31.1.09

Ervas daninhas, enguias e pegas

Janeiro 2009, um mês diferente… Chuva, vento, frio e até neve… Já em Dezembro, o Sol desaparecera aos poucos… Tudo sombrio, como se o tempo apenas quisesse acompanhar a decadência das sociedades ditas desenvolvidas..

Estamos no Inverno e parece que caminhamos para o Inferno… Nem o primeiro ministro escapa! A ser verdade o que se diz, o nosso primeiro deixou-se encharcar….

Mas se a chuva nós a sentimos nos ossos, a verdade, porém, é enguia escorregadia. Nem a folha de figueira a conseguiria segurar, sobretudo, neste Inverno de figueiras despidas e ervas daninhas…

Quanto aos Ingleses, convem não esquecer que já o rei D. João I teve que se defender da acusação de D. Filipa de Lencantre que lançara o mujimbo de que sua a Alteza a traía com todas as belas da Coorte…

Dessa intriga, ficou-nos o humor régio bem gravado nos tectos do Paço Real de Sintra…

Se ao menos (José) Sócrates tivesse um pingo de Humor!

29.1.09

Ontem, 28 de Janeiro…

Nascido a 28 de Janeiro de 1916, Vergílio Ferreira (homem, professor e obra) foi lembrado na ESCAMÕES.

Num auditório meio cheio,

Helder Godinho, Ana Turíbio, João Lucas, Valente Rosa, Madalena Contente, Cristina Duarte, todos deram, com rigor, conta do afecto e da veneração que continuam a sentir pelo amigo, mestre e acérrimo defensor da língua portuguesa.

A lição foi de tal modo harmoniosa que a assistência se encontrou por momentos seduzida e mergulhada num estranho rito de iniciação.

Não sei se os jovens terão decidido desfolhar a obra ou se ficaram a pensar em procurar o sentido da vida. Sei, no entanto, que este encontro é daqueles que fazem falta, mesmo se mediados pelo texto ou pela voz.

E por tudo isto é imperdoável que estes “encontros” não sejam gravados. 

Quando delapidamos a memória, amputamos o futuro.

Não sei como explicar…

É talvez cedo!|

Não sei como explicar que viver é muito mais do que satisfazer impulsos, desejos, do que ficar mais um minuto na cama.

Viver é construir a vida…

Não sei como explicar que não há vida sem o outro… mesmo que seja apenas texto.

Não sei como explicar o que é o outro.

Mas sei que se não estiver atento jamais serei esse outro…

Jamais viverei.

É talvez cedo!

24.1.09

Da evasão…

«Toda a literatura é um plano de evasão. Ele faz ferver todas as cabeças e aguçar todas as inteligências. (…) O aluno tem que apostatar do mestre, senão não será digno dele.»Agustina Bessa-Luís, Da educação, DN, 8.02.1992

Há anos que um texto de Agustina Bessa-Luís me obsidia. Quando menos espero, uma página amarelecida pelo tempo coloca-se sob o meu olhar e lá a volto a ler o artigo sobre a Educação. E esta leitura faz-me sempre questionar sobre a importância da literatura na formação do cidadão e, sobretudo, sobre o modo como ainda se aborda a literatura nas famílias e nas escolas. Já pensei em libertar-me deste pedaço de papel, mas não consigo. É como se ao rasgá-lo me rasgasse também a mim.

Eu que sou licenciado em Literatura Portuguesa e mestre em Literaturas várias, embora passe a maior parte do tempo no desemprego deste ofício, não posso deixar de pensar que, ao transformarmos a literatura numa minudência, que bem que soa esta palavra!, mas infelizmente não é a adequada, pois não quero pensar que a literatura é uma minúcia, mas, sim, que foi marginalizada, desvirtuando-a da sua verdadeira função: substituir as pessoas reais.

E esta função é tanto mais urgente quanto «as pessoas reais estão muito distantes e não se encontram disponíveis, tanto para ser imitadas como para ser admiradas.» citação ligeiramente alterada – do pretério imperfeito de Agustina para  o nosso presente.

22.1.09

O dia D, o dia M, o dia J

I -Aproxima-se mais um dia D: o Parlamento vota mais uma vez se a avaliação dos docentes deve ser suspensa ou não. Os Senhores Deputados vão  brincando à avaliação! Só tarde, poderão voltar ao trabalho político, tristes…

E é triste o ponto a que se chegou nesta matéria: o que devia ser tratado com discrição e rigor transformou-se em moeda falsa que serve para tudo.

