31.7.13

Na Foz do Alge


O título pode não corresponder, pois não é fácil chegar ao parque de campismo da Aldeia Foz de Alge, sobretudo quando o GPS Sony não reconhece as novas vias, e acabamos por enfrentar a íngreme  subida que leva a AREGA. Aqui, não há sinalização, a não ser o simpático indicador humano que lá mandou virar à esquerda e depois à direita, atravessando a floresta de 3 km, e depois já haveria placas… Havia, mas nenhuma que indicasse a estrada para o camping.
Acabei por atravessar a Aldeia da Foz de Alge, com o credo na boca, pois quem desenhou as ruas nunca imaginou que por ali viesse a passar uma autocaravana. Eu próprio ainda estou sem saber como é consegui não derrubar nenhum beiral…
Enfim, cheguei a um parque com uma receção acolhedora, bem situado junto ao Zêzere, com as cigarras em plena cantoria. No entanto, a música de fundo bem alto – um misto etno-pimba – não ajuda quem procura o parque para descansar!
(Tudo seria  ainda mais agradável se a Sony tivesse alguma consideração pelos utilizadores dos seus GPS – caros e sem possibilidade razoável de atualizar o software, e se os Institutos que tutelam as estradas e o turismo se preocupassem em sinalizar devidamente as estradas, os locais de interesse e os respetivos acessos…)

30.7.13

O nosso interesse

O que é que nos interessa?
De forma seca, interessa-nos a comodidade e, sobretudo, que não nos incomodem.
A comodidade assegura-se com património, um bom salário, a sorte grande, um corpo jovem e em forma. Tudo o que se oponha é já um incómodo!
A crise é um incómodo, mas que só incomoda, por enquanto, uma minoria. Enquanto houver sol e praia, subsídio, mesada, cartão de crédito, saúde, a maioria segue incólume.
Pode-se até pensar que a cobertura de viaduto, um banco de jardim, uma cela são abrigo suficiente para que não nos incomodemos...
Claro que continua a haver aqueles que, incomodados, partem! Tal como no passado, sempre houve homens e mulheres que rejeitaram o fado e reconstruiram as suas vidas noutras latitudes...
Por cá continuam as moções de censura e de confiança, sem que seja possível romper com o comodismo das nossas posições.

29.7.13

Carris desrespeita os utentes do 783

O utente chega à paragem, olha o painel informativo e percebe que daí 14 minutos tem um autocarro para a Portela, no caso, o 783. Poderia, entretanto, ter aproveitado o 783 para o Prior Velho, mas com o inconveniente de ficar apeado antes de chegar ao destino.
Decidira esperar. O tempo escorre até que, subitamente, passam a faltar 34 minutos. Porquê? Ninguém sabe! O painel informativo nada explica.
Pacientemente, o utente da Portela rende-se à espera de novo 783 para o Prior Velho, mesmo ficando apeado...
Surpreendentemente, às 12h38, na Praça do Saldanha, o 783 passa vazio...RESERVADO... e o utente continua à espera sem qualquer explicação...
 

28.7.13

Ser / estar na notícia sem mestre de cerimónia

- O que fazem três milhões de indivíduos na praia de Copacabana?
Os crentes dizem que estão lá para estar próximo do Papa Francisco. A verdade parece, no entanto, ser outra: estão lá para estar na notícia, para fazer parte da notícia. Ainda assim, há muitos, crentes ou não, que se deslocaram para "ser notícia". E, para o efeito, vale tudo: banho na onda alterosa, protesto contra o governador, revolta contra a hipocrisia da Igreja Católica...
O próprio Papa franciscano (?) procura, sob o olhar das câmaras fugazes, não ser ocultado pelo movimento das ondas humanas.
Uma das lições que, provavelmente, este Papa poderá extrair do evento é que não lhe basta ser notícia para existir, pois a sua ação poderá reacender não só a fé, mas, sobretudo, antigos demónios que durante séculos devastaram a terra em nome de uma Ideia que se queria única e verdadeira.
Paradoxalmente, perto de Santiago de Compostela, um pequeno burgo abandonou tudo o que estava a fazer para socorrer as vítimas de um infausto acidente ferroviário, sem quererem ser /estar na notícia... Esses, sim, existem!
Existem sem encenações nem mestres de cerimónia! 

27.7.13

«Sou noticiado, logo existo»!

Sou noticiado, logo existo. (...) Disparo, logo existo. Zygmunt Bauman, A Vida Fragmentada
O homem já não necessita de cogitar, já não necessita de procurar o deserto para se afastar  da turba ameaçadora. Pelo contrário, agora, procura o ruído da multidão, procura um palco onde possa ser visto e ouvido, busca sensações narcísicas e, para atingir tal objetivo, tudo lhe é permitido.
Este homem não se preocupa com as consequências da imoralidade da sua ação. Uma ação naturalmente violenta, uma ação cada vez mais violenta. Face à efemeridade das reações do Outro, os estímulos crescem de intensidade e de frequência até a um ponto de não retorno. O Outro ou foi abatido ou colocou-se no lugar do sujeito, emulando-o até cair na não-existência...
E é essa não-existência que alimenta a violência «faça-você-mesmo.» A guerra deixou de ser um ajuste de contas, uma luta corpo-a-corpo. Este tipo de violência da notícia, do paparazzi, da rede social mais não é do que uma execução, em que nos apresentamos como carrascos...
(Quanto às vítimas, elas não passam de inexistências, mesmo que ainda guardem a vontade de pensar!)
O problema surge quando se pergunta qual é o futuro destes «carrascos», pois, hoje, sabemos que, para se manterem vivos, eles necessitam do reforço da força do choque, o que significa que de nada serve ficarmos à espera de mudança: ou morrem e são substituídos ou, simplesmente, continuam a infernizar-nos a vida... Por outras palavras, de nada serve esperar que o menino traquinas subitamente abdique de o ser...
Quem espera outro Paulo Portas, não percebe que para ele só importa: «Sou noticiado, logo existo»!   






