22.10.18

O que eu (não) entendo

Como é que se pode proibir o que já era proibido?
Como é que se pode ter opinião sobre o que não se compreende?
Como é que se pode viver sem aprender a ler?

  • De facto, chegámos a um ponto em que, abolida a sanção, tudo é permitido.
  • Desde que a opinião começou a abrir caminho,  o fundamental nunca foi a compreensão, mas, sim, a substituição de dogmas anacrónicos por interesses inconfessáveis, individuais ou coletivos…
  • Lá no fundo, é possível viver, basta não pensar.

21.10.18

A cadeia de comando na Barataria

As velhas só se sentam no mesmo banco uma ou duas vezes por mês. Têm mais que fazer: substituir os filhos e tratar dos netos, ir à igreja e aos correios, sem esquecer a mercearia de bairro onde as novidades são mais que muitas…
Por exemplo, nos últimos dias, gastaram mais tempo na mercearia, porque alguém se interrogava sobre "a cadeia de comando".
Alguém defendia que não era possível que o Presidente ignorasse quem é que tinha assaltado o Quartel em Tancos, o que é que tinha sido roubado e como… Afinal, o Presidente era o Chefe Supremo, dispunha de vários Serviços de Informações. O próprio Governo não poderia deixar de o informar e até a Procuradoria encontraria forma de o esclarecer. 
A não ser que a "cadeia de comando" também tivesse sido minada e aí o Presidente deixaria de ser Chefe Supremo… ou melhor, continuaria a sê-lo, mas da Barataria… 

20.10.18

O céu das velhas

É das velhas porque lhes basta um banco. Se fosse dos velhos, seria necessário acrescentar uma mesa, de preferência, de pedra…
No céu das velhas, as sensações escasseiam e os pensamentos andam arredios, como convém a quem prefere evitar os cascos dos deuses…
Basta-lhes a palavra lenta e hesitante sobre o ladrão que devolve as armas, tão velhas como elas, e nada acrescenta sobre aquelas que, no fio dos dias, partiram para novas guerras…
As velhas já não ligam a inventários, mas custa-lhes acreditar que aquelas armas chamuscadas sejam as que foram desaparecendo dos paióis do reino… 
As velhas pensam cada vez menos, mas estão, por ora, entretidas com um velho vieira da silva que anda a brincar com as velhas e os velhos deste país… No entanto, estes velhos narcisistas têm o que merecem, pois se imaginam eternamente jovens...

19.10.18

Não sei se o diga...

Não sei se o diga, se o sugira, se o omita… Pouco importa, outros já o disseram, o sugeriram, o omitiram…
De qualquer modo, penso-o e calo-o… Temo, todavia, que já esteja disponível um registo do meus silêncios…
Um destes dias, ainda vou ter de pagar, o que não é grave, pois já pago todos os dias…

(Ontem, ainda havia ruído. Hoje é só silêncio!)

18.10.18

A sorte é uma raposada

A Sorte (boa ou má) instalou-se de tal modo na nossa mente que facilmente aceitamos que ela decida por nós.
Quase toda a Literatura a privilegia, embora sob roupagens várias - do Fado à Fortuna, sem descurar a Sina, a Moira e o Destino… - e nós embarcamos na fantasia de ocultar os verdadeiros fautores, em nome de códigos manhosos.
Vem o desabafo a propósito de quê?
Por exemplo, a propósito daquela inglesa que foi violada no Algarve e cujo violador acaba de saber que por 2.000 euros até terá valido a pena… 
Por exemplo, a propósito da encenação levada a cabo pelo Governo e seus apoiantes em torno da aposentação dos (chamados) grandes contribuintes ou em torno dos aumentos da função pública… ou em torno do descongelamento das carreiras… ou do aumento dos pensionistas…
A Sorte é uma raposada!

16.10.18

A cor da liberdade

(Sem ponto de interrogação. Não se trata de saber se a liberdade tem cor. Mas de viver em liberdade…)
  
Não hei de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
                          
Jorge de Sena (1919-1978)     

Testemunho:
Lembrava-me de um poema já antigo dele, anterior ao seu exílio. O poema tinha a data de 9 de Dezembro de 1956, quando o poeta acabava de fazer 37 anos, vivia ainda em Lisboa como engenheiro e se preparava, a convite do British Council, a se deslocar temporaneamente à Inglaterra, para um estágio sobre betão armado.
Luciana Stegagno Picchio

15.10.18

Basta estar!

