31.5.14

Não resisto a colorir o texto...

«Todas as portinholas agora estavam fechadas, um silêncio caíra sobre a plataforma. O apito da máquina varou o ar; e o comprido trem, num ruído seco de freios retesados, começou a rolar, com gente às portinholas, que ainda se debruçava, estendendo a mão para um último aperto. Aqui e além esvoaçava um lenço branco. O olhar da condessa para o lado de Carlos teve a doçura de um beijo. O Dâmaso gritou saudades para o Ramalhete. O compartimento do correio resvalou, alumiado; e com outro dilacerante silvo, o comboio mergulhou na noite…»
Eça de Queirós, OS MAIAS

Não resisto, perante a incapacidade do leitor (?) de identificar a diversidade de sensações no momento da partida do comboio de Santa Apolónia, a colorir o texto de estímulos auditivos, predominantes, visuais, gustativos e táteis...
Esta incapacidade não é inata! Ela mais não é do que o fruto da dispersão, de uma atrofia que vai secando os sentidos.
(...) Agora que os exames se aproximam, pode ser que este triste apontamento ainda possa servir de acendalha...

30.5.14

Saber relacionar Eça de Queirós com Cesário Verde

O primeiro é mais velho, vive mais tempo, integra a geração de 70, com passagem obrigatória por Coimbra, mas com a foz no coração de Lisboa e, finalmente, figura, com distinção nos Vencidos da Vida. 
O segundo, nascido em 1855, em Lisboa, vem a falecer 31 anos mais tarde, sem glória pública... De Coimbra nada diz, mas não gosta nem de monárquicos nem de socialistas (?)... Figura nos manuais escolares depois do primeiro, apesar deste, por exemplo, só ter publicado Os Maias em 1888, um ano após a morte do poeta...
Ambos leram Baudelaire, Flaubert, Taine, Proudhom e Zola, isto sem falar dos ultra-românticos. Num determinado momento, ambos confluíram numa escrita de tipo impressionista, ainda marcada pelo parnasianismo e chegaram mesmo a envolver-se com o simbolismo...
      Pode-se dizer, que sendo homens do seu tempo, não poderiam fugir a um destino comum de influências...
       Sobra-me, no entanto, uma dúvida. E é dúvida porque, num país de tantos escritores, leitores e críticos, já alguém dever ter apresentado uma tese sobre uma questão muito simples: Terá Eça lido Cesário? De forma ainda mais clara: Terá o autor de OS MAIAS lido O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL, de Cesário?
        Haverá algum testemunho desta ocorrência?
        Pessoalmente, estou convencido que, tendo o poema de Cesário sido publicado em 1880, a propósito da celebração do tricentenário de morte de Camões, Eça terá sido acesso ao poema, o terá guardado, pelo menos na memória, e o aproveitou, em particular, na redação do último capítulo de Os MAIAS:
       Nada mudara. A mesma sentinela sonolenta rondava em torno à estátua triste de Camões. Os mesmos reposteiros vermelhos, com brasões eclesiásticos, pendiam nas portas das duas igrejas. O Hotel Aliança conservava o mesmo ar mudo e deserto. Um lindo sol dourava o lajedo; batedores de chapéu à faia fustigavam as pilecas; três varinas de canastra à cabeça, meneavam os quadris fortes e ágeis na plena luz…
       Carlos da Maia e João da Ega percorrem o mesmo espaço urbano do Sentimento..., exprimem, também, eles um sentimento ainda mais desolador e decadente do que Cesário. Sintomaticamente, os pensamentos destas personagens incidem nos mesmos alvos:
      "Duas igrejas, num saudoso largo... / E os sinos dum tanger monástico e devoto / Um épico doutrora ascende, num pilar/ E num cardume negro, hercúleas (...) / correndo com firmeza, assomam as varinas /  (...) Seus troncos varonis recordam-me pilastras; / E algumas, à cabeça, embalam nas canastras / Os filhos que depois naufragam nas tormentas."
        Muito eu gostaria de saber se entre os papéis de Eça não haverá um recorte de O Sentimento dum Ocidental! Talvez o professor doutor Carlos Reis me possa esclarecer...

       ( Entretanto, peço desde já desculpa pela minha ignorância...)

29.5.14

Contos Municipais, de António Manuel Venda

Ao fim da tarde, irei estar presente no lançamento do livro "Contos Municipais" de António Manuel Venda. E eu que estava convencido que os municípios, se tratados literariamente, só poderiam inspirar romances do tipo "Guerra e Paz", "Crime e Castigo", "Os Meus Eleitores"...


E lá estive no Auditório da Escola Secundária de Camões...
António Manuel Venda, excelentemente apresentado por Mendes Bota, Carlos Moreno e pelo presidente da Junta de Freguesia de Monchique (?,procurou fazer aquilo que os contos, em geral, dispensam: explicar a génese de uma escrita cujo o ponto de partida é a baixa política que nos vai governando desde as autarquias ao poder central. 
Por vezes, António Manuel Venda foi impiedoso com a corrupção, a intriga, a venialidade; outras vezes, sentimental, particularmente no que respeita à sua ligação à terra e àqueles que participaram na sua educação...

Dos 10 contos, apenas li os últimos três. Fica-me a ideia de que a denúncia presente em cada "estória" se disfarça sob a capa do realismo mágico ou, até, de um certo animismo, embora não tão consistente como o de José Lins do Rego, de Luandino, de Mia Couto ou de José Eduardo Águalusa...
De qualquer modo, vale a pena ler estes contos, municipais ou não. E com tantos "casos do dia", o autor tem largo pasto para poder cumprir o desejo do juiz Carlos Moreno: da próxima vez, escreva 20 contos... Creio mesmo que já terá matéria para escrever um romance "Cenas da Vida Autárquica"... e se lhe faltar, Mendes Bota não se importará de lhe dar uma ajuda...