26.7.13

Um país de malfeitores

"Malfeitoria" é a única palavra capaz de exprimir o meu sentimento em relação aos efeitos do desgoverno em que vivemos. Em termos simplistas, se há malfeitoria é porque há "malfeitores", e, em regra, ficamos satisfeitos sempre que um deles é identificado, mesmo que não seja responsabilizado. Por vezes, chegamos a ter inveja desses "novos heróis"...
Esta abordagem oculta, no entanto, uma realidade mais sinistra: a "malfeitoria" pressupõe um atentado contra a "feitoria", em que o "feitor" lesa a propriedade pública...
Em Portugal, os feitores apropriam-se dos bens públicos, organizando-se para, o efeito, em redes de banqueiros, de procuradores, de juízes, de funcionários, de autarcas, de construtores civis, médicos, farmacêuticos...
Quando olhamos para o governo, para os partidos, para os sindicatos, para as associações, para as corporações, vemos que a sua constituição reflete as tribos transversais que se vão constituindo na sociedade portuguesa... 
Por exemplo, esperar-se que o governo fosse um órgão solidário com o objetivo de servir o país, mas a sua constituição reflete a existência de vários tribos ao serviço de interesses divergentes...
 

25.7.13

Em letra branca

Sob um tempo abafado e certo desapontamento, há quem só pense em férias, indiferente ao que, entretanto, vai acontecendo.
Há dias, um ex-ministro socialista pedia ao governo que acalmasse e nos deixasse ir de férias. Achei o pedido estranho porque estava convencido de que aquele ilustre sociólogo estivesse de férias desde 2011 e, por outro lado, custou-me ouvi-lo falar de ir a banhos como se essa possibilidade não tivesse sido coartada a muitas centenas de milhares de portugueses.
Este tempo húmido talvez justifique a morosidade e a perversão das decisões, mas só sinto desapontamento ao observar a ação política: o ministro crato continua a sua cruzada contra os professores; o primeiro-ministro escolhe para o seu governo homens e mulheres comprometidos com decisões prejudiciais ao interesse público; o vice-primeiro, em vez de se ocupar da reforma do estado, refunda-se a si próprio...
Hoje, ao passar quase duas horas na PT, no Parque das Nações,  à espera que me resolvessem um pequeno problema, tive oportunidade de tomar conhecimento de um expediente que nunca me passara pela cabeça. Lá para os lados da Amadora, há mais de 10 anos, alguém imaginou uma (?) declaração, em que dois proprietários prometiam ceder um terço dos lucros de investimentos urbanísticos a um beneficiário cujo nome não constava no documento, ou, afinal, constava de forma "encriptada": O nome da pessoa que, não sendo sócia da empresa, iria alegadamente ter direito a 33% dos lucros está lá invisível, isto é, os caracteres do nome tinham sido escritos em letra branca, razão pela qual eram indecifráveis na folha da mesma cor. Foi preciso alterar a cor de letra do ficheiro para descobrir que afinal havia um visado naquele documento... (fonte: jornal i, 25 julho 2013)
No próximo ano letivo, irei estar mais atento às folhas em branco não vá algum raposão mudar a cor à letra...  

24.7.13

O crivo avaliativo

No ministério da educação, à medida que se despreza ou mercantiliza a formação, cresce o crivo avaliativo.
Entregue a departamentos universitários sem recursos e, sobretudo, vivendo longe do terreno, a formação inicial dos mestrandos de Bolonha acaba por enganar os candidatos ao ensino, atirando-os para a precariedade. Apesar disso, em regra, os que conseguem uma colocação como contratados cumprem com zelo e submetem-se, anualmente, à avaliação interna, revelando empenho e profissionalismo. É-lhes, no entanto, proibido candidatarem-se à avaliação externa.
Todas as equipas ministeriais têm recorrido ao crivo avaliativo para atingir objetivos que não prezam a melhoria da qualidade de ensino, nem a redução do insucesso escolar. Apesar dos recursos mobilizados em tecnologia e em formação de formadores de curta duração, a realidade mostra que o crivo avaliativo só serve para nivelar por baixo, para desclassificar profissionalmente, para excluir e, sobretudo, para impedir a progressão dos docentes, humilhando-os com tarefas inúteis, e reduzindo-lhes o vencimento...
Na vida de um docente, milhares e milhares de horas são gastas, por imposição do ministério, em atividades não letivas. Curiosamente, ninguém estranha tanta hora não letiva! Tanto desperdício! Basta ler o LAL 2013-2014 para perceber a ineficácia do sistema educativo...
Agora, chegados a Julho, o ministério ameaça com exames em Janeiro, elaborados pelo GAVE (será IAVE?). E as vítimas serão, de início, os candidatos ao ensino, mesmo se formalmente diplomados e considerados aptos para a profissão, e os contratados. Mais tarde, será a vez de avaliar os empurrados para a mobilidade.
Entretanto, as escolas superiores de educação, os institutos politécnicos, as universidades com ou sem via de ensino vão ficando para trás. Porquê? Será para desmantelar o que resta das orientações do professor Mariano Gago?
Em Portugal, há quem diga que a culpa é do sistema! Mas, em Portugal, não há sistema! Em Portugal, vive-se em permanente ocupação. É o chega para lá!

