30.9.13

Maldita abstenção

I - Quase metade dos eleitores não cumpriu o dever de votar. Porquê?
Já morreram? Quantos?
A idade limita-lhes a deslocação? Quantos?
Emigraram e ainda não estão registados nos países de acolhimento? Quantos?
Delinquentes e vagabundos perderam a noção do tempo? Quantos?
A crise política e financeira não lhes diz respeito? Quantos? Do que é que vivem?
Há aqui uma incógnita por explicar, apesar de tantos sociólogos desempregados! Esta incógnita adultera certamente os resultados eleitorais...
No entanto, desta vez, a votação daqueles que não desistiram revela um caminho claro: a vontade de mudar. A vontade de afastar os autarcas saltimbancos, os autarcas salteadores... Do Porto ao Funchal, sem esquecer Braga e Loures, os eleitores decidiram arrepiar caminho, na esperança que a crise não se avolume.
Um sobressalto democrático e patriótico manchado por aqueles que preferiram a abstenção.

II - O comentador de 2ª feira, Miguel Sousa Tavares, confessa que acabou de votar e que por isso não quer saber do que pensa a TROIKA.
Infelizmente, a TROIKA já olhou para os resultados eleitorais e somou os votos da direita com a abstenção!
 

29.9.13

Santo de Pau Carunchoso

Santo de Pau Carunchoso 001

Durante muitos anos, ouvi os mais velhos (e não só!)  acusarem o vizinho, o padre, o cabo de esquadra e o amigo de serem “santos de pau carunchoso”.  Em todo este tempo, nunca consegui encontrar alguém a quem o epíteto assentasse que nem uma luva. Havia sempre um senão! Uma virtude que me impedia de aplicar a referida locução!

Até que, ao folhear o Expresso de 27 de setembro,  encontrei o “santinho” reverente, suplicante…

28.9.13

Tanto refleti...

«Impossível não ter comportamento: a minha ausência de comportamento é uma forma de comportamento. É mesmo uma forma espetacular de comportamento.» Eduardo Prado Coelho, Comunicação e Democracia.
 
Tanto refleti que concluí o óbvio: Para grandes males, grandes remédios!
Perante a sobranceria dos credores e dos seus agentes internacionais e nacionais, só nos resta mostrar, de forma espetacular, que não atiramos a toalha ao chão.
Para o efeito, amanhã, bem cedo, antes da abertura das urnas (que maravilha!), deveríamos tomar uma decisão solidária: Votamos todos ou não vota ninguém!
Qualquer uma das opções seria a expressão de um comportamento espetacular. Mais importante do que o resultado seria a afirmação da rejeição do modo como se faz política em Portugal.
 

27.9.13

Cachorros fomos, cãezinhos semos...

«Ó meu santo Nicodemos,
Cachorros fomos, cãezinhos semos,
livrai-nos da esmola do Diabo
que é a pedra fora de mão,
jogada à tola, jogada ao rabo,
contra um cãoAquilino Ribeiro

Só os rafeiros é que andam de pata estendida, sujeitando-se ao humor do dono!
Nas últimas semanas, a caravana autárquica percorreu o país, repetindo um número patético: tambores, cabeçudos e figurantes percorreram, apressados, as ruas e as praças, vozeando, sem uma visão de como o poder local pode ajudar o poder central a livrar-nos da esmola do Diabo...
Pelo contrário, parece que, no próximo domingo, o eleitor vai ignorar  os sicários da nação.
E atenção! A culpa não é do Diabo!
Cachorros fomos, cãezinhos semos!
 

25.9.13

A sua Escola já não existe!

Ultimamente, pareço querer tudo compreender e, sobretudo, interpretar, e, não contente, desatei a querer ensinar a compreender e a interpretar.
Recorro ao texto e ao intertexto, ao tema e à isotopia, sem esquecer o sema, ponho em ordem a cronologia, dando relevo à analogia, percorro o Parque Mayer, desço a Avenida e, sem saber como, chego ao cais de Alcântara, com uma breve passagem pelo Ralis.
Sonho com os mares de Timor e tropeço na beatitude dos meus ouvintes que, respeitosamente, preguiçam à espera do inexistente toque da campainha...
 
E subitamente a VOZ do Além: - Ó homem, acorde! A sua Escola já não existe! Foi extinta!

