31.8.17

Sempre há homens muito pequeninos!

Em Portugal, a piada é tão importante como o Futebol e muito mais importante do que o Fado ou do que Fátima.
Não resisto à piada do atual presidente da República sobre o anterior, a pretexto de não querer comentar a piada cavaquista - são tão inteligentes, as piadas, que nem me dou ao trabalho das citar... Numa coisa, o Aníbal foi profeta: a censura já começou a riscar...
Marcelo acaba de se autocensurar ao garantir que não vai dizer piadas sobre o próximo presidente, logo ele que, a esta hora, já anda em campanha para assegurar o próximo mandato...

Não estivesse eu acabar a leitura de "Le sursis" de Jean-Paul Sartre, e talvez me preocupasse com a pobreza inteletual portuguesa, só que o romancista encarregou-se de me revelar que a estupidez é intemporal e é quem comanda a decisão política, dando, deste modo, expressão à ideia popular de que "o homem é do tamanho do seu sonho", pois, infelizmente, a maioria dos sonhos vira pesadelo...
Isto sempre há homens muito pequeninos!

30.8.17

A realidade vive bem sem ideias...

O ex-Presidente da República Cavaco Silva defendeu hoje que, na zona euro, "a realidade acaba sempre por derrotar a ideologia" e os que, nos governos, querem realizar a revolução socialista "acabam por perder o pio ou fingem que piam".

Não esperou por uma qualquer sexta-feira nem esperou vinte e um anos, regressou simplesmente. O morto-vivo, afinal, ainda respira. 
Nem sequer esperou pela rentrée. Veio dar uma aula de ajuste de contas neste final de agosto, marcado por incêndios que, em grande parte, resultam da política de desertificação que sempre incrementou e tolerou...
Um pouco de autocrítica ficava-lhe bem ou, pelo menos, algum arrependimento que nem necessitaria de ser público...

Quanto à lição, ela é reveladora de como se pode governar sem ideias. Nem Salazar teria ido tão longe. Salazar procurou construir uma ideologia, conseguindo, infelizmente, muitos adeptos. Cavaco, não, embora insista em perpetuar a sua corte.
Não compreendo porque é que Cavaco teme o regresso da Censura. A Censura sempre combateu a dissidência, sempre vigiou as «ideias». Ora, para o Professor, a "realidade" vive bem sem ideias... Divertida, malgré tout, é aquela ideia de que a classe política é constituída por mochos, corujas .... Ele lembra-me um morcego que esvoaça, esvoaça...

29.8.17

Na guerra em espera...

Na guerra em espera há mísseis apontados a Lisboa pelos russos. Fonte: Presidente da Lituânia. Não sei se a fonte é fiável!
No entanto, importa conhecer a reação do Estado português e, sobretudo, quais são as medidas que estão a ser tomadas para proteger a população portuguesa...
Bem sei que, pelo meio, há a notícia dos mísseis norte-coreanos que vão pondo em sobressalto os japoneses, mas, em matéria de ogivas nucleares, é bom não esquecer os russos, os chineses, os americanos, os israelitas, os iranianos, os indianos, os paquistaneses e outros...
Quanto à União Europeia, desconfio que a sua capacidade de defesa é nula, o que não admira, pois a cultura ocidental nunca se libertou da sua fantasiosa superioridade inteletual e tecnológica.
Neste contexto, Portugal continua embrenhado em questiúnculas que só visam satisfazer o interesse de cada protagonista de ocasião...
Por mim, só gostaria de saber porque é que os russos ainda pensam no território português. Quanto ao perigo norte-coreano, estou menos preocupado, pois consta que ainda há por cá muitos amigos da Coreia do Norte.
Em síntese, quando a guerra deixar de estar em espera, tudo será muito diferente, e certamente definitivo - e aí o tempo de agonia será um factor a não descurar.

