31.8.13

É mesmo estranho!

I - Com tanto reacendimento das matas e dos matos deste país, é estranho que ninguém veja que não basta despejar água sobre as labaredas quando o fogo lavra nas entranhas das encostas e dos mandantes...
É estranho que ninguém veja que a ferida é a expressão de um desregulamento celular, e que não basta desinfetar ou cauterizar. De brecha em brecha, as escamas vão progredindo até que a epiderme se incendeia...
É estranho que se queira à força preservar a fachada, quando no interior alastra o bolor...
É mesmo estranho que se insista no corpo e se descure a alma!
Mas há razões para que tal aconteça: a cobiça! a vaidade! o compadrio!

II - Na feira de artesanato do Estoril (50ª), o espaço continua o mesmo, o nº de tendas diminuiu, o palco cresceu - ontem a plateia era insuficiente, cantava a fadista Cuca Roseta -, o nº de restaurantes aumentou - ontem estavam lotados -, o PS local coloria o local... Fiquei com a sensação de que não estava num lugar, mas se estava, esse lugar era longínquo e anacrónico, mas à sombra do Casino! Pode ser que na próxima edição também lá encontre uma farmácia JR.

30.8.13

Leitura obrigatória

Se a leitura da Bíblia*, d'Os Lusíadas, d' Os Maias e até do Memorial do Convento, ainda, é vista como constituinte da identidade portuguesa, não entendo por que motivo a leitura da Constituição da República não é obrigatória, sendo ela o garante da nossa soberania.
Se tal tivesse acontecido nos últimos anos, não teríamos de ouvir um primeiro-ministro afirmar que vai estudar o acórdão do Tribunal Constitucional. Antes do acórdão deveria ter estudado a Constituição!
Penso mesmo que o estudo da Constituição deveria ser um pré-requisito para o exercício da atividade política e que todos os políticos deveriam jurar cumprir o Tratado constitucional enquanto não chegassem a entendimento sobre a revisão dos aspetos que, por força das circunstâncias,  estejam em desacordo com a realidade.  
Sei, todavia, que este objetivo é difícil de cumprir. Basta pensar na quantidade de catecismos e de sebentas que estão disponíveis para os preguiçosos e apressados, sem falar nos explicadores que, agora, já dão explicações nas universidades de verão.
 
Esta reorganização das nossas leituras implicaria, por um lado, que a Constituição da República passasse a integrar o Plano Nacional de Leitura, e, por outro lado, que a TROIKA soubesse, de antemão, que, em Portugal, nos regemos pela Lei.
 
* Neste caso, estou a forçar a nota. Na verdade, só o catecismo é memorizado por cerca de 50% da população portuguesa. Das restantes obras, as sebentas selecionam alguns episódios.

29.8.13

O uso corriqueiro da linguagem

«A linguagem aprende-se melhor, não através dos seus usos corriqueiros, mas através da sua utilização máxima que é a literatura.» Roman Jakobson, Poesia da gramática, gramática da poesia.
 
A democratização dos discursos tem vindo a empobrecer o raciocínio, porque, sendo nós seres de linguagem, em vez da leitura literária, preferimos a gíria e o calão, tão comuns no quotidiano, no cinema e nas redes sociais.
Um destes dias, fui ver esse sucesso de bilheteira que dá por nome " A Gaiola Dourada" e fiquei esclarecido. Um conjunto de atores, de algum gabarito, dá expressão aos estereótipos que nos inscrevem na Europa das migrações (e no mundo!) e, sobretudo, a uma linguagem popularucha que faz sorrir gratuitamente. (Paguei bilhete para ver a boçalidade da minha própria família!)
É certamente por isso que a TROIKA encontra, entre nós, quem a acompanhe na necessidade de baixar os salários, desclassificar os jovens, destruir a classe média e eliminar os idosos.
Com a morte da literatura, vamos deixando de ser capazes de enfrentar as forças que, no essencial, procuram apoderar-se de um território, de preferência, liberto dos seus habitantes, da sua língua, da sua história e da sua cultura.
 
(Tenho de confessar que hoje me arrependo de ter abdicado de ensinar Literatura. Mas, prometo aos meus alunos de Português que irei ser implacável na perseguição dos «usos corriqueiros».)
 