Independentemente do resultado, o espectáculo da manipulação e da propaganda está montado…

II – Quanto à Justiça, estamos falados. É tudo uma questão de compadres – pais, filhos, tios, sobrinhos, enteados, isto sem falar nos primos. Quando a mesa se torna menos abundante, desatam todos à cadeirada, e logo os jornais (senão antes!?) nos inundam com meias verdades e meias mentiras…

Impunes, quase todos!

20.1.09

Obama H…

Nem Cristo criou tamanha expectativa!

A tomada de posse do novo presidente lembra-me aquelas aulas em que se tornava obrigatório explicar a função mágica da linguagem. O baptismo e o casamento eram os rituais em que por obra do verbo se dava a metamorfose… De repente, eliminava-se o pecado original e legitimava-se a sexualidade!

Com Obama, parece que, amanhã, o mal soçobrará e o eldorado reinará. 

Já a criação do mundo resultara de um acto mágico da linguagem divina.

18.1.09

Outro desatracado…

Viagens Missionárias

Dizer que a barba de São Francisco Xavier o distingue do Santo Inácio de Loyola não sei se faz de mim um desatracado, termo que subtraio a Miguel Esteves Cardoso, sem a devida autorização. Atrevo-me, no entanto, a referir que o meu olhar estacou, por instantes,  na iconografia jesuítica disponível no Museu de São Roque. Fiquei, ali, diante daqueles santos da contra-reforma a pensar na estratégia catequética adoptada no Oriente. E continuo sem compreender o súbito fervor do Fernão Mendes Pinto, bem explícito na PEREGRINAÇÃO…

O resultado entra olhos pelos dentro: a prata dourada, a madrepérola, o marfim, as cores quentes, o realismo das figuras, a magnificência dos relicários, tudo nos promete uma vida (outra) excelsa, bem longe da peste, da fome  quotidiana…

A caveira que, há muito, via nas mãos de um santo  sado-masoquista, encontra-se aos pés de um outro intrépido santo, como se ela não representasse mais do que a terrena vida…

À distância, não deixo de pensar que do reinado de D. Manuel I para o de D. João III, a élite portuguesa atascou as mãos na riqueza que jamais imaginara possuir, hipotecando definitivamente a nação… E, hoje, continuamos a reagir do mesmo modo a qualquer estímulo de fartura…, esperando que, na desdita, o manto virginal nos cubra com a sua infinita misericórdia… 

13.1.09

Um circo trauliteiro…

Ontem, pensava que sem mestres não podemos ser contemporâneos de nós próprios. Hoje, estou um pouco chocado com a notícia de que amanhã irei fazer figura de palhaço.

A manipulação das consciências recorre cada vez mais à metáfora e, no limite, à alegoria. A de hoje atirou-me para a pista de circo. Um circo trauliteiro!

Quanto aos mestres, não há nada a dizer. Pura e simplesmente foram  dispensados… por quem, há muito, deixou de pôr a mão na consciência.

12.1.09

Os mestres são imprescindíveis…

Ontem, assisti a um notável concerto comentado por Paolo Pinamonti na Culturgest.

Confesso, desde já, a minha ignorância no que à música contemporânea diz respeito. Ouvi ( e vi) a magnífica execução pela OrchestrUtopica de Frates, de Arvo Part, de King, de Luciano Berio, de Aventures, de Gyorgy Ligeti, e de Invenção sobre Paisagem, de Luís Tinoco.

E face a tal ignorância, Paolo Pinamonti explicou-me o que eu seria incapaz de compreender, a solo. Explicou-me a evolução da música contemporânea, desde os anos 60 do século passado até à actualidade, ajudando-me a tornar-me contemporâneo de mim próprio.

Esta explicação reforçou, em mim, a consciência de que os mestres são imprescindíveis para que possamos aprender. Aprender a viver no nosso próprio tempo.

A própria ideia de pós-modernidade se me tornou mais clara através da execução de Invenção sobre Paisagem, de Luís Tinoco.

9.1.09

No tempo dos fantasmas…

Não sei em que data Vergílio Ferreira escreveu o conto “O Fantasma”. E de certo modo queria acreditar que não precisava dessa informação para ter proveito e seguir o exemplo inscrito na estória.

