31.12.16

Neste fuso horário

Duas mulheres, já idosas, caminham, não sei se em direção ao centro comercial, se à igreja.
O caniche precipita-se para o meio da estrada, mas ainda não será em 2016 que acabará atropelado.
Agora que 2016 está a terminar neste fuso horário, reconheço que, pessoalmente, este foi um ano muito duro. De qualquer modo, vivo rodeado de ilusionistas...
(...)
A criança aprumada, de mochila azul, espera. Entretanto, parqueado o carro, o avô, de cigarro empertigado no canto da boca, avança. Dão as mãos, e partem rumo a 2017.

30.12.16

Apesar do ceticismo

Apesar do ceticismo de que fui dando prova ao longo de 2016, pressinto que 2017 será um ano de novos desafios que só poderão ser vencidos se não nos faltar a coragem de que os pescadores são, ao longo da História, o melhor exemplo.
O resto é vaidade! O resto é narcisismo! O resto é prepotência!

29.12.16

O frenesim da passagem

«Je n'ai jamais de chance avec les hommes." Quem o diz é a protagonista de Eugénie Guinoisseau, de Grégoire Delacourt, in Les Quatre Saisons de ´L'été, 2015.

Ao homem, nas diversas idades, falta o jeito, a constância, falta o sentimento. O homem é um bruto! Se exceção houver é porque esse homem é cândido, prefere outro homem e, nesse caso, regressa a fidelidade, a paixão, a sensibilidade... e até a bestialidade, mas não com a mulher, esse ser incompreendido, que, em cada idade, exige uma dedicação exclusiva, como se o mundo apenas fizesse sentido centrado no "corpo" e na reação que possa despertar nas feras famintas...
Saciadas, as feras abandonam a presa até que a fome regresse...
Agora que o novo ano se aproxima, o frenesim da passagem mais não é do que o voto de que tudo possa recomeçar, mesmo se por um breve instante, pois o homem é bruto...
(...)
Só não percebo, por que motivo não é permitido ao homem exclamar "Je n'ai jamais de chance avec les femmes!" Provavelmente, teria de ser poeta; só assim seria compreendido, pois a sensibilidade não lhe faltaria...

28.12.16

A viscosidade

Pouco importa o que fica para trás - nem nostalgia nem saudade! Apenas, a viscosidade desperta atenção - talvez nela possa encontrar a redenção.
Ligeira hesitação entre 'redenção' e 'salvação'. Nenhum dos termos satisfaz, pois qualquer um deles pressupõe crime (erro, falha, pecado). O que fica para trás, por muito que pese, já nada pode fazer pelo presente... 
Poder-se-ia pensar que a solução se apresentaria cristalina, mas a verdade é que a transparência anda há muito desaparecida. Longe vai o tempo da luz!

27.12.16

A espera

Outrora, talvez fosse a demanda...
Nos últimos anos, tem sido a espera. Nuns casos, a espera iguala-se à demanda, pois o objetivo continua por atingir - o graal, godot, a carta ...o inominável; noutros, a espera, apesar de repetida, é pontual, circunstanciada - o desespero, o cansaço e até a satisfação de ver o sucesso de uma operação...
Quem espera, desespera!
Hoje, pelo que fui ouvindo e observando enquanto esperava, sinto que há quem tenha muito mais motivos para desesperar, porque só a crueldade da morte os poderá libertar...

26.12.16

El coronel no tiene quien le escriba... agasta-me e empolga-me

El coronel no tiene quien le escriba, de Gabriel García Marquez

À medida que a leitura avança, o comportamento do coronel deixa-me agastado, pois prefere alimentar o galo a cuidar devidamente da esposa enferma. Na verdade quem faz das tripas coração para que não morram à fome é ela... É ela que o incentiva a vender o relógio de parede, a vender o quadro, a vender o galo, embora nunca o incentive a procurar um trabalho - derrotado politicamente, espera pacientemente que o governo lhe atribua uma pensão pelos serviços prestados à pátria na Guerra dos Mil Dias. Durante 15 anos, todas as sextas-feiras, ele espera que o carteiro lhe entregue a carta que, finalmente, reconheça o seu direito...
A novela foi publicada em 1961, apesar de escrita em 1957-58, tempo em que o autor passava fome em Paris, pois o governo colombiano ia encerrando os jornais de que era correspondente. Ao lê-la, veio-me à memória a peça de teatro "En attendant Godot", de Samuel Beckett, publicada em 1952. Pode ser coincidência, mas o coronel surge-me como reencarnação de Estragon e Vladimir à espera de Godot...
De qualquer modo, o absurdo da situação do coronel é mais politizado, pois as referências à ação política são bem mais evidentes. Desde um Governo (do general Rojas Pinilla) que não respeita os seus inimigos políticos, a uma censura que, no caso do cinema, era controlada pela Igreja que classificava todos os filmes como atentatórios dos bons costumes - anunciando o seu veredito através de 12 badaladas diárias...
(...)
O galo acaba por se tornar no símbolo principal desta novela, porque deixado pelo filho Agustín, fuzilado, representa para o coronel e para o povo de Macondo a esperança de que a ditadura terá um fim. Não se sabe é quando!
Quanto à escrita e à composição de Gabriel García Marquez é tão enxuta e tão cheia de humor que só me resta relê-lo...

25.12.16

Rafael Escalona... e a fantasia em que vivemos

Aproveito o dia de Natal para ler a novela "El coronel no tiene quien le escriba", de Gabriel García Márquez e, no avanço da leitura, descubro o compositor e trovador colombiano Rafael Escalona (1927-2009).
Aqui, registo uma das suas trovas que ilustra bem a fantasia em que vivemos:

Voy hacerte una casa en el aire
solamente pa´que vivas tú.
Despues le pongo un letrero bien grande
con nubes blancas que diga "andaluz"

Cuando Andaluz sea señorita
y alguno le quiera hablar de amor
el tipo tiene que ser aviador
para que pueda hacerle la visita
el tipo tiene que ser aviador
para que pueda hacerle la visita

Y si no vuela no sube
a ver a Andaluz en las nubes
y si no vuela no, no llega allá
a ver a Andaluz en la inmensidad

Voy hacre mi casa en el aire
pa´que no me la moleste nadie

Como esa casa no tiene cimientos
tiene el sistema que he inventado yo
Me la sostiene en el firmamento
los angelitos que le pido a Dios

Si te pregunta como se sube
deciles que muchos se han perdido
para ir al cielo creo que no hay camino
nosotros dos iremo´ en una nube
para ir al cielo creo que no hay camino
nosotros dos iremo´en una nube

Y si no vuela no sube

Voy hacer mi casa en el aire
pa´que no la moleste nadie
es que voy hacerla en el aire
pa´que no la moleste nadie

A noite de natal de 2016

A noite de natal, que se vai extinguindo, foi um pouco melhor do que a do ano anterior, não por efeito da coligação de esquerda, mas porque, estrategicamente, os participantes não se envolveram nas habituais polémicas - a visão utópica foi condescendente com a visão bem informada, realista e cética.
E convém não esquecer os ausentes, uns irremediavelmente; outros, por puro egoísmo...
Quanto à coligação de esquerda, apesar de mais otimista, nada trouxe que ajudasse a resolver os problemas dos participantes na ceia de natal.
Como banda sonora, regressou o Feiticeiro de Oz! (1939) Pelo que vejo a visão utópica continua a apreciar o filme de Victor Fleming....

23.12.16

O cinema social de Ken Loach

O filme "Raining Stones", de Ken Loach foi realizado após o termo da governação de Margareth Thatcher (1979-1990). De certo modo, pode ser lido como consequência do thatcherismo, pois mostra o estado em que vivia a classe operária na periferia de Manchester ou de Liverpool.
Os desempregados recorriam a expedientes, por vezes, à margem da lei, para impedir que a perda de "estatuto" económico e social se tornasse visível.
Curiosamente, neste novo mundo, os sindicatos desapareceram e cederam o lugar à Igreja (católica). Uma igreja que abraça a causa dos novos pobres e que não hesita em proteger o pai desesperado que, ao tudo fazer para assegurar que a filha não tenha tratamento desigual na cerimónia da primeira comunhão, acaba por contribuir para a morte do agiota que, pela força, tirava proveito da miséria social.
No essencial, o cinema social de Ken Loach ilustra bem as consequências da política levada a cabo pela coligação PSD-CDS, entre 2011-2015.

21.12.16

O Natal...