23.7.13

Saramago enxovalhado

Não sei se o ribatejano José Saramago algum dia se terá postado ante portas do senhor Mário Dias dos Ramos (Maia,1935), mas a leitura da crónica "O potencial ditador" publicada pelo jornal i (23 Julho 2013) deixou-me a pensar que o filho da Azinhaga (Golegã) mais não seria que um desses bárbaros modernos assim enxovalhado por uma serôdia cruzada cultural, em nome da civilidade...
Pois é em nome da civilidade que o senhor Mário Dias dos Ramos se atreve a comparar o realizador Manuel de Oliveira com o escritor José Saramago, embora me pareça que, no essencial, os argumentos favoráveis ou desfavoráveis não se dirigem à obra realizada, mas, sim, ad hominem.
No caso de Manuel de Oliveira, este é retratado como um aristocrata simples e humilde, de renome mundial. Quanto ao «jubilado pelo Nobel», o colorido é bem diferente: trata-se de «um homenzinho insignificante com cara de lobisomem e de poucos amigos, a quem a glória subiu à cabeça».
E não posso deixar de citar um parágrafo bem revelador da natureza de quem se viu excluído do círculo de Saramago: «O contraste entre o homem bom e simples que, no cinema, tem sabido retratar, implacavelmente, esta sociedade agridoce que somos todos nós, e o homem que jamais pôde fugir a si próprio, ao seu destino duro, arrogante, impante de sobranceria, irritabilidade e agressividade, aquele ar persecutório de inquisidor-mor do mundo e dos homens.» 
Se entendi bem o pensamento do cronista, ao citar, de forma descontextualizada, Saramago -« em cada democrata existe um potencial ditador» - o despotismo faz parte da natureza dos bárbaros, dos plebeus... e só preocupa, só suscita medo quando se aproxima demasiado da porta dos aristocratas...
Apesar de tudo, quero acreditar que este enxovalho nada terá a ver com Manuel de Oliveira e, também, quero acreditar que o diretor do i, senhor Eduardo Oliveira e Silva, não terá estado atento à composição da página 13, à relação subliminar entre texto e foto.

22.7.13

Até agora

Podemos olhar de frente e não ver o problema.
Podemos querer uma solução sem ver que o problema tem muitas incógnitas.
Podemos olhar para as incógnitas e não ver a rede que as suporta.
Podemos destruir a rede e não ver a solução.

Até agora, embora conheçamos o problema e a rede que o gera, ainda não encontrámos a solução, porque nós somos uma das incógnitas.
Somos parte da rede!
No discurso do portuguesinho, a fonte do problema é sempre o outro, o maldito!

Fotografar é disparar

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Fotografar exige o olhar, mas olhar não é ver. No fotografar, o instantâneo é um disparo. (Fonte: Erich Fromm, The Anatomy of Human Destructiveness, 1974)

Nestes últimos dias, só disparei uma vez! E como se pode notar, fixei-me na curva apertada que abre para o horizonte sadino. Quando olhei, procurei a linha de água e o resto da muralha do castelo, e a maior parte dos indicadores desprenderam-se dos olhos, talvez, para que mais tarde eu pudesse analisar cada um deles. E com tempo, porque sem ele não é possível destrinçar os elementos, observar-lhe a posição, a cor, o volume: devolver-lhe o espaço engolido pela pressa.

Ver exige paciência, concentração, interesse, abertura interior. Ora, antes de disparar, gastei umas tantas horas a classificar provas de exame, para concluir que poucos são os alunos que veem. Basta relembrar que encontrei cavaleiros medievais, sentados em esplanadas de café, a contemplar ociosas donzelas que passavam sem lhes dar atenção, ou que no conto “A Importância da Risca do Cabelo”, de José Rodrigues Miguéis ninguém identificou um pingo de IRONIA ao retratar o Mansinho. Repito: o Mansinho!

Na verdade, o mais fácil é disparar! 