28.8.13

Procuro a notícia

Procuro a notícia, mas ela indispõe-me: um governo fornece números errados para esconder despesas inconfessáveis ou para legitimar soluções contra a dignidade da pessoa; uma instituição internacional não verifica os dados que lhe são apresentados por um governo indigente; um primeiro-ministro proclama que os bombeiros têm à sua disposição todos os meios necessários para combater os incêndios, apesar de só em agosto já terem morrido quatro operacionais; os fogos são provocados por alcoólicos, desempregados e maridos enganados (curiosamente, não há mulheres enganadas!) e agravados pela orografia e pelos ventos; a comunidade internacional prepara-se para atacar a Síria, deixando  o regime no poder... quais serão os alvos, afinal? Jesus beijoqueiro acaba de resolver os problemas que lhe minavam o rebanho, qual Judas!
Esta minha indisposição não faz, no entanto, qualquer sentido e dá-me acabo do coração, embora neste aspeto haja outros fautores que, neste contexto, nem vale a pena revelar...
Por maior que seja a enumeração de notícias, não me sinto mais esclarecido, isto é, não me sinto mais capacitado para ajudar a explicar os comportamentos subjacentes, porque, como dizia o bem documentado e sensato Eduardo Prado Coelho:
«O conhecimento não se reduz à informação; o pensamento não se reduz ao conhecimento; pensar não se reduz a comunicar (...) a verdadeira comunicação e o pensamento autêntico não são a regra, mas a excepção.» Eduardo Prado Coelho, Crónicas no Fio do Horizonte, pp.169-170, edições Asa, 2004.
Chegado a este momento do raciocínio, tudo pode parecer simples: há pouco a esperar de quem nos governa ou de quem nos informa.
O problema são as vítimas! Para os Governos e para a Sociedade de Informação, há sempre alguém que pode ser eliminado e que rapidamente será esquecido. 
 

27.8.13

A indigência é pobreza extrema

« -Temos um produto em que ninguém nos bate: a preguiça.» Conto original de Fernando Campos, O Sonho, in Os Lusíadas, de Luís de Camões, Canto IV, Edição Expresso 2003
 
O hábito de desvalorizar a ação do português leva a que uns tantos iluminados classifiquem os restantes como indigentes. Ora a indigência é, na maioria dos casos, expressão de pobreza extrema. Sabemos, também, que o estereótipo de povo preguiçoso se nos colou à pele ao longo dos séculos, creio que para pôr em evidência a superioridade, o mérito, dos tais iluminados (os heróis lusos).
Nenhum país parece produzir tantos heróis, tantos homens de mérito, como Portugal. Infelizmente, este esplendor gera uma enorme clivagem entre a minoria de heróis e a maioria de preguiçosos, ora considerados indigentes.
Em política, houve (e há) quem defenda que ao estado social não compete apoiar os indigentes, mas estes políticos, que se creem superiores, não sabem que a indigência é a expressão da pobreza extrema a que condenaram uma boa parte da população, pois diariamente lhe retiram a dignidade.
 
O que é preciso entender é que o povo não é preguiçoso! A preguiça, como muito bem mostrou Eça de Queirós, embora sob a capa da ociosidade, é uma caraterística da classe dirigente que, ao não se dar ao trabalho de olhar para as vítimas que vai produzindo, gera a indigência. Esta é efeito e não uma causa, a não ser que passemos a falar de políticos indigentes...

26.8.13

Indícios de incompetência da Segurança Social

Uma senhora, a caminho dos 91 anos, recebeu a seguinte carta da Segurança Social: «Informa-se V. Exª. que é intenção do Centro Nacional de Pensões proceder à suspensão do pagamento da sua pensão, a partir de 2013-11-01, por existirem indícios da perda do direito à prestação que mensalmente que lhe tem sido paga. A manutenção do pagamento da sua pensão está dependente da apresentação a estes serviços de prova de vida..(Documento assinado pela Diretora da Segurança Social do CNP).
 