28.8.17

A figura de referência

Ao lado, tenho um caixote de lixo que é figura de referência para a Sammy. Sempre que a hora "gourmet" se aproxima, ela enfia a cabeça no caixote e ameaça devorar todo o tipo de plástico ou de papel que ele contenha... o combate é diário, mas ela não desiste, chegando ao ponto de pisar o teclado do portátil... Neste momento, perfila-se a meu lado, atacando todo o tipo de objetos que eu considere intocáveis...
Com esta gata, apuro diariamente a paciência para que dela possa dispor sempre que entro numa sala de aula, pois os pedagogos insistem que o professor só é figura de referência se for capaz de ouvir os jovens, apoiando-os em todas as suas ansiedades e dificuldades...
Há, todavia, um problema: o tempo necessário à gestão da relação e da instrução.
Com a Sammy não há problema, pois a aprendizagem não a preocupa. Pelo contrário, ela insiste na rotina desde que a hora "gourmet" seja respeitada.
Já lá vai o tempo em que, também, eu fui figura de referência, embora o que tinha a transmitir caísse facilmente no caixote do lixo... e depois há a memória ou a falta dela... De quem? De todos, menos da Sammy que está a sentir-se traída...

27.8.17

O sentido de Estado de Passos Coelho

Hay un término usado en múltiples ocasiones: Sentido de Estado, y me preocupa porque no sé muy bien qué significa y si disponer de, al parecer, tan apreciado don te convierte en mejor ciudadano, en alguien que desde su altura de miras pone el beneficio de todos por encima de sus intereses partidarios o de otro tipo. Tampoco sé si se nace con esa cualidad o cómo se puede adquirir o si hay que ser político para poseerla.  

O presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, afirmou hoje que nem uma tragédia como a de Pedrógão Grande deu sentido de Estado e seriedade política ao primeiro-ministro.

Usualmente, quando um político vai a enterrar, os comparsas, para se verem livre dele, proclamam aos quatro ventos que o finado sempre agiu com sentido de Estado...
O que me preocupa é que Passos Coelho acaba de nos informar que António Costa é mau cidadão, pois utiliza os recursos do Estado em seu favor e dos seus correligionários, e que já terá nascido sem tal qualidade... ao contrário dele, Passos Coelho, que continua  a servir zelosamente a Pátria - um homem incapaz de sacrificar os cidadãos e de vender as joias da coroa por tuta-e-meia...

(Esta reflexão não estava na agenda, mas o PPC não sabe sequer fingir que tem sentido de Estado...)

Um escritor ignorado

Curioso, consultei o sítio "escritores online" e, enfim, a lista é longa, mas falta lá o (António) Silva Carvalho.
Porque será?
Desprendimento do próprio? Mesquinhez da Academia? Inveja dos confrades?
Não tenho resposta, porém creio que a obra publicada merece muito mais atenção, a não ser que...

Silva Carvalho

escritores online

26.8.17

Um sapo noctívago


De noite.
Poucas são as pessoas que ousam passear nas ruas desertas - a maioria prefere confraternizar em torno dos canais vendidos pela MEO (satélite)...
 Apenas um sapo se dirige da relva para o passeio. Provavelmente, confia no temor humano para atravessar o largo na direção de um caneiro vizinho.
Só que vê interrompida a marcha, pois há sempre quem considere que um sapo não sabe defender-se. Lá regressa ao relvado, não sei se contrariado.
Não consigo descortinar se este sapo tem família, se vive mesmo ao lado da Escola EB2,3...se foge de algum lago da Unidade de Saúde Familiar...
O facto é que o futuro deste sapo preocupa-me, pois se quiser chegar ao caneiro terá de atravessar a Avenida dos Combatentes, mesmo se estes já forem Antigos...
A ideia de que a USF pudesse ter um lago é absurda, pois se ela nem médicos assegura. Alguém a mandou construir e depois se veria... Eu, pelo menos, nunca lá vi ninguém...
Tudo o que aqui possa escrever é também absurdo, mas estou a tentar ignorar aqueles políticos que nos vão matando o futuro e desapossando do passado... Entretanto, vou continuar a leitura de Le Sursis de Jean-Paul Sartre:
«Gomez, dit Sarah, sais-tu ce que j'ai compris, ces derniers temps: c'est que les hommes sont méchants.
Gomez haussa les épaules:
- Ils ne sont ni bons ni méchants. Chacun suit son intérêt