Nunca percebi se o Natal tem dono, todavia alguém inventou um Pai que faz muitas compras num mercado gigantesco para alegria de muitas crianças, apesar do número daquelas que são esquecidas ser quase igual ao das prendadas...
Por conseguinte, há crianças que riem e muitas, anónimas, apesar de terem pai e mãe, sofrem... E há também quem enriqueça à conta do negócio, sem falar dos que se empanturram como se não houvesse dia 26...
Sobre o Natal, há muitas teorias, mas aquela do menino nas palhinhas, rodeado por José, que, afinal, não era pai, e de Maria, que nunca conheceu homem, sem falar dos tristes animais, a quem naquela noite roubaram uma parte do estábulo, é a que mais me impressiona desde os tempos em que era criança...
No entanto, nunca me explicaram que, face a certas sociedades em que «o aborto e infanticídio eram praticados de maneira quase normal, de tal modo que a perpetuação do grupo se efetuava por adoção, muito mais frequentemente do que por geração, sendo um dos objetivos principais das expedições guerreiras obterem crianças»*, os sacerdotes sentiram necessidade de santificar o nascituro... Só que o escolhido foi o Filho, feito por um tempo menino...
Uma história que sempre me pareceu mal contada, mas que continua a servir de alibi a muitos comportamentos, uns dignos, outros indignos...
No Natal, sobe-me a tensão arterial!

Entretanto, Boas Festas!

*Claude Levi-Straus, Tristes Trópicos, Cadiueus.

20.12.16

Línguas de fogo...

Não sei se as metáforas ensandeceram, mas as que encontro andam tão estafadas que me apetece calcá-las e deixá-las a fenecer. Parecem ter sido moídas por um energúmeno, que atolado numa qualquer lixeira, decidisse lançá-las aos abutres de serviço na Academia ou lá como se chama o clube  de sapiências que tomou conta das universidades, politécnicos, institutos e quejandos...
Ouvi dizer que as metáforas só são pertinentes se perderem a referencialidade e ficarem a levitar no espaço cerebral dos seus criadores, deixando os leitores a decifrar puzzles irresolúveis. Basta sonegar duas ou três peças para que a metáfora se eleve acima das cabeças, para depois sobre elas poisar como língua de fogo...
O problema é que as línguas sagradas parecem ter vontade própria, pois são elas quem decide quem integra o falanstério dos eleitos, são elas quem agracia e quem deixa de fora... E os eleitos não se fazem rogados, desatam a voz, assaltam as cadeiras e ocupam-nas vitaliciamente.
Há até uns tantos, que depois de mortos, ainda continuam assombrar-nos com a sua inexplicável opacidade.   

19.12.16

Transtorno coletivo

Poder-se-á pensar que a tirania é um privilégio dos estados ou daqueles que aspiram à conquista do poder, mas, pela amostragem dos últimos anos, a violência individual serve-se (ou esconde-se por detrás) de causas mais ou menos nobres para satisfazer instintos autodestrutivos. 
Temos assim uma conjugação explosiva que levará inevitavelmente a uma permanente retaliação e à morte de qualquer tipo de humanismo que ainda possa persistir.
As mortes, por exemplo, em Alepo, em Ancara e em Berlim são a prova do transtorno coletivo em que vamos mergulhando.

18.12.16

O que mais irrita...

 
O que sobra do Império é bastante absurdo!
As portas de madeira carcomida, o metal ferrugento, os púcaros amachucados, as aves empalhadas  e depois, uma natureza defenestrada e pessoas fascinadas por uma melopeia guerreira, convencidas de que a mudança liberta, mesmo se a nova exploração as torna infra-humanas.
O que mais irrita é a quantidade de ferrugem, os arquivos mortos, a ideia de que nada vale a pena.





Está quase tudo na exposição de Antonio Ole. A bromélia, não.

O mapa do tesouro

«O governo de Passos Coelho prometeu o mapa dos diamantes a Angola, uma semana após ter tomado posse e quatro dias antes de ser derrubado no Parlamento.»

Enquanto uns esfolaram e mataram, durante 100 anos, para rastrear o território angolano, um governo desmiolado entrega o mapa do tesouro.
Gesto solidário, pensarão uns; gesto perdulário, pensarão outros.
Por mim, é mais um ato irresponsável, de desrespeito pelo passado, mesmo se de sangue.

Quanto às contrapartidas, o tempo dirá... ou talvez o Correio da Manhã.

17.12.16

Desabafo em dia de ranking

Espaço vetusto. Equipamento obsoleto. Corpo docente envelhecido. Corpo discente heterogéneo e mal preparado...

Ranking tradicional: 146 (10,85).
Ranking alternativo: 225 (0,58)

Todos os dias são esforçados, mas os resultados não premeiam o empenho da comunidade escolar.
E no próximo ano, tudo continuará...

Claro que há sempre quem olhe para o lado. Ainda por cima... para o lado errado.

16.12.16

O telefonema do Hospital Central de Lisboa

Se não formos direto ao assunto, ninguém nos segue.
Pois, faça-se a vontade de quem ainda a tem ou pensa ter!
A cirurgia estava marcada para as 11 horas. A receção no hospital Curry Cabral marcada para as 10h45.
Às 10h05, o telefonema: - o Senhor ainda está em casa? Não vale a pena deslocar-se, o anestesista acaba de avisar que não pode estar presente...

No metro, o utente do SNS desespera. (Preparara-se para a intervenção, há meses considerada urgente, desmarcando todos os compromissos previstos para a semana anterior ao Natal, não ingerira qualquer alimento, sólido ou líquido, avisara os amigos... e a agora o telefonema! Ainda pensara que estivessem preocupados, não fosse ele atrasar-se. Nada disso! E de chofre, nova pergunta: - Será que é possível realizar a cirurgia no Natal ou no Ano Novo?)

Sob chuva intensa, o paciente desloca-se à Secretaria do Hospital. A explicação não muda uma vírgula: - O anestesista não apareceu. (Já na  consulta de preparação, também marcada para uma sexta-feira, o anestesista não aparecera.) A funcionária, solícita, procura encontrar nova data na agenda - um nome de outro doente é riscado... e a cirurgia fica marcada para o dia 27, uma terça-feira, dois dias depois do Natal...

(O testemunho é do "adulto responsável", cujo dever é acompanhar o doente no pós-operatório, prestando-lhe os cuidados que o SNS passou a delegar nas famílias para evitar maiores custos.)

15.12.16

Um pássaro esverdeado

Acordo cedo. A gata arranha a porta. E não sei se acordo cedo porque a gata arranha a porta ou se a gata arranha a porta porque acordo cedo.
Ela sabe que não lhe quero abrir a porta, mas que pode tirar vantagem, pois reforço-lhe a ração da madrugada. Eu quero distraí-la do objetivo inicial, no entanto desconfio que o objetivo dela seja diferente do imaginado.
Até porque a gata, satisfeito o apetite, desloca-se para a sala, e imobiliza-se junto do computador à espera que eu o ligue... e verifique quem está online ou se, no tempo de Morfeu, algo aconteceu de verdadeiramente insólito.  E esfíngica, observa todos os meus movimentos até que eu conclua as rotinas da madrugada...
Só reage à abertura da porta que dá para o patamar... aí, ela consegue esgueirar-se e não perde a oportunidade de subir o lanço de escadas que dá acesso ao sótão. Abro a porta do elevador à espera que ela queira entrar, porém ela prefere regressar a casa ou, em alternativa, descer o lanço de escadas que dá acesso ao 11º andar.
(a escrita, neste, momento torna-se mais difícil, pois ela insiste em dar-me marradas e em digitar uns sinais ++++, o que é o menos, pois de seguida a vítima é o S. José que corre o risco de ficar sem bordão.)
A Sammy vive cá em casa como viveria em qualquer outra casa, apesar de aqui ela poder exercitar-se no varão, sem nunca esquecer o seu velho peluche - um pássaro esverdeado, reduzido à expressão mínima. Por vezes, oferece-mo... e eu agradeço.
(... )
Há uma hora atrás, perguntaram-me se iria "passar o Natal à terra". Pergunta inofensiva, mas que me surpreendeu de tal modo que eu retorqui "Qual terra?" E pensei "aquela terra nem cemitério tem!" Só agora dou conta que não posso voltar à terra, pois a Sammy não gosta de descer de elevador, embora possa voar atrás do velho peluche esverdeado...
Entretanto, já lhe prometi que, um destes dias, vamos ler  O Gato Preto, de Edgar Allan Poe:

«Não espero nem solicito o crédito do leitor para a tão extraordinária e no entanto tão familiar história que vou contar. Louco seria esperá-lo, num caso cuja evidência até os meus próprios sentidos se recusam a aceitar. No entanto não estou louco, e com toda a certeza que não estou a sonhar. Mas porque posso morrer amanhã, quero aliviar hoje o meu espírito. O meu fim imediato é mostrar ao mundo, simples, sucintamente e sem comentários, uma série de meros acontecimentos domésticos. Nas suas consequências, estes acontecimentos aterrorizaram-me, torturaram-me, destruíram-me. No entanto, não procurarei esclarecê-los

14.12.16

Eu nunca fui a Benguela!

