que, pelo meio, há a notícia dos mísseis norte-coreanos que vão pondo em sobressalto os japoneses, mas, em matéria de ogivas nucleares, é bom não esquecer os russos, os chineses, os americanos, os israelitas, os iranianos, os indianos, os paquistaneses e outros...
Quanto à União Europeia, desconfio que a sua capacidade de defesa é nula, o que não admira, pois a cultura ocidental nunca se libertou da sua fantasiosa superioridade inteletual e tecnológica.
Neste contexto, Portugal continua embrenhado em questiúnculas que só visam satisfazer o interesse de cada protagonista de ocasião...
Por mim, só gostaria de saber porque é que os russos ainda pensam no território português. Quanto ao perigo norte-coreano, estou menos preocupado, pois consta que ainda há por cá muitos amigos da Coreia do Norte.
Em síntese, quando a guerra deixar de estar em espera, tudo será muito diferente, e certamente definitivo - e aí o tempo de agonia será um factor a não descurar.

28.8.17

A figura de referência

Ao lado, tenho um caixote de lixo que é figura de referência para a Sammy. Sempre que a hora "gourmet" se aproxima, ela enfia a cabeça no caixote e ameaça devorar todo o tipo de plástico ou de papel que ele contenha... o combate é diário, mas ela não desiste, chegando ao ponto de pisar o teclado do portátil... Neste momento, perfila-se a meu lado, atacando todo o tipo de objetos que eu considere intocáveis...
Com esta gata, apuro diariamente a paciência para que dela possa dispor sempre que entro numa sala de aula, pois os pedagogos insistem que o professor só é figura de referência se for capaz de ouvir os jovens, apoiando-os em todas as suas ansiedades e dificuldades...
Há, todavia, um problema: o tempo necessário à gestão da relação e da instrução.
Com a Sammy não há problema, pois a aprendizagem não a preocupa. Pelo contrário, ela insiste na rotina desde que a hora "gourmet" seja respeitada.
Já lá vai o tempo em que, também, eu fui figura de referência, embora o que tinha a transmitir caísse facilmente no caixote do lixo... e depois há a memória ou a falta dela... De quem? De todos, menos da Sammy que está a sentir-se traída...

27.8.17

O sentido de Estado de Passos Coelho

Hay un término usado en múltiples ocasiones: Sentido de Estado, y me preocupa porque no sé muy bien qué significa y si disponer de, al parecer, tan apreciado don te convierte en mejor ciudadano, en alguien que desde su altura de miras pone el beneficio de todos por encima de sus intereses partidarios o de otro tipo. Tampoco sé si se nace con esa cualidad o cómo se puede adquirir o si hay que ser político para poseerla.  

O presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, afirmou hoje que nem uma tragédia como a de Pedrógão Grande deu sentido de Estado e seriedade política ao primeiro-ministro.

Usualmente, quando um político vai a enterrar, os comparsas, para se verem livre dele, proclamam aos quatro ventos que o finado sempre agiu com sentido de Estado...
O que me preocupa é que Passos Coelho acaba de nos informar que António Costa é mau cidadão, pois utiliza os recursos do Estado em seu favor e dos seus correligionários, e que já terá nascido sem tal qualidade... ao contrário dele, Passos Coelho, que continua  a servir zelosamente a Pátria - um homem incapaz de sacrificar os cidadãos e de vender as joias da coroa por tuta-e-meia...

(Esta reflexão não estava na agenda, mas o PPC não sabe sequer fingir que tem sentido de Estado...)

Um escritor ignorado

Curioso, consultei o sítio "escritores online" e, enfim, a lista é longa, mas falta lá o (António) Silva Carvalho.
Porque será?
Desprendimento do próprio? Mesquinhez da Academia? Inveja dos confrades?
Não tenho resposta, porém creio que a obra publicada merece muito mais atenção, a não ser que...