24.9.13

Notas por resgatar

  1. De cada vez que o primeiro ministro sofre uma contrariedade lá vem a promessa de que irá rever a lei. A oposição que se cuide! Vai ter que acompanhá-lo no ajustamento da Lei à sua "realidade". No caso, o senhor não prescinde da televisão!
  2. Se bem percebi o fidalgo das laranjeiras está contra os candidatos a autarcas que «não sejam de boas contas ou não saibam fazer contas».  Este mesmo fidalgote acaba de recuperar o significado original do termo "freguês"- o habitante da freguesia. Um contributo assinalável para a recuperação da língua portuguesa!
  3. O ministro das piruetas acaba de reconhecer que as crianças, afinal, devem ser iniciadas na língua inglesa. Sem esquecer o ensino educacional! Parece que as crianças que optem por este ensino serão mais felizes e mais educadas... acabo de ouvir um jovem que deixou de «chamar nomes» aos professores e sobretudo de faltar à escola. Os patrões poderão, assim, moldar os novos operários e pagar-lhes o que bem entenderem.  Um bom exemplo de flexibilidade...
  4. Com tantos sinais de recuperação da economia, não se percebe porque é que se continua a falar de "resgate"!
  5. Com a natalidade a decrescer e a mortalidade a crescer, hoje terá sido um dia triste para a Caixa Geral de Aposentações e para a Segurança Social. Não consta que algum poeta tenha morrido neste país onde a poesia vive de subsídios...

23.9.13

António Ramos Rosa

Entrega-se
como para morrer
mas não morre

É demasiado rígida
e não tem gretas
não estremece

Cai
vai caindo
sem atingir o repouso
sem oferecer o rosto

à terra
que ela chama

(JL, Ramos Rosa, 13.11.1990)


Rosa, António Ramos[1] (17.10.1924 -21.09.2014). Fez estudos liceais no Algarve (Faro, até ao 6º ano do Liceu) e trabalhou como empregado de escritório, actividade que abandonou, sendo explicador e tradutor (durante mais de 20 anos). Foi co-responsável pela edição das revistas: Árvore; Cadernos do Meio-Dia. Foi um elemento activo do MUD Juvenil, tendo sido presidente da Comissão Distrital de Faro. Esteve 3 meses preso no Aljube por ter subscrito um manifesto por ocasião da comemoração do 5 de Outubro de 1947. Considera-se um antifascista genuíno, simpatizando com a democracia directa. Entende a poesia como forma de conhecimento, como arte do impossível, um acto fundador, para dissipar o que está escrito[2]. Em 1971, Ramos Rosa rejeita o Prémio Nacional de Poesia, concedido ao livro “Nos Seus Olhos de Silêncio”, porque se aceitasse entraria no jogo de compromisso com o fascismo.[3] Quanto às influências de João Cabral de Melo Neto, considera-as muito pequenas[4]. É de 1958, o seu poema «O funcionário cansado”: / Sou um funcionário apagado / um funcionário triste / Obra: Grito Claro (1958); Viagem através duma Nebulosa (1960); Poesia, Liberdade Livre (ensaio, 1962); Ocupação do Espaço (1963); Construção do Corpo (1969); Nos seus olhos de silêncio (1970); Não Posso adiar o Coração (1975); As Marcas no Deserto;[5]  Gravitações (1983); Incisões Oblíquas (ensaio, 1988); Acordes (1989)[6]; Pátria Soberana (2001); Os Volúveis Diademas (2002), ed. Ausência; Em 1988, recebeu o Prémio Pessoa pelo conjunto da sua obra. Para A. Ramos Rosa: «a prática poética ou artística é sempre um fenómeno social que só se justifica e identifica pela sua inerente capacidade subversiva.»[7]

(Nota de leitura necessariamente incompleta.)


[1] - Não posso adiar para outro século a minha vida / nem o meu amor / nem o meu grito de libertação / não posso adiar o coração. // Não posso adiar / ainda que a noite pese séculos sobre as costas / e a aurora indecisa demore./
[2]  - / É preciso queimar os livros e calarmo-nos / Esta é a matéria bárbara a matéria viscosa /
[3] - Entrevista conduzida por José A. Salvador, Diário Popular.
[4] - No entanto, reconhece influências de Drummond de Andrade e Paul Éluard, assim como dos poetas espanhóis da geração de 27  (Guillén, Vicente Aleixandre e Pedro Salinas). E ainda dos norte-americanos: Theodore Roethke e Wallace Stevens.
[5] - Livro oferecido aos 80.000 jovens que se reuniram em Bolonha, em 1977.
[6] - Prémio de Poesia APE /CTT.
[7] - Entrevista dada a Baptista-Bastos, a 9 de Abril de 1981.

