31.1.15

Nada há de essencial no que fazemos...

«Ninguém se pode recordar senão do essencial (...) Aliás, nada há de essencial no que fazemos, apesar de todas as aparências.» Soren Kierkegaard, O Banquete.

Com tantas memórias disponíveis, parece possível compor uma grande quantidade de memoriais. E são tantos os memoriais que a História deixou de dar conta deles, preferindo ceder o lugar a outras ciências da memória... Algumas tão enfadonhas que se propõem repor os fundamentos e outras tão mirabolantes que não se cansam de anunciar futuros ora risonhos ora tristonhos...

Em comum, as memórias, mesmo quando na primeira pessoa, não passam de recordação do outro, à medida do interesse presente. E como tal, as leituras, embora aparentem ser plurais, não passam de projeções pessoais...

Um destes dias, confrontado com a pergunta "se valia a pena ler o que nada diz ao leitor" (no caso, a pergunta era de um leitor de 16/17 anos, obrigado a ler Fernando Pessoa), a resposta que me ocorreu foi ambígua, pois, afinal, eu estava ali a explicar que compreender Alberto Caeiro pressupõe que sejamos capazes de percecionar o mundo com os SENTIDOS, a cada momento... e, consequentemente, a memória não passa de um produto mental...

A verdade é que quanto mais vivemos de aparências mais valorizamos a memória.


30.1.15

O Tímido e as Mulheres

Pepetela (ou a editora?) deu ao romance de 2013 um título que convoca mais a leitora do que o leitor. Por que motivo? Preconceito... Quem escreve é o escritor, mas quem lê é a ...

Heitor, ao contrário do herói da fábula grega, sob a máscara de escritor em início de carreira, vê-se enredado numa teia feminina, em que a figura materna, apesar de distante, parece condicionar a sua relação com as mulheres - Tatiana, Marisa e Orquídea.

De qualquer modo, a teia amorosa não passe de um disfarce para o escritor acertar contas com o passado e o presente. Descreve sem qualquer timidez a avidez, a cupidez e a estupidez que governam Luanda... a explosão demográfica e a consequente expansão urbana são o pasto para a desigualdade social e para a corrida ao ouro por um grupo de aventureiros sem escrúpulos...

No entanto, refém do tempo heróico dos guerreiros libertadores, Pepetela tende a desculpabilizar  os ex-militares, atirando para cima daqueles «que nunca fizeram a guerra... os bandidos urbanos» a responsabilidade pela criminalidade e pela corrupção que grassam na nova Angola...

Lá bem para trás, fica o colono «o deus, o carrasco e o patrão, tudo numa pessoa.» 

Em síntese, Pepetela continua igual a si próprio: descreve com detalhe, por vezes sádico, a vitória da mulher sobre o homem e, sobretudo, mostra-se implacável na análise sociológica da vida económica luandense. Por fim, continua como nenhum outro escritor angolano, a enriquecer a língua portuguesa com vocábulos arrancados às línguas locais: maka, mambo, múkua, moringue, kuribotas, calús, ximbeco, zunga, zungueira, kubiko, jindungo, ngombelador, caínga, bumbanço, kumbú, kamba, zongola, bumbar, xingadela, cassule, kalundú, cacussos, malambas, kimbanda, funji, balado, canhangulo, camanguista, quinda, bassulado, muata-mor, chifuta, bafómetro, njango, kubikos, komba...    

29.1.15

Tagarelice

Os tagarelas estão por todo o lado!

Liga-se a rádio, e ficamos a saber que as moscas são as culpadas das riscas das zebras, já não sei se das brancas se das pretas, sem esquecer os novos olhos da ministra das finanças, que brilham sempre que se veem num engarrafamento...
Entra-se numa sala de aula, e, apesar de sonolentos, os alunos tagarelam ininterruptamente. Nas avenidas do poder, os farsantes cavaqueiam a favor e contra, mesmo que desconheçam o problema...
A toda a hora, a televisão está ocupada por um conjunto de comadres e compadres que dissertam sobre tudo e nada.
Nas redes sociais, a cegarrega é global.

Ponto comum: Já ninguém se ouve...