O livro é éditado pela Just Media que deverá dar mais atenção à revisão:
« - Mas, senhor presidente...
- Tem aí a puta da factura ou não?!
- Tenho, senhor presidente, passada pela senhora dona Maria de Jesus Cadela Silva e descriminando diversos serviços de uma forma assim um bocado genérica. É alguma consultoria?
- Não interessa o que ela descrimina na factura, homem!! - gritou o presidente. - Ponha-se a caminho do banco e resolva isto!!!» (pág. 80)

Traquinices

Se me engasgo com as palavras, posso morrer em poucos instantes. Claro que esta afirmação tem todo o ar de excessiva. Quem é que vai morrer por causa de uma mísera palavra!
Se engulo a língua, é sabido que morro em poucos segundos. Claro que esta afirmação já não parece excessiva!
Ora se a língua é constituída por palavras, por que motivo consideramos aceitável que se possa morrer ao engoli-la e achamos risível que se possa falecer engasgado com as palavras?

                                                                                        ++++

Encontrei hoje um poeta que me disse que queria escrever um poema "confuso"... Perplexo, expliquei-lhe que, quando lidamos com as palavras, o objetivo é ser claro mesmo que a noite seja eterna...

                                                                                         ++++

Ao fim da tarde, irei estar presente no lançamento do livro "Contos Municipais" de António Manuel Venda. E eu que estava convencido que os municípios, se tratados literariamente, só poderiam inspirar romances do tipo "Guerra e Paz", "Crime e Castigo", "Os Meus Eleitores"...

28.5.14

O sonho belga

«La Belgique se croit tout pleine d'appas;
Elle dort. Voyageur, ne la réveillez pas.»
        Baudelaire, Les Fleurs du Mal

Nos últimos dias, por mais de uma vez me foi perguntado se a avaliação externa da escola tinha corrido bem.
De facto, não tenho resposta para a questão pois não consigo determinar a intenção subjacente. Temo o amor-próprio do interlocutor. Pressinto que devo encarecer a iniciativa cultural, a abertura à comunidade, o valor formativo da atividade, mas, no íntimo, sei que o encarecimento pouco importa ao inspetor. Ele apenas quer validar ou, se os argumentos apresentados forem convincentes e palpáveis, reformular o relatório final, construído previamente.

Assim, o melhor é continuar a dormir.

Esta mesma atitude pode ser aplicada noutras situações. Sempre que alguém se mostra feliz, o melhor é não o incomodar.
No entanto, na política como nas instituições, surge sempre um desmancha-prazeres! Agora que o António, estava tão Seguro, lá surgiu o outro António, o Costa, a despertá-lo...Quero, desde já, assegurar que não me lembro de ter induzido no ilustre Costa tal traquinice!

27.5.14

Passaram três anos

«E eu sonho o Cólera, imagino a Febre...»Cesário Verde, O Sentimento dum Ocidental
- Identifique dois temas no excerto... Hipóteses: cidade, desigualdade, doença, mulher fatal ...
E a resposta avança pelo campo dentro. É só liberdade, felicidade, fertilidade, fraternidade, produtividade, candura, ar puro, sensações eufóricas, sinestesias ensoalheiradas... (Poema Nós, em versão jesuítica)
Tudo num parágrafo pletórico de rasuras marteladas...
Passaram três anos. Nada mudou! Os olhos continuam longe do texto... A inteligência choca contra o MURO...

26.5.14

O absentismo

«E vivemos de maneira / que a vida que a gente tem / É a que tem que pensar.» Fernando Pessoa, 18.09.1933

Face aos resultados das últimas eleições, apetece condenar o absentismo e, sobretudo, a falta de sinais claros de mudança. O contentamento de vencedores e perdedores é um indicador do estado de decadência a que classe política chegou...
Nestas eleições, o absentismo de mais de metade da população é que merece ser pensado. Os cadernos eleitorais continuam por atualizar; o e-fatura é uma realidade, mas o voto eletrónico não passa de miragem num país onde os jovens, reféns da web, não sabem o que é deslocar-se a uma mesa de voto ou, emigrados, não podem deslocar-se aos consulados... sem falar do elevado número de idosos, sem transporte, acamados ou simplesmente descrentes...
Falta pouco mais de um ano para as eleições legislativas, e nada irá ser feito, nos próximos meses, para atualizar os cadernos eleitorais e para introduzir o voto eletrónico.
Finalmente, embora possa apetecer condenar o absentismo, a verdade é que a maioria dos abstencionistas é o retrato do estado de pobreza a que o país chegou. E dos pobres idosos, de meia idade, jovens, não é de esperar que vão votar a não ser que surja uma esperança de mudança que, infelizmente, acabará por se elevar dos escombros dos valores democráticos...
Os resultados por toda a Europa já prenunciam um novo tempo, inevitavelmente, de maior exigência e  violência...

25.5.14

O muro

O muro é sempre o mesmo. Eu caminho ao seu lado, perscruto-o e ele nem sequer me devolve o eco das minhas palavras. É verdade que a culpa não é dele, o meu silêncio é antigo; braços caídos, vou avançando o passo sem fazer qualquer tentativa para o escalar…
Já nem sei se o muro sempre ali esteve, se fui eu que o criei. Paradoxalmente, as suas metamorfoses incendeiam-me o olhar. Fogo-fátuo! A alma ainda se demora um pouco… Por quanto tempo?
«Triste de quem é feliz! /Vive porque a vida dura.» FP / O Quinto Império

24.5.14

Contrastes e não só...


O dia é de reflexão e de futebol. Mas como? As atividades são incompatíveis. Ainda pensei entrar na igreja, mas o casebre ao lado lembrou-me o verso de Cesário Verde: «Inflama-se um palácio em face de um casebre.» Este é daqueles versos que nunca consigo esquecer...
Subi ao início da Segunda Circular - por volta das 14h45 - e não vi sombra de invasão castelhana!
A última, a sério, data do século XIV. Ainda pensei que os castelhanos da atualidade tivessem substituído a cavalaria pela aviação, mas não enxerguei sinal de qualquer anti-aérea no quartel. Deserto como as ruas, não vi qualquer explicação para a sua manutenção.
No entanto, lembrei-me, de imediato: «Partem patrulhas de cavalaria / Dos arcos dos quartéis que foram já conventos; / Idade Média! A pé, a passos lentos, / Derramam-se por toda a capital, que esfria.
Sempre Cesário Verde!
A reflexão não necessita de Igreja nem de Quartel. Está feita desde o golpe de estado de 2011...
Na verdade, o que me interessa é a clivagem (o contraste) entre países, entre profissões, entre ricos e pobres... 
O que me interessa é que o dia de reflexão e de futebol não se esgote na alienação...