21.7.13

O planalto pariu um coelho

De nada serviu Cavaco ter subido ao planalto da Selvagem! Moisés subira à montanha e trouxera as tábuas da lei que durante séculos orientaram o povo hebraico. Cavaco não só não trouxe nova lei como não conseguiu sequer caçar novo coelho!
Hoje, ao 9º minuto da sua preleção, voltou a servir-nos coelho requentado.
Consta, entretanto, que a crise custou 6 milhões de euros. Gosto da precisão, mas não entendo como é que, sendo tão rigorosos, não conseguimos identificar os fautores e responsabilizá-los.
(...)
Neste fim de semana, no que me diz respeito, ocupei o tempo de crise, como muitos outros professores, a classificar provas de exame, sem esperar qualquer gratificação. Já lá vai o tempo!
E claro, estive atento ao comentário do diretor do GAVE que, sem pudor, atacou a Associação de Professores de Geografia, acusando-a de esgrimir argumentos sem o «mínimo de rigor», porque esta pusera em causa a formulação de vários itens da prova da 1ª fase. O douto diretor, em vez de mandar analisar os ditos itens, disparou contra os alunos, pois, nos últimos anos, de acordo com a análise estatística (a safada!), estes continuam a mostrar dificuldades «na leitura inferencial, na capacidade de escrita, em particular na capacidade para a produção de discursos estruturados, coerentes...» 
Onde é que já vimos este argumento? O senhor diretor já deveria ter compreendido que o problema não é de natureza geográfica. Apesar de transversal, a escrita, nas atuais condições, acaba por ser diminuída nas aulas de Português, nos testes de Português, nos exames de Português...
Chegados aqui, o problema já não pode ser resolvido pelo diretor do GAVE. Compete ao Ministro da Educação ordenar um inquérito aos exames nacionais e tirar as devidas ilações...
(Fonte: Público, Domingo 21 Julho 2013)   

20.7.13

Um presidente ausente

Escrever um pouco mais, mas para quê? As epístolas só interessam a anacoretas! As cartas não resistem à busca absoluta e volátil de sensações... a poesia nem digestivo consegue ser! E quando a arte morre, o romance espera a sua vez: abre-se o contentor e, sem aviso, lá vai lixo, em bruto!
Claro que ainda sobram uns tantos vagabundos de sensações, mas estes não trocam o esgotamento pelo portátil...
É como se o presente fosse apenas duração: O presidente dirige-se ao país amanhã! E porque não hoje? Ficamos à espera da palavra redentora que já sabemos que não existe... em vez da epístola sagrada, da carta de amor ou de desagravo, do ópio da poesia, da plasticidade romanesca, suspensos, estamos à espera que o presidente puxe a cavilha à granada.
 
Poder-se-ia escrever sobre a causa da crise, mas ninguém quer assumir a responsabilidade, porém ela é de todos!
E se alguém escreve e eu não o confesso, não é porque queira faltar à verdade, nem porque Deus tenha deixado de contar comigo para seu porta-voz, mas porque me afastei para longe das cartas que circulam um pouco por toda a parte a confessar a culpa alheia.
Entretanto, vou esperar pelo próximo prefácio do presidente para saber se, afinal, a culpa da crise é, apenas, minha.

PS. Decidi mudar o título "Um presidente sem presente" porque o presidente tem presente, nós é que não. Na verdade, o presidente subiu ao planalto da Selvagem para se distanciar de nós, para se ausentar de nós. Quando o presidente se nos dirige é da "ilha afortunada" onde passou a viver, apesar do tom plangente, de facto, distante...
  
 
 

19.7.13

A inconveniente incerteza

Já várias vezes, aqui, referi que os tempos são de incerteza e que por isso ela tornou-se um lugar comum. Por outro lado, também, aqui, escrevi, que, desde 2011, o Governo vem espalhando a incerteza sem que tal sementeira o incomode por aí além. Pelo contrário, o medo resultante da incerteza tornou-se numa forma cómoda de domesticar a revolta. 
Entretanto, o inefável Passos vem agora acusar o presidente da república de atiçar a incerteza ao anunciar eleições legislativas a partir de junho de 2014. Num improviso néscio, Passos consegue mesmo afirmar que não há nada mais incerto do que o resultado de umas eleições...
O argumento mostra como o senhor primeiro-ministro não sabe qual é o efeito de não encontrar emprego, de perder o emprego, não sabe qual é o efeito do desmantelamento das poucas certezas que restavam aos aposentados, reformados e pensionistas, aos funcionários públicos e trabalhadores em geral.

18.7.13

A insuficiência

No tempo pós-moderno, o conceito "insuficiência" serve para albergar uma grande variedade de medos. Deixando de parte a enumeração desses medos, vale a pena, no entanto, pensar nas causas desse estado de insuficiência em que vamos mergulhando.
Na minha opinião, a causa primeira está no tipo de homem que hoje nos governa e que me atrevo a designar como homem de plástico.
Como material, o plástico pode, de forma mais económica, substituir todos os outros materiais, mas revela um enorme defeito é altamente nocivo, pois a sua lenta dissolução só traz prejuízo. Por outro lado, no interior do plástico esconde-se o vazio, o isolamento, o medo, o que lhe traz uma falsa segurança, uma falsa certeza...
Hoje, ouvi vários políticos de renome, alguns já insuflados, colocarem os interesses dos partidos à frente do bem comum. E fiquei a pensar se a matéria de que eram feitos os fundadores da democracia não terá sida enxertada com algum garfo de plástico.