28.1.15

A lição do estóico na calçada de epicuro

Um pouco de sol... por momentos, chego a rejeitá-lo, pois o excesso de nitidez conduz à cegueira.  
O resto é inverno farto de questiúnculas saudadas por medíocres elegantes de si.
(...)
Talvez pudesse torcer a frase para que a noite surja na sua transparência, mas a noite impiedosa seca o pouco de sol que ainda corre em mim.
(...)
Amanhã é outro dia, mas a noite é sem fim!

O MSR dirá: ó professor, isto é tão triste!..., e eu mais não poderei que sorrir... (a lição do estóico na calçada de epicuro) 

27.1.15

Ó senhor ministro, 20 erros de ortografia numa frase!

Ó senhor professor doutor Crato, 20 erros de ortografia numa frase! O senhor não sabe o que é uma frase, e é ministro...
Melhor seria que o senhor ministro deixasse quem sabe definir quais são as competências, os saberes e as ferramentas necessárias à formação dos docentes, em vez de nos assombrar com conceitos e critérios retrógrados.

Ó senhor ministro, há tantos sinais de analfabetismo nas nossas escolas que o senhor bem poderia autorizar que os diretores gizassem um plano para o erradicar, sem os entraves do costume... Não é por se multiplicar os testes e se apertar os critérios de avaliação que se irradia o cancro que mina o sistema educativo... 

Ó senhor ministro, 20 erros numa frase! 


26.1.15

As coligações impossíveis

Ultimamente, sinto que o ser humano está a mudar. Aquilo que outrora parecia fonte de tristeza, começou a ser deitado para  trás das costas, dando lugar a uma garridice que nada faria esperar...
Ou talvez a mudança se deva, apenas, ao desaparecimento da  censura  social que culpabilizava qualquer gesto de maior atrevimento, de maior descaramento...

Quer no plano individual quer no plano coletivo, as coligações impossíveis  serpenteiam nas avenidas da velha liberdade. Uma liberdade de chumbo!

No que me concerne, já pouco posso duvidar, pois tantas são as certezas! A não ser enfiar a cabeça dentro de água, como a personagem Lucrécio ... (Pepetela, O Tímido e as Mulheres).  

25.1.15

Liquidação...

O cliente entra no outlet de móveis. O objetivo é comprar um aparador com um mínimo de qualidade, ao mais baixo preço possível. Percorre lentamente todo o espaço de exposição, apercebendo-se de que o desconto anunciado é de 50% e que a maioria das peças apresenta defeitos de acabamento... Informa-se sobre o modo de entrega, ficando a saber que, se o cliente pagar, os móveis adquiridos serão entregues num curto prazo...
Entretanto, falara com dois ou três funcionários cujo objetivo primeiro era arrecadar o produto da venda. Aparentemente, tudo legal, apesar do outlet ocupar o espaço de uma grande cadeia de móveis falida...  

(...) Nos próximos tempos, iremos assistir à liquidação da Grécia e, de seguida, viver a nossa, caso nos deixemos levar pela irracionalidade romântica.
  

24.1.15

Nem Atenas nem Berlim!

A não ser que queiramos sangue nas ruas, o nosso destino está nas nossas mãos.

A solução grega é irrealista porque os dirigentes do Syriza não terão com quem negociar se a vitória, amanhã, lhes sorrir. Neste caso, não espero que os vencedores decidam capitular e por isso o caminho para a violência abrir-se-á, e as comportas abrir-se-ão ao tumulto incontrolável... a não ser pela força.

A solução alemã mais não traz do que a depuração dos povos do Sul da Europa. Esta está em curso há vários anos através da ditadura do euro. E nem a recente decisão de Mário Draghi de bombear €60 mil milhões por mês sobre a Europa porá termo à "limpeza", porque, afinal, 80% dos custos ficarão a cargo dos bancos centrais de cada país, o que, para Portugal, significa uma nova forma de nos afogar. 

Como tal, as próximas eleições portuguesas são decisivas para o nosso destino, no sentido em que precisamos de uma liderança que não opte nem pelo servilismo nem pela terra queimada.

23.1.15

À escuta

Há escutas sobre a vida interna do PS. O juiz mandou selá-las...
À boleia das trapalhadas do José Sócrates, os vampiros deliciaram-se a gravar todas as conversas de modo a caçá-lo...
Agora, as escutas seladas estão à ordem do tribunal dentro de um envelope... Por quanto tempo?

Será que também há escutas sobre a vida interna dos restantes partidos? Sobre as igrejas? Sobre os clubes desportivos? Sobre as empresas? Sobre qualquer cidadão?