Silva Carvalho

escritores online

26.8.17

Um sapo noctívago


De noite.
Poucas são as pessoas que ousam passear nas ruas desertas - a maioria prefere confraternizar em torno dos canais vendidos pela MEO (satélite)...
 Apenas um sapo se dirige da relva para o passeio. Provavelmente, confia no temor humano para atravessar o largo na direção de um caneiro vizinho.
Só que vê interrompida a marcha, pois há sempre quem considere que um sapo não sabe defender-se. Lá regressa ao relvado, não sei se contrariado.
Não consigo descortinar se este sapo tem família, se vive mesmo ao lado da Escola EB2,3...se foge de algum lago da Unidade de Saúde Familiar...
O facto é que o futuro deste sapo preocupa-me, pois se quiser chegar ao caneiro terá de atravessar a Avenida dos Combatentes, mesmo se estes já forem Antigos...
A ideia de que a USF pudesse ter um lago é absurda, pois se ela nem médicos assegura. Alguém a mandou construir e depois se veria... Eu, pelo menos, nunca lá vi ninguém...
Tudo o que aqui possa escrever é também absurdo, mas estou a tentar ignorar aqueles políticos que nos vão matando o futuro e desapossando do passado... Entretanto, vou continuar a leitura de Le Sursis de Jean-Paul Sartre:
«Gomez, dit Sarah, sais-tu ce que j'ai compris, ces derniers temps: c'est que les hommes sont méchants.
Gomez haussa les épaules:
- Ils ne sont ni bons ni méchants. Chacun suit son intérêt


25.8.17

Maré baixa

Fixo-me. Há aqui de tudo.
Pode parecer insuficiente, mas creio que, se alterar o ponto de vista, perderei o sossego.
Aqui posso fechar os olhos e voltar a abri-los sem que nada se altere.
Faltam poucos dias para que a maré suba e, quando ela chegar, deixarei de poder cerrar os olhos, porque nunca se sabe quando os gambozinos nos fazem perder o pé.
Aqui, até parece que o tempo se imobilizou...

24.8.17

Estórias incompletas

Eis o que sobra de um hotel dos anos 50/60, nunca concluído. O proprietário, embora não visasse chegar ao Céu, queria simplesmente ver o Atlântico.
Segundo o que me contaram, faltam 7 metros. Por ora, vai servindo de alojamento a alguns imigrantes...
Quanto ao rapaz do cesto, parece não ter tamanha ambição. Observa. O quê? Não encontrei ninguém que ousasse falar-me das suas observações...

Eu próprio não me importava nada de ficar ali sentado, mesmo se a noite chegasse... Talvez me limitasse a ouvir o galo que cacareja mesmo que não oiça qualquer resposta...
Ou serei eu que a não oiço?

23.8.17

Forasteiro em terra de imigrantes

Ordenadas as embarcações, pouco mais há a fazer. Dos pescadores, nem sombra. Ainda pensei que as ali tivessem colocado para que eu pudesse imaginar o Cais de ontem partiram os primeiros batéis. Pensamento absurdo!
Tão irrealista como a abordagem daqueles forasteiros que me perguntaram se eu sabia onde mora(va) um tal de... (não lhe cheguei a conhecer o nome!). Mas é (ou foi) alguém que se distinguiu por ter sido proprietário do parque de campismo de Zambujeira do Mar...
Pensando melhor, embora o não saibam, talvez pudesse descontar certas atenuantes àquele casal de forasteiros: durante muito tempo, acampei em parques de campismo - conheci um bom número, apesar de raramente chegar à fala com os donos, sobretudo se nacionais; por outro lado, se pesquisasse na Internet  (...).

Ora o que encontrei entronca melhor na minha surpresa ao percorrer as ruas de São Teotónio:

A freguesia de S. Teotónio tem uma população de 5500 habitantes. Quase metade são estrangeiros. Para além da comunidade búlgara (mais de 1000, muçulmanos) José António Guerreiro diz que residem na terra "cerca de 300 tailandeses e, em menor número, brasileiros, moldavos, argelinos, marroquinos, romenos, húngaros e outros". (Público, 28.05.2013)

Não sei se, em 2017, estes dados estão corretos, no entanto a presença de imigrantes é enorme. Talvez, o senhor presidente da República, admirador de São Teotónio, pudesse visitar esta localidade para avaliar as condições de vida destas comunidades, que me parecem miseráveis...
Quanto aos meus interlocutores, terão de ficar sem resposta, pois na pesquisa efetuada não encontrei resposta que lhes pudesse servir...