25.8.17

Maré baixa

Fixo-me. Há aqui de tudo.
Pode parecer insuficiente, mas creio que, se alterar o ponto de vista, perderei o sossego.
Aqui posso fechar os olhos e voltar a abri-los sem que nada se altere.
Faltam poucos dias para que a maré suba e, quando ela chegar, deixarei de poder cerrar os olhos, porque nunca se sabe quando os gambozinos nos fazem perder o pé.
Aqui, até parece que o tempo se imobilizou...

24.8.17

Estórias incompletas

Eis o que sobra de um hotel dos anos 50/60, nunca concluído. O proprietário, embora não visasse chegar ao Céu, queria simplesmente ver o Atlântico.
Segundo o que me contaram, faltam 7 metros. Por ora, vai servindo de alojamento a alguns imigrantes...
Quanto ao rapaz do cesto, parece não ter tamanha ambição. Observa. O quê? Não encontrei ninguém que ousasse falar-me das suas observações...

Eu próprio não me importava nada de ficar ali sentado, mesmo se a noite chegasse... Talvez me limitasse a ouvir o galo que cacareja mesmo que não oiça qualquer resposta...
Ou serei eu que a não oiço?

23.8.17

Forasteiro em terra de imigrantes

Ordenadas as embarcações, pouco mais há a fazer. Dos pescadores, nem sombra. Ainda pensei que as ali tivessem colocado para que eu pudesse imaginar o Cais de ontem partiram os primeiros batéis. Pensamento absurdo!
Tão irrealista como a abordagem daqueles forasteiros que me perguntaram se eu sabia onde mora(va) um tal de... (não lhe cheguei a conhecer o nome!). Mas é (ou foi) alguém que se distinguiu por ter sido proprietário do parque de campismo de Zambujeira do Mar...
Pensando melhor, embora o não saibam, talvez pudesse descontar certas atenuantes àquele casal de forasteiros: durante muito tempo, acampei em parques de campismo - conheci um bom número, apesar de raramente chegar à fala com os donos, sobretudo se nacionais; por outro lado, se pesquisasse na Internet  (...).

Ora o que encontrei entronca melhor na minha surpresa ao percorrer as ruas de São Teotónio:

A freguesia de S. Teotónio tem uma população de 5500 habitantes. Quase metade são estrangeiros. Para além da comunidade búlgara (mais de 1000, muçulmanos) José António Guerreiro diz que residem na terra "cerca de 300 tailandeses e, em menor número, brasileiros, moldavos, argelinos, marroquinos, romenos, húngaros e outros". (Público, 28.05.2013)

Não sei se, em 2017, estes dados estão corretos, no entanto a presença de imigrantes é enorme. Talvez, o senhor presidente da República, admirador de São Teotónio, pudesse visitar esta localidade para avaliar as condições de vida destas comunidades, que me parecem miseráveis...
Quanto aos meus interlocutores, terão de ficar sem resposta, pois na pesquisa efetuada não encontrei resposta que lhes pudesse servir...

22.8.17

A modesta pirâmide alentejana

Ainda espreitei a ver se avistava o corpo do Ricardo Reis, mas, na versão saramaguiana, faltou-lhe a coragem - preferiu enterrar-se n'Os Prazeres, ao lado do criador, sob o olhar furibundo da avó louca ...
N'O Ano da Morte de Ricardo Reis, a fantasia, umas vezes tétrica outras hilária, destapa a ascensão dos fascismos na Europa e, em particular, o início da guerra civil espanhola com repercussão na terra dos lusitos que arrogam para si um vanguardismo, deveras, provinciano...
O importante é perceber que Ricardo Reis é, apenas, uma lente deformada que arrasta o leitor para caminhos empoeirados como aqueles que acabo de percorrer junto da barragem de Santa Clara... nas proximidades de Santa Clara-a-Velha, donde extraí a modesta pirâmide alentejana...
Da leitura e da viagem, já só sobra pó, mas, ao contrário dos apóstolos, não consigo sacudi-lo das minhas sandálias. E se o conseguisse, o que é que ganharia com isso?