A verdade é que eles não querem saber, e não se importam de desperdiçar um tempo precioso… Até porque pensam que a glória não lhes escapará… Basta estar!
À dificuldade dizem não; preferem abrir um link e regurgitá-lo na hora aprazada. O trabalho intelectual não lhes causa dor; é apenas uma maçada…
Os textos perderam a autoria (cansa inquirir a referência); verdades ininteligíveis e enfadonhas sobre almas perdidas…
Deixemo-los estar!

14.10.18

Não basta ter sido uma criança mais ou menos afortunada...

Há dois ou três dias, perguntaram-me o que era uma varinha de condão e eu, que nunca fui muito dado ao mundo da fantasia, não consegui esconder a minha surpresa… Respondi que o melhor era o "menino" ir investigar…
Entretanto, lembrei-me que, na minha infância, me familiarizara com a varinha de vedor - o meu avô materno era um dos mágicos do lugar que conseguia com uma vara bifurcada de oliveira detetar a presença de água…
De qualquer modo, o tempo da varinha de vedor, creio, que já venceu, pois há, hoje, ferramentas de deteção mais fiáveis. O mesmo não terá acontecido com a varinha de condão ou com a varinha mágica. Basta entrar na secção de brinquedos de uma grande superfície comercial para a ver um pouco por todo o lado… 
Pensava eu que bastava ter sido uma criança mais ou menos afortunada para compreender enunciados do tipo:
«A inteligência lembra uma varinha de condão…»
«A mesma varinha, porém, por um uso intenso e persistente, acaba por esvaziar de realidade as coisas…» Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa

Em suma, antes de compreender o paradoxo pessoano, lá terei que regressar a uma infância que não foi minha, e gastar algum tempo a explicar o contributo de Jacinto Prado Coelho para a interpretação da obra de Fernando Pessoa…
Mas como o tempo de atenção é extremamente curto, provavelmente não sairei da loja de brinquedos…

13.10.18

O furacão das televisões

As televisões, a esta hora, digladiam-se pateticamente à procura de imagens de infortúnio. Será em nome do serviço público ou de audiências?
A RTP1 mobiliza todos os recursos tecnológicos e humanos. E os repórteres não poupam nas palavras: prometem agravamento para as próximas horas…
Esperemos que o (a) Leslie não lhes falhe! E que nos deixe dormir tranquilamente!
Por enquanto, o coro das incriminações ainda não se consegue ouvir. No entanto, se a ventania se levantar...

12.10.18

Andava pingarelho na costa

Não sei se Sua Excelência ficou contente ao tomar conhecimento da demissão de um dos pingarelhos mais sisudos do Governo… 
Eu não posso ficar indiferente, pois a notícia esclarece que o "pingarelho se demitiu". A decisão só podia ser sua, afinal, pois esse é um traço específico da espécie a que pertence…
No caso deste pingarelho, por ora demitido, confesso que não sabia que a sua "arrogância" tinha fundamento. A polícia judiciária militar (PJM) não respondia às chefias militares, mas ao pingarelho da Defesa.
A subtileza da questão está em que Sua Excelência, Chefe Supremo das Forças Armadas, deveria, lá no âmago, sentir-se diminuída sempre que se lembrava que no Governo da Nação havia um pingarelho que se ufanava de andar melhor informado, ao ponto de saber que houvera um roubo que nunca o fora…

11.10.18

Há quem não goste do termo 'pingarelho'

Bem sei que há quem não goste do termo 'pingarelho' e que acredite que esta personagem está em extinção, não sendo digna de figurar em qualquer dicionário da especialidade…
No entanto, esta espécie é muito mais visível do que a cigarra… Em trinta segundos, eu consigo visualizar 'pingarelhos' nos Ministérios, no Parlamento, nas Autarquias, nos Partidos, na Magistratura, no Ministério Público, nas Forças Armadas, nas Universidades, nas Igrejas, nos Sindicatos, nos Clubes de Futebol, nos Hospitais, na Comunicação, dita, Social…
Esgotei os trinta segundos…