Apelo ao voto…

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Na véspera da ida às urnas, a minha reflexão é simples: jamais compreenderei o ato de todos os que podendo votar o não fizerem.

23.5.14

Um instante!


Quando o ruído aumenta, procuro o silêncio discreto das alamedas desertas. Pura ilusão! A vida espreita sem alarme e dá-me mais um instante. Um instante!

22.5.14

A minha máscara original é vegetal

How many masks wear we,  and undermasks,
Upon our countenance of soul, and when,
If for self-sport the soul itself unmasks,
Knows it the last mask off and the face plain?
       Fernando Pessoa, Sonetos Ingleses

Ah quantas máscaras e submáscaras,
Usamos nós no rosto de alma, e quando,
Por jogo apenas, ela tira a máscara,
Sabe que a última tirou enfim?
        Trad. de Jorge de Sena

De tempos a tempos, vejo-me envolvido em jogos de máscaras. E sempre que tal acontece, surpreendo-me a observar a matéria de que elas são feitas. A materialidade da máscara! Severa, hilariante, trocista, cínica, austera, sedutora, imberbe, convencida, secreta, a máscara avança e arrasta-me numa dança abismal.
As máscaras avançam para mim, mas não se sobrepõem, podem disputar-me, mas não se atropelam. Se as observo uma segunda vez, elas põem-se em fuga... elas temem que as denuncie...
Ensinaram-me que a máscara é antiquíssima, que subiu ao palco para esconder a identidade, para fingir ser quem não é.... Ensinaram-me que a máscara é filha do subconsciente, do padrão de cultura, do superego, de Zeus...
No entanto, a minha máscara original é vegetal, uma parra esquecida no Éden à espera da nudez inicial...   

(No segundo dia de avaliação externa, a máscara continua azul...)

21.5.14

Notas de um individualista, trabalhador

O  meu problema, de momento, é perceber o que é um cluster e, sobretudo, que posição é que eu ocupo no seu interior. Já percebi entretanto que tenho andado desenfiado. Em rigor, eu pertenço ao "cluster " dos camponeses e deveria estar classificado como excelente, muito bom, bom, suficiente ou insuficiente  -"camponês".
Por ação de uma senhora professora, Mécia, de seu nome, fui desviado do "meu cluster" e posto a estudar para servir Deus e o Estado. E aí, perdi-me definitivamente. Entrei num outro "cluster", que não me estava destinado, e fui subindo, e já longe do Altar, vi-me certificado como mestre... E como estava muito longe do ponto de partida, comecei a cair. Hoje, já não sou mestre, nem professor, nem pai (só pago as contas!), nem aluno, nem trabalhador não docente. Sou, por enquanto, trabalhador, por decisão de um "cluster" secreto. Falho de humor e de inteligência, resigno-me, apesar de desconfiar das certezas que permitem premiar os esforçados e ignorar os menos prendados, porque consta que a clusterização está normalmente associada com a análise exploratória, pois envolve problemas em que há pouca informação a priori acerca dos dados (por exemplo, modelos estatísticos), e poucas hipóteses podem ser sustentadas. Análise de Dados em Bioinformática – Profs. Moscato & Von ZubenDCA/FEEC/Unicamp

Precisamente, por haver pouca informação e pouca verdade, aproveito para lembrar aqui que a focalização é omnisciente se ilimitada quanto ao âmbito e alcance que atinge e aos elementos informativos que faculta; a focalização é interna se condicionada pelo campo da consciência de uma personagem inserida na história. Carlos Reis, O conhecimento da Literatura,1995, pág. 366, Almedina.

Servem estas notas vários propósitos. Lembrar que: Quem rouba a ladrão tem cem anos de perdão e não de solidão; b) O segredo é a alma do negócio; c) a focalização interna corresponde a um avanço civilizacional, atingindo o grau de excelência quando a focalização se torna polifónica; d) o "cluster" é uma nova forma de simular a mobilidade social e cultural; e) o inquiridor só produz narrativas fechadas e seguramente omniscientes, tendo necessariamente um poder absoluto sobre o tempo que, todos sabemos, adora devorar os homens... 


Notas de um individualista

I - A análise dos resultados globais dos últimos três anos mostra que a taxa de sucesso nos Cursos Científico-Humanísticos, no ano letivo 2012/2013, é ligeiramente inferior à do ano anterior.

Porquê? a) degradação do estatuto social e profissional do professor; b) aumento das desigualdades sociais; c) aposentação abrupta e precoce do corpo docente; d) precariedade do exercício da atividade docente; e) clivagem cultural entre alunos. 

II - Quanto à cultura profissional dos professores, a maioria afirma a sua disponibilidade para trabalhar em grupo, partilhar materiais didáticos, refletir sobre práticas de ensino. Neste domínio, as manifestações esporádicas de individualismo tendem a ser ultrapassadas.

Mostrar disponibilidade não é o mesmo que fazê-lo. Há, no entanto, parcerias ativas. Quanto ao individualismo seria conveniente apurar se ele é efetivamente nocivo como parece decorrer do enunciado...

III - Os professores pensam que há uma cultura de organização centrada no valor da aprendizagem, que a oferta cultural é diversificada, que os pais são estimulados a participar na escola e que os atores educativos se envolvem ativamente nas tomadas de decisão.

Os professores pensam que há uma cultura de organização centrada no valor da aprendizagem! Neste caso, conviria especificar o tipo de aprendizagem e, também, se a prática está à altura da convição. 

IV - As lideranças das estruturas de coordenação educativa e supervisão pedagógica são valorizadas em termos de coordenação, supervisão, articulação, gestão, cooperação e acompanhamento das atividades.

Estas lideranças são valorizadas por quêm? E em que termos? 

V - A nível intradepartamental, o planeamento e a articulação concretizam-se na definição de objetivos de aprendizagem e de critérios de avaliação para a sua monitorização.