No entanto, essa minha convicção desvaneceu-se perante a insólita interpretação que alguns jovens, nascidos depois de 1990, me propuseram: M tinha a mania da perseguição. De repente, M descobriu na sua frente um tipo (sujeito /gajo) – o fantasma -, que não tirava olhos de si, uma espécie de rémora da nau das índias!

Era-lhes difícil interrogarem-se sobre a causa e os efeitos daquela súbita loucura: na mesa em frente, um sujeito sinistro, sob a aba descaída do chapéu, perscrutava o mínimo movimento, encurralando-o… De pouco interessava, o acontecimento da véspera, e ainda menos a pergunta que lhe sobrara desse insólito encontro: – Até que ponto se teria comprometido? A vida de M mudara completamente. Agora, M apenas desejava que a porta giratória o cuspisse para a chuva que caía lá fora, e, num gesto derradeiro, M conseguiu-o, saindo do radar do fantasma.

Naquele dia M não apertou a mão ao fantasma, nem este esboçou qualquer gesto nesse sentido, talvez porque a magreza, o ar macilento e o olhar sinistro fossem suficientes para apavorar qualquer incauto…

Os jovens, nascidos depois de 1990, ignoram o tempo dos fantasmas, vá lá saber-se porquê… Poderíamos pensar que eles, desempregados, abandonaram o país. Um bom dicionário lembra todavia que:

fantasma s m+f (gr phántasma) 1 Visão quimérica, geralmente apavorante, produto da fantasia. 2 Coisa medonha. 3 Pessoa macilenta e magra. 4 Simulacro. 5 Suposta aparição de pessoa morta ou afastada, alma do outro mundo; espectro, espírito. 6 Pessoa fictícia, inventada para a utilização de seu nome em operações fraudulentas, recebimento de subornos ou propinas etc. 7 Eletr Em acústica, derivação de um sinal a partir de duas fontes, de forma que ele parece provir de uma terceira fonte. 8 Telev Falha no sinal de vídeo que exibe na tela uma segunda imagem, fraca, ao lado da imagem principal. 9 Inform Termo usado para designar os itens de um menu que são exibidos em cinza, mas não estão disponíveis para o uso.

Quanto a mim, houve tempo em que a fantasia me fez correr à frente de um diabrete que insistia em assombrar a minha solidão. E, também, houve o tempo que V.F. ficciona no conto: numa cidade de província, nos anos 60, com capote ou sem ele, em frente de um largo espelho do Café Central (ou Portugal!?), senti o olhar mortiço do fantasma, mas, mais do que os olhos, aquilo que verdadeiramente temia eram os ouvidos das paredes…

2.1.09

Fazer-se de mula…

Curioso, consultei http://www.dicionarioinformal.com.br, onde é possível encontrar o dicionário de língua portuguesa mais atrevido que conheço e, para espanto meu, fazer-se de mula surge por definir. Deixo essa tarefa ao António Souto, verdadeiro apreciador do vernáculo luso, embora me pareça que, nos tempos que correm, extintos os almocreves, as mulas andam desaparecidas. Os próprios burros são hoje mais protegidos e não creio que alguém esteja disposto a fazer-se de burro..

De Lisboa à Ria Formosa, não encontrei sombra de mula, apenas meia dúzia de cavalos (seriam machos?) pastavam pachorrentamente num improvisado prado… Eu próprio, em tempos de meninice, fui actor de uma triste história em que um cavalo se fez passar por mula. No caso, uma velha mula que não se aguentava nas patas foi por mim vendida a um magarefe por 50 escudos.

Uma mula que tinha por mim verdadeira estima, que nunca me deixou ficar mal, ao contrário de umas burras azougadas que me infernizavam as jornadas. E eu traí-a… e isso aborrece-me mais do que saber se tenho muitos ou poucos amigos…

Claro está que o António Souto não tem qualquer responsabilidade nesta súbita confissão. E não vou desejar “um bom ano” porque não quero perder os amigos…

1.1.09

2009

Olhão_2_1Jan2009 029 

Uma antevisão. Antes de lá chegar, uma barraca de zinco. Numa corda, um par de calças bolorentas resistem à humidade, deixando dois desclassificados a acusarem-se mutuamente. Do outro lado, outra aventesma espia os estrangeiros que saltam para o pântano. Estamos em terreno interdito, pensamos. O melhor é avançar, ignorar a ameaça. Perdermo-nos em minúcias de outros tempos, enquanto um pescador, solitário, limpa zelosamente uma barcaça.