Eu não vou à piscina!
Eu não bebo coca-cola!
Eu nunca fui a Benguela!
No entanto, o tio Vítor foi a Luanda dizer que era dono de uma piscina cheia de coca-cola em Benguela!
(...)
Eu ainda tenho um tio que conheceu Luanda, Sá da Bandeira e Benguela. (Um dia ofereceu-me um avião que esteve imenso tempo imobilizado sobre um guarda-fato!) Este tio nunca me deu conta da existência de qualquer piscina cheia de coca-cola - nem sequer na Jamba! A verdade é que este tio, que deixou Angola minutos antes do camarada Neto presidente da RPA ter tomado de posse, se recusa a contar a sua desventura africana...   
(...)
Em Luanda, parecia só haver gasosa, uns camaradas cubanos, sem esquecer os camarades sovietes a construir um mausoléu com forma de foguetão...
Em Lisboa, já ninguém sabe quem foi o camarada presidente Neto, para quem os camaradas sovietes iam construindo um mausoléu leninista... e muito menos o que é um mausoléu...
Em Lisboa, os putos nasceram todos a beber coca-cola e a ver televisão a cores, e pensam que a natureza é uma chatice... e que o passado nunca existiu.
Em Lisboa, nem na rua há putos. Estão todos online, não se sabe a fazer o quê... talvez, a experimentar o cyberbullying ou a aprender uns truques de magia para matar o tempo nas aulas de Português. 

13.12.16

O seu a seu dono

A administração do Santander afirma ter tomado, por 46 vezes, a iniciativa de propor a renegociação desses contratos, face aos potenciais prejuízos acumulados depois de 2008. Mas, na ausência de um acordo, os 9 contratos de swap, celebrados entre junho de 2005 e novembro de 2007 com a Metro do Porto, Metro de Lisboa, STCP e Carris, estão a ser julgados desde o passado dia 12 num tribunal em Londres, por iniciativa do banco espanhol.

Como prezo o rigor, relembro que os piores contratos de swaps são posteriores a junho de 2005, e que António Guterres, foi primeiro-ministro de Portugal entre 28 de outubro de 1995 e 6 de abril de 2002.
Almeida Garrett defendia, nos anos 40 do século XIX,  a criação da lei da responsabilidade ministerial que punisse todos aqueles que pusessem em causa a "res publica". Não sei se na arca do legislador existe tal lei, verifico, no entanto, que as responsabilidades continuam por apurar... o que permite que "as guerras de alecrim e manjerona" se perpetuem...
De qualquer modo, quem é que lê António José da Silva e Almeida Garrett?

Em 2013, quatro empresas públicas de transportes de passageiros consideraram inválidos os contratos 'swap' celebrados, suspendendo os respetivos pagamentos. Em causa está uma factura superior a 1.300 milhões de euros.
O Tribunal Superior (High Court) de Londres rejeitou esta terça-feira um recurso de quatro empresas públicas de transporte portuguesas, mantendo a decisão da primeira instância que determinou a validade dos contratos 'swap' com o Banco Santander Totta (BST).

12.12.16

António Manuel de Oliveira Guterres

Não é possível ficar indiferente!
António Guterres, nascido a 30 de Abril de 1949, tomou hoje (12.12.2016) posse como secretário-geral da ONU, o cargo mais distinto a que alguém pode aspirar, não pelo força que possa deter, mas porque poderá efetivamente contribuir para a construção de um mundo diferente, para melhor: mais solidário, mais pacífico e mais equitativo.
Na cena internacional, esta é a posição mais elevada que um português jamais atingiu. Um português que sempre procurou ser melhor nos estudos, na vida profissional, na vida política e, sobretudo, na defesa dos mais pobres e das vítimas das guerras e das calamidades que têm assolado os vários continentes.
Com este perfil, acredito que António Guterres tudo fará para que, doravante, o mundo seja um pouco menos triste, mesmo sabendo que a mesquinhez dos interesses lhe criará novos obstáculos, todos os dias.
Mas há que subir a montanha!

11.12.16

No reino das sombras

Um destes dias, alguém me perguntou se o "epílogo" surge no princípio ou no fim da obra... surpreso, respondi sem perceber a razão da questão. Era suposto o leitor observar o manuscrito e verificar a posição da sequência...
Entretanto, não pensei mais no epílogo até que, ao assistir ao bailado "La Bayadère", no Teatro Camões, recordei o episódio no meio do terceiro ato " No Reino das Sombras".
Não sei se por causa da duração, a verdade é que me interroguei sobre o motivo porque demoramos tanto tempo nesse reino sombrio... Afinal, dele nada sabemos!
Para nosso bem, e sobretudo dos que nos acompanham, o epílogo deveria ser breve... e quanto ao reino das sombras já era tempo de o democratizar, pois creio que por lá o poder é poeira...

10.12.16

O tempo anterior

Esquecer os problemas! Nem sempre o trabalho o consegue, pois muitos dos problemas advêm do próprio trabalho... Por estes dias, estou a contas com 'trabalhos' que revelam falta de rigor.
Falta de rigor não do momento, mas do tempo anterior - um tempo lúdico que, por ser tal, se aceitou que pudesse pactuar com o desleixe, com a desatenção e com a indisciplina... Tudo, a meu ver exógeno, mas que os cientistas do comportamento insistem em considerar endógeno; por pouco, dirão que as atitudes são inatas e, como tal, todas desculpáveis...
De qualquer modo, o que mais me preocupa é que, num tempo em que o trabalho é raro, este tempo anterior gere tanta inadaptação, tanta desorientação, tanta irresponsabilidade. 

9.12.16

Não há como o trabalho...

Não há como o trabalho para nos fazer esquecer os problemas! Sobretudo, quando, por entre tanto disparate, nos surge pela frente um jovem de 15 anos que não só leu detalhadamente a Odisseia, de Homero, como é capaz de a apresentar oralmente, captando a atenção dos colegas...
Oralmente, sim, porque a maioria cultiva a leitura, convencida de que a eficácia comunicativa é atingida com tal suporte...
Bom, não estraguemos o dia com lamúrias e consultas estafadas que insistem em ignorar o mundo que nos abraça.
Como se de finda se tratasse, remato lastimando que o Criador ande tão esquecido de que, para além de sofrer, todo o Homem deve trabalhar para ganhar o pão de cada dia...

8.12.16

Tolhido, em dia santo e feriado

Ontem, nada registei porque a tensão arterial me tolheu os movimentos, quase todos... As causas ficam por explicar... apesar de uma quota da responsabilidade poder ser atribuída ao Dédalo lisboeta que insiste em derrotar o automobilista que, de súbito, se vê a braços com a necessidade de se deslocar a vários lugares da cidade em plena hora de ponta...
Hoje, ainda tolhido, vejo-me obrigado a reduzir as tarefas, rejeitando a hipótese de me deslocar a um hospital, porque tenho a certeza de que a tensão iria aumentar de tal modo que o organismo não resistiria ao choque hospitalar. Sim, porque o SNS, em dia santo e feriado, derrota qualquer utente que decida entrar-lhe portas dentro...
Resta-me, assim, relembrar o dogma da Imaculada Conceição, padroeira de Portugal, desde o dia em que D. João IV, no Paço de Vila Viçosa, lhe outorgou a coroa, talvez por agradecimento, iniciado por D. Afonso Henriques e reforçado pelo santo Nuno Álvares Pereira, por "nos ter livrado dos nossos inimigos", apesar de Sua Alteza não ter assistido em vida à capitulação do inimigo "castelhano"...
Como já estou a ficar cansado, deixo para melhor oportunidade uma particular reflexão sobre a necessidade que deu origem ao dogma, no singular e no plural, pedra angular da Santa Madre Igreja e do Reino de Portugal e Algarve, sem esquecer os territórios situados para lá (ou no meio) do mar...

6.12.16

Pouco lhes importa...