Vivemos num estado totalitário em que tudo o que dizemos está sob escuta e pode ser utilizado contra nós...

Restam-nos os Gregos, convictos de que o voto democrático pode mudar a Europa, mas enganam-se redondamente. Pouco falta para mergulharem numa guerra intestina que acabará por dissolver-lhes o orgulho de terem sido o berço da civilização europeia..

22.1.15

O escritor Antônio Torres na ESCAMÕES

O escritor brasileiro bahiano Antônio Torres, convidado da Casa da América Latina para um encontro literário sobre as "Relações Transatlânticas", antecipou, perante uma plateia de jovens atentos e um pouco tímidos, o teor da palestra que iria proferir ao fim da tarde de hoje...
Refira-se que, apesar da sua obra não estar à venda em Portugal, Antônio Torres deixou no auditório o desejo de ler algumas das suas obras, designadamente, Os Homens dos Pés Redondos. Este romance, na verdade, nasceu aqui, em Lisboa, na Praça de Londres, no dia 25 de Junho de 1965, data da chegada a Portugal, onde acabou por viver e trabalhar três anos, na área da publicidade. Este livro regista o olhar de um jovem brasileiro sobre um povo envelhecido e acabrunhado, prisioneiro de um espaço concentracionário.
De entre a vasta obra, Antônio Torres abordou os temas de fundo autobiográfico e, sobretudo, histórico presentes em Um Cão Uivando para a Lua, Essa Terra ( hoje, considerada uma obra-prima), O Cachorro e o Lobo, Meu Querido Canibal, O Nobre Sequestrador...
Sem descurar a explicação do trabalho ficcional e das relações do Brasil com a Europa do século XVI (Portugal e França), o entusiasmo do escritor foi evidente sempre que se referiu aos amigos que foi fazendo em Portugal ao longo de 50 anos, em particular Alexandre O'Neill, que o acolheu durante quatro meses em sua casa no nº 23 da Rua da Saudade, com a simples exigência de que ele se dedicasse à escrita... Entre os amigos referiu também Manuel Marcelino, Hélder Costa, Ary dos Santos, José Saramago, Lídia Jorge e, finalmente, mostrou grande agrado pela escrita da romancista Teolinda Gersão...
Em termos pedagógicos, valorizou a importância dos professores que, através da estratégia de leitura em voz alta, permitem que o jovem tome consciência da língua, em termos lexicais e sintáticos. E ainda, literária e pedagogicamente, foi visível o seu fascínio pela Carta de Pêro Vaz de Caminha sobre «o achamento do Brasil» e, pelos brasileiros José Alencar, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto...

A saudação, o enquadramento e a apresentação do escritor estiveram a cargo do diretor João Jaime Pires Antunes, da coordenadora da programação científica e cultural da Casa da América Latina, Maria Xavier, e da professora Dulce Silva, Coordenadora do Departamento de Estudos Portugueses.

Em conclusão, foi um colóquio muito inspirador só possível graças à iniciativa do professor José Esteves.

21.1.15

A hipotermia e os genéricos

Neste mês de Janeiro, a hipotermia tem me dado que pensar. Bem sei que a literatura médica defende que os velhos e as crianças são quem está mais atreito a sofrer com a súbita descida da temperatura corporal.
Compreendo que quem viva em lugares frios ou tenha caído, por exemplo, ao mar possa correr risco de vida. O mais difícil de entender é o caso daqueles, que não saindo de casa e beneficiando de uma temperatura doméstica moderada ou mesmo sobreaquecida, acabam por ver baixar a temperatura a níveis próximos dos 33 graus ou menos.

Ora, de ontem para hoje, descobri que os medicamentos que estes pacientes tomam podem ser um poderoso fator de hipotermia, sobretudo se se tratar de genéricos.

Não sendo médico nem farmacêutico, falta-me o conhecimento para fundamentar a minha suspeita, apesar de fonte médica ter confirmado que há genéricos que são extremamente perigosos, podendo levar à morte.
O que, no entanto, não me falta é a perceção de que o negócio do medicamento é extremamente lesivo da saúde pessoal e pública. 

Finalmente, nesta quadra de invernia, a Linha de Saúde 24 é uma amiga insubstituível. Imagine-se que, depois de uma longa espera, de um minucioso questionário de controlo feito ao paciente em estado de hipotermia (e de pânico!!!), o conselho chegou: agasalhe-se, beba leite e vá pelo seu pé até à urgência do Hospital de S. José...