10.10.18

As competências do pingarelho

Quero primeiramente esclarecer que a noção de competência corresponde a uma combinação de conhecimentos, aptidões e atitudes adequadas ao contexto. (Isabel Simões Dias, Competências em Educação…)

O pingarelho é competente discursiva e comunicacionalmente, embora, por falta de conhecimento, não tenha nada a informar. 
A relação de interlocução do pingarelho é fácil, pois as armas a que recorre são as da estupidez…
O pingarelho revela um raciocínio lógico, pois, axiologicamente, o mundo divide-se em Bem e Mal, em Verdade e Mentira. Para o pingarelho, os demónios do Mal e da Mentira devem ser combatidos com recurso às armas mais mortíferas.
O pingarelho mostra-se confiante nas outras pessoas, desde que estas o sigam submissamente.
O pingarelho é um gramático extremamente competente, porque manipula as regras como ninguém. A sua felicidade maior é ordenar os homens e a natureza, vendo-os como nós de uma engrenagem em que as exceções são inadmissíveis.
No mundo do pingarelho, a competência estética é extremamente perigosa a antissocial.
O pingarelho odeia a cultura e a ciência, a não ser a da submissão e a do extermínio.
O pingarelho não é recuperável, porque a competência é de ordem interna, e a educação, para o pingarelho, só é aplicável ao rebanho. 

(Os pingarelhos crescem mais facilmente em ambientes abúlicos e nihilistas.) 

9.10.18

Chega de pingarelhos!

Leio certas notícias, volto-as do avesso, não para distinguir as verdadeiras das falsas, mas para lhes apreciar a cor - sobre o amarelo cresce o branco a transformar-se numa crosta esverdeada, azulada - a diluir-se numa aguadilha nauseabunda…
Neste lugar húmido e escuro, a notícia é, agora, fungo à solta, que, expressão de uma moral castradora e autoritária, se prepara para estrategicamente aniquilar o que resta da democracia…
Chega de pingarelhos!

8.10.18

Desnorteada, a moral

A História não se faz projetando no passado os juízos morais do presente. Jorge de Sena

Desnorteada, a moral abriu caça às bruxas, o que conduz a um ajuste de contas permanente.
O problema é que a moral atual já não corresponde ao sentimento de uma comunidade... e, como tal, a própria comunidade corre o risco de se tornar na maior vítima de interesses inconfessáveis.
Por aqui (espaço urbano), não há eucalipto que escape! 

7.10.18

A lógica de Recep Tayyip Erdoğan

O Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, declarou esta semana que “não pode haver democracia com meios de comunicação social” porque estes não refletem o que pensa o povo. “Se há um povo, há democracia. Se não há um povo, não há democracia. Com os meios de comunicação e essas coisas, não pode haver democracia”, afirmou Erdoğan na quarta-feira, ao discursar em cerimónia de inauguração do novo ano escolar na Turquia. Os meios de comunicação social e outras coisas…

Argumentário do ditador educador
  1. O povo pensa, como entidade coletiva, imaculada e iluminada.
  2. A democracia é a expressão política do pensamento do povo.
  3. Os povos são todos democráticos.
  4. Os meios de comunicação social e as redes sociais corrompem o povo.
  5. Os políticos, para executarem a vontade popular, não podem ter medo da comunicação social…
  6. A nova democracia turca baseia-se na relação direta entre o líder (Recep Tayyip Erdoğan, o intérprete) e o povo.
Consequência: "Os meios de comunicação social e essas coisas" devem ser todos extintos.

6.10.18

Basta um cruzado!

Pois é, o dinheiro! Parece que já não compra tudo… Basta um cruzado para dar cabo do negócio!
Por este andar nem o Papa se salva. 
Numa curta ou uma longa vida, há sempre uma piscadela de olho, uma escapadela, um gesto insensato… 
Tempos houve em que os cruzados se contentavam com indulgências mais ou menos principescas. Só que hoje, a fome de vingança é absoluta - não descansa enquanto não devora o carrasco e a vítima, sob o olhar cúmplice da populaça.