Todos repetem que o homem é sociólogo, que nasceu em 1977, que escreve... e que recebeu o 'Prémio Sagrada Esperança', entre outros por mencionar... Fiéis ao Google, repetem que escreve crónicas, pouco lhes importando que, de verdade, escreva "estórias"... 
Por investigar, fica a origem do 'Prémio Sagrada Esperança', e no Mausoléu do esquecimento repousa o patrono... o Google poderia ter ajudado, mas não foi o caso...
(Tal como poderia ajudar a esclarecer o 'milagre" do dia 8 de dezembro, e da sua padroeira...)
Ninguém quer saber que tipo de escrita é que um sociólogo pode desenvolver quando olha para o bairro (ou para o musseque) onde cresceu - para a infância de um país que cresce junto com o seu povo. E tudo num tempo em que todos são camaradas!
E como tal, ninguém parece surpreender-se com a abundância de camaradas sovietes e cubanos - nem lá, na terra de Ondjaki, nem cá, nesta terra tão multicultural e tão alheada da sua História...
Se se lhes explica que há diferença entre 'História', 'história', 'conto' e 'estória', e que essas palavras exprimem relações de domínio e de autodeterminação, entreolham-se num desabafo mudo... Pouco lhes importa se o sociólogo transformou a sua análise dos diversos grupos que se cruzam na sua rua em "estórias" questionadoras da realidade quotidiana de um tempo que persiste em reproduzir-se...

5.12.16

Religiões e crenças

Há as religiões e há as crenças, embora eu descortine poucas diferenças.
Na religião, os fiéis procuram viver em rede, sob orientação divina. A rede, apesar de se esperar que seja horizontal, dispõe-se verticalmente, de acordo com um modelo hierárquico que acaba por gerar diferenças inaceitáveis.
Depois, ou antes, há a crença, onde cada indivíduo despreza a rede, para ficar a sós com o seu "demónio", mas que, farto de solidão, acaba por gerar cismas que desembocam em redes, também elas verticais...
(...)
É um pouco incompreensível que eu me entretenha a dissertar sobre tais assuntos, mas a ideia tem uma causa: a construção (ou será edificação?) do Templo da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias  - A Igreja Mórmon... no Parque das Nações.

4.12.16

Voluntários ou prosélitos?

Chamam-lhes voluntários, mas pelo modo como fazem barreira nas entradas das pequenas e grandes superfícies, eu vejo-os como prosélitos que abarcam causas de forma irracional.
Curiosamente, os estados patrocinam esse zelo porque lhes retira a responsabilidade de promover o trabalho devidamente remunerado, de combater a doença e de fomentar uma educação assente em valores que evitem o fervilhar das seitas, da clubite, em suma, de qualquer tipo de fanatismo.
A desigualdade e a injustiça são as causas do alastrar do proselitismo e, consequentemente, de todo o tipo de radicalismos.

3.12.16

A vida dentro de um lenço de bolso

«Necessita-se de pouco para existir: pouco espaço, pouca comida, poucos utensílios ou ferramentas, pouca alegria; é a vida dentro de um lenço de bolso.» Claude Lévi-Strauss, Tristes Trópicos, A Terra e os Homens.

O antropólogo não resistiu à síntese sob a forma de metáfora - na Ásia, na Índia, na fronteira da Birmânia, o homem, em contraste com as castas mais elevadas ou com o europeu da classe média, mais não era do que um lenço de bolso.

Nesta quadra de consumo excessivo, de esbanjamento e de desperdício, talvez conviesse recordar que cada lenço que utilizamos é o preço de uma vida... uma vida que nunca teve noção da sua humanidade.
E por este andar, uma vida que, tendo noção da sua humanidade, se arrisca a perdê-la de modo desesperante. 

2.12.16

Não é a leitura de Manuel Laranjeira que me deprime

Não sei se ainda há quem leia "Diário Intimo" de Manuel Laranjeira, e temo mesmo que se tal acontecer a sua leitura possa ter um efeito depressivo, embora eu creia que a depressão, ao contrário do que muitos apregoam, seja uma particularidade mais ou menos permanente do leitor, caso contrário não se atreveria a folhear de forma aleatória tal livrinho...

(Eu conheço uns tantos leitores a quem basta a capa e umas linhas da contracapa para formar um juízo definitivo sobre a obra. Como ainda hoje me referiram "aquilo não vai com o meu estilo de leitor".)

Estilo aparte, eu folheio os dias e deixo que olhos se percam no abismo das palavras:

Quarta, 3 de Junho

Invade-me a infinita tristeza da existência, o tédio infinito da vida, dos homens e das coisas.
Tudo é de uma instabilidade asquerosa!
Se eu pudesse ao menos - ser alegre e abafar o ruído este aborrecimento sem fim!
Às vezes lamento-me de não ter nascido estúpido, muito estúpido, como a estupidez.

O Diário Íntimo é do Manuel Laranjeira (1877- 1912), que eu não tenho diário... até porque dificilmente um estúpido seria capaz de dar conta da sua estupidez... De qualquer modo, não é a leitura de Manuel Laranjeira que me deprime...

1.12.16

Não fosse a ironia dele (A.S.)

«Refunde-se tudo, porque é na refundação que está doravante a virtude.» António Souto, 2016, Dupla Expressão Crónicas, No refundar está a virtude (Outubro de 2012), DebatEvolution - Associação.

Não fosse a ironia, poder-se-ia imaginar um cronista doutrinário. Mas não, o sujeito da escrita cultiva o olhar do pícaro que, em tempos, serviu com desvelo o poder do momento, sem, no entanto, se deixar iludir... e que com essa servidão aprendeu que, infelizmente, o futuro não é muito diferente do presente, ao contrário do prometido nos idos de abril, do seu abril, feliz - eufórico.
(...)
Agora que a tarde avança, não querendo refundar nem restaurar nada, pois essa missão é reserva do poder, vou entrelaçando o contentamento do cronista António Souto com a sensação de que tenho andado a adjetivar o tempo, de forma abusiva.
Escravo do adjetivo, crio a ilusão de uma extensão, ora material ora imaterial, que me desvincula da substância, a única que verdadeiramente pode ser incinerada...
Como tal, a leitura e a escrita são formas de incisão e de cisão em aberto...

Tempo medíocre

O episódio, em Cabo Ruivo, não terá qualquer significado, mas é revelador do modo como os CTT gerem o atendimento. Às 22:48, havia 68 pessoas em espera. Postos de atendimento:3. Funcionários, atenciosos,  sem mãos a medir.
Utentes, pacientes, na sua maioria. Havia, no entanto, a oportunista decadente, que levava a mãezinha de 90 anos, para poder passar à frente. Havia, também, o psicótico incapaz de compreender que se o sistema informático das Finanças falha, os CTT não lhe podem validar a operação que ele poderia ter resolvido no escritório ou em casa (...)
Despacho concluído às 0:08 horas do dia 1 de dezembro, data de restauração sem objeto...
Hoje, o país entrou em modo de pausa... e assim vai continuar até à próxima 2ª feira. E depois, no dia 8, o país voltará a descansar, que bem merece...
Lá fora, a chuva, a espaços...
Em Chelas, noite, apenas. Do metro saíam vultos, apressados, bamboleantes, de olhos mortiços...
(...)
E eu sem tempo para saudar as novas crónicas de António Souto - Dupla Expressão -, ed. debatevolution, apresentadas por António Manuel Venda, na Biblioteca da Escola Secundária de Camões.
Crónicas de um tempo medíocre em que o cronista vai entrelaçando episódios irrelevantes, procurando-lhes a intemporalidade em que repousam. E esse pousio é que é a causa do desencanto de que nos falaram os Antónios...

29.11.16

Pouco importa...

Pouco importa se eles compreendem, pouco importa se o novo dia é frustrante, pouco importa se  nos desconsideram...
... eu trabalho para que eles tenham esperança.
No entanto, asseguro, desde já, que depois de morto, eles não poderão contar mais comigo.
De nada importará o que tenha feito, dito ou escrito.
Felizmente! Não há nada mais aborrecido do que uma assombração!

28.11.16

Só querem que eu os não defraude

Eles querem bons resultados e quando os não obtêm a culpa é minha.
E eu até estou de acordo com eles - até me encontrarem, o seu desempenho era classificado como excelente...
Tento ouvi-los, mas não consigo - não respondem ou cavaqueiam entre eles, como se eu não estivesse presente.
Tento lê-los, mas fico destroçado - não compreendem, não interpretam, não redigem com um mínimo de correção.
Alertados para a situação, não se preocupam. Deixam de ouvir.
Preferem memorizar definições estrangeiradas, descontextualizadas.
Porquê?
Porque compreender, interpretar, definir, textualizar... dão trabalho... e exigem atenção, disciplina, rigor.
E afinal eles só querem bons resultados!
Só querem que eu os não defraude... que lhes devolva o tempo em que eram felizes.
Que enfado! Para eles e para mim!