20.1.15

Ouvido discreto

O desencanto parece vir com o tempo invernoso, mas este pouco terá que ver com a frustração das expectativas. 
Problema maior ainda desponta quando temos que enfrentar indivíduos cujos anseios não vão além da satisfação imediata de apetites primários. Isto é, há cada vez mais pessoas para quem o conhecimento é uma maçada, que preferem a linearidade do pensamento à indagação reflexiva.
Por outro lado, encontramos a cada passo quem, em vez de assumir responsavelmente as funções que lhe estão atribuídas, prefere delegar no outro...

... o outro existe para nos servir! Afinal, sempre foi assim ...

Razão tem Pessoa: Quem vê é só o que vê / Quem sente não é quem é.   

19.1.15

A sátira pode perder a razão?

No início, a palavra "sátira" significava mistura. Entre o século III antes de Cristo e o século V da nossa era, designava uma peça de teatro que misturava a prosa e o verso, e que fazia crítica de costumes...

Nesta perspetiva, a sátira foi um dos primeiros híbridos que procurou desbloquear, através do riso, conflitos passionais, religiosos, políticos, sociais...
O problema agrava-se sempre quando, face a face, se encontram aqueles que já perderam toda a vontade de rir. E eles são muitos!

Num mundo em que a laicidade se apresenta como guardiã da liberdade de expressão, acantonando o cristianismo, o islamismo, de forma ostensiva ou velada, ao não separar o poder religioso do poder secular, acaba por nos fazer sentir que a sátira pode ser muito perigosa para o futuro da humanidade.

Por outro lado, a vontade de rir também está a diminuir entre os "infiéis", levando-os a, estratégica ou mercenariamente, aderir a movimentos que utilizam a religião como arma de arremesso...

É por tudo isto que eu penso que o melhor é deixar Maomé em paz...

18.1.15

Discordo do senhor Cameron

«O primeiro-ministro britânico defendeu este domingo que numa sociedade livre existe o direito de "ser ofensivo com a religião dos outros", discordando com os limites da liberdade de expressão defendidos pelo Papa Francisco.»

Na sequência da afirmação do senhor Cameron, os professores da escola multicultural inglesa devem estar-lhe gratos...

Doravante, qualquer aluno poderá citar o primeiro-ministro para justificar comportamentos ofensivos.

Quanto a educação, fica tudo dito!

17.1.15

E se o «botas» tivesse sido preso?

Pouco provável, não é?
Lembrei-me dele a propósito da notícia de que José Sócrates luta com os serviços prisionais por causa de um par de botas... É triste!
Num país em que estão a morrer cerca de 500 pessoas por dia, em que há centenas de milhar sem emprego, em que todos dias cresce a precariedade, em que o BES, a PT e a TAP são desmantelados ou entregues a vampiros  ... é triste que as botas de Sócrates, a namorada de Cristiano Ronaldo possam ser notícia...
Somos um país de tristes, de botas e de namoradas.

16.1.15

O desenho não mata, mas pode ajudar!

De acordo, os desenhos não matam!
No entanto, todos sabemos que os desenhos são essenciais na construção e na destruição. Embora não saibamos quem desenhou a natureza, e muitos sintam necessidade de atribuir essa ação a um Deus - o CRIADOR -, todos aceitamos que o homem, arquiteto civilizacional, não pode prescindir do desenho. Sem ele, não teríamos nem cidades nem armas...
O desenho é uma ferramenta essencial para o Bem e para o Mal.

Por outro lado, defender que o desenho não mata, pois isso limitaria a liberdade de ofender, é absurdo. 
O argumento é simultaneamente sedutor e perigoso. Lembra-me Carolino, o "Bexiguinha", no romance APARIÇÃO, de Vergílio Ferreira:

- «Os senhores julgam que eu sou um trouxa, todos vocês julgam que eu sou para aqui uma trampa. Mas enganam-se, mas enganam-se, sou um homem, sou eu! Eu posso!Eu, se quiser... Tenho o mundo nas mãos, até a cidade, até uma cidade, podia deitar fogo à cidade, podia... Eu sou eu! Tenho estas mãos.... 
E ergui-as, de dedos estranguladores.
- Tenho-me a mim, não sou um monte de esterco, sou um homem livre, posso, que são vocês mais do que eu?
(...)
- Eu sou um homem! - gritou outra vez. - Sei o que quero. Sou livre, sou grande, tenho em mim um poder imenso. Imenso como Deus. Ele construía. Eu posso destruir

15.1.15

As salsichas não pensam!