22.9.13

As eleições de 29 de Setembro são cruciais

As eleições autárquicas de 29 de Setembro são cruciais! 
Chegou a hora de dizer basta à coligação governamental, aos banqueiros e a todos os oportunistas dispostos a continuar o esbulho.
Argumentar que estas eleições são locais e que por isso não podem ter significado nacional é um atentado contra a inteligência dos desempregados e dos espoliados. Se não tivermos a coragem de dizer não à coligação governamental e ficarmos à espera das eleições legislativas de 2015, cedo perceberemos que o abismo não tem fundo.
Se a vontade popular se exprime na mesa de voto, mesmo que não tenhamos nada a apontar ao autarca que se recandidata ou que se candidata a nova autarquia, então há que não esquecer que, na maioria dos casos, a conivência ideológica é causa do pântano em que nos vamos atolando.
Apesar das manifestações e das greves serem armas importantes no combate político, espero que saibamos dignificar o voto como instrumento primordial na luta pela soberania e pela sobrevivência. 

21.9.13

Admirar é relacionar

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Na infância «A minha retina podia comparar-se, pela sensibilidade, à da película fotográfica, susceptível de fixar imagens plurais. Impressionava-se, por conseguinte, de tudo o que se lhe pospunha. (…)  / Mas esta passividade viva perante os fenómenos não me conferia o poder de admirar. Admirar é relacionar, operação que estava acima dos meus recursos cerebrais.» Aquilino Ribeiro, Cinco Réis de Gente, Círculo de Leitores, pág. 72.

Mas quem é que ainda tem disponibilidade para relacionar? E como é que se relaciona se não houver aproximação? Se hoje se admira tão pouco não é por causa desse tempo em que tudo era poroso, em que tudo ficava na retina, mas porque, paradoxalmente, vivemos distantes, apesar dos mil “likes” que insistimos em pospor…

Na Jardim da Estrela, ainda há alguma proximidade. Se olharmos de perto, vemos uma multiplicidade de grupos à procura do respetivo centro. Mas parece que todas estas pessoas fogem da lavagem ao cérebro que se instalou nas aldeias e cidades deste triste país…

Na verdade, há muito poucos candidatos autárquicos dignos de serem admirados! Com obra ou sem ela, a maioria só busca a Fama, um lugar que lhes dê poder e os ponha bem longe da pobreza.

Se soubéssemos relacionar, no dia 29 de setembro, teríamos uma enorme dificuldade em votar!

20.9.13

Um outro modo de ler

« - Ainda houve aquele revolucionário jurar de bandeira nos Ralis - retomo o fio primeiro da conversa, nódoas como a da gravata do senhor conde até numa revolução tão generosa -, a pilhagem da embaixada de Espanha, a agitação nas ruas, a sublevação nas escolas e outros desmandos...», Fernando Campos, O Sonho, edição Expresso 2003, Os Lusíadas, canto IV, comentários de José Hermano Saraiva, ilustrações de Pedro Proença.
Estas são imagens de um acontecimento (21.11.1975) que, aqui, coloco para que os meus alunos possam interpretar o conto selecionado para dar início a este ano letivo. Caso contrário, tal como o Parque Mayer não passa de uma misteriosa referência, também os momentos de euforia nacional se terão esfumado irremediavelmente. Há debates, que para serem encetados, exigem muito mais do que ter opinião...

  

19.9.13

Ao cuidado do ministro Crato

Na perspetiva dos jovens lisboetas, nascidos em 1996, o Parque Mayer nunca existiu!
Mesmo os mais atentos estão convencidos de que a referência - «O Mayer estava a morrer, deserto, parque de estacionamento» -, no conto O Sonho, de Fernando Campos,  não passa de fantasia literária, até porque n'OS MAIAS esse parque nunca é referido... (Paradoxalmente, o romance queirosiano ganha estatuto de referência documental, perdendo, ao mesmo tempo, valor literário.)
Para facilitar a inteligibilidade do conto, registo que a inauguração deste Parque se deu a 15 de Junho de 1922, sob a responsabilidade da Sociedade Avenida Parque, impulsionada por Luís Galhardo, e que o repasto, em que o Conde comunica que vai embarcar no Lusitânia Expresso com destino a Timor, decorre pouco antes da partida - dia 23 de Janeiro de 1992. Uma viagem interrompida pelas forças militares indonésias. Porquê?
O desconhecimento da referência, seja ela temporal, espacial ou factual, afeta seriamente a compreensão textual e inibe o prazer inerente, tornando a leitura enfadonha, e  a visão distorcida da chamada realidade.
De qualquer modo, há solução para o desconhecimento da referência. Basta solicitar um novo exame ao IAVE!
 