27.11.16

A posse arruína e conforta

Mesmo se desnutridos, deslavados  e engelhados, poucos são os que desprezam o luxo. Vejo-os nos passeios a olhar as montras como se a sua posse os compensasse do fracasso a que se sabem condenados...
A posse arruína e conforta. Ser o outro idealizado é tão deslumbrante que a montra deixa de ser obstáculo. Lá dentro a tentação fácil, a crédito, baila esfuziante, indiferente à sorte dos que se arrastam nas ruas e nas vielas...
Agora que o Natal se aproxima, os vendilhões ( e os seus criados) não poupam na iluminação, mesmo se os clientes desnutridos, deslavados e engelhados já não têm dinheiro para pagar a fatura de eletricidade... e vão ter que passar frio e acabar por dormir na rua...
Na quadra natalícia, o mafarrico anda à solta .

26.11.16

Tempo social

O conceito de 'tempo social' anda associado ao desenvolvimento industrial, à urbanização e ao surgimento de novas tecnologias... com início no século XIX.

Para mim, o tempo social é um pouco diferente. Vejo-o constituído por um conjunto de indicadores de uma ação externa que determina a atitude do indivíduo em qualquer idade, estando presente em todas as épocas e em todos os lugares, mesmo que o avanço civilizacional seja reduzido.
Nesta perspetiva, a ação de cada um de nós é condicionada por cronótopos distintos, em função do lugar, da idade e das instituições que nos enquadram.
Deste modo, a liberdade individual não passa de uma quimera, como bem sabem todos os rebeldes que um dia sonharam e quiseram incrementar uma qualquer forma de revolução. E por mais que nos custe, a indisciplina é, também ela, a prova de resistência ao tempo social, que, por vezes, deve ser pensado na sua pluralidade... Do sonhador Fidel de Castro nada tenho a dizer, embora ainda não tenha parado de pensar no comentador de 'política cubana' que, na RTP 1, afirmou que o americano Trump irá ajudar a "amortizar a morte de Fidel"...
AMORTIZAR A MORTE!

Enfim, em todos os atos que, hoje, executei, vejo com dificuldade que tenha iniciado algum que não fosse determinado pelo cronótopo em que me inscreveram - fazer compras, classificar testes,  ir à Cinemateca ver o filme de Raffaello Matarazzo, CATENE, estacionar num parque que me cobrou 5, 25€ por duas horas... até as lágrimas despoletadas pelo melodrama, sem esquecer este apontamento.

25.11.16

Idadismo, o que é?

- O que é o idadismo? A palavra existe?
- Sim, existe como designação de uma atitude discriminatória em relação às pessoas idosas.

No Auditório Camões, a Associação "Cabelos Brancos", criada por duas "jovens" Ana Caçapo e Luísa Pinheiro, promoveu uma "tertúlia" sobre o tema "idadismo", tendo como convidados Bernardo Barata e Carlão, distintos produtores, compositores e músicos. 
Esta atividade, incluída no PAA da Escola Secundária de Camões, visa provocar nos jovens estudantes  do ensino secundário uma nova abordagem do processo de envelhecimento.
Através de perguntas dirigidas aos convidados - "Como é que cada um pensa a sua velhice?"; "Já se imaginou velho?"; "A idade limita o exercício da profissão?"; "A vida na estrada contribui para um bom ou mau envelhecimento?" -, a moderadora procurou que a plateia juvenil se questionasse sobre a sua relação com os idosos... e também com a idade, pois parece que, afinal, sempre existe um "antes" e um "depois"... ou ainda será cedo para pensar nisso?
Não querendo deixar, aqui, nenhuma apreciação crítica, registo a boa receção das turmas presentes e, em particular, a colaboração de alguns alunos, recentemente chegados a Portugal, e com entendimentos distintos do nosso modo de encarar o envelhecimento. 

24.11.16

Não sei se é do frio...

Não sei se é do frio, mas sempre que o Inverno se anuncia, os burocratas da avaliação regressam.  Querem dar dignidade ao sistema que não se sabe se começa nas escolas e termina nos exames ou, pelo contrário, se os exames condicionam de tal modo o trabalho do professor que este não passa de uma marionete governada por "doutores", editoras, encarregados de educação, sem esquecer o pessoal de cada partido que vai ocupando os salões das fundações, dos institutos, dos ministérios, das secretarias regionais, camarárias e outras que tais...
O professor, à mercê dos interesses do momento, já não faz parte desta narrativa... a não ser que seja tão bestial que, também ele, consiga engrossar a fila dos fregueses que se preparam para dividir entre si o bolo orçamental.
Agora, são os alunos que vão ver alterados os modos de avaliação; amanhã, serão os próprios professores...
E o pior são os patinhos que acreditam que as migalhas lhes vão chegar, quando a lei, há muito, os condenou a não sair do charco... 

23.11.16

O étimo

Aluno: - Qual é que é o étimo?
Professor: - É sempre o defunto!

E ao defunto não se pede que se mova... Dos filhos, legítimos ou bastardos, já não se pode dizer o mesmo, a não ser que tenham, também eles, ficado pelo caminho.

Ora, digam lá, quem é que quer ser étimo?

«E por en tenh' eu que é mui melhor
de morrer homem mentr' lhi bem for.»
     Martim Moxa

22.11.16

Da variante africana da língua portuguesa

Na questão das variantes da língua portuguesa, começo a interrogar-me se fará sentido ensinar que há uma variante africana, designação tão genérica que pouca informação nos conseguirá dar sobre o verdadeiro resultado do contacto do português com as línguas locais.
Em territórios extensos e distantes, polvilhados de culturas diferentes, só um estado despótico poderia realizar a homogeneização da expressão dos cidadãos... Como bem sabemos, nem em todos os territórios, tradicionalmente, considerados de expressão portuguesa, há estados, democráticos ou despóticos, capazes  de assegurar a escolarização das populações...   
E mesmo que cada estado conseguisse definir uma política da língua, nunca o faria em nome de uma entidade abstrata, no caso a variante africana.
(...)
Entretanto, em Portugal, os jovens de 15 / 16 anos, que supostamente dominam a variante europeia, vão confessando, por exemplo, ao ler Ondjaki, que compreendem e falam quotidianamente a língua d' "Os Da Minha Rua"...
O que me deixa a pensar que a distante e polvilhada rua africana desagua cada vez mais nas nossas escolas, europeias e portuguesas, sem ser necessário pisar solo africano. Mas fá-lo num registo muito empobrecedor!
(...) Quanto à variante brasileira, o melhor é começar a gravar os «papos» nos centros comerciais, nos cabeleireiros, nos bares e nas fachadas dos prédios...

21.11.16

Nem sei como explicá-lo

Nem sei como explicá-lo, mas é como se o  tempo pudesse ser representado por uma casca espessa, cheia de nós cada vez mais difíceis de interpretar e, em simultâneo, por uma película tão fina que não suporta qualquer enraizamento...
Por mais que se insista que a árvore tem raízes milenares, que é necessário observar o seu crescimento e ramificação, a verdade, mesmo se provisória, é que a folha se move ao sabor da chuva e do vento, à mercê do frio e do calor.
Por um instante, a película parece ganhar consistência, mas rapidamente se perde na confusão dos dias.
Li, há uns minutos, um queixume sobre o ocaso dos amigos, e não pude deixar de pensar que a história de cada vida se assemelha ao curso da folha que já nem o rouxinol ousa travar.  

20.11.16

Impossível, hoje!

«As viagens são consideradas geralmente como sendo uma deslocação no espaço. É pouco. Uma viagem inscreve-se simultaneamente no espaço, no tempo e na hierarquia social.» Claude Lévi Strauss, Tristes Trópicos

A sucessão de lugares, a vertigem do percurso, o tempo insuficiente para encurtar a distância, como se os intervalos nada pudessem contar, apenas dourados estéreis fastidiosos - a viagem...
O espaço só ganhava consistência se houvesse um pouco mais de tempo - raro. Impossível, hoje! E quando espaço e tempo confluíam, isso significava, por um lado, mais folga financeira e, por outro lado, descoberta de desnivelamento social - de desigualdade.
Por aqui, é a bananeira que expõe um cacho de bananas contra a chuva e contra o frio, insistindo numa viagem condenada ao malogro...
Acolá, é a Fundação Calouste Gulbenkian que mostra As Linhas do Tempo que a regem, como se a viagem pudesse ser nossa (1986-1956-2016). A entrada é livre e gratuita!
O difícil é ficar indiferente à riqueza que permite este festim do gosto que inebria e que convida à viagem...
Por mim, hoje, o meu pensamento está com a bananeira...