20.8.17

Porto de abrigo

Aqui, na Praia da Azenha do Mar, não há areia. No entanto, vale a pena o fim do caminho. Por isso, ofereço-vos este "porto de abrigo" das embarcações.
Quanto ao resto, eu, que nem gosto de calor, lá passei 3 horas na afamada Zambujeira do Mar a tentar reler O Ano da Morte de Ricardo Reis, o que não é fácil, pois naquele romance não para de chover e de ventar.
E comigo vai ficando a ideia de que é precisa muita paciência para seguir o "badameco" do José Saramago.
«Nos dias seguintes Ricardo Reis pôs-se à procura de casa. Saía de manhã, regressava à noite, almoçava e jantava fora do hotel, serviam-lhe de badameco as páginas de anúncios do Diário de Notícias...»
Falta, talvez, acrescentar o óbvio: a praia foi enchendo tal como a maré, mas o português não desiste... e o espanhol, o francês...

19.8.17

E sujeito-me...

Balde tem. Ainda não verifiquei se a cisterna tem água.
Asiáticos não faltam! Indianos? Paquistaneses? Indus? Muçulmanos? Vá lá saber-se!
Ocupados a pôr os motores em marcha... e parece que sabem da poda...
Eu por mim, observo.
E sujeito-me, mesmo sendo europeu...

17.8.17

Por dever de ofício

Por dever de ofício, decidi reler O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago. Neste caso, melhor será dizer ler, pois até parece que nunca li tal romance. De qualquer modo, o exemplar, já quebrado, que possuo corresponde à 3ª edição,  e foi me oferecido pelo Manuel Duarte Luís, amigo da década de 80..., como se os amigos pudessem ser datados e se calhar podem, pelo menos enquanto os não esquecemos...
Tê-lo-ei lido nessa época e certamente não terei perdido a oportunidade de o mencionar e de o recomendar aos meus alunos de Teoria da Literatura... (Eles saberão melhor do que eu a importância que atribuiria ao modo como Saramago recriava tempos e individualidades, fictícias ou não...
Agora que me obrigo a reler a obra, confirmo que a minha memória terá sofrido grande abalo nos últimos 20 anos, mas interrogo-me se esta leitura escolhida para os atuais alunos do 12º ano é a mais adequada...
Este romance requer um leitor paciente, verdadeiramente interessado em compreender o território, a situação política, cultural e socio-económica dos anos 30 e, sobretudo, capaz de lidar com um narrador, cujo humor é corrosivo. Já nem me refiro à ironia e a uma intertextualidade, muitas vezes, anacrónica para a atual geração...

16.8.17

Anfibologia descarada

Anfibologia: ambiguidade; duplo sentido de uma frase...


É a Justiça que é suspeita? Se fosse verdade, qual é o referente? O Ministério Público? Os Tribunais?

Quem é que suspeita? A Justiça? (Em abstrato?)

Velha PT? Quando é que a Senhora rejuvenesceu? Mas ainda existe?

Afinal, onde é que está a notícia?

15.8.17

A origem da tragédia nacional

Em primeiro lugar, a ignorância. Em segundo lugar, a ganância. Finalmente, a incompetência.
De forma abreviada, é esta a resposta para tanto desastre. 
Neste cenário, estamos a ser governados por incompetentes gananciosos que abusam da ignorância das populações rurais e urbanas e que, também, elas sonham vencer a vida a qualquer custo...
Por isso há tantos candidatos ao exercício do poder local e central. Infelizmente, falta-lhes quase tudo - em primeiro lugar, a sabedoria; em segundo lugar, o despojamento; finalmente, a competência...

Se o rio vai seco, espera-se que a chuva caia...
Se o mato arde, espera-se que chova e que a vegetação não volte a crescer...
Se as árvores escondem o vazio que as mata, espera-se que não tombem quando a festa decorre...
Se morre tanta gente, espera-se que o Senhor a acolha e a proteja dos fogos letais...