22.8.17

A modesta pirâmide alentejana

Ainda espreitei a ver se avistava o corpo do Ricardo Reis, mas, na versão saramaguiana, faltou-lhe a coragem - preferiu enterrar-se n'Os Prazeres, ao lado do criador, sob o olhar furibundo da avó louca ...
N'O Ano da Morte de Ricardo Reis, a fantasia, umas vezes tétrica outras hilária, destapa a ascensão dos fascismos na Europa e, em particular, o início da guerra civil espanhola com repercussão na terra dos lusitos que arrogam para si um vanguardismo, deveras, provinciano...
O importante é perceber que Ricardo Reis é, apenas, uma lente deformada que arrasta o leitor para caminhos empoeirados como aqueles que acabo de percorrer junto da barragem de Santa Clara... nas proximidades de Santa Clara-a-Velha, donde extraí a modesta pirâmide alentejana...
Da leitura e da viagem, já só sobra pó, mas, ao contrário dos apóstolos, não consigo sacudi-lo das minhas sandálias. E se o conseguisse, o que é que ganharia com isso?

20.8.17

Porto de abrigo

Aqui, na Praia da Azenha do Mar, não há areia. No entanto, vale a pena o fim do caminho. Por isso, ofereço-vos este "porto de abrigo" das embarcações.
Quanto ao resto, eu, que nem gosto de calor, lá passei 3 horas na afamada Zambujeira do Mar a tentar reler O Ano da Morte de Ricardo Reis, o que não é fácil, pois naquele romance não para de chover e de ventar.
E comigo vai ficando a ideia de que é precisa muita paciência para seguir o "badameco" do José Saramago.
«Nos dias seguintes Ricardo Reis pôs-se à procura de casa. Saía de manhã, regressava à noite, almoçava e jantava fora do hotel, serviam-lhe de badameco as páginas de anúncios do Diário de Notícias...»
Falta, talvez, acrescentar o óbvio: a praia foi enchendo tal como a maré, mas o português não desiste... e o espanhol, o francês...

19.8.17

E sujeito-me...

Balde tem. Ainda não verifiquei se a cisterna tem água.
Asiáticos não faltam! Indianos? Paquistaneses? Indus? Muçulmanos? Vá lá saber-se!
Ocupados a pôr os motores em marcha... e parece que sabem da poda...
Eu por mim, observo.
E sujeito-me, mesmo sendo europeu...

17.8.17

Por dever de ofício

Por dever de ofício, decidi reler O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago. Neste caso, melhor será dizer ler, pois até parece que nunca li tal romance. De qualquer modo, o exemplar, já quebrado, que possuo corresponde à 3ª edição,  e foi me oferecido pelo Manuel Duarte Luís, amigo da década de 80..., como se os amigos pudessem ser datados e se calhar podem, pelo menos enquanto os não esquecemos...
Tê-lo-ei lido nessa época e certamente não terei perdido a oportunidade de o mencionar e de o recomendar aos meus alunos de Teoria da Literatura... (Eles saberão melhor do que eu a importância que atribuiria ao modo como Saramago recriava tempos e individualidades, fictícias ou não...
Agora que me obrigo a reler a obra, confirmo que a minha memória terá sofrido grande abalo nos últimos 20 anos, mas interrogo-me se esta leitura escolhida para os atuais alunos do 12º ano é a mais adequada...
Este romance requer um leitor paciente, verdadeiramente interessado em compreender o território, a situação política, cultural e socio-económica dos anos 30 e, sobretudo, capaz de lidar com um narrador, cujo humor é corrosivo. Já nem me refiro à ironia e a uma intertextualidade, muitas vezes, anacrónica para a atual geração...

16.8.17

Anfibologia descarada

Anfibologia: ambiguidade; duplo sentido de uma frase...


É a Justiça que é suspeita? Se fosse verdade, qual é o referente? O Ministério Público? Os Tribunais?

Quem é que suspeita? A Justiça? (Em abstrato?)

Velha PT? Quando é que a Senhora rejuvenesceu? Mas ainda existe?

Afinal, onde é que está a notícia?

15.8.17

A origem da tragédia nacional

Em primeiro lugar, a ignorância. Em segundo lugar, a ganância. Finalmente, a incompetência.
De forma abreviada, é esta a resposta para tanto desastre. 
Neste cenário, estamos a ser governados por incompetentes gananciosos que abusam da ignorância das populações rurais e urbanas e que, também, elas sonham vencer a vida a qualquer custo...
Por isso há tantos candidatos ao exercício do poder local e central. Infelizmente, falta-lhes quase tudo - em primeiro lugar, a sabedoria; em segundo lugar, o despojamento; finalmente, a competência...