19.11.16

Na praça José Fontana

O projeto assenta em 38 turmas. Hoje, as turmas são 42. O espaço é o mesmo - consequência: as salas vão aumentar de área, podendo, assim, aumentar o número de alunos... ou, pelo, contrário, as salas vão diminuir de área, de modo a criar gabinetes de trabalho...
Diz-se que o investimento é de 12 milhões de euros para escorar o edifício, modernizá-lo e, pelos vistos, deitar umas salas abaixo. Ou não será nada disto?
Há uns anos, o investimento era de 20 milhões para escorar o edifício, acrescentá-lo, em pisos e salas. O acréscimo não causava problema, o que incomodou muita gente foi a vintena de plátanos que insistem em florescer nos pátios...
Desconfio que daqui a uns anos, nada disto será problema. O tempo tudo cura!   

18.11.16

O Deus deste dia é brasileiro!


Para que diacho fui eu colocar-me "entre ruínas"?
Deus não perdoa! Na sua sapiência infinita, entra por este blogue e provoca-me, acusando-me de não o acolher devidamente - afinal, ele espera que eu lhe solicite ajuda...
Desconfio que o Deus deste dia é brasileiro: os pronomes não enganam (você / seu)... sem esquecer o "relacionamento".
Pessoalmente, preferia estar numa 'relação' com um Deus que me ajudasse desinteressadamente. Afinal, não sou eu que o impeço de cumprir a sua missão.

17.11.16

Por entre ruínas

«A verdade é sempre provisória.» José Fernandes Fafe, A colonização portuguesa e a emergência do Brasil, Círculo de Leitores, Temas e Debates, 2010.

Se a verdade é sempre provisória, o que dizer da mentira?
Provavelmente que, com o tempo, o que era certo deixa de o ser.
Talvez tenha sido por isso que inventaram as religiões - a melhor maneira de contrariar a ideia de que a "morte é certa"...
Dizem-me que os Estados Unidos da América prosperaram porque a religião calvinista admitia que o capital seria a chave da redenção do indivíduo...
Dizem-me, também, que o Brasil se atrasou na redenção capitalista, porque a religião católica sempre foi um entrave ao sucesso da pessoa, porque esta vivia vigiada pelo dogma de fonte divina... isto é, romana...
Por mim, que nada sei, espanta-me que, em 2017, Estados Unidos e Brasil possam vir a viver em convulsão permanente, como parecem anunciar os apelos à guarda pretoriana.

E nós, por aqui, na boca do túnel, por entre ruínas...

16.11.16

Os professores bestiais são raros!

«Basta que (...) para que, nas carteiras, os olhos adquiram outro brilho e o silêncio se torne explicitamente natural e fecundo.» Mário Dionísio
 
Já não basta que o professor se afaste do conteúdo a memorizar ou da resposta a dar!
Logo que as raízes procure explicitar, a interrupção é inevitável " mas isso é história", "mas isso é português antigo ou nem isso - latim, talvez!".
Logo que procure explicar que o nome próprio contém uma história por achar, uma responsabilidade acrescida, um sentido de pertença a não alienar, o silêncio que nunca chegou a ser desfaz-se em grunhidos e em sorrisos gulosos...
Logo que pressinta que tem que voltar a explicar que a comparação são dois termos em que a substância do segundo serve para dar conta da bestialidade do primeiro, alvoroçam-se as mochilas e vão "sa via"  / ou à sua vidinha.
(...)
Para tudo há uma explicação: - os professores bestiais são raros!
 

15.11.16

Nos 100 anos de Mário Dionísio

Para que não se construa o futuro sem memória!

Nos  100 anos de Mário Dionísio, exposição cedida pela Casa da Achada.






Esta exposição pode ser visitada até ao dia 24 de Novembro nas Caves da Escola Secundária de Camões.




14.11.16

Os campos de jogos


Abandonados há anos, os campos de jogos tiveram um custo. Qual? Ninguém quer saber.
Desaproveitados há anos, os jovens não podem exercitar-se ao ar livre, o que também tem um custo. Qual? Pouco interessa se a Higiene e Saúde são descuradas!
Ao longo dos tempos foram identificadas as razões para tal abandono. Não sei se hoje ainda são as mesmas, a verdade é que os arbustos ocupam, imperturbados, os campos de jogos... e os responsáveis dormem, também eles, o sono dos justos.
Com o decorrer dos dias, o assunto vai caindo no esquecimento, e a natureza agradece!


13.11.16

Breve

Não gosto do título "Carta aberta ao Marcelo" do Diretor do DN, Paulo Baldaia! (DN, 13.11.2016)
Embora no artigo, Paulo Baldaia se dirija sempre ao Exmo. Senhor Presidente, a familiaridade do título banaliza a função do presidente da República portuguesa...
Talvez Paulo Baldaia se tenha deixado arrastar pela imagem do presidente da República a estender roupa para as televisões na Cova da Moura...
Neste caso, Paulo Baldaia transforma o DN num jornaleco. Ao Diretor do DN exige-se mais decência...

12.11.16

Por uma escola decente!

Não sei se o senhor ministro da educação faz ideia do nível de língua dominante nas escolas portuguesas. Nem sei se tal preocupação existe... A verdade é que surgem todos os dias testemunhos da pobreza linguística em que a comunidade escolar mergulhou...
A informalidade popular assentou arraiais escorada num único pilar - o calão - linguajar universal tão banalizado que os locutores nem consciência têm do que vão papagueando. De qualquer modo, a promoção do indivíduo (que não da pessoa!) estriba-se na força ilocutória do palavrão...
Já lá vai o tempo em que se defendia uma 'escola participativa'; agora, refere-se muito a 'escola de qualidade'.
Creio, no entanto, que a escola de hoje é o lugar da indecência, da bufoneria... uma escola que aliena, porque favorece o 'indivíduo' em detrimento da 'pessoa'...
Como eu gostaria de estar enganado!

11.11.16

Lição menor

«Envio-vos como ovelhas para o meio dos lobos; sede, pois prudente como as serpentes e simples como as pombas. Tende cuidado com os homens...» São Mateus, Livro II

Embora entenda a mensagem, tenho cada vez mais dificuldade em aplicá-la, pois já não sei como distinguir as serpentes das pombas.
Por outro lado, se observarmos de perto verificaremos que pombas e serpentes se movem pelo interesse que, para simplificarmos, designamos por instinto...
Em conclusão, a prudência também nos pode defraudar.

10.11.16

Dispersei-me mais uma vez!

Dispersar: Fazer ir para diferentes partes.
Dispersão biológica: conjunto dos processos que possibilitam a fixação de indivíduos de uma espécie num local diferente daquele onde viviam os progenitores.


Hoje, fui acusado de dispersão!
Lembrei-me, de imediato, do professor e comunicador Vitorino Nemésio. Não podendo ombrear com tal referência da cultura lusófona, pus-me a pensar se a acusação não teria origem numa qualquer doença do espírito... Consultei três dicionários, um de Filosofia, outro de Psicologia e, finalmente, um de Psicanálise. Nenhum deles aborda a "dispersão" como doença mental...
Insatisfeito, ainda pensei nas recentes neurociências, mas sem resultado... até que dei comigo a magicar nos processos migratórios e, em particular, nos degredos a que foram condenados milhões de homens, mulheres e crianças na Alemanha, na URSS e na China ( ver 'Gulag'), só para me situar no séc. XX.
Neste momento, dou conta que já entrei em dispersão, embora sem vítimas, penso...
Não sei se desista, porém apercebo-me que a acusação é a expressão do desprezo absoluto do que de positivo e de negativo a História oferece - um desprezo gerado pelo sistema de ensino que, alguns, ainda designam por 'sistema educativo'...

Sem saberem, os acusadores acusaram-me de os 'querer fazer sair' do habitat em que se sentem confortáveis - a caverna da alegoria... de Platão. A minha luz está a apontar-me o dedo " não digas nada, esquece Platão, a caverna, e nunca pronuncies a palavra 'alegoria'... limita-te ao Pavlov, mas nunca o cites".

Peço desculpa! Dispersei-me mais uma vez. Vou regressar à caverna... E acabar com as hiperligações!

9.11.16

A consequência

«Quem semeia ventos, colhe tempestades.» provérbio

Acordei cedo e esbarrei na incerteza.
No entanto, o resultado já não oferecia dúvida.
E pensei: - O que é que irei dizer aos meus jovens alunos sobre o futuro determinado por estas eleições americanas?