Agora até temos um Presidente que gasta os dias a correr para os cemitérios, como se tivesse sido contratado como carpideira...
  

14.8.17

O mal da escrita no reino do compadrio

(Este romancista ( o Poeta) bem tenta que o leitor lhe envie um sinal, mas sem o menor sucesso...)

O demónio que me aterrorizava, quando na minha horta substituía o pai que partira para os bidonvilles parisienses, não estava certamente à altura dos patrões franceses que humilharam o António quando este procurava viver com alguma dignidade o exílio a que se vira forçado por uma ditadura que condenava os seus filhos a uma morte precoce...
Talvez seja por isso que não encontro, em Palingenesiao pai do (autor) Silva Carvalho - a figura do pai surge diluída na figura do tirano, que tanto pode ser patrão, como seu substituto num universo capitalista nojento... (O leitor toma, no entanto, conhecimento que os pais lhe pagaram as propinas durante dois anos e o visitaram em Paris.)
Este autor ou, melhor, este homem que sonhava não ser pai, mas mãe, porque a mulher é a verdadeira criadora... e talvez seja por isso que a descoberta da sexualidade, à medida que o romance evolui, se torna mais humana, mais relacional, menos demoníaca... Este autor, afinal, só procura o diálogo...
Silva Carvalho escreve este romance não apenas para recriar o espírito da época, submetendo-o a uma abordagem diferente - o mal da escrita:

« O essencial, contudo, não me parece que seja escrever direitinho, mas, pelo contrário, aceitar o mal da escrita para que ela nos possa revelar o que a trabalha e assim nos acalenta, de uma forma ou de outra.»  op.cit, pág,238.

Terminada a leitura deste romance, espero ainda cumprir o reiterado desejo do Silva Carvalho:

«Lembrem-se, a intenção deste livro era chamar a atenção sobre a minha obra poética, onde penso que atingi a qualidade não só de obra mas também a de destino, como mais lídima manifestação do que ainda se chama de cultura.» op.cit. pág. 143.

12.8.17

A minha horta

A horta
Espero que o proprietário atual do terreno não se aborreça com esta foto.
Registo-a, aqui, apenas como testemunho de um dos lugares onde comecei a trabalhar com cerca de 4/5 anos - a horta, situada na "Ingueira", na encruzilhada do Carvalhal do Pombo com  o Cabeço Soudo e a Rexaldia.
Desse tempo, resta a nora, que puxada por uma burra, me garantia a água necessária à rega diária.
A horta, hoje, é pequeníssima, se comparada com a daquele tempo, que estaria melhor organizada e me dava um trabalho dos diabos. Lembro que, para além das batateiras, dos tomateiros, dos feijoeiros, das aboboreiras, da beterraba, das couves de vários tipos, das alfaces, das cenouras, também lá havia três ou quatro laranjeiras e que, ao lado, corria a ribeira que assegurava a água do poço...
Embora o trabalho não fosse remunerado, a não ser com o almoço e o jantar, alguma roupa e um par de sapatos de tempos a tempos, creio que a Geringonça não deveria deixar de fora os pequenos trabalhadores, cuja atividade teve início mal começaram a andar... 

11.8.17

A coisa e a imagem


Praia do Atlântico - Troia
O que eu vi não é o que a foto mostra. Tudo estava no devido lugar. A luz intensa tostava e o azul era límpido. Apesar do bar estar abandonado, nada se me afigurou tão cinzento. Será que a ausência daquele equipamento, numa praia com bandeira azul, contaminou tudo à volta?