5.10.18

A Serpente em Loures

O Presidente da República saudou esta quinta-feira os pioneiros que proclamaram a República em Loures a 4 de outubro de 1910 e pediu que se mantenha viva a democracia "mais com obras do que com palavras", constantemente. A Serpente em Loures

A Serpente, de tão inteligente, antecipou a proclamação da República portuguesa. Este simples facto obriga-me a pensar que não terá sido Deus a criá-la. Então, quem foi?
Talvez o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa saiba… 
E como, em matéria de criação, a inteligência é um requisito essencial, estou sem saber por que diacho se insiste em fazer as comemorações no dia 5. Será por vaidade ou por burrice? 
Até porque aparecem sempre os mesmos...

4.10.18

A Serpente

O tempo está de tal feição que o próprio Diabo deixou de abanar o rabo e decidiu confessar que, também, ele sofreu, desde que a serpente seduziu a eva, todo o tipo de calúnias e de sevícias…
De acordo com certos comentadores, o próprio Deus, cujo papel nesta história é cada vez mais suspeito, pois nunca desmentiu que tenha criado a serpente, corre o risco de vir a ser julgado e, definitivamente, eliminado… 
… a não ser que decida acabar com o estado depressivo em que deixou cair o mundo, pois, já que o criou, deve saber como desfazer-se dele. 
Ao 7º dia, poderá descansar, livre de serpentes, diabos, maçãs, parras, véus,  saias, batinas, chicotes e outros cilícios que não vale a pena enumerar… De qualquer modo, se tiver perdido a ousadia, basta eliminar o dinheiro...

3.10.18

De raciocínio murcho

É isso! Falta imaginação, criativa… apesar da outra,  fantástica, grotesca…
De raciocínio murcho, preferimos a imitação. 
Do quê, pouco interessa desde que queimemos o tempo…
Em todo lado, mesmo na variação, se repete o amuo, o arrufo, o boato, o êxito…
Golpeados pela imagem, sobre a falésia, esperamos que a onda suba…

2.10.18

O corpo da CARUMA

Informa a estatística que, desde abril de 2006, já aqui postei 3316 "posts", que são o corpo da CARUMA… Depois desta Caruma, muitas outras surgiram mais briosas e com maior proveito… 
De certo modo, esta CARUMA feneceu quando a mobilidade cedeu o passo ao sedentarismo. Por preguiça ou por saudosismo o blogue continua, permitindo apontamentos despretensiosos, pessoais ou alheios…
Hoje, aproveito para homenagear as Antigas e Novas Andanças do Demónio,  de Jorge de Sena: 

« à beira de água, as praias, de estreitas são apenas uma ligeira caruma do oceano - que as transporta misteriosamente escondidas na limpidez das ondas.»

Na mesma 'andança', assinala uma ideia que me permito trazer aqui, assegurada a devida distância:

«Talvez porque não eram meus, raras vezes, em pequeno, me demorei perante os grandes mapas murais da escola ou do liceu. Poucos desses mapas não falavam. Havia na minha escola, uma caixa vertical, de onde eles emergiam, ficando suspensos depois como de uma forca, e onde podiam mergulhar de novo, para que outros subissem, era um eterno retorno arbitrado pelo desenvolver-se do programa escolar.»

Na minha escola de outrora, não me lembro de nenhuma caixa vertical, mas a ideia da forca e do cadafalso não me é estranha, só que o enforcado era eu se me esquecesse dos afluentes dos rios e das serras, sem esquecer as linhas férreas com estações e apeadeiros… 
No caso do Jorge de Sena, talvez ainda esteja a tempo de verificar se no Liceu Camões há vestígios das caixas verticais… antes que as obras comecem. 
Que Belzebu não atrapalhe! 

1.10.18

Alegremo-nos, irmãos!

Eis aqui a Igreja neopentecostal "Bola de Neve Church" fundada em S. Paulo, em 1999, pelo apóstolo Rina, pastor, surfista, formado em marketing…

Objetivo pastoral: plantar o maior número de igrejas no menor tempo possível.
Para que conste, descobri um desses templos no bairro do Cristo-Rei, bem pertinho do Seminário dos Olivais e da Igreja católica do Cristo-Rei...

A verdade é que me sinto espiritualmente confortado, até porque já falta pouco tempo para a inauguração da "Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias" (Igreja Mórmon), no Parque das Nações, em frente do Mercado de Moscavide...