18.9.13

Maria Luís Albuquerque e os swaps

Desconfiado, fui consultar o Dicionário da Língua Portuguesa, à procura do verbete "swap", mas nada encontrei, o que se aceita, pois o termo é um estrangeirismo utilizado por gente preguiçosa. Gente frouxa.
O recurso a "swaps" suxa-nos a vontade e empurra-nos para a ociosidade. Se bem entendo a atual ministra das finanças, ela não se deixa suxar facilmente. Como técnica, ela só se pronunciou sobre o financiamento das empresas e dos empreendimentos e nunca se ocupou de empréstimos linguísticos ou outros. O que era preciso é que os milhões de euros entrassem nos cofres... De quem? Pouco importava? Era assunto que também não lhe ocupava o pensamento...
A ministra não sabe o que são "swaps" porque ela defende a língua portuguesa. Ainda se lhe tivessem falado de "trocas", ela, talvez, tivesse avaliado os prejuízos. Mas não! Maria Luís Albuquerque é uma purista que aprendeu, não se sabe com quem, que os empréstimos linguísticos não solicitam autorização para nos envenenar a língua e que nem sequer admitem "trocas", pois o seu objetivo é  embrutecer-nos. Por isso, ela jura que não pode ter mentido sobre um termo que nem sequer é digno de figurar no Dicionário da Língua Portuguesa. 
 

17.9.13

Em flagrante

(Lisboa, Rua Tomás Ribeiro, nº 105 B, entre as 17h30 e as 18h20.)
Outrora, atirava-se milho ou arroz aos pardais. Agora, dá-se restos de pão aos pombos... e vem um gato e chamas-lhes um figo! Abocanha um e corre com ele para debaixo de um automóvel estacionado sob o que antigamente era um plátano. (Banquete de luxo, em frente do nº 15 da Rua Filipe Folque.)
Na esquina com a Tomás Ribeiro, um mendigo idoso e uma jovem mendiga, acomodados, esperam os sobejos do Pingo Doce. Falta- lhes a afouteza do felino para quem a rua é território de caça, ao invés dos gatos de Pessoa...
Ainda na esplanada da Cafetaria Duriense, diante de uma virtuosa superbock, arenga um velho trabalhador: a educação já não é o que foi - os filhos desrespeitam os pais, basta passar pelas telenovelas, portuguesas ou brasileira, ou descer ao Parque...
(...) O novíssimo Plaza é já uma sombra de si próprio, tal como o IMAVIS ou City Cine - parece que acompanharam o vizinho Urbano! Até o Tomás Ribeiro mais não é do que uma placa toponímica que desemboca na Praça José Fontana, vindo da Suíça com o desejo de nos fazer sair do obscurantismo, e que se finou ainda antes que a sua Geração (de 70) se desse por vencida...
O único vencedor parece ser o gato que não brinca na rua, mas o mendigo, aqui mesmo ao meu lado... e que não paga nada à EMEL, conta as moedas, quando o proprietário do café se aproxima , e, antecipadamente, paga-lhe um café e um bagacinho - 1 euro e trinta e cinco cêntimos. Imóvel, no passeio, o mendigo espera até que surge o empregado com dois copinhos de plástico com o café e o bagaço... Sem pestanejar, o homem volta para o seu canto, ali mesmo, junto ao semáforo...
 
(...) À espera, ficou o artigo de Eduardo Prado Coelho, Comunicação e Democracia. Que ele me perdoe!
 
     

16.9.13

No arranque do ano escolar

I - A notícia vai alastrando. Afinal, há atraso no arranque do ano escolar. O ministro da educação e os seus apóstolos explicam que é assim todos os anos...
Na verdade, há cursos e disciplinas que continuam por autorizar, apesar da procura. Há professores do quadro que não sabem se a distribuição de serviço, que lhes atribuía esses cursos e essas disciplinas, continua válida.
Há escolas que não iniciam a atividade letiva por falta de professores, apesar dos vários concursos já efetuados e dos milhares de desempregados...
Tempos houve que os ministros da educação se esforçavam por otimizar o início do ano letivo. 
 
II - As imagens da degradação do edifício do "Liceu Camões", difundidas pela RTP, surpreenderam muito boa gente. No entanto, não consta que o ministro da educação tenha mexido uma palha. Incomodar-se para quê?
Por este andar, o feitiço ainda vai voltar-se contra o feiticeiro! Em certos casos, as imagens, ao ampliarem a realidade, subvertem-na...