A monitorização nas condições atuais é inexequível, tal é quantidade de tarefas atribuídas aos coordenadores de departamento e de grupo disciplinar.

VI - A interdisciplinaridade, entendida como instrumento que permite a captação de uma mundividência particularmente enriquecedora para os jovens, é privilegiada no desenvolvimento de projetos que favoreçam a criação de sinergias duradoiras.

A interdisciplinaridade, strictu sensu, é impossível porque ao Conselho de Turma não são asseguradas condições (horas, ferramentas, espaços) para que possa desenhar qualquer projeto verdadeiramente interdisciplinar.

VII - O investimento feito nas novas tecnologias de informação e comunicação, apesar de certas dificuldades de acesso aos equipamentos que ainda ocorrem, mostra não só a justeza desses investimentos como a necessidade de continuar essa aposta.

O apetrechamento da maioria das salas é folclórico. Um espaço de aprendizagem moderno  exige que todos os alunos tenham acesso a computadores em rede. 


VIII - A cultura existente na aferição dos critérios e dos instrumentos de avaliação, bem como os critérios emanados das estruturas de coordenação e supervisão, aprovados em Conselho Pedagógico, são evidências do trabalho desenvolvido nesta área.

Nos últimos anos, o Conselho Pedagógico perdeu importância, estando reduzido a um órgão de consulta, totalmente subordinado ao Diretor e ao Conselho Geral.  A própria noção de "pedagogia" encontra-se desvirtuada, cedendo o lugar a modelos sociológicos assentes na análise estatística de expetativas e de resultados alcançados em exames nacionais elaborados de forma reducionista.


20.5.14

Uma escola amiga e consensual...

Uma escola consensual é aquela em que ouvidos os diversos corpos, há acordo explícito.
Sintomaticamente, há pleno acordo quanto à falta de conforto das salas, quanto à abertura da instituição ao exterior e quanto ao ensinar (97,2%), estudar (89,1%), trabalhar (100%) e ter filhos a frequentar a Escola Secundária de Camões (94,1%). 
A partir daqui, as diferenças de perspetiva tornam-se significativas... Os alunos revelam uma visão mais assertiva e crítica em relação ao conjunto dos itens em análise. 
No entanto, no que respeita à exigência do ensino, os alunos não divergem significativamente: 75,2% manifestam-se de acordo, acompanhando os trabalhadores não docentes - 81,8%, os pais - 89,6%, e os professores - 86,6%.
Um item cujos resultados dão que pensar: 79,1% dos professores declaram utilizar o computador na sala de aula, no que são confirmados por 75,8 % dos trabalhadores não docentes. Porém, só 27,2% dos alunos declaram utilizá-lo na sala de aula...

Este último dado é aquele que é mais preocupante, pois é um indicador do que distingue a escola portuguesa da escola, por exemplo, nórdica ou da escola alemã. 

19.5.14

O inquiridor

Ao longo do tempo fui guardando informação, de tanta que ela é, já não sei o que lhe fazer. São resmas de notas, páginas amarelecidas pelo tempo, disquetes, pens, discos internos e externos... 
Tudo à mão, mas longe do cérebro!

O inquiridor é manhoso. Nunca diz ao que vem! Sabe-se que recolhe informação, que tem um guião, que aponta o dedo e espera apanhar o réu em falso.
O inquiridor traz o tempo contado, espera clareza, concisão e, sobretudo, aprecia o normativo. Regista, regista tudo e depois filtra, filtra, mas esconde o filtro...
O inquiridor não tem ideias, toma como suas as do chefe do Momento... 
O inquiridor abomina a dúvida!

Não gosto de inquiridores! Falta-me o tempo para lhes responder. 

(Hoje, mergulhei num palheiro e só agora consegui erguer a cabeça, mas por pouco tempo...)

18.5.14

O GTESC apresenta Galileo Galilei

«Os movimentos dos corpos celestes tornaram-se mais nítidos; mas para o povo o movimento dos senhores continua ainda a ser imprevisível. A luta para que o céu se tornasse mensurável foi ganha através da dúvida. Mas a luta da dona de casa pelo leite, todos os dias é perdida através da credulidade.» Bertolt Brecht, A Vida de Galileu, pág.195, Portugália editora, 1970. 

Encenar e representar em contexto escolar A Vida de Galileu, de Bertolt Bretcht, só pode ser um projeto plurianual. A solução encontrada este ano merece ser elogiada, pois foi necessário formar novos atores, mesclando-os com outros que já têm um ritmo de representação mais avançado.
Seria injusto distinguir o desempenho dos atores. Cada um deles conhece o esforço que a representação desta adaptação da peça lhe exigiu. 
Creio, todavia, que este trabalho lhes terá dado a conhecer uma diferente forma de construir e de representar o texto, de tipo não aristotélico (épico)... 
Esta tarde, em palco, vi  no cenário, na projeção de imagens e nas músicas escolhidas, sinais de uma forma de fazer teatro, só autorizada, em Portugal, com o 25 de abril de 1974... 
Obrigado ao GTESC!

Considerando o contexto escolar e os programas, ainda, em vigor, penso que se justificaria uma maior aposta na leitura das obras de Bertolt Bretcht. Essa leitura suportaria facilmente um projeto interdisciplinar, envolvendo disciplinas como a História, a Filosofia, o Português, a Física, as Artes...

17.5.14

A verdade é filha do tempo, e não da autoridade.


Biografia de Bertolt Brecht
«A verdade é filha do tempo, e não da autoridade. A nossa ignorância é infinita, tentemos pois reduzi-la de um milímetro cúbico! Para quê fingirmo-nos superiores, se podemos vir a ser um pouco menos burros!»  Galileu, in Vida de Galileu (1938/39...), pág. 72, trad. de Yvette Centeno, Portugália editora, 1970.

Numa época em que tudo é feito para esconder a verdade, em que a palavra é capacho de quem persiste em manter o poder, seja ele qual for, em que já não sobra tempo para ler nem para escrever, creio ser oportuno recomendar "A Vida de Galileu" que, amanhã, subirá ao palco, pelas 16 horas, no Auditório Camões /Esc. Sec. de Camões.
Mesmo que aos poderosos falte o tempo, os alunos do 12º ano terão ali a oportunidade de entender a relação dramatológica entre Sttau Monteiro e Bertolt Brecht.
E se isso acontecer, ficaremos um pouco menos burros!  