17.7.13

Nos nossos círculos

Nos nossos círculos, não faltam pessoas a quem é negada a possibilidade de ganhar um euro por dia! Um euro por dia!
Entretanto, há quem diga que o presidente da república vai gastar 150.000 euros na deslocação às Selvagens. 150.000€ por um dia e meio!
Por outro lado, consta que, amanhã, os diretores das escolas públicas deste país vão deslocar-se a Torres Novas para visionarem um power point sobre a organização do próximo ano letivo. Quanto custará este evento ao erário público? Será que não é possível enviar o «power point» por correio eletrónico?
Nos nossos círculos, já deixou de fazer sentido debater o corte de 4800 milhões de euros, pois, a cada dia que passa, o desperdício cresce. Basta observar os mercedes que circulam entre as sedes partidárias a procurar acordo sobre o modo como implementar o corte de 4800 milhões de euros imposto pela Troika, e não pelo PSD ou pelo CDS.
E de nada serve ao PS acusar a coligação de querer impor o corte, pois a culpa é, em primeiro lugar, "socialista"...
E quanto ao corte, não creio que seja difícil fazê-lo. Basta que os governantes prescindam de férias, de ajudas de custo, de automóveis topo de gama, de deslocações desnecessárias, das  frívolas comodidades, e passem a utilizar os escassos recursos com parcimónia.
Se houvesse um sinal, o caminho seria menos difícil e menos demorado!

16.7.13

Exame de Português: "O país sonhado" por D. Miguel Forjaz

Em nome do ARDOR PATRIÓTICO, «ameaçado pelos inimigos de dentro», D. Miguel quer «os sinos das aldeias a tocar a rebate, os tambores em fanfarra, nas paradas dos quartéis, os frades aos gritos nos púlpitos, uma bandeira na mão de cada aldeão.»
Para o «consciencioso governador do reino»: « Portugueses: A hora não é para contemplações! Sacrifiquemos tudo, mesmo as nossas consciências, no altar da Pátria.»
E na perspetiva de Miguel Forjaz,  o país atingirá o clímax quando «Lisboa (...) cheirar toda a noite a carne assada (...) e o cheiro ficar na memória durante muito anos (...) Felizmente há luar...
Sempre que pensarmos em discutir as ordens dos conscienciosos governadores, lembrar-nos-emos do cheiro da carne do General...
(118 palavras)
Infelizmente, há sonhadores que transformam a nossa vida num pesadelo!

15.7.13

Da certeza à incerteza

Os tempos são de incerteza! Os dispositivos de controlo vêm sendo desmantelados um a um e substituídos pela crença de que a certeza poderá regressar, apesar da capacidade para repor ou aniquilar a certeza ter origem externa.
Nos últimos dias, o presidente da república, em nome do interesse externo, voltou-se para o arco da governação e exigiu  acordo sobre "três pilares". O edifício pareceu-me coxo! Sempre ouvira falar dos 4 doutores latinos da Igreja e até dos 4 doutores gregos da Igreja. E mais recentemente, lembro-me que, na China, "o bando dos 4" teve um papel importante na radicalização do maoísmo, espalhando, no entanto, a incerteza.
A ideia de construir um acordo sobre um tripé é certamente uma forma de dar expressão à incerteza. Mas tudo isto só pode resultar do contágio dos três pilares que constituem a Troika que, como todos sabemos, se encarregou de destruir todas as nossas certezas.
Curiosamente, a "incerteza", com as suas quatro sílabas é muito mais sólida, mais românica do que a gótica "certeza". 
Entretanto, o nosso presidente da república, nestes tempos de incerteza, vai acompanhar uma missão científica, em pleno Atlântico, regressando na sexta-feira com a certeza de que, afinal, lhe faltava o pilar da lucidez. Se tal tiver acontecido, em vez de marcar eleições legislativas, anunciará eleições presidenciais. E já para setembro! 

13.7.13

Os resultados dos exames nacionais

Os resultados dos exames nacionais são medíocres e só podem espantar quem anda distraído do desmantelamento a que o sistema educativo tem sido submetido.
a) O GAVE iniciou, na última década, um processo de condicionamento da metodologia de ensino cujo resultado mais evidente é a regulação do raciocínio com a inevitável eliminação da criatividade: professores e manuais submetem-se incondicionalmente à formatação do avaliador. Por exemplo, para que é que servem os Testes intermédios? No entendimento do GAVE, o sucesso escolar depende do treino, sem perceber que este não é suficiente para resolver problemas surgidos em novas situações...
b) Na mesma linha, o Ministro da Educação aposta no reforço da carga letiva, com o claro objetivo de dar mais tempo de treino aos alunos. Por exemplo, qual foi efeito da atribuição de mais 45 minutos à disciplina de Português no presente ano letivo? A média nacional, para além de ser negativa, ainda baixou?
c) Quando se analisa com seriedade o problema, é bem visível que a formação e a atualização dos professores sofreram um sério revés nos últimos anos. A maior parte da formação disponível não passa de um negócio que os professores estão obrigados a pagar em troca de uns míseros créditos que não servem para coisa nenhuma.
d) A mudança dos modelos de avaliação dos docentes, em nome de uma melhoria da qualidade da prática letiva, resulta mais da necessidade de dar ocupação a novas clientelas partidárias geradas nas universidades privadas do que de uma verdadeira estratégia para melhorar a qualidade do ensino. Enquanto os novos "doutores" não se instalam na engrenagem, o MEC força os professores a desempenharem tarefas de avaliação interna e externa para as quais não têm formação. A atribuição da coordenação da avaliação docente simultaneamente a diretores de escolas e a coordenadores de centros de formação em nada contribui para a uniformização de procedimentos, sem falar na DGAE que nem uma base de dados consegue incrementar para gerir todo o processo.
e) É bom de ver que, no que fica dito, há um conjunto de fatores de dispersão incompatíveis com a gestão de 4 ou 5 turmas, a 28/30 alunos. E não  é apenas o MEC que gera dispersão, o Plano Anual de Atividades é, em muitas escolas, obstáculo ao sucesso do ensino e da aprendizagem. 
f) A aposta na aposentação precoce de milhares de professores, para além de os enganar pois lhes frusta as expetativas de vida mais ou menos desafogada, provoca uma verdadeira "descapitalização docente" nas escolas. A experiência de muitos anos e a disponibilidade (art.º79) permitiam recuperar muitos alunos que, de outro modo, estavam condenados ao insucesso.
g) Na verdade, desde 2005, os sucessivos governos, ao contrário do que proclamavam, apostaram: na degradação da imagem do professor junto da opinião pública; na degradação salarial, porque, para além de congelarem as progressões, submeteram os vencimentos a sucessivos cortes; na degradação do mérito e da experiência... Por outro lado, a política de agregação e de agrupamento de escolas trouxe maior dispersão e, sobretudo, maior animosidade entre docentes, funcionários, alunos, pais e encarregados de educação...
h) Portanto, desta vez, o insucesso não deve ser atribuído, em primeiro lugar, aos alunos, pois a causa está do lado da política educativa ou da falta dela.    
 