15.9.13

A entoação de Crato

Do atual ministro da educação já só dou atenção à entoação.
Quando a pergunta é desagradável, Crato não se irrita e responde sempre, conseguindo modelar de tal modo a resposta que dela só sobra o tom com sabor a melaço... O que se segue passa a ser um monólogo enfadonho, assente na total ausência de rigor... Da estafada realidade presente, nada conhece! Da futura, seraficamente, sabe que o sistema educativo vai perder 40.000 alunos.
Por outro lado, o discurso risonho de Crato acaba inevitavelmente com a ameaça de novo exame. Apesar, de por vezes, o imaginar possuído pelo rigor dos talibãs, creio que este fascínio pelos exames lhe foi incutido pela Troika. Ou será ele o mentor?
Afinal, a Troika chega amanhã para proceder à 8ª e à 9ª avaliação!
Diga-se, de passagem, que não entendo muito bem como é que um mesmo aluno pode ser submetido num curtíssimo espaço de tempo a duas avaliações. 
Provavelmente, trata-se de uma avaliação por módulos, em que o avaliador se limita a verificar a consistência das cavilhas, quando as há... 
 

14.9.13

Dona Dolores, aos 91 anos

Dona Dolores fez hoje 91 anos! O coração e a cabeça continuam a coadjuvar-se no combate à porosidade óssea...
Esta longevidade não a inibe de se mover num espaço fechado como se ele fosse uma miniatura do mundo: no seu território, nada escapa ao seu olhar felino e, sobretudo, a um amontoamento de memórias que lhe trazem de volta o passado sob a forma de presente...
Ouvindo-a, rapidamente sentimos que, a qualquer momento, da multiplicidade de molduras pode libertar-se um espetro que retoma o lugar original... para ali ficar, sem se queixar, à espera de louvor ou de censura...
E esse louvor ou censura são condicionados pela resposta a uma simples questão: - aos 91 anos, ainda estou jovem, não estou?
 

13.9.13

Por ventos e marés!

A globalização é, hoje, o maior inimigo do estado-nação. No caso português, desde que as várias fronteiras se extinguiram que a soberania se foi esfumando. Ora, a perda de soberania carateriza-se pela morte da identidade - um traço distintivo da pós-modernidade.
A expansão portuguesa tinha dado um poderoso contributo para a afirmação da modernidade. Percebe-se agora que o nosso ciclo se fechou com o fim da expansão, atirando-nos para a situação de estado-minoritário que nem a adesão à união europeia conseguiu disfarçar. Entrámos assim na pós-modernidade, ficando à mercê de modelos globais cujo  objetivo primeiro é desmantelar o que resta do estado-nação.
Infelizmente, há cada vez mais gente conivente com este "ajustamento estrutural" que, no que respeita à educação, começa na formatação de professores e alunos e acaba na descaraterização da escola pública, tornando-a alforge de descamisados.
O dia de hoje foi penoso porque, em vários momentos, percebi que a formatação vai, alegremente, cavando a sepultura da nação portuguesa. Por ventos e marés, singramos na esperança de que os bem-aventurados chegarão a bom porto...

12.9.13

Rosalino ou será Rosalindo?

A esta hora já não me apetece dizer mal de ninguém. Estou a pensar em mergulhar nas páginas do Aquilino, com uma ideia atravessada: a Agustina Bessa-Luís terá roubado alguns ambientes e, sobretudo, personagens femininas ao Aquilino. Mas se calhar estou enganado! Tudo não passará de uma coincidência! Num país pobre, rural e atrasado, é fácil que escritores diferentes se tenham entusiasmado com o mesmo protótipo...
Por outro lado, escrever neste setembro não faz qualquer sentido. De um lado, as ondas de calor; do outro, a propaganda - uma onda que submerge a paisagem, embebendo as pessoas num embuste inclassificável..
Há, no entanto, no meio tudo isto, um homem fascinante. De seu nome, Rosalino! De calva luzidia, angélico e sacerdotal, entra-nos pela casa dentro e não necessita de qualquer arma para impor cortes, a torto e direito, e aos milhões. E fá-lo de forma risonha, sem levantar qualquer tumulto!
Gosto do Rosalino! Tem sempre uma explicação, ao contrário da professora (ou da sósia?) que, para completar o vencimento, se expunha impudicamente na internet, ou daquele outro professor que, para esconder o desemprego, vai assaltando umas agências bancárias ou dos...
Estes não têm perdão! Apanhados, são censurados e condenados... Quanto ao Rosalino ( ou será Rosalindo!), nada a dizer! Pelo contrário...  