16.5.14

A minha escola está bué!

A minha escola está bué... os plátanos e as tílias cresceram bué!
Nos pátios, ouve-se música bué, doira-se ao sol bué...
O bar tem micro-ondas bué e até as pombas são bué...

No auditório, há teatro bué, cinema bué, convidados bué!
Por toda a parte florescem cartazes bué...
Os trinados são bué, lê-se bué, dança-se bué...

Na Biblioteca, as velhas estantes dormem bué...
As salas têm bué de luz, os transparentes quebraram há bué...
as fendas estremecem bué...

(Até as caves suspiram bué!)

Em maio, os professores são menos que bué!
De manhã, os alunos são mais que bué...
De tarde, há silêncio bué
... à noite, as promessas são bué!

Na minha escola, todos ganham menos que bué!

E a culpa é do Anselmo, bué!

15.5.14

Idade, tempo de serviço e descontos para efeito de aposentação

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Idade, tempo de serviço e descontos para efeito de aposentação. Por esta ordem!
Seria justo que os três factores fossem, de forma ponderada, tidos em consideração no cálculo. Mas não! Através de sucessivas alterações no âmbito do OGE, o Governo tem vindo a transformar a “ idade” no fator determinante, menorizando o tempo de serviço e a totalidade dos descontos feitos pelo funcionário e pela entidade patronal.
Esta situação vê-se, este ano agravada, com a aplicação da convergência entre a “caixa geral de aposentações” e a “caixa nacional de pensões”. Em rigor, esta convergência deveria considerar a totalidade do tempo de serviço no público e no privado e os inerentes descontos. Mas não é isso que está a acontecer! A convergência só está a servir para penalizar o funcionário público e a agravar as desigualdades entre aposentados  e entre aposentados e reformados.
Tal como a lei está a ser aplicada, o funcionário público, ao aposentar-se, apesar de, eventualmente, ter trabalhado mais anos e ter feito mais descontos, acaba, à data da aposentação, por ser seriamente penalizado, pois outros funcionários que se reformaram,  em anos anteriores – ver os últimos 10 anos – trabalharam menos tempo, descontaram menos e recebem muito mais, apesar dos cortes…
Isto sem falar das reformas de privilégio, isto é, obtidas em tempo record e sem descontos! Ou das aposentações por doença que continuam imunes no seu cálculo à fórmula que tem sido aplicada aos restantes funcionários…
Haja justiça!

14.5.14

A fatuidade

"Chamam-te a bela imperatriz das fátuas / A déspota, a fatal, o figurino. " Cesário Verde, A Vaidosa


Estamos num tempo de fatuidade. A notícia vive um instante e morre por mais que a repitam.
Houve tempo em que a beleza, porque efémera, só podia ser vista à luz de um Ideal. Por outro lado, ainda não há muito tempo, a beleza podia não ser fátua, se interior. A beleza interior inspirava e compensava-nos da eventual fealdade exterior. Neste caso, a fealdade era um produto da imaginação, porque particular...
Em Cesário Verde, é a distância que cria a fronteira social e económica que corrói o modelo de beleza "Dizem que tu és pura como um lírio (...) e que eu passo por aí por favorito
Logo que a beleza cai na boca do vulgo, ela torna-se chiste, frustrando qualquer tipo de aproximação do "eu", obrigando-o a ocultar o que nele havia de sedutor-seduzido...
Tudo é distância! Ela é imperatriz, é déspota, fatal, loura, granítica, frígida... vaidosa, mortífera. Ela é romântica, importada do Norte, protestante...E ele, aos 19 anos, não querendo ser confundido com o vulgo burgesso e maledicente, refugia-se na vingança e no cinzel...e vai escangalhando, poema a poema, a catedral romântica e ficando só...

( Este é o resultado da falta de comparência de quem, presumido, prefere a fatuidade...De qualquer modo, ainda não desisti... )

13.5.14

Saber relacionar Fernando Pessoa com Eça de Queirós

Há quem procure a génese do heterónimo Ricardo Reis na formação helénica e latina de Pessoa numa austral, distante e isolada Durban.  Há quem veja no sobressalto provocado pela Guerra, a rejeição de uma vida que inevitavelmente conduziria ao sacrifício e à morte de milhares de seres humanos, e consequentemente este heterónimo viria dar expressão a uma filosofia de vida, simultaneamente estóica e epicurista, no essencial anti-belicista de raiz humanista. Afinal, o Velho do Restelo camoniano bem poderia ser apresentado como "pai" de Ricardo Reis...
Hoje, considerando todos aqueles alunos e professores que andam às voltas com as leituras obrigatórias para o exame de Português do 12º Ano, proponho simplesmente que olhem de perto para a "teoria da vida" atribuída por Eça de Queirós a Carlos da Maia. A teoria «que ele deduzira da experiência e agora o governava:
Era o fatalismo muçulmano. Nada desejar e nada recear... Não se abandonar a uma esperança - nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com a tranquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e dias suaves. E, nesta placidez, deixar esse pedaço de matéria organizada que se chama o Eu ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no Infinito Universo... Sobretudo não ter apetites. E, mais que tudo, não ter contrariedades. 

De regresso à Europa, Fernando Pessoa devorou e assimilou o que de mais essencial havia na literatura portuguesa... Nem Eça terá escapado!
Experimentem, agora, ler Ricardo Reis e digam-me se é absolutamente necessário ler Horácio ou Ecclesiastes para recomendar que todas as horas devem ser plácidas...

Houve tempo em que também eu fui professor de Didática, reconhecendo o papel da erudição... De qualquer modo esta não basta. É preciso saber relacionar não só o que está longe como o que está perto. Para Fernando Pessoa, Eça de Queirós era uma fonte inesgotável... É só lê-los!

12.5.14

Falho de humor...