     

12.7.13

A cobra e o espelho

As cobras podem mudar de pele de dois em dois meses. Se a cobra estiver ferida poderá acelerar essa mudança para reparar os "danos".
 
O discurso político surge de tal modo repleto de contradições, de inverdades e/ou mentiras, de palhaços sem máscara , de lapsos, redundantemente, involuntários, de zangas de ocasião que ficamos sem saber se o locutor de hoje ainda é o mesmo ontem.
Ao contrário do que se possa pensar, apesar do tempo ser de empobrecimento, chegou a vez da classe política ser pós-moderna, abrindo mão da construção da identidade pessoal, da identidade nacional e transnacional. 
Esta opção tem efeitos desestruturantes que desmantelam os indivíduos, as famílias, as nações... Por isso é fácil encontrar quem não se importe que ponham a causa a sua reputação - Paulo Portas, exemplo do momento.
Ora quem proclama que não se importa de hipotecar a sua reputação é quem procura livrar-se da respetiva identidade, pois a pedra de toque da vida pós-moderna não é a construção da identidade, mas a prevenção da fixação.(Zygmunt Bauman)
O político da moda mais não faz do que imitar a cobra ao desfazer-se da pele. Só que ele não procura sarar os "danos", porque ele tem horror à fixação que o espelho insiste em devolver-lhe... Espelho meu, haverá alguém mais horrendo do que eu?

11.7.13

O tempo já não é um rio...

I - Consta que a média nacional do exame de Literatura Portuguesa foi 10,5. Os meus alunos, pouco vocacionados para a Leitura e, consequentemente, para a Literatura, obtiveram uma média de 11,95. Pode parecer um bom resultado, mas, para mim, é um indicador de mediocridade e que legitima a decisão de não voltar a lecionar esta disciplina no ensino secundário.
E se este argumento não fosse suficiente, acabo de encontrar dois outros que, talvez, justifiquem o desencanto dos jovens desenraizados: « O tempo já não é um rio, mas uma coleção de pântanos e tanques de água.» E esta ideia é suportada por uma reflexão de George Steiner sobre os valores a admirar e a visar ativamente num mundo em que se procura « o impacto máximo e a obsolescência imediata
A Literatura é uma forma de enraizamento, de perenidade, de identidade, e não subsiste sem a duração, sem a história da duração, sem o rio em que a avezinha se despenha para ser arrastada para a foz ou alapada nalgum escolho. 
Perante isto, tomo, agora, consciência de que se quisesse continuar a ensinar Literatura teria que passar a visitar os pântanos, ciente de que a experiência seria nauseabunda, embora passageira, pois essa visita estaria condicionada por um mecanismo que a tornaria anacrónica, disfórica e inútil.
 
II - Andando o ministro da educação tão preocupado com as disciplinas estruturantes,  como é que se explica que a média nacional da disciplina de Português (12º ano) tenha baixado precisamente no ano em que a carga horária foi aumentada em 45 minutos?
 
  

10.7.13

Num estado democrático sitiado

Em 5 de Julho de 2013 escrevi: «Insisto que de nada serve viver no «mundo dos acontecimentos ocorridos». O tom era de crítica a quem permanentemente se alimenta do passado. O que eu não esperava era que o presidente da república se dispusesse a aceitar essa ideia.
Hoje, na sua comunicação à nação, o professor Cavaco nada disse sobre as causas e os efeitos da desagregação da coligação, das manobras de Gaspar, de Passos e de Portas. Limitou-se a referir  a legitimidade da coligação para nos governar, não interessa se bem se mal, até Junho de 2014.
Em tom magistral, Cavaco falou do futuro, e fê-lo em tais termos que, a partir de agora, ficamos reduzidos a um bloco central de três partidos. Os restantes podem ir de férias... E quanto ao PS, ou  Seguro revoga as suas exigências de dissolução imediata ou vem dizer-nos que, afinal, era em Junho de 2014 que pensava quando pedia eleições antecipadas...
Vivemos, assim, num estado democrático sitiado. E quando o presidente marcar as eleições, o melhor é a nação faltar à chamada...
Só não entendo por que motivo, o presidente levou tanto tempo a iluminar-nos o futuro, se ela já há muito o tinha desenhado - ele e os seus amigos da troika e da sociedade lusa de negócios.   
  