11.9.13

O ator político e as pensões de sobrevivência

Poiares Maduro explicou: - «Há muitas pessoas que julgam que as pensões de sobrevivência se referem a pensões para proteger as pessoas em maior fragilidade, que são pensões para garantir a sobrevivência. Não é isso a que se referem as pensões de sobrevivência. A pensão de sobrevivência é a pensão de alguém que sobreviveu ao cônjuge. Há pessoas que podem estar a ganhar 25 mil euros e que recebem uma pensão de sobrevivência e, no entanto, neste país, faz-se um debate assente num dado totalmente falso"...» (sic)

A Linguística costumava ensinar que a relação entre o significado e o significante resulta de uma convenção duradoura, e que o sentido da palavra só existe enquanto a comunidade respeitar essa convenção...
 
Não sei quem é que, hoje, ocupa o lugar da Linguística, mas parece-me que, para Poiares Maduro, esse papel cabe ao «ator político». O homem político perdeu o caráter e colocou a máscara. Não uma, mas a que for mais conveniente...
No discurso de Poiares Maduro, as convenções de sentido e os contratos dos cidadãos podem simplesmente ser rasgados. No centro da vida política, apenas ele, o iluminado, disserta sobre o significado da palavra «sobrevivência». Se o Governo, de que PM é porta-voz, tivesse razão,  melhor seria que propusesse uma revisão da terminologia ou, em alternativa, alterasse a Lei para que, apenas, beneficiassem da pensão de sobrevivência aqueles que, por razões de defesa da dignidade humana, dela necessitassem.
Não! O Governo prefere a chicana política e o corte indiscriminado!
Tudo não passa de uma questão de «aderência», como vem repetindo o nosso linguista e ilustre primeiro-ministro.

10.9.13

Rigorismo e hipocrisia

Voluntária ou involuntariamente, a Comissão Nacional de Eleições ( CNE) e as televisões estão ao serviço do Governo.
Quanto menor for a cobertura das eleições autárquicas, menor será a erosão dos partidos do Governo.
Lá no fundo, ao poder central, o que interessa é ocultar a trágica situação  vivida pelas populações, desviando, simultaneamente, a atenção para indicadores de retoma económica claramente manipulados. 
O rigorismo da CNE, inspirado no tão criticado excesso de zelo doutrinário do Tribunal Constitucional, é, afinal, um indício de que a mesma doutrina pode ser utilizada com objetivos opostos.

9.9.13

Do teu ombro direito vejo o mundo

Ao ler o artigo "Emendar os erros", de Alexandre Homem Cristo (i, 9 setembro 2013), não posso deixar de reparar que o título responde a um mote ou a um modo de ver: "Do teu ombro vejo o mundo".
A subordinação parece-me adequada, embora incompleta. O autor, tal como o governo, ainda está a tempo de emendar o erro, acrescentando um simples mas significativo adjetivo - Do teu ombro direito vejo o mundo
 
Estou a exagerar, como bem se perceberá, pois a ideia de que um investigador só veja o mundo do ombro direito enjoa-me.
No caso, o autor está zangado com a falta de lucidez do governo, pois continua a permitir que alguém, desajustado, envie para o Tribunal Constitucional leis que visam emendar a realidade do país.
Depois de aturado estudo, o investigador, não sei se sob a forma de tese de doutoramento, terá concluído que a responsabilidade da crise é dos privilégios de que, desde o Estado Novo,  beneficiam os funcionários públicos, nomeadamente, os professores, com o boicote à realização dos exames nacionais, pela mão dos sindicatos dos professores, prejudicando pais e sistema educativo...»
Gosto do exemplo, em particular da parte sublinhada. Costumo explicar aos meus alunos que, ao enumerarem, não devem misturar alhos com bugalhos - se apontam países visitados, não os devem misturar com cidades. No entanto, este investigador consegue meter no mesmo saco os pais e o sistema educativo. Tal como não se importaria que, em nome do seu ombro direito, o Tribunal Constitucional passasse a ignorar a Constituição!
Mas, no essencial, a mensagem é outra: um governo avisado deveria ser capaz de rasgar a Constituição ou, pelo menos, de a adaptar às necessidades reais do país.
Afinal, a direita do "investigador" Alexandre Homem Cristo  começa a estar farta do Governo de Passos Coelho, pois tem andar a perder tempo em vez de endireitar o país...   