10.8.17

Ficar em silêncio

Sempre que as férias se aproximam, decido continuar a catalogação e o registo de publicações acumuladas. Não sei bem para quê, embora lá no íntimo acredite que, assim, estarei a facilitar a vida a quem quiser desfazer-se de tal acervo...
Por outro lado, desconfio que a tarefa tem uma outra motivação: folhear ou voltar a rememorar todo um conjunto de existências que, doutro modo, não me questionariam a não ser pela acumulação de pó e do horrendo bicho do papel - o lepisma saccharina...
Este procedimento tem, no entanto, um custo: em vez de avançar na tarefa, perco-me na leitura breve de cada livro, de cada revista..., fazendo esperar as leituras que tenho em curso e em projeto, como acontece com a Palingenesia,  com Sursis e com No Ano da Morte de Ricardo Reis - o primeiro para pagar a dívida ao (António) Silva Carvalho, o segundo para completar a leitura da trilogia de Jean-Paul Sartre (Les Chemins de la Liberté) e o terceiro, por obrigação profissional, pois a leitura que dele fiz já se escapuliu da minha fraca memória...
(Lembro-me agora que ainda hoje pensei que o Silva Carvalho bem poderia recuperar o 'António' para se diferenciar definitivamente do Armando... Espero que este apagamento da identidade não resulte de nenhum trauma com origem no velho 'estado novo')...
O que não se entenderá é por que motivo, tendo dado a esta postagem o título "Ficar em silêncio", não me calo. A razão é simples, é porque tenho aqui ao lado um livrinho intitulado Elogio do Silêncio, de Marc de Smedt, e não resisti a folheá-lo, tendo, de imediato, poisado os olhos na afirmação de que o "silence" surgiu na língua francesa (?) em 1190, descendendo do latim SILENTIUM, com a particularidade de "ser o único substantivo masculino que acaba em ence, en francês..."
Ora, digam lá se o melhor não seria eu ficar em silêncio, pelo menos, nas férias!

9.8.17

A única ficção - (António) Silva Carvalho

«A única ficção que me atrai é a realidade.» Silva Carvalho, Palingenesia ou o estado e o processo do romance, pág.116, Fenda, 1999

Neste caso, por mais que o Autor se queixe de não estar suficientemente preparado para construir o romance segundo as leis do género - muito permissivo, diga-se -, como leitor, o que me interessa é o próprio Silva Carvalho..., pois na obra encontro muito do que da sua própria boca, em tempos anteriores à escrita, ouvi...
No romance, o homem ganha coerência. E, por outro lado, a História daquela época recupera uma dimensão bem distinta da que habitualmente é transmitida pelos "filhos-família" que se autoexilaram em Paris, no Bairro Latino...
Ao ler, tão tarde, este romance, compreendo melhor o sofrimento daquele que, desde cedo, percebeu que a ideologia mais não é do que uma forma de opressão... e que, até hoje, se manteve distante e discreto, embora, lá no fundo, acredite que o tempo se encarregará de lhe reconhecer o caminho...
O problema é que a realidade vive refém da memória, sendo muitas vezes difícil revivê-la sem recurso à imaginação, à ficção.

8.8.17

Promo internet. A MEO abusa do cliente

Acabo de receber da MEO a seguinte mensagem: «PROMO INTERNET: o seu pedido de desativação foi recebido com sucesso. Obrigado.»

A MEO é simpática! Sempre pronta a premiar o cliente...

Resolveu premiar-me com dois gigas até 31 de Agosto. Ativou-os em todos os cartões da meu pacote MEO. Não me pediu autorização para o fazer! Mas informa que, a partir de 1 de setembro, o cliente passa a pagar mais 3,98 euros, a não ser que ligue para o nº 800200023, a pedir a desativação...

 Obrigado a pedir a desativação de um produto que não solicitei!

7.8.17

O calão, em qualquer contexto

Dois idosos cavaqueiam junto a um quiosque, quando, de súbito, um deles exclama: - Olha quem ali vai! Um cabrão, por acaso, bastante simpático.
Fico sem saber qual o significado do termo "cabrão" naquele contexto, mas recordo que, desde a minha infância,  este palavrão e muitos outros me feriam os ouvidos, sem que os visados mostrassem aborrecimento...
Atualmente, o calão tornou-se língua de referência, de tal modo que conheço miúdos e miúdas que, em cada três vocábulos utilizados, dois pertencem ao referido registo... Há até quem esgote o léxico numa única expressão: f...; c...; fp...; p...; m...                               
                                                                          em qualquer contexto. 