Se o rio vai seco, espera-se que a chuva caia...
Se o mato arde, espera-se que chova e que a vegetação não volte a crescer...
Se as árvores escondem o vazio que as mata, espera-se que não tombem quando a festa decorre...
Se morre tanta gente, espera-se que o Senhor a acolha e a proteja dos fogos letais...

Agora até temos um Presidente que gasta os dias a correr para os cemitérios, como se tivesse sido contratado como carpideira...
  

14.8.17

O mal da escrita no reino do compadrio

(Este romancista ( o Poeta) bem tenta que o leitor lhe envie um sinal, mas sem o menor sucesso...)

O demónio que me aterrorizava, quando na minha horta substituía o pai que partira para os bidonvilles parisienses, não estava certamente à altura dos patrões franceses que humilharam o António quando este procurava viver com alguma dignidade o exílio a que se vira forçado por uma ditadura que condenava os seus filhos a uma morte precoce...
Talvez seja por isso que não encontro, em Palingenesiao pai do (autor) Silva Carvalho - a figura do pai surge diluída na figura do tirano, que tanto pode ser patrão, como seu substituto num universo capitalista nojento... (O leitor toma, no entanto, conhecimento que os pais lhe pagaram as propinas durante dois anos e o visitaram em Paris.)
Este autor ou, melhor, este homem que sonhava não ser pai, mas mãe, porque a mulher é a verdadeira criadora... e talvez seja por isso que a descoberta da sexualidade, à medida que o romance evolui, se torna mais humana, mais relacional, menos demoníaca... Este autor, afinal, só procura o diálogo...
Silva Carvalho escreve este romance não apenas para recriar o espírito da época, submetendo-o a uma abordagem diferente - o mal da escrita:

« O essencial, contudo, não me parece que seja escrever direitinho, mas, pelo contrário, aceitar o mal da escrita para que ela nos possa revelar o que a trabalha e assim nos acalenta, de uma forma ou de outra.»  op.cit, pág,238.

Terminada a leitura deste romance, espero ainda cumprir o reiterado desejo do Silva Carvalho:

«Lembrem-se, a intenção deste livro era chamar a atenção sobre a minha obra poética, onde penso que atingi a qualidade não só de obra mas também a de destino, como mais lídima manifestação do que ainda se chama de cultura.» op.cit. pág. 143.

12.8.17

A minha horta

A horta
Espero que o proprietário atual do terreno não se aborreça com esta foto.
Registo-a, aqui, apenas como testemunho de um dos lugares onde comecei a trabalhar com cerca de 4/5 anos - a horta, situada na "Ingueira", na encruzilhada do Carvalhal do Pombo com  o Cabeço Soudo e a Rexaldia.
Desse tempo, resta a nora, que puxada por uma burra, me garantia a água necessária à rega diária.
A horta, hoje, é pequeníssima, se comparada com a daquele tempo, que estaria melhor organizada e me dava um trabalho dos diabos. Lembro que, para além das batateiras, dos tomateiros, dos feijoeiros, das aboboreiras, da beterraba, das couves de vários tipos, das alfaces, das cenouras, também lá havia três ou quatro laranjeiras e que, ao lado, corria a ribeira que assegurava a água do poço...
Embora o trabalho não fosse remunerado, a não ser com o almoço e o jantar, alguma roupa e um par de sapatos de tempos a tempos, creio que a Geringonça não deveria deixar de fora os pequenos trabalhadores, cuja atividade teve início mal começaram a andar... 

11.8.17

A coisa e a imagem


Praia do Atlântico - Troia
O que eu vi não é o que a foto mostra. Tudo estava no devido lugar. A luz intensa tostava e o azul era límpido. Apesar do bar estar abandonado, nada se me afigurou tão cinzento. Será que a ausência daquele equipamento, numa praia com bandeira azul, contaminou tudo à volta?