8.9.13

A «esperteza saloia» enodoa

Sempre que um pingo de gordura cai sobre mim, vejo-o como uma nódoa pronta a desgraçar-me o dia. Em regra, essa fatalidade tem origem na minha desatenção ou na minha falta de preparação para lidar com a gulodice... Claro que há outros pingos mais desagradáveis, como os que podem cair sobre a minha cabeça ao atravessar um jardim, uma rua...
Em qualquer um destes incidentes, a náusea é pessoal e, em princípio, não incomoda mais ninguém!
 
Há, todavia, outra nódoa que contamina toda a gente, e que, pela sua porosidade, nos enodoa.
Já não é a primeira vez que me refiro ao nível de língua do primeiro-ministro, mas a sua insistência na «esperteza saloia» dos outros leva-me a pensar que ele, ao desconhecer o significado e a origem do termo «saloio», não vê que está a adotar um discurso xenófobo e, sobretudo, a revelar que de "esperto" nada tem .
Lembra-me sempre o inquisidor-mor que insistia em salvar a alma dos infelizes que caíam sobre a sua alçada, mesmo que para tal fosse necessário ordenar a execução pelo fogo.
Tal como o Inquisidor, o primeiro-ministro está convencido que foi escolhido para cumprir uma missão redentora e que os outros mais não são do que tristes saloios.
Este tipo de nódoa é trágico pela razão já apontada - enodoa. Isto é, suja, desonra a quem ela recorre. E mais grave, obriga o adversário a recorrer ao mesmo registo de língua, contaminando toda a sociedade e, em particular, os jovens que acolhem facilmente os maus exemplos.
 

7.9.13

Em setembro, estamos mais pobres...

Em setembro estamos mais pobres do que em julho! Qualquer um o sabe, sobretudo se for funcionário público, aposentado, reformado, pensionista... No entanto, surgem convites para eventos de todos os lados.
Esta realidade perturba-me porque não consigo encontrar uma explicação para tal contradição. Talvez uns tantos não se importem porque estão habituados a que no Outono as folhas caiam e por isso considerem que o empobrecimento é apenas temporário, embora para outros ele seja definitivo. Mas esses já não contam! Saem definitivamente da estatística...
Parece-me, contudo, que os indiferentes ao acréscimo da pobreza não se veem apenas como folhas outonais, pois de, algum modo, o empobrecimento alheio lhes traz vantagens.
 
E também me perturba que os que estão a ficar mais pobres tenham de esconder essa realidade, fingindo que nada acontece.
Diz o MEC que, até 2017, as escolas (quais?) vão perder 40.000 alunos! Porque será?
 
 

6.9.13

Jane B. par Agnès V.

Há dias ficou-me na retina um plano em que uma jornalista, dando conta do avanço de um incêndio, se colocou na extremidade oposta de uma rua, deixando-nos sob a ameaça de que o fogo iria avançar para dentro da aldeia, destruindo-a, enquanto que a equipa que filmava a tragédia iria certamente recuando, como se a aldeia não necessitasse de ser defendida e as imagens fossem mais importantes do que as vidas e as coisas...
Ontem, fui à Cinemateca ver  o filme Jane B. par Agnès V. /1988, e nele tudo se passa de modo bem diferente: a cumplicidade entre a realizadora (Agnès Varda) e a atriz (Jane Birkin) é tão forte que a câmara não só não recua, criando distância, como, na verdade, envolve o corpo de tão perto que gera a ilusão de o querer possuir - a ideia é a de que Varda possui cinematograficamente Birkin, tendo, para o efeito, saído do papel de realizadora para o de personagem, embora estática, e, de que, por seu turno, a volúvel e insatisfeita Birkin, apesar de se sentir amedrontada pelo «olho» da câmara, se deixa efetivamente possuir...
O cinema, neste caso, devora os corpos para os preservar, imobilizar, retratar, mitificar. Pelo contrário, a televisão ameaça-nos, ao mesmo tempo que deixa os corpos entregues a si próprios. 

5.9.13

A escrita dos incêndios

A propósito da "cinematografia" de Robert Bresson, Eduardo Prado Coelho escreveu na crónica O Lado Mais Severo dos Incêndios: «Em cada um dos seus filmes sentimos sempre o lado mais severo dos incêndios - a austeridade da escrita, incandescência da verdade que dessa escrita emerge.»
 