Em primeiro lugar, pegue numa bela tripa, de preferência natural e estanque, e coloque-a sobre a mesa de montagem.
Em segundo lugar, confecione um preparado das melhores carnes alentejanas, esburgadas de peles, de ossos e  de cartilagens, deixando-as a marinar num molho de vinho, dente de alho e colorau, sem esquecer uma pitada de sal e de paprika, durante 90 minutos.
Em terceiro lugar, quando a marinada começar a cachoar, filtre-a de modo a eliminar todo o líquido. Nesta fase, convém que o guloso salsicheiro não se deixe inebriar...
Em quarto lugar, encha a bela tripa com o preparado, tendo a preocupação de respeitar a norma europeia que determina a medida e o peso. 
Advertência: a arte da salsicharia exige que o salsicheiro esteja devidamente habilitado e certificado em leitura, pesagem, contagem e etiquetagem.
Finalmente, leve a salsicha a exame, exigindo-lhe, entre outras tarefas menos nobres, que, em 20 minutos, redija um texto argumentativo que definitivamente irradie a fome no mundo...

À hora universal, a salsicha senta-se, olha o salsicheiro e pergunta-lhe: - Que mais queres de mim?  

14.1.15

Parece que chegou o momento de calar...

Há tempo para calar e há tempo para falar...
Parece que chegou o momento de calar....Com tanta gente a falar, de que serve questionar a hipocrisia, a vaidade e a sobranceria?

A insanidade alastra e mata, em vez de incendiar, a faúlha - na linguagem minhota, a 'caruma seca'.

13.1.15

Nem São Marcos nem São Mateus

São Marcos: Jesus falava como autoridade e não como os escribas. E para surpresa de todos, libertou o seu interlocutor dos "espíritos impuros"
São Mateus: É necessário experimentar a morte para subir à glória...

Por razões que não são de interesse público, tive de ouvir, neste fim de tarde, a defesa destas duas ideias, em que Cristo surge como protagonista.
Apesar de tal pensamento me parecer extremamente perigoso, nada pude opor, pois, neste tipo de cerimónia, o participante não tem o direito de questionar ou de refutar. O participante apenas pode responder ritualmente!

Esta liturgia assenta numa doutrina dogmática que impõe a obediência cega à Autoridade e, sobretudo, legitima a morte própria ou alheia como escada celestial...

Afinal, o que é que distingue o pensamento cristão do pensamento islâmico?

12.1.15

Era domingo...

Era domingo, os olhos do mundo sobre Paris e eu, que nada sou, percorria Lisboa: uma cidade quase deserta, a sair da neblina, fotografada por uns tantos forasteiros... Um pequeno grupo de nativos esperava que o cicerone desse início à visita, atrasada pela cunhada vá lá saber-se porquê... talvez ela preferisse as imagens de Paris...
Entretanto, enquanto observava os céus e os jardins de Lisboa, eu ia pensando que o fervor dominical não faz qualquer sentido se, no dia seguinte, tudo continua na mesma...
Ainda pensei que a minha descrença era inútil e até infantil, mas, hoje, segunda-feira, verifiquei que a matança continua um pouco por toda a parte...

Na Nigéria, as crianças são utilizadas como "explosivos"! Quem é que corre para lá?

11.1.15

Os governantes correm para a arena...

A notícia entusiasma de tal modo os poderosos que eles correm para a arena, assemelhando-se a um grupo de delinquentes. Abraçam-se, beijam-se, dão pancadinhas nas costas... 
Oficialmente solidários, percorrem a avenida, separados da turba e, amanhã, tomarão decisões como ontem...

Senhores das comunicações, dos exércitos e das polícias fazem juras de que o amanhã será mais seguro, fazendo de conta de que nada têm a ver com o mundo em que cada vez há mais seres a viver em condições infra-humanas.

(...) E os pequenos correm, também, procurando juntar-se aos grandes, mesmo se na  notícia não passam do rodapé.