10.8.17

Ficar em silêncio

Sempre que as férias se aproximam, decido continuar a catalogação e o registo de publicações acumuladas. Não sei bem para quê, embora lá no íntimo acredite que, assim, estarei a facilitar a vida a quem quiser desfazer-se de tal acervo...
Por outro lado, desconfio que a tarefa tem uma outra motivação: folhear ou voltar a rememorar todo um conjunto de existências que, doutro modo, não me questionariam a não ser pela acumulação de pó e do horrendo bicho do papel - o lepisma saccharina...
Este procedimento tem, no entanto, um custo: em vez de avançar na tarefa, perco-me na leitura breve de cada livro, de cada revista..., fazendo esperar as leituras que tenho em curso e em projeto, como acontece com a Palingenesia,  com Sursis e com No Ano da Morte de Ricardo Reis - o primeiro para pagar a dívida ao (António) Silva Carvalho, o segundo para completar a leitura da trilogia de Jean-Paul Sartre (Les Chemins de la Liberté) e o terceiro, por obrigação profissional, pois a leitura que dele fiz já se escapuliu da minha fraca memória...
(Lembro-me agora que ainda hoje pensei que o Silva Carvalho bem poderia recuperar o 'António' para se diferenciar definitivamente do Armando... Espero que este apagamento da identidade não resulte de nenhum trauma com origem no velho 'estado novo')...
O que não se entenderá é por que motivo, tendo dado a esta postagem o título "Ficar em silêncio", não me calo. A razão é simples, é porque tenho aqui ao lado um livrinho intitulado Elogio do Silêncio, de Marc de Smedt, e não resisti a folheá-lo, tendo, de imediato, poisado os olhos na afirmação de que o "silence" surgiu na língua francesa (?) em 1190, descendendo do latim SILENTIUM, com a particularidade de "ser o único substantivo masculino que acaba em ence, en francês..."
Ora, digam lá se o melhor não seria eu ficar em silêncio, pelo menos, nas férias!

9.8.17

A única ficção - (António) Silva Carvalho

«A única ficção que me atrai é a realidade.» Silva Carvalho, Palingenesia ou o estado e o processo do romance, pág.116, Fenda, 1999

Neste caso, por mais que o Autor se queixe de não estar suficientemente preparado para construir o romance segundo as leis do género - muito permissivo, diga-se -, como leitor, o que me interessa é o próprio Silva Carvalho..., pois na obra encontro muito do que da sua própria boca, em tempos anteriores à escrita, ouvi...
No romance, o homem ganha coerência. E, por outro lado, a História daquela época recupera uma dimensão bem distinta da que habitualmente é transmitida pelos "filhos-família" que se autoexilaram em Paris, no Bairro Latino...
Ao ler, tão tarde, este romance, compreendo melhor o sofrimento daquele que, desde cedo, percebeu que a ideologia mais não é do que uma forma de opressão... e que, até hoje, se manteve distante e discreto, embora, lá no fundo, acredite que o tempo se encarregará de lhe reconhecer o caminho...
O problema é que a realidade vive refém da memória, sendo muitas vezes difícil revivê-la sem recurso à imaginação, à ficção.

8.8.17

Promo internet. A MEO abusa do cliente

Acabo de receber da MEO a seguinte mensagem: «PROMO INTERNET: o seu pedido de desativação foi recebido com sucesso. Obrigado.»

A MEO é simpática! Sempre pronta a premiar o cliente...

Resolveu premiar-me com dois gigas até 31 de Agosto. Ativou-os em todos os cartões da meu pacote MEO. Não me pediu autorização para o fazer! Mas informa que, a partir de 1 de setembro, o cliente passa a pagar mais 3,98 euros, a não ser que ligue para o nº 800200023, a pedir a desativação...

 Obrigado a pedir a desativação de um produto que não solicitei!

7.8.17

O calão, em qualquer contexto

Dois idosos cavaqueiam junto a um quiosque, quando, de súbito, um deles exclama: - Olha quem ali vai! Um cabrão, por acaso, bastante simpático.
Fico sem saber qual o significado do termo "cabrão" naquele contexto, mas recordo que, desde a minha infância,  este palavrão e muitos outros me feriam os ouvidos, sem que os visados mostrassem aborrecimento...
Atualmente, o calão tornou-se língua de referência, de tal modo que conheço miúdos e miúdas que, em cada três vocábulos utilizados, dois pertencem ao referido registo... Há até quem esgote o léxico numa única expressão: f...; c...; fp...; p...; m...                               
                                                                          em qualquer contexto.