Os incêndios não se repetem! Não há um manual que ensine a combatê-los. Toda a aprendizagem anterior pode desfazer-se numa faúlha.  No terreno do incêndio, o que conta é a acuidade interpretativa, pois à austeridade dos meios é preciso opor uma decisão firme, mas humilde...
Ora, tal como suspeitava, 35.000 estudantes integram o corpo de voluntários dos bombeiros, sendo atirados para a severidade do fogo... A muitos destes estudantes, para além da reduzida formação, faltam a acuidade interpretativa e a humildade...e, deste modo, são os primeiros a morrer.
Tal como os filmes não servem para reproduzir o que já existe (lição de Robert Bresson), cada incêndio surge como um novo desafio para o qual nunca estaremos preparados - razão suficiente para mudar completamente de realizador... Um realizador que entenda que "não precisamos de mais mártires"!
 

4.9.13

Os fios da aranha

Quando as palavras se levantam em gritos de otimismo, suspendo-me à espera... e, subitamente, as aranhas desenrolam o fio, ainda, eufórico da duração...
Fico sem nada poder acrescentar, a não ser palavras de incentivo.
Ah, quem me dera ser capaz de não me conter!
 
Há esperanças que nos protegem, mas que, simultaneamente, nos trazem mais dor. E a dor acrescida poderia ter sido perfeitamente evitada se as palavras tivessem seguido o seu caminho, se não tivessem sido retidas por um subconsciente castrador.
 
Agora, como esta manhã, vou sair das palavras, vou a uma rua aonde atravessam pessoas e circulam carros, vou lá e só encontro os fios da aranha...

3.9.13

Quem cala consente...

Já cheguei a uma idade em que me arrependo sempre que decido argumentar com alguém (contrariar) que defende uma ideia nociva ao bem comum ou que revela uma interpretação delirante da realidade ou que age com prejuízo manifesto para o Outro...
Sabendo que rarissimamente da argumentação surge a luz e que o ato me afeta os neurónios ao ponto de me sentir à deriva, prometo ficar em silêncio - deixar o corpo no lugar - e partir... Infelizmente, nunca vou longe! As vísceras contorcem-se, repetindo: - Quem cala consente!
Há quem viva assim, à beira do precipício, de consciência pesada, pois não atalhou a tempo. E porquê?
 
(Não dou exemplos para não dar azo a que alguém queira responder, tirando-me, desse modo, do silêncio em que vou caindo. A queda traz-me, no entanto, inquietação, pois sei que por perto há um abismo pronto a libertar-me, em definitivo.)
 
 

2.9.13

Não precisamos de mais mártires!

No combate aos incêndios, vários jovens morreram  ou encontram-se em estado crítico ! Por inexperiência? Por falta de preparação e de enquadramento? Por incumprimento das ordens dos superiores? Por voluntarismo? De acordo com as notícias, alguns desses jovens não têm mais do que 18 anos!
Ora, na minha perspetiva, a sociedade atual, ao descurar a disciplina seja nas famílias,  seja nas escolas, seja nas ruas, acaba por gerar indivíduos que, apesar do espírito abnegado e solidário de muitos, não estão preparados para combater em circunstância que exigem obediência e cumprimento rigoroso dos procedimentos...
Ao ouvir as palavras dos comandantes (?) dos bombeiros, fico frequentemente  com a sensação de que cada um dirige soberanamente um pelotão à distância, ignorando os restantes pelotões que se movem no terreno... Estamos perante unidades de combate que agem por conta própria ou à voz de um GPS incapaz de interpretar o movimento dos homens, dos veículos, dos ventos e das temperaturas...
Não precisamos de mais mártires!

Entretanto (3.9.2013), morreu mais um bombeiro: um jovem de 19 anos!
 

1.9.13

Uma oliveira e uma figueira

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Apetece-me preservar esta oliveira centenária e esta figueira mediterrânica! O tempo e a cultura que delas emanam deveriam ser aprofundados. Sei, todavia, que este meu apetite, no fase de desgoverno em que vivemos, não faz sentido, até porque eu raramente como um figo. Mas isso não importa! Preservar esta oliveira significaria abrir caminhos, limpar terrenos, podar árvores…

Curiosamente, esta oliveira e esta figueira não me exigem que as regue! Apenas, me sugerem que dava jeito algum desbaste das apressadas vergônteas… E, sobretudo, não querem qualquer exclusivo. O que estas árvores pedem para si deveria ser extensivo a todas as irmãs que as acompanham na roda do tempo.

O problema é que na capital, há quem retire aos proprietários os meios necessários à limpeza do terreno, à abertura dos caminhos, à poda das árvores. E quando estas árvores forem devoradas pelo fogo, então, sem pudor, serão apontados os pirómanos: alcoólicos, pastores, desempregados, maridos enganados…

Porém, se nos dessemos ao trabalho de escutar a centenária oliveira, ouviríamos uma voz a apontar para a capital, para o capital…