Todos os dias me fazem perguntas a que me vejo obrigado a responder com humor. Quando me perguntam "o que devo fazer para subir a nota", primeiro paro, depois suspendo a respiração e finalmente respondo relembrando uma atividade que já deveria estar concluída. Por exemplo, ter lido "O Frei Luís de Sousa", o "Memorial do Convento", alguns poemas de Fernando Pessoa, independentemente do sentido de humor ou do sentido lúdico do Poeta... 
E o meu humor está na lentidão, no cansaço e no tom com que refiro os autores e os títulos, sabendo que ao meu interlocutor não lhe passa pela cabeça que ler a obra, ter uma ideia sobre ela, escrever um apontamento de rejubilo ou de enfado, são as condições exigíveis para que a nota possa subir...
Hoje, o meu sentido de humor caiu no ridículo, virou graçola. Respondi com toda a naturalidade  para que a nota suba, suba a um plátano e olhe à sua volta.
No essencial, o humor só surge quando o desaforo se torna inexplicável e não podemos sair do campo da linguagem. É nesse território que nasce o contraste, a ironia, a hipérbole, a caricatura, o chiste, o espírito. E esse território é o contexto em que me movo, em que o autor se move, em que o leitor se poderá mover... Só que as zonas de interseção são cada vez menores...
À escola compete alargar essas zonas de confluência, sem que seja necessário que haja sobreposição absoluta. Quando tal acontece, a liberdade criativa morre!
Hoje, todavia, a escola deixou de cumprir esse desígnio; a família não exige que tal desiderato seja cumprido; as metas do ministério da educação são tão primárias que as zonas de interseção passaram a dar lugar à violência... 
Infelizmente, estou a perder o sentido de humor e a cair na piada ou na graçola. Ou, então, a fazer prova de mordacidade chistosa...
De regresso à leitura, recordo que já Cesário Verde, aos 20 anos de idade, em 1875, teve necessidade de exprimir humoristicamente o seu deslumbrado desprezo pela nórdica, metálica e decadente flor baudelairiana: «gélida mulher bizarramente estranha / (...) ó grande flor do Norte! / O sossegado espectro angélico da Morte!...
Temendo as balzaquianas meridionais, Cesário Verde, em versos alexandrinos, vira a sua atenção provinciana para a "milady do Norte":
Balzac é meu rival, minha senhora inglesa! / Eu quero-a porque odeio as carnações redondas; / Mas ele eternizou-lhe a singular beleza / E eu turbo-me ao deter seus olhos cor das ondas./

Se ao menos os meus interlocutores não me fizessem perguntas tão rasteiras! Se ao menos os meus interlocutores não quisessem ter uma excelente nota sem se dar ao trabalho de ler, de ter uma ideia, de escrever um apontamento!
Se ao menos os meus interlocutores soubessem relacionar! Se ao menos os meus interlocutores se dessem ao trabalho de procurar, de saber o que significa, de criar pontes! Talvez um dia as soubessem construir e nesse momento entenderiam que, por vezes, é necessário subir a um plátano e olhar à volta, sem cair...
                   ou até caindo...


11.5.14

O encanto da Fonte da Telha

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Hoje, fui à Fonte da Telha. Lá verifiquei que levam muito a sério a recomendação do Ministério do Ambiente.

Nada mudou nas últimas décadas:  o pó, o lixo, os cães, os quintalejos, as construções clandestinas, tudo misturado com bares e restaurantes prontos a servir uma clientela mais fina… e a areia, muita areia para os pobrezinhos….

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Como ainda há sol e praia, o melhor é deixar que cada um viva ao seu ritmo. Por mim, prefiro o azul filtrado pela palmeira (reminiscência infantil!) e a encosta verdejante, sob a ameaça da escarpa…

Sempre gostei de escarpas e de falésias! Elas, pelo menos, protegem-me das areias tórridas do deserto…

10.5.14

A europa barbuda

( Anda por aí uma conchita, neutra, mas com barba... austríaca. Pobre Freud! Será que chegaremos a 25 de Maio? E para quê?)

Digressão pessoal
Desde que a penugem me começou a atormentar que a deixei seguir o seu caminho. Várias foram as vezes que tentei ver-me livre dela, mas as infeções aconselharam-me a desistir de a domar. 
Não sendo oficialmente árabe nem judeu, não encontrava na família qualquer barbudo que pudesse imitar. Chegado, em 1979, ao quartel das Caldas da Rainha, ainda temi que o regimento me impusesse o corte diário. Mas não! Tiraram-me a habitual foto de cadastrado sem qualquer interdito. Depois, promovido a tradutor, nenhum general se preocupou com a minha apresentação...
Talvez por isso me tenham colocado no Centro de Transmissões, em Murfacém, localidade da freguesia da Trafaria, onde ainda haverá vestígios da presença muçulmana, designadamente cisternas... Lá traduzi, durante 12 meses, o que havia a traduzir, das 18 às 24 horas, e sobretudo, em suporte "stencil", editei um jornal diário com a transcrição da informação recolhida, via rádio, telex, escuta....Chamava-se "perbol" o dito boletim... Ou será truncagem?
Os destinatários eram distintos, mas nunca obtive feedback... Se calhar tudo não passou de uma cabala!
Prometo que ainda hei de regressar a Murfacém e lá procurarei uma cisterna árabe que, provavelmente, guardará todo o meu amor à pátria... Só espero não encontrar a conchita austríaca!

9.5.14

Sinto-me cada vez mais longe

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O plano é inclinado, sinto-me cada vez mais longe. Podia dar liberdade ao corpo, deixá-lo ir, mas vejo-o tropeçar, despenhar-se na escadaria… O cérebro já não controla os olhos – difusos, vagueiam desorientados – as mãos deixam de ser tenazes e as pernas parecem de borracha…

Paro no meio da ruela, ofegante, e penso “quem é que me trouxe até aqui”. Já não estou em mim, não por capricho, mas porque apenas oiço um vozear interminável…
Há quem pense que lhe faço falta, mas tal mais não é do que um sobressalto amigo.

O problema é que cheguei a um ponto em que nem à quietude posso aspirar… talvez ainda pudesse inquietar. Mas quem?  E para quê?