6.8.17

Servidão

Servidão.
Com Cristo ou com cidra, tudo o que se enxerga é combinação de interesses e de prazeres... Mas quem lucra esconde-se, sabendo que cedemos voluntariamente
Primeiro, a maçã; depois, o enjoo e a ressaca...
A música, apesar da variação, cresce ao som da vara que se afoga como se dela pudesse jorrar toda a água que nos falta... 
Mas não. Apenas um tempo de torpor.

5.8.17

A dupla realidade de Manuel Laranjeira

«Compor a realidade como uma obra de arte - também cansa às vezes. Principalmente a gente começa a aborrecer-se da realidade!» Manuel Laranjeira, Diário Íntimo, 4 de fevereiro de 1909

Conceber um diário - registo de atos e de pensamentos, por vezes, inconfessáveis - como obra de arte é um projeto paradoxal, pois o autor revela-se marcado por uma ideia de posteridade, à partida, gratuita.
Do que o autor vai registando, o leitor nunca sabe se se trata da realidade vivida ou de uma outra realidade, desejada.
De tanto repetir o enjoo da vida, de tanto se desculpar com um eu interior, tenebroso, de tanto desprezar os seus semelhantes, de tanto desconsiderar e amesquinhar as mulheres, mesmo a sua amante da época, Manuel Laranjeira parece querer elevar-se acima da escumalha que o cerca, sem, no entanto, encontrar quem o acompanhe nessa ideia, à exceção, temporária, de Miguel Unamuno...
E com tal comportamento, Manuel Laranjeira acaba por engrossar as fileiras do Decadentismo que, não podendo pôr fim à desditosa Pátria, se aniquila a si próprio, em nome do Desespero, a que a doença não seria alheia, ou de uma visão do mundo incorrigível.

Que a realidade possa cansar, entendo, mas que a Arte a tenha de refletir já me parece absurdo.

3.8.17

Agora

« He feels the time is surely now or never...more.» David Byrne, Listening Wind

Nem ontem, nem amanhã, o que fazemos agora é o que somos.
O que fazemos é pouco... ou nada.
Num instante, o vento deslumbra-nos...
E ficamos suspensos, tontos...
- Do quê? 
- Nunca saberemos...
Como o Poeta (Silva Carvalho) que, passados vinte anos,  concluiu que o melhor era escrever um romance - Palingenesia... por não poder «continuar por mais tempo nesta inexequível solidão.» Talvez desse modo encontrasse um leitor, um interlocutor...

2.8.17

No Centro Comercial Colombo, não se distraia...

Sala de aula, 2001-2002
Se passar pelo Centro Comercial Colombo, não se distraia!
Vá à Praça Central e dê uma olhadela ao "Mundo Fantástico de Paula Rego"... até 27 de  setembro...
Ali, predominam as relações entre a Vida, a Literatura e as Artes Plásticas... 

1.8.17

Se fôssemos realistas...

Se fôssemos realistas, saberíamos que a alegria é um luxo e que a tristeza é o estado natural do homem...
E não admira que a tristeza alastre, pois a prepotência é cada vez acutilante. A prepotência dos homens que não se importam de mentir, que não se importam de agredir, que não se importam de explorar, que não se importam de se atravessar no caminho, que não se importam de silenciar pela chantagem, pelo grito, simplesmente pela palavra sem direito a resposta... ou até pela omissão.
Se fôssemos realistas, não nos deixaríamos iludir pelos profetas da Desgraça nem pelos sonhadores irresponsáveis...

(Se fôssemos realistas, mudávamos mais vezes de lentes.)

249,1 mil milhões de dívida pública

Em junho, a dívida pública subiu para 249,1 mil milhões!
Será que podemos continuar a ignorar o estado das finanças públicas portuguesas?

Ou o melhor é ir de férias, pagando-as a crédito?
E já agora, qual é o montante da dívida privada?

É insignificante: a dívida das famílias e das empresas particulares, que, no seu conjunto, engordou mais alguns milhões no mês em questão e atingiu os 724,4 mil milhões de euros.