De súbito, o provérbio esclareceu-me a resposta. Donald Trump abateu-se sobre todos nós como uma tempestade. Esta, porém, mais não é do que a consequência. De nada serve querer, agora, exorcizá-la.  
Porquê?
Porque não há consequência sem causa, ou seja, o problema foi criado por todos aqueles que, nas últimas décadas, soltaram os ventos da desigualdade e da iliteracia... ( as dinastias, as oligarquias, as plutocracias...)
Por enquanto, vou esperar que depois da tempestade surja a bonança... e que não seja necessário elevar uma forca em cada praça...

8.11.16

As eleições nos Estados Unidos

A imprudência é um comportamento que, creio, deve ser imputado à ignorância. Ora, nos países mais ricos, dominados pelas elites mais esclarecidas, servidos por tecnologias de ponta e por armamento cada vez mais sofisticado e destruidor, há cada vez mais pobres cujo acesso à escola não vai além dos rudimentos necessários à sua identificação.
Identificação que não identidade! Estes ostracizados têm em comum o desprezo absoluto pelo cosmopolitismo e pelo liberalismo, pois este encontrou meios de os marginalizar, amputando a liberdade a todos prometida...  Liberdade, em termos de sucesso individual no seio da comunidade, apenas reservada aos acumuladores de riqueza.
Aquilo a que estamos a assistir nos Estados Unidos é à destruição da democracia através da subversão total do conceito de liberdade.
Depois do acentuar das desigualdades, do colapso das doutrinas da fraternidade, laicas ou religiosas, entrámos num tempo em que, através do voto, a imprudência pode tornar-se um instrumento de terror e de caos.
A questão já não está em saber quem ganha as eleições, mas em perceber se a partir de amanhã restará de pé algum pilar do sistema democrático. Ou seja, se não iremos assistir ao enterro dos pais fundadores...   

7.11.16

Da imprudência

«Na sociedade estado-unidense reina a liberdade de culto e não há religião de Estado. Porém, com os que não professam nenhuma religião essa tolerância diminui. Porque a sociedade é fundamentalmente e esmagadoramente religiosa (desta ou daquela Igreja, desta ou daquela seita). Daí que, se um negro pode ser presidente dos Estados Unidos, um ateu ou um agnóstico... pomos dúvidas.»  José Fernandes Fafe (2010), A Colonização Portuguesa e a Emergência do Brasil, pág. 63, Temas e Debates / Círculo de Leitores.

Se, amanhã, Donald Trump ganhar as eleições, as fronteiras elevar-se-ão no interior da União. O grande império americano chegará ao fim, à semelhança do que aconteceu com a URSS.
E nós, ficaremos à mercê dos ventos da discórdia...
Por hoje, resta-me a esperança de que José Fernandes Fafe tenha razão, pois não conheço o Deus de Trump, embora pressinta que os fundamentalismos o sirvam fielmente.

6.11.16

O pai foi em viagem de negócios

Emir Kusturica nasceu a 24 de novembro de 1954, já no final do período informbiro (1948-1955), tempo em que Tito rompeu com Staline... A palavra informbiro designa o modo pelo qual os Jugoslavos se referiam ao Cominform, uma abreviação para "Secretariado  de Informações".
É dessa época que Kusturica extrai o argumento do filme "Otac na Sluzbenom Putu"  (O pai foi em viagem de negócios), realizado em 1985.
Quem nos conta a história é o pequeno Malik que, de início, acredita que a ausência do pai se deve a negócios, mas que, com o tempo, perceberá que a razão é outra. O pai, apesar de deportado pela polícia política ... foi vítima de cupidez.
Malik conta-nos, assim, a odisseia da família num cenário político de traição e convenção, em que o dinheiro acabará por ser o único valor.

5.11.16

Afinal, eu não sou geek!

Chamada de “Davos para Geeks”, a Web Summit realiza-se entre 7 e 10 de novembro no Meo Arena e Feira Internacional de Lisboa (FIL), e traz consigo vários eventos paralelos que juntarão os mais institucionais e os mais informais, em momentos de discussão, mas também de descontração, como a Night Summit e os Pub Crawls ou a Surf Summit, que arranca hoje na Ericeira.
Os bilhetes para a Web Summit custavam 900 euros cada um. Para jovens entre 16 e 23 anos, a organização vendeu ainda milhares de bilhetes promocionais a nove euros.

Afinal, eu não sou 'geek'! Estou fora do padrão de peculiaridade ou de excentricidade  que carateriza estas 'pessoas'. Tenho bem mais de 23 anos e o que ganho não me permite adquirir um bilhete por 900 euros para este evento... Provavelmente, esta minha ausência acabará por significar que eu sou qualquer coisa como 'uma não pessoa', fazendo, desde já, parte da 'peste grisalha', que não merece qualquer respeito... até porque na Web Summit pouco restará da língua portuguesa.
Há, no entanto, algo que eu posso assegurar é que, de 7 a 10 de novembro, ninguém me apanha no Parque das Nações...  

Geek (pronúncia no IPA: [ˈgiːk]) é um anglicismo e uma gíria inglesa que se refere a pessoas peculiares ou excêntricas, fãs de tecnologia, eletrônica, jogos ...

4.11.16

Ser diretivo

Depois de tanto tempo a desconstruir, decidi que, doravante, serei muito mais diretivo...
O que é que isto significa?
É simples! A construção do 'novo' círculo esgotou-se - a liberdade extravasou de tal modo que a comunicação definhou...
O anseio voltou a ser de clausura - eliminação da razão e aposta em tarefas que matem qualquer tempo de partilha construtiva...
É como se a consciência se tivesse esfumado ou a ciência tivesse perdido o sentido da sua edificação.

Ser diretivo é levar a cabo um processo de robotização.

3.11.16

Operação Zeus

Vivir a la ocasión. El governar, el discurrir, todo ha de ser al caso. Querer quando se puede, que la sazón y el tiempo a nadie aguardan. Baltasar Gracian, Oráculo manual y arte de prudencia.

Tudo leva a crer que chegámos a um ponto em que a ocasião faz o ladrão. Não há dia em que não decorra uma investigação a crimes de corrupção ativa e passiva. Desta vez, está em curso 'a operação Zeus'. Pobre Zeus!
Lá vai o tempo em que a honestidade (a honra) determinava os limites à ação humana, exigindo uma resposta rápida e adequada a cada situação, e na medida do saber e do poder de cada indivíduo.
Desprezados o saber e a honestidade, cada um deita a mão ao que pode, uns de forma discreta, outros à tripa forra.

2.11.16

A circunstância

Hay a veces entre un hombre y otro casi otra tanta distancia como entre el hombre y la bestia, si no en la substancia, en la circunstancia; si no en la vitalidad, en el ejercicio de ella.
                           Gracián, Baltasar: El discreto

A diferença não se encontra na substância, mas, sim, na circunstância. Um ditador na Venezuela, na Guiné Equatorial, na Turquia, na Síria, na Coreia do Norte, na Rússia ou a caminho da Casa Branca, não se distingue, em substância, dos condenados à morte, ao desemprego, à pobreza - à miséria, tout court.
De facto, é a circunstância que permite que uns tantos se apropriem do poder - não interessa, aqui, a sua natureza - para esmagar as restantes criaturas... E a circunstância, como se sabe, é feita de espaço e de tempo de que o ditador se vai apropriando para melhor gerir a sua bestialidade, apesar de, neste caso, a propriedade nada dever a quem carrega o peso da falta de alma...

31.10.16

Os Frutos da Terra, de Knut Hamsun

Embora haja quem o considere o autor europeu mais influente em 1920, ano em que lhe foi atribuído o prémio Nobel de Literatura, a verdade é que, até esta data, eu nunca lera nada do norueguês Knut Hamsun (1859-1952).
Acabo de ler Os Frutos da Terra (1917), romance que me foi oferecido com uma menção que me deixou perplexo - esta narrativa corresponderia ao meu rosto... Li-o, assim, na perspetiva do margrave Isak, o colono que ousou desbravar terras norueguesas inóspitas próximas da Suécia...
Esclareça-se desde já que desconhecia por inteiro o termo "margrave" e, sobretudo, que significa "título dado outrora aos príncipes soberanos de certos estados fronteiriços da Alemanha." Quanto ao título, não vejo razão para que alguém me considere "margrave", apesar de, por vezes, me sentir posto à margem, e não senhor da "margem", relembrando, agora, que um dia distante, Maria de Lurdes Pintasilgo me terá dito que toda a margem tem um centro...
De qualquer modo, li as 382 páginas em muito pouco tempo, pois a narração é suficientemente diversificada para, a partir de um núcleo - Sellanraa - se dispersar por vários caminhos que põem diante do leitor: a apologia da sociedade agrícola, a fraqueza do dinheiro, a precariedade da vida urbana e principalmente dos valores em que esta assenta, sem esquecer a fogosidade da mulher, capaz de incensar o companheiro, mas também de o desprezar e de matar os próprios filhos...
O romance termina com a vitória do modelo rural sobre a modernidade, abrindo caminho a um certo de tipo de sociedade patriarcal que tantos estragos viria a provocar na primeira metade do século XX... o que, talvez, explique a simpatia de Knut Hamsun pelo regime nazi...
Enfim, apesar de publicado em 1917, não encontrei qualquer referência à Primeira Grande Guerra. Explosões só as resultantes da extração de azurite - pedra ideal para eliminar os obstáculos que se nos atravessam na vida.