Na rua nem folhas há! Varreram-nas não fosse eu escorregar…

Lá ao fundo mais não fazem do que atrasar-me a corrida!

8.5.14

Deve ser do mês de maio...

Canta Aires Rosado: Por mayo era por maio. (Vicente)

Anda tudo num corrupio
anda tudo numa roda vida. 
A troika está de partida
o Pinto da Costa de saída! 
Rosado não vê o IVA subir
diz que o  IRS já está a cair.

Já não há programa
já não há cautelar!
Já não há nada que roubar...

Só nos resta naufragar!

7.5.14

Cansado de ser o que não sou

Cansado de ser o que não sou, ligo a antena e oiço a embriaguez dos clássicos em ritmos risonhos, sorumbáticos e melífluos: as máquinas investem nos incêndios reacendidos, os versos tornam-se reféns dos deuses e as escadas arrebatam para o santo dos santos...e fico à porta do Templo, na confluência da Filosofia com a Língua, tudo subordinado às sementes que certo dia esqueci de regar...
Na verdade, nunca esqueci esse gesto inicial e posso até acrescentar que, apesar do desvio, toda a minha vida foi justa até que descobri que o champanhe substituíra a água cristalina... E aí chegou o Tempo por alguns considerado "coisa antiga" mas que mais não é do que fome de ser sem passado nem futuro.
Como tal, abstenho-me de navegar e até de me desfolhar, não vão querer encadernar-me!

Cansado de ser o que não sou, desligo a antena, ciente de que, por instantes, cheguei a pensar que os deuses acabavam de perder uma boa oportunidade. Mas que importa!

Já com a antena desligada, registo que se faltasse a persistência, o rio deixaria de correr para o mar e viraria pântano. 
Neste Dia Aberto, vale a pena enaltecer a duração porque no seu decurso é que se manifestam "os artistas". Num colóquio, num concurso, numa exposição, numa experimentação, num boletim é sempre possível antever um rumo contrário à estagnação. Um rumo feito dos rostos da Ariana, do João, da Rita, do André, da Alice, da Nazaré, da Ana, do Eduardo, do Ricardo, do Tiago, do Dinis, da Mariana, do Pedro, da Andrea, da Madalena, da Margarida, da Adriana, do Duarte, do Guilherme, da Anca...
   

6.5.14

Assim não lhe sirvo de nada, Senhor Presidente

É justo que o Senhor Presidente não me esclareça!
Ao reler o "post" de ontem, apercebi-me que faltava um parênteses. Se me tivesse esforçado mais, enunciando o que mudou de mãos nos últimos anos, talvez o Senhor Presidente se tivesse preocupado com o meu rigor. Assim, não lhe sirvo de nada! 
Claro que o Senhor Presidente já não precisa do meu voto e sabe muito bem que pouco já tenho de meu, pois nos últimos anos quase tudo o que tinha mudou para outros mãos. E essas mãos já decidiram o que fazer comigo nos próximos anos...
O que é inaceitável é que o Senhor Presidente não nos diga de quem são as mãos que nos têm roubado a alma. O Senhor Presidente é um dos poucos que pode mandar publicar no Facebook os rostos daqueles que nos têm devorado o corpo! 
E fique o Senhor Presidente a saber que posso viver na sombra e até cair na miséria, mas detesto que me ponham de lado ou, sobretudo, que me usem...

5.5.14

Senhor Presidente, esclareça-me agora...

«O que mais me vem à memória, no dia de hoje, são as afirmações perentórias de agentes políticos, comentadores e analistas, nacionais e estrangeiros ainda há menos de seis meses, de que Portugal não conseguiria evitar um segundo resgate. O que dizem agora?» Aníbal Cavaco Sílva
                                            (No íntimo, espero que esta diatribe seja apócrifa...)

MATILDE: Sr. Marechal: Quanto vale, para vós, a vida dum homem? 
BERESFORD: Depende do seu peso, da sua influência, das vantagens ou dos inconvenientes que, para mim, resultem da sua morte. (Luís de Sttau Monteiro, Felizmente Há Luar!)

O Senhor Presidente lembra-me o Marechal, mas ele era um estrangeiro que zelava, por todos os meios, pelos seus 16 000$ 00. O Senhor presidente parece gostar da pequena intriga e da traição, o que não fica bem a quem deveria zelar pela vida de cada português, em concreto, e não em palavras mal alinhavadas... 
Senhor Presidente fica-lhe mal o ajuste de contas numa rede social, sem identificar os alvos, sejam agentes políticos, comentadores, analistas, nacionais ou estrangeiros!
E já agora, Senhor Presidente, esclareça-me: O que é para si um "agente político"? O que é que distingue um "comentador" dum "analista", pressupondo que se refere a espécies políticas? E qual é o verdadeiro significado de "estrangeiro"?
É que, por vezes, penso que, para si, há muitos "nacionais" que são "estrangeiros"!