Lida a carta várias vezes, só me vem à cabeça que a Segurança Social detém indícios de que a senhora terá falecido. Então, escreveu-lhe para quê? E qual será a fonte de tais indícios?
Bom seria que a SS tivesse confirmado a suspeita de falecimento, em vez de desencadear um processo que obriga o visado a deslocar-se à sua Junta de Freguesia, já que as alternativas apresentadas para fazer a referida prova de vida podem ter um custo de 161 € e alguns cêntimos - por exemplo, um atestado notarial, com visita incluída ao pensionista...
Perante a ameaça, e excluídas a hipóteses de a vida da dita senhora ser atestada pelos filhos que com ela coabitam ou pela filha e pelo genro que residem na freguesia vizinha, ou pela via notarial, lá fomos, como o caracol, à Junta Freguesia, onde a senhora foi bem atendida, tendo, no entanto, de saber em que mês e ano chegara ao lugar onde reside...
Uma atitude inclassificável com uma cidadã cujo BI regista um nº situado entre o 650 e o 700. Será que a metodologia deste serviço é suspeitar que todos os portadores de BI até ao nº 1000 já faleceram»?
 
 

25.8.13

Sobre um lugar

A Ericeira nunca chegou a ser para mim um destino turístico. Tal não significa que não lhe tenha percorrido as ruas e os pontos de interesse ocasional, sobretudo, Santa Marta, quando as crianças se deixavam levar. Na verdade, a Ericeira começou por ser um hotel e uma piscina... Depois, a Ericeira passou a ser um lugar - parque de campismo -, onde nos instalávamos, primeiro numa tenda, depois numa roulotte e, nos últimos anos, numa autocaravana. De comum, o vento, as rolas, os pinheiros, a caruma, a água fria, os nevoeiros de julho e de agosto, o sol de setembro e de outubro...
O clima é pouco simpático, sobretudo, no verão! Mas, não sei porquê, este é o lugar onde sempre voltamos, como se, nas palavras de Diderot, estivesse escrito lá n o Alto...
Parece, no entanto, que o ciclo está a chegar ao fim. Não é que o lugar, apesar da perda das falésias e da areia, tenha perdido o encanto, mas o tempo, o nosso tempo, não se compadece de nós...
Chegou a hora de dar mais importância ao tempo, de fruir com menos encargos e, sobretudo, com maior qualidade. Claro que a responsabilidade não é só do Tempo, há por aí muitos responsáveis que continuam impunes...Neste como em todos os outros lugares, porque quem faz o lugar somos nós!
 
 

24.8.13

A Ericeira já foi mar das rascas

Ciberdúvidas: O verbo desenrascar vem «de des- + enrascar»; enrascar deriva «de en- + rasca + -ar»; e rasca é «deriv[ação] regr[essiva] de rascar». Finalmente, rascar vem «do lat[im] vulg[ar] rasicāre, de rasu-, part[icípio] pass[ado] de radĕre, "raspar"».
Apesar da elaborada explicação, parece-me que, em terra de navegadores e pescadores, será mais apropriado pensar que tal tipo de embarcação - a rasca - não seria assim tão segura, sobretudo quando se aventurava na rota do Brasil.
Um pouco de memória e perceberíamos que muitas rascas não terão chegado a bom porto! Os marinheiros embarcados (enrascados) que tinham a sorte de sobreviver não deixariam de deitar culpas à rasca pela morte dos companheiros!
Afinal, o problema era o mesmo de sempre: a segurança era frequentemente descurada, pois a ganância era lei.
Enrascados desde o berço, tudo serve como desenrascanço desde que a pimenta, o ouro ou o euro caiam nos bolsos...
E já nem vale a pena referir a origem do termo gajeiro (e seu derivado - gajo) que vigiava no cesto da gávea.