 

9.7.13

Efeitos da canícula

Dizem os peritos que a canícula baixa a produtividade em 9%. Num país onde não há trabalho e, tradicionalmente, a vontade de trabalhar é reduzida, este calor abrasivo é mais um impedimento ao cumprimento do memorando assinado com a troika.
Curiosamente, o FMI veio dizer que o dia em que sair da troika será de grande felicidade. Será que a culpa também é da canícula e consequente baixa de produtividade?
No que me diz respeito, não me falta trabalho. Falta-me, sim, a remuneração correspondente!
O meu patrão entende que simultaneamente posso ser avaliador interno, avaliador externo, coordenador de departamento, membro do conselho pedagógico, membro da SAD, professor na sala de aula, em casa, virtual, organizador de visitas de estudo, classificador de provas, formando, relator ... e gastar horas e horas em reuniões, em deslocações, em balanços, a construir ferramentas múltiplas...   
O meu patrão entende que devo estar sempre disponível... e que, mesmo assim, essa minha disponibilidade não preenche as 40 horas semanais... Por vezes, o meu patrão ainda me olha de viés porque não digo que sim a todos os devaneios que lhe passam pela cabeça: cada escola um projeto educativo, cada escola um plano anual de atividades, cada escola um regulamento interno, cada escola um contrato de autonomia, cada ano um plano, cada turma um plano... E há ainda heterónimos do patrão que inventam novos projetos que sobrepõem aos anteriores a que devo dar o meu contributo, isto é o meu tempo...
Ora, no dia que passa, ao serviço do patrão, já fui à escola Marquesa de Alorna, à escola secundária de Camões e à escola Padre António Vieira. Sempre em transporte público sem ar condicionado, deixado à sorte na paragem sob um calor abrasador...
E ao olhar para trás, embora não veja o patrão, veja um número interminável de tarefas a que terei que dar seguimento célere, porque o patrão se está nas tintas para a canícula e para o empregado.
E depois, assim como quem não quer a coisa, o patrão, que ignora olimpicamente as condições de trabalho, ainda tem o topete de me considerar um privilegiado e deixar que a opinião pública me acuse de viver num regime de exceção.
Se o patrão tem ao seu serviço trabalhadores que não trabalham há mais de vinte anos, trabalhadores foragidos, trabalhadores madraços, então, despeça-os, e, não me obrigue, a distribuir-lhes serviço, conhecendo de antemão o prejuízo, e, sobretudo, forçando "horários-zero", antecâmera da famigerada mobilidade de pessoas que, se não trabalham 40 horas, é porque o patrão prefere olhar para o lado. 

8.7.13

Estou cansado...

Pode-se trabalhar um dia inteiro e chegar ao fim do dia com a noção de que o esforço despendido foi inútil. E as causas dessa inutilidade são as de sempre: desorganização, desaproveitamento e desperdício de recursos, megalomania e irrealismo, vitimização e narcisismo, faciosismo e verborreia, propaganda e manipulação...
Num mundo de regresso à luta pela sobrevivência, estes comportamentos são indicadores de que a luta pela qualidade de vida, pelo bem-estar, foi lançada em bases erradas.
Ora, presentemente, habituados à sociedade do bem-estar, deixámos de nos interrogar sobre a nossa responsabilidade no agravamento da precariedade...
Preferimos alienar essa responsabilidade, atirando-a para os ombros de um outro, cuja função é resolver cada um dos nossos problemas ou assumir cada um dos nossos erros. 
Acontece que este outro mais não é do que um feitiço cujos poderes são convocados por cada uma das tribos que se vão multiplicando um pouco por toda a parte.
Estou cansado dos tribalistas e dos seus feitiços!

7.7.13

Deslumbrados


Nesta rua, o calor seca as esplanadas, os restaurantes perdem o vigor; o vento deixou de soprar… Uma cor refulge, no entanto, a lembrar que a importação pode alegrar o olhar, mas acaba por destruir a genuinidade.
Deslumbrados com as soluções externas, perdemos o vigor e a cor, e deixamos que o calor nos seque as fontes…

6.7.13

A cena repete-se

Há dois anos, Sócrates, tendo ao lado Teixeira dos Santos em constrangido silêncio, anunciava que deixara de ter condições para governar...
Hoje, Passos Coelho, tendo ao lado Paulo Portas em constrangido silêncio, anuncia que volta a ter condições para governar...
Apesar da esperança do último tandem, a imagem não engana: a vitória será efémera, mesmo que, nos próximos dias, o presidente da república lhes estenda a passadeira laranja...
O mais grave é que a cena repete-se há uma década e já nos habituámos a viver assim, não percebendo que cada desistência, que cada demissão, que cada fuga, que cada cambalhota arruínam irremediavelmente o país.
E este laxismo vai alastrando. Na hora de legitimar a solução, o presidente da república atrasa-a...
 
 
 
 

5.7.13

Sem futuro...