Estas palavras podem parecer ácidas e pouco solidárias com as vítimas. Creio, no entanto, que os humoristas assassinados bem dispensariam a companhia de todos aqueles que se servem do humor em causa própria.

10.1.15

O que é que os faz correr?

Amanhã, vão estar todos em Paris. Solidários!
Mas com quem?

A União Europeia, nos últimos anos, ao promover as desigualdades, em nome do rigor orçamental, mais não fez do que favorecer comportamentos discriminatórios, esperando que as vítimas se resignem...
Mas esse tempo já lá vai! 

Chegou o dia em que não só os grupos organizados, em nome de um qualquer ídolo, mas também os descamisados quererão fazer "justiça" pelas próprias mãos.
A anarquia está a caminho. Talvez seja por isso que os nossos governantes correm para Paris...

9.1.15

Em meu nome, não!

Qualquer que seja o nome de Deus, ele só poderá dizer: - Em meu nome, não!
Há muito que Deus deixou de ser um assunto pessoal, pois o homem não descansou enquanto não o institucionalizou... Deus tornou-se Igreja, e, como tal, passou a ser foco de DISCÓRDIA...
Foco de DISCRIMINAÇÃO!
(...) 
É assim que a DISCRIMINAÇÃO é o maior agente de violência. Com Deus ou sem Deus, vivemos um tempo em que a discriminação assentou arraiais, atropelando os mais elementares direitos humanos, por isso não espanta que a VIOLÊNCIA cresça diariamente.
É fácil e justo condenar os autores dos recentes e noticiados atos de violência, em França, mas, nos últimos dias, a violência dizimou milhares de seres indefesos, sem que tal tenha causado o mesmo fervor mediático...
Enquanto não percebermos e combatermos este tipo de discriminação, ninguém está livre de se encontrar do outro lado da barricada e de entrar na galeria dos «terroristas», dos «bárbaros», dos «assassinos», por ora em nome de Deus...
Não esqueçamos que todos temos as mãos sujas de sangue!

Em meu nome, não! Em nosso nome, não! Em nome do homem, não!  

8.1.15

Nesta sala, não acontece nada

Aquilino Ribeiro
Nesta sala, não acontece nada. Às quintas-feiras, entre as 14h15 e as 15h00, não acontece nada. Na verdade, ainda hoje não aconteceu nada, a não ser aquela ideia de que andam por aí a repetir que Fernando Pessoa sofria de fragmentação, como se ele tivesse escrito
                                                     
EU SOU UM FRAGMENTO
Embora ele tenha explicado, ninguém quer entender a importância do SER EVADIDO... da necessidade que ele teve de fugir de qualquer CADEIA que o impedisse de SER.
Porque SER não é PODER, nem TER, nem PERTENCER... é VIVER a valer, isto é, é SENTIR, nem que seja apenas com os olhos, porque todos os outros sentidos aprisionam, imobilizam, interditam o SONHO e o DESEJO...
(...)
Na LÍNGUA, o Poeta ganha o que o Rebanho vai perdendo na VIAGEM. A LÍNGUA É O SEU PAÍS...

Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!
(...)

Nesta sala, não acontece nada...

7.1.15

A iniquidade alastra…

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O frio é severo, mas tal parece não incomodar o homem que dorme(?)sob uns trapos que não o cobrem por completo. Entretanto, o longe desperta sentimentos de comiseração…

Um destes dias, despertaremos sob a metralha não dos deuses mas dos homens que, hoje, desprezamos.

É triste!

6.1.15

O MEC, o IAVE e o Conselho Científico

«Em nenhum momento a PACC avalia aquilo que é essencial: a competência dos professores candidatos para esta função. De acordo com o modelo dado a conhecer, a prova limita-se apenas a avaliar a competência escrita, a capacidade dos candidatos de se expressarem em relação a conhecimentos sobre determinado assunto/tema, e de solucionar alguns problemas básicos do raciocínio lógico. Como foi apontado nas análises a que foi submetida aquando da sua realização, esta prova poderia ser realizada por qualquer profissional, de qualquer área, com formação superior ou até secundária, algo que, evidentemente, jamais os tornaria aptos para a docência.»
Parecer do Conselho Científico do IAVE sobre a prova de acesso à carreira docente - PAAC (Nov.2014)

O IAVE acusa o seu conselho científico de fazer política. Pode parecer absurdo, mas não. O Ministério da Educação e Ciência delegou o trabalho sujo no IAVE.
Há muito que o MEC deixou de se preocupar com a formação de professores. Limita-se a homologar planos de estudos, públicos, privados e confessionais.
Na verdade, cada instituição formadora faz o que lhe apetece e como tal não me admira que em tempo de austeridade aumente assustadoramente o número de habilitados para a docência.
Incapaz de definir um plano de formação nacional que dê resposta aos desafios da contemporaneidade, o MEC recorre ao IAVE para esconder a incompetência que o mina desde que a educação foi entregue aos carreiristas "políticos".