4.5.14

Por trás dos olhos cegos

Por trás dos olhos cegos, creio que o verso é de Fernando Pessoa, revela-se no nº 7 da Rua do Vale um atelier museu pensado e desenhado pelo Arquiteto Álvaro Siza Vieira… e coincidentemente os mesmos olhos tiveram oportunidade de ver a procissão em honra de Nossa Senhora da Escada… Uma procissão singela, sem a luxúria das de D. João V, mas com marinheiros e escuteiros…
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Um mar de interrogações num espaço tão reduzido!
Da igreja de Jesus (do distante Colégio jesuítico), sai a procissão, virando as costas ao Liceu Passos Manuel (de memória quase tão antiga), indiferente à Rua do Vale (memória quase infantil, mas onde a obra de Júlio Pomar começa a ser acolhida) e segue em direção à Assembleia da República, mas não creio que esta Nossa Senhora venha a descer a escada…
Ela será da Escada porque um dia lançou uma escada a uma jovem mãe que era perseguida porque roubara um pão para alimentar um filho ou, hipótese mais consentânea com a encenação de hoje, porque os marinheiros de quinhentos se habituaram, ao descer ou ao subir a escada, que ligava a terra ao Tejo, a solicitar ou a agradecer a proteção ( haveria, junto a um dos cais, uma pequena ermida devotada a Nossa Senhora da Conceição!)…
Compreendo que com os olhos a aprendizagem seja mais dura e menos céptica, compreendo que ela  tenha ganas de pôr de lado a razão, mas devo acrescentar que os olhos (e muitas vezes o passado) me obrigam a procurar o que a luz, por vezes, esconde, tal como Fernando Pessoa, o próprio, confirma:
Quando era criança / vivi, sem saber, / Só para hoje ter / aquela lembrança.// É que hoje sinto / aquilo que ontem fui. / Minha vida flui, / Feita do que minto./ / Mas nesta prisão, / Livro único, leio/ O sorriso alheio / De quem fui então. //   (2.10.1933)
E a propósito da dúvida inicial, o verso do título é de FP / Ricardo Reis (25.5.1930): Se recordo quem fui, outrem me vejo, / E o passado é o presente na lembrança. / Quem fui é alguém que amo / Porém somente em sonho. // E a saudade que me aflige a mente / Não é de mim nem do passado visto, / Senão de quem habito / Por trás dos olhos cegos. // Nada, senão o instante, me conhece. / Minha mesma lembrança é nada, e sinto / Que quem sou e quem fui / são sonhos diferentes. //

3.5.14

Veiga Simão (1929-2014)

Faleceu hoje o homem que escancarou as portas ao regime democrático.
Foi ministro da educação nacional entre 1970 e 1974, levando a cabo uma profunda reforma do sistema de ensino. Já antes, em 1963, fundara a Universidade de Lourenço Marques. E enquanto ministro da Educação, foi responsável pela criação das Universidades de Aveiro e do Minho...
Em todos os cargos que desempenhou, antes e depois do 25 de abril, revelou ser um homem que acreditava e apostava nas novas gerações e na necessidade de abrir o país ao mundo, nas áreas da educação, da ciência e da investigação...
Conheci-o de relance, há 41 anos, em maio de 1973, aquando da realização, em Tomar, do único congresso da Ação Nacional Popular. Nessa data, o ministro Veiga Simão visitou o Liceu de Tomar, sendo alvo de alguma hostilidade, compreensível à época, sobretudo porque acompanhava o presidente do conselho, professor Marcelo Caetano, preocupado em provar a multirracialidade da pátria portuguesa...

Hoje, vejo, no momento da partida, um homem distinto que sabia que só a educação libertaria Portugal do obscurantismo.

2.5.14

Os arbustos e as árvores do presente...

«Numa terra onde se cortam as árvores para que não façam sombra aos arbustos...» Luís de Sttau Monteiro, Felizmente Há Luar! (Matilde)

Bem sei que estou a ficar maçador, mas vivo o drama do desinteresse pela leitura ativa, aquela em que o leitor lê o passado com olhos de presente, os olhos da vida apagada e triste. E é esta dimensão do presente que encontro em obras como a de Luís de Sttau Monteiro.
Pelo contrário, os meus interlocutores veem esta peça como uma velharia imposta por um qualquer ser bolorento e desfasado da realidade e, como consequência, limitam-se ao resumo e ao estereótipo... até porque hoje já se encontram extintos os informadores, os denunciantes, os falsários, os mercenários, os iluminados, os hipócritas, os intriguistas, os populistas, os racistas, os corruptos, os conspiradores, isto é, os vicentes, os corvos, os sarmentos, os sousas, os miguéis, os beresfords, os polícias, os catrogas, os coelhos, os portas, os gaspares,  os borges, os frasquilhos, os moedas, os luíses, os durões, os rasmus, os thomsens...
Os arbustos vão ocupando tudo de acordo com um princípio já antigo, assumido pelo marechal inglês Beresford, marquês de Campo Maior: 

O VELHO ESTÁ SEMPRE A CEDER PERANTE O NOVO E O NOVO SEMPRE A DESTRUIR O VELHO...

E vou anotando com  uma réstia de esperança que o presente se encarrega de desfazer:
  
«Sempre que há uma esperança os tambores abafam-lhe a voz... Sempre que alguém grita os sinos tocam a rebate... (...) E cai-nos tudo em cima: o rei, a polícia a fome (...) Até Deus! (...) E ficamos pior do que estávamos... Se tínhamos fome e esperança, ficamos só com fome... Se, durante uns tempos, acreditámos em nós próprios, voltamos a não acreditar em nada...» (Felizmente, Há Luar!, Manuel)

1.5.14

Afinal, os regentes são só dois...

«Há gente, senhores, que sente grande ardor patriótico sempre que os seus interesses estão em perigo.» 
(D. Miguel Forjaz, in Felizmente Há Luar!)

Tradicionalmente, os principais agentes desse ardor eram os frades, os fidalgos, os oficiais e os tambores. Juntos acabavam por aplicar a mesma "teoria das emoções": as bandas e os sinos não paravam de tocar,  os frades de gritar e os aldeãos de empunhar a bandeira...
Hoje, os agentes do ardor patriótico são senhores da comunicação social ou vivem enquistados nos partidos. São cada vez mais jovens, herdeiros... iletrados e demagogos.

No meio da trapalhada em que vivemos, a verdade cede o lugar à emoção, já que esta «nem carece de provas, nem se apoia na razão.» (op. cit., D. Miguel Forjaz)

A Troika lava as mãos, qual Beresford que se apresenta como «um simples técnico estrangeiro (...) rodeado de inimigos: o clero odeia-me porque não sou da sua seita; a nobreza, porque lhe não concedo privilégios; o povo, porque me identifica com a nobreza, e todos, sem excepção, porque sou estrangeiro...» (op. cit., Beresford)

Neste mês de maio, o ardor patriótico será tema dominante da campanha eleitoral: "a saída limpa", "a partida da troika", a recuperação da soberania por aqueles que ao longo destes três anos ajoelharam e pediram a bênção... 
E nós, cada vez mais endividados, movidos pelo ardor patriótico, hesitamos e acabamos por acreditar em quimeras.
Tal como em Felizmente Há Luar! os regentes são só dois, os restantes são técnicos, estrangeiros e hereges, odiados por todos, ainda que por diferentes motivos.