Apesar do tema interessar a pouca gente, insisto que de nada serve viver no «mundo dos acontecimentos ocorridos». O sucesso dos folhetins (das narrativas em geral) resulta de um acerto e/ou branqueamento de contas desnecessário.
Ultimamente, a narrativa política, sob a forma epistolar, radiofónica e televisiva, passou a estar na moda. De repente, todos sentem necessidade de reescrever a História para que ela, de tão desacreditada, não se esqueça deles.
E esta tendência para nos deixarmos prender "aos acontecimentos passados" (M. Bakhtine) resulta de uma má gestão do tempo pessoal e político.
Acabo de ouvir que os partidos da coligação já entregaram ao presidente da república a solução para os problemas que até há dias não queriam enfrentar ou que preferiam adiar. Em princípio essa solução só pode estar orientada para o futuro e, em particular, para o atalhar da penalização que nos é aplicada pelos mercados... Em termos de presente e de futuro, o que deveria estar a acontecer era a remodelação do governo, com a tomada de posse dos novos ministros ou, em alternativa, a dissolução da assembleia da república...
Mas não! Amanhã, os partidos irão a banhos de manhã e ao fim da tarde dirigir-se-ão à nação. Para quê? Para nos apresentar a narrativa dos "acontecimentos passados", para justificarem o injustificável. Quanto ao presidente da república, esse vai esperar por 3ª feira para ouvir de viva voz a narrativa dos partidos...
Como já referi noutros "exercícios", a classe política tem uma perceção do tempo completamente desfocada e quando isso acontece a ação política torna-se criminosa. Parafraseando um ex-político: «Tenham paciência, a política é a política!»  
 

4.7.13

Da gestão do tempo político

Nestes últimos dias, a gestão do tempo político revelou-se completamente inadequada à realidade dos mercados, isto é, ao tempo da especulação financeira.
Qualquer hesitação dos agentes políticos é, de imediato, aproveitada nas bolsas, deitando a perder o duro trabalho de empreendedores e trabalhadores. 
A decisão não se compadece com delongas; ela exige clareza, concertação e celeridade.
Em Portugal, a resolução da crise não obedece a nenhum destes critérios: o primeiro ministro coloca uma "fórmula" de solução nas mãos do presidente da república, à 5ª feira, sabendo que, na 6ª feira, os mercados não perdoarão a falta de clarificação; o presidente vai reunir com os partidos na próxima semana, sabendo que os mercados continuarão a abrir na ignorância da falta de concertação...
Num estado moderno, a decisão política não pode estar à espera da realização de um congresso partidário!
Estes políticos, todos, vivem num tempo anterior à queda do Muro de Berlim!  
 

3.7.13

Da classe política

Em termos semânticos, o título deste "post" coloca-me algumas dúvidas.
Em primeiro lugar, o termo "classe" não designa adequadamente o conjunto de indivíduos que, supostamente, se ocupam do destino do país. Provavelmente, o termo "bando" cumpriria melhor a função. Em seguida,  aplicar o adjetivo "política" a este conjunto de indivíduos não faz sentido, já que estes apenas se ocupam de interesses individuais, familiares, tribais, partidários; o país é o terreno onde caçam, saqueiam...
Historicamente, Abril soçobrou na construção de uma  clássica política responsável ou, pelo menos, deixámos que, aos poucos, ela se fosse desmantelando, de modo a permitir o aniquilamento inequívoco do estado democrático.
Sem classe política responsável não há democracia e, também, não há democracia na rua.
Aquilo a que se assiste é a um enquistamento de posições à cabeceira de um povo moribundo, quando se esperaria uma conjugação imediata de esforços para evitar a queda no abismo.
Entretanto, os abutres já estão a postos! 

2.7.13

Sequestro político

«O reino do inter-humano excede em muito o da simpatia... A única coisa que importa é que, para cada um dos dois homens, o outro aconteça como outro particular, que cada um deles se torne consciente do outro e assim entre em relação com ele de tal modo que o não olhe nem use como seu objeto, mas seu parceiro num acontecimento vivo...» Martin Buber, The Knowledge of Man: Selected Essays (1965)
 
Ontem e hoje, a factologia política trouxe uma imagem do reino inter-humano totalmente contrária à defendida por Martin Buber - cada um dos protagonistas vê o outro como «seu objeto». E só essa visão objetificadora do outro nos pode justificar o estado de desnorte a que estamos a ser conduzidos.
Infelizmente, em Portugal, apesar de se discutir diariamente a formação académica, de se defender a avaliação de todo o tipo de instrução, descura-se a educação.
Sem educação, não há parceiros! E também é por isso que a política de austeridade não consegue resolver qualquer problema...
A resistência à objetificação é de tal modo frágil que um primeiro ministro decide publicamente "sequestrar" o chefe do parceiro de coligação sem que se assista a uma revolta imediata do partido ofendido.

1.7.13

Cegarrega

  1. Chegou o tempo das cigarras! Com a queda de Gaspar, não há quem queira faltar às exéquias da formiga que tudo fez para nos espoliar ao serviço dos banqueiros internos e da troika. Creio, no entanto, que, a partir de 15 de Julho, não haverá mais espaço para cigarras.
  2. Nem eu sei por que motivo ainda fixo o nome de certos fantoches, sobretudo, quando, ao lidar com turmas de 27 alunos, tenho dificuldade em distinguir todos aqueles jovens que esperam que eu saiba reconhecer e premiar o respetivo esforço. Há quem diga que a memória é seletiva, capaz de privilegiar os afetos, as paixões... todavia, no meu caso, a seleção parece ser de tipo masoquista...
  3. Dando expressão a um ato ilocutório compromissivo, prometo que, em nome da saúde mental, me irei abster de nomear certos fantoches...