PS. Espero que o Conselho Científico já tenha apresentado a demissão!
.....
No respeito pelo contraditório, cito a posição do MEC:

"A PACC não é uma iniciativa isolada, mas sim parte fundamental de um conjunto de medidas tomadas pelo Ministério da Educação e Ciência para melhorar progressivamente a qualidade da docência, que é componente central do sistema educativo. Entre outras medidas contam-se a obrigatoriedade de realização de exames de Português e de Matemática para admissão aos cursos de licenciatura de Educação Básica e o reforço curricular das condições de habilitação para a docência", defendeu a tutela, na nota enviada à Lusa.

- Não há medida para Nuno Crato que não passe por um exame encomendado ao IAVE.


5.1.15

Era madrugada, tocou o telefone

Era madrugada, tocou o telefone. 
No dia anterior, fizeras anos. Acamada, ainda procuraste saborear o bolo, só que este enrolava-se na boca, o chá não ajudava... Terminada a visita, procurei não pensar no dia seguinte - na verdade, desde 7 de dezembro de 2005 que perdera a vontade de pensar no dia seguinte...
Era madrugada, tocou o telefone. O Sol seguiu o seu curso, embora não me lembre da sua luz. Só o silêncio me confortava...
E ainda hoje, procuro no silêncio a solidão que me resta... Lá fora, o Sol resplandece, mas não aquece. 

4.1.15

Como se fosse sábado...

Hoje é domingo e não fui à igreja - fui ontem encomendar uma missa, eu que não sei o que é a fé -  e, de súbito, moço de recados, compreendo que a vida pouco mais é que esse mango.
Voltei a caminhar, embora mais moderadamente, sempre com um objetivo intermédio e útil. Pelo caminho fui fazendo compras, lendo o DN e, a certo momento, cheguei mesmo a sentar-me num banco a apanhar sol.
Das notícias nada extraí de significativo: uns tantos acidentes, um novo cardeal, um país que deixou de investir na ciência e que desmantela o serviço nacional de saúde, um presidente que, depois de, enquanto primeiro-ministro, ter desmantelado a agricultura, as pescas e a indústria, agora, apela aos de sempre que se unam para defender os interesses instalados... 
Como se fosse sábado, adiei para amanhã a preparação do regresso às aulas, sabendo, no entanto, que o moço de recados pouco tempo terá para tal mango...
Tal como ontem, hoje roubo a Pepetela o termo mango, até porque continuo a ler o romance, publicado, em 2013, O Tímido e as Mulheres... uma obra em que Pepetela deixou claramente de servir o senhor de Luanda, não se acanhando de expor os meandros da corrupção angolana e sobretudo de explorar o erotismo até a um ponto em que começa a retratar a mulher como manipuladora cruel do desejo do macho...
Por outro lado, o autor da Geração da Utopia, vai revelando uma faceta cada vez mais caustica: «devemos sempre seguir para a frente, abandonar as ideias inalcançáveis e lutar apenas pelo possível, a busca da utopia tem feito muito mal ao mundo...»
   

3.1.15

Como se fosse domingo...