30.10.16

Uma alfarrobeira!


Uma alfarrobeira! Esta situa-se na Portela.
Há anos que a observo, um pouco surpreendido pois não vislumbro outra por perto...
O nome árabe começou por designar "vagem", depois o povo encarregou-se de misturar as línguas, por um processo bem simples... Se a árvore se distinguia pela suas vagens, nada impedia que com um prefixo árabe e um sufixo comum "eira", o compósito designasse o todo.  Nada que eu não descubra em mim próprio: nascido com algum "cabelo", logo houve quem lhe acrescentasse o sufixo "eira". Esqueceram-se, no entanto, do prefixo "al", provavelmente porque a Inquisição andava mais ocupada em acabar com os judeus...
Nada disto fará sentido. Todavia, um destes dias, a alfarrobeira interpelou-me: o cheiro que ela libertava era tão intenso que, de súbito, me ocorreu que na minha aldeia (terra de figueiras) também terá existido uma alfarrobeira... e ao cheiro associei um sabor adocicado. Só não sei onde é que crescia tal alfarrobeira! Talvez no adro da capela de Nossa Senhora da Luz!  

29.10.16

Da Biblioteca Nacional ao C.C. Vasco da Gama

Durante a manhã, entrei na Biblioteca Nacional, em Lisboa. O objetivo era ver a exposição sobre Vergílio Ferreira, nascido em 1916. Situada na "sala de referência", a exposição ocupa uma parede, não toda, porque ainda há espaço para expor o acervo traduzido de Bob Dylan, recente prémio nobel da literatura, que Vergílio bem gostaria de ter recebido... De tudo o que observei, fica-me na retina a letra miudinha do autor, homem certamente tímido e introvertido. E também a máquina fotográfica, ferramenta imprescindível ao "realismo" do escritor...
O espaço silencioso daquela sala convida a que se revisite os catálogos e por entre eles acabei por descobrir o Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1516), com inevitável alusão ao Prólogo, mas o que, desta vez, despertou a minha atenção foi o volumoso in-fólio inquisitorial, onde o Censor dá prova de atenta leitura, ao apontar de forma minuciosa as passagens que teriam de ser cortadas.
Sem querer referir todas as pequenas "celebrações", convém, no entanto, não perder a exposição Da Feliz Lusitânia à Felix Belém.
Em síntese, talvez por ser sábado, fiquei com a sensação de que a BN já terá sido um lugar mais procurado - havia 10 leitores na Sala de Leitura Principal.

Durante a tarde, desloquei-me ao Centro Comercial Vasco da Gama. O bulício era tal que cheguei a pensar que o Natal estaria à porta.

28.10.16

Na morte

Na morte, aplaudimos.
Selecionamos os lugares, as ações, os acontecimentos em que tudo foi harmonia, entrega, paixão e amor ao próximo.
Na morte, somos filhos do único deus que nos concebeu sem mácula, que proibiu as fraquezas...
Na morte, estamos todos de acordo.

Em vida, a inveja cega. O interesse esmaga. A vaidade despreza...

Na morte, batemos palmas. Não se sabe é a quem...

27.10.16

O problema de José Sócrates

Mas o que torna uma liderança carismática? Sócrates responde. “As lideranças carismáticas são, muitas vezes, um produto das crises. As pessoas revelam-se nessas alturas de crise. O carisma é sempre algo de excecional, de fora do comum. O maior inimigo do carisma é a rotina”. Em entrevista à TVI

Carisma. S.m. 1. Força divina conferida a uma pessoa mas em vista da necessidade ou utilidade da comunidade religiosa. 2. Epilepsia (v. carismático*). 3. Atribuição a outrem de qualidades especiais de liderança, derivadas de sanção divina, mágica, diabólica, ou apenas de individualidade excecional. 4. O conjunto dessas qualidades.

José Sócrates tudo faz para vender o novo livro, escrito a quatro, seis mãos...
Ataca agora António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa porque lhes falta CARISMA. Ainda bem!
Ele, sim, é um líder carismático porque soube enfrentar a crise. Será que alguém duvida do seu contributo para a solução dos problemas dos portugueses? Ele está convencido de que é nos momentos de crise que se revelam os líderes carismáticos. Eu também, acredito que a liderança pode afirmar-se nessa situação.
Só que dispenso o "carisma", pois se há alguém que se tornou «popular» e "célebre" durante e após a crise foi ele, José Sócrates. E porquê? Porque lhe faltou a necessária educação para destrinçar  o que é do interesse público do que é do interesse pessoal... e seus amigos.
O problema de José Sócrates é um problema axiológico. E já é tarde para aprender que nem todos os meios justificam os fins. Dir-se-á que Sócrates nunca leu Maquiavel ou, pior, não sabe lê-lo! 

26.10.16

Só vejo deseducação...

« In rem omnem diligentia.» Cíc. Fam.

Hiperatividade. Déficit de atenção. Estes conceitos dominam o discurso de pedagogos, psicólogos, pais e docentes.
Tempos houve que bastava a noção de desatenção. Dispersão.
Avesso a modas, fui observando os comportamentos e dei conta de que a indisciplina  se ia instalando - primeiro combateu-se a disciplina do Estado Novo, e, mais tarde, a vontade democrática passou a ordenar...
Entretanto, com a instalação do pântano democrático e o consequente desmoronamento dos valores, a hiperatividade e o déficit de atenção instalaram-se...
Quanto mim, só vejo deseducação.

Os Antigos bem sabiam que o sucesso  só  estava ao alcance de quem se concentrava totalmente no objetivo.

25.10.16

A arte e a bestialidade humana

Conhecer o território? Compreender as migrações, forçadas ou não, e o seu contributo para a dignificação, por exemplo, da mulher nas cortes do nordeste peninsular? Perceber que a cortesia ( o amor cortês) foi essencial para a elevação da condição feminina na Idade Média pouca interessa...
Afinal, em termos civilizacionais, a arte parece ser pouco mais do que um ato gratuito, fruto da ociosidade de alguns, privilegiados, ou um serviço prestado a um mecenas, ávido de glória terrena e de reconhecimento eterno.
E mesmo que assim fosse, a boçalidade reinante é tão impulsiva que falta o tempo para olhar o passado como lugar e tempo de aprendizagem... Porém, sobra tempo para dar expressão a tudo aquilo que a Arte, desde sempre, procurou combater: a bestialidade humana.

(Este apontamento assinala os hiatos em que a voz se cala para ouvir as verdades babélicas que crescem sem qualquer freio... Se as deixarmos à solta, a Torre acabará por ruir.)

24.10.16

Das palavras, hoje

Umas são caras, outras raras, sem esquecer as feias - as palavras.
Hoje, aprendi que "discípulo" é uma palavra feia.
Ontem, descobri que há palavras inefáveis, de tão raras. Por exemplo, "polissénantica"!
Há dois dias, soube que 'obsceno' é o termo adequado ao nível lexical da "oratória".
Há até palavras que mudam de fatiota de acordo com a essência do locutor: "incenscial", "icensial", "incensial"
- Que tal vai a mixórdia? Numa versão de última hora: - Que tal vai a "michórdia"?

23.10.16

No museu de Cerâmica de Sacavém


Por mais que o queiramos ignorar, a verdade é que envelhecemos, o que não quer dizer que o tempo passe e, sobretudo, que tudo possa desculpar, em particular, a mistificação.
No Museu de Cerâmica de Sacavém, duas exposições a não perder: uma sobre os móveis OLAIO, empresa que não conseguiu sobreviver aos ventos democráticos; outra sobre a Fábrica de Loiça de Sacavém, definitivamente perdida, no dia em que as FP25 assassinaram o administrador, Diamantino Bernardo Monteiro Pereira. 
A visita a estas duas exposições é um bom testemunho do que aconteceu em Portugal com o desmantelamento de muitas empresas, apesar do slogan de Abril SACAVÉM EM LIBERDADE É OUTRA LOIÇA!...