Hoje é sábado, mas em duas situações despedi-me do interlocutor como se fosse domingo. Dei comigo a pensar na razão da turvação, mas não encontrei, a não ser o cansaço resultante de uma caminhada de duas horas... 
Atravessei o Vale do Silêncio, primeiro percorrendo a pista reservada a velocípedes, depois escolhi um percurso paralelo apesar de não haver ciclista à vista. Entretanto, ia pensando que talvez devesse ter pegado na bicicleta abandonada há imenso tempo na garagem...
Frente à Igreja, não pude deixar de pensar que, nestes dias, a Morte vai ceifando os mais frágeis e já no regresso não pude deixar de observar o longo cortejo funerário e, a certa altura, imobilizei-me, pois um cão corria velozmente por fora como se não pudesse separar-se do dono...
(...)
Por entre espreitadelas aos amigos do facebook, não pude deixar de pensar que há aqueles que partem sem aviso prévio, como se em determinado momento a Morte os tivesse ceifado e, por outro lado, há os que ali descarregam tudo o que mexe com eles... alguns com humor, outros com um mau gosto "abundoso"...
Acabo de roubar o adjetivo "abundoso" a Pepetela. Encontreio-o no romance O Tímido e as Mulheres.
Da leitura em curso, não posso deixar de referir o fascínio de Pepetela pelos antropónimos gregos. Heitor está de volta e desta vez foi às compras: «Escolheu duas mangueiras, por causa da sombra além da fruta, um abacateiro e uma figueira, árvore que no sul se chama amendoeira.»
  
Se as memórias de gregos já não me surpreendem, não posso deixar de pensar que confundir uma figueira com uma amendoeira é pouco razoável, a não ser que o processo mental seja o mesmo que me levou a despedir-me do meu interlocutor como se hoje fosse domingo...

2.1.15

Prende-se para provar!

Pior do que a incompreensão só a intolerância.
Não sei quanto tempo é necessário para elaborar uma acusação, mas desconfio que, em certos casos, o que se procura, depois de toda a louça escaqueirada, é encontrar um bode expiatório...
Para o imperador era inaceitável que as manas Justa e Rufina  não celebrassem Adónis.
A história do martírio é antiga e, hoje, está quase esquecida. 

Por coincidência de registo, acabo de ouvir as respostas de José Sócrates às perguntas da TVI.


O enunciado que mais chama a minha atenção é o seguinte: PRENDE-SE PARA PROVAR. Se assim é, isso significa que a ação do ministério público em nada se distingue dos métodos da PIDE.

E perante as forças em presença, parece-me que o amigo é que acabará por ser imolado. E porquê? 
Talvez Adónis tenha consigo a resposta...

1.1.15

Do varandim ao ocaso...

«De maneira que Rossélio quando percebeu que nunca alcançariam o Maria Speranza, nem Shandenoor, nem regressariam a Carvangel, e também não se importou.»

O ocaso é isso mesmo: é ficar ou diluir-se! Mas a decisão não é da personagem nem mesmo do autor ao encerrar a narrativa. A decisão só pode ser do leitor...Só ele pode regressar ao varandim implodido por um grupo de anarquistas. Só ele pode regressar a Carvangel ou esperar pelo Maria Speranza...
Sem leitor, não há esperança nem imaginação que dê conta do desempenho literário de Mário de Carvalho: da sua capacidade de inventar territórios, de povoá-los, de enredar os seus habitantes em intrigas absurdas, de lhes narrar as aspirações e as desilusões e, sobretudo, de lhes imaginar uma língua, por vezes, desconcertante mas verosímil...
Eu, por mim, espero  voltar a Carvangel nem que seja para entrevistar o príncipe dos mabecos...

Mário de Carvalho, O varandim seguido de Ocaso em Carvangel, Porto editora, 2012.

Chegou 2015...

2015 chegou e eu ainda não conclui a leitura de Ocaso em Carvangel, de Mário de Carvalho. Faltam apenas 11 páginas... a leitura continua lenta, pois o autor, não contente por inventar territórios, animais fantásticos e percursos insólitos, desatou a confecionar palavras que, a cada passo, questionam a minha ignorância lexical. Consulto o dicionário, consulte o google e nada - a única referência é o próprio MdeC.
Provavelmente, o que acabo de escrever não passa de desculpa esfarrapada. Pressinto que o adiamento resulta de uma tentativa de evitar o OCASO...
A noite foi de circo e de magia na TV5 e o OCASO, cruel, foi colocado de lado. E já hoje foi trocado por uma passeata por ruas desertas, sob um sol luminoso, incapaz de, por si, pôr termo ao frio que persiste por dentro e por fora dos mais afoitos...
À exceção daquele transeunte que, inopinadamente, pergunta: - Está algum aberto? E de súbito, respondi: - Ali, em baixo, volte à esquerda...
Este amigo não quer saber do OCASO, nem do sol luminoso, basta-lhe um bagaço ou, talvez, uma série deles...
O melhor é ficar por aqui e não arranjar mais desculpas para não terminar o que comecei em 2014...