23.8.13

Um dia na Ericeira

P8230006
Ruidosa ou veladamente, o homem mata. Tira a vida um pouco por toda a parte e fá-lo com recurso a todas as ferramentas –  das mãos aos robots, da pedra ao ferro, do fogo ao gás, da  água ao veneno, à droga, ao álcool, ao roubo, à insídia… As formas de matar multiplicam-se dia a dia! Na esfera privada e na esfera pública...
Por seu turno, silenciosamente, a Natureza gera vida coral, mineral, vegetal ou outra, mas fá-lo, indiferente à nossa presença ou ausência, regendo-se por uma norma que nos escapa ou que preferimos ignorar.
No meio, há sempre um gato na espectativa de derribar três ou quatro rolas e estas, argutas, vão saltitando de galho em galho à espera de o cansar.
Para além do pinhal, as águas oceânicas da Ericeira vão engolindo a areia em que, tempos atrás, desfizeram as arribas e, agora, invadem a terra que o homem tão orgulhosamente lhes conquistara…
(...)
Horas passadas, chega o vento atlântico que arrefece o dia e sacode a poeira da terra, deixando enrodilhados, pessoas e objetos.
E ao longe nem uma rasca! E nos intervalos, Crónicas no Fio do Horizonte, de Eduardo Prado Coelho, em tempos lidas na espuma dos jornais... O Eduardo que durante 30 anos se encontrou nas águas de S. Martinho do Porto, mas que, já no fim, citando Joaquim Manuel Magalhães, acusava o «país assassino» de ter destruído aquele, outrora, belíssimo lugar.
(...) Agora, o vento serenou. Apenas os cães dão conta de si, embalando-nos numa acesa disputa.  

22.8.13

A cabeça

P8220003
Quando a cabeça já nos confunde, exigimos ao corpo um esforço mais: privamo-lo da gordura, do açúcar e do álcool, e obrigamo-lo a caminhar… E subimos e descemos, ao sol e à chuva, de dia e de noite, em passo lento ou acelerado, no bosque ou à beira-mar…
E subitamente uma voz interior convida-nos a penetrar no abismo, a desistir da caminhada, a não regressar ao ponto de partida porque, na verdade, esse ponto ficou irremediavelmente para trás.
As viagens são sem regresso! Por enquanto, vão ficando de fora as que se limitam a gerar espaço, mesmo que o tempo as dissolva…

21.8.13

Cadernos de notas e agendas

Quando procuramos elaborar um balanço, ou melhor, quando nos solicitam um balanço e a memória não ajuda, regressamos às agendas e aos cadernos de notas ou de tarefas.
Se ainda os tivermos à mão e não nos faltar a coragem de os decifrar, iremos pouco a pouco descobrir que o que foi pensado para nos ajudar a agendar o presente e o futuro é, afinal, um repositório de acontecimentos passados da mais desvairada natureza.
Aos nossos olhos, surgem os nossos doentes e os nossos mortos, as nossas viagens e as nossas despesas, detalhadas até à ausência de sentido. Despesas que, frequentemente, nos são impostas por sonhos e devaneios familiares, sem omitir as crescentes obrigações fiscais e os cortes reiterados nos rendimentos...
Numa outra perspetiva, estes registos indicam-nos onde estivemos ou, pelo menos, deveríamos ter estado. E este dever não era nosso, era nos imposto pela profissão, pelos cargos que desempenhámos.
E de repente, surge a dúvida: Se num certo ano, estive envolvido em tantas tarefas, qual terá sido a qualidade do trabalho desenvolvido?
Nesta perspetiva, o caderno de notas é claro e, ao mesmo tempo, enigmático. Quem ali se inscreve viveu um ano múltiplo, isto é, um ano em que a dispersão foi a regra, imposta pela solicitação alheia. E o mais grave é que, no caderno de notas, nada existe que diga qual das tarefas era a mais importante: se cuidar da mãe, se cuidar da esposa, se cuidar da filha ou do filho, se cuidar dos alunos, se cuidar dos colegas, se estar presente a toda a hora, se ser um funcionário zeloso...
Desta leitura resulta, no entanto, uma lição: a minha próxima agenda vai ser constituída por folhas soltas e, de preferência, em branco...
 
Muitos não conseguem impedir-se de ter a impressão que é o tempo que passa, quando, na realidade, o sentimento de passagem refere-se ao curso da sua própria vida. (registado no caderno de notas 2012)
   

20.8.13

A verdade do papiro e da pedra

Creio que  se pode viver sem ler! Na verdade, durante muito tempo, o mundo singrou sem manuscritos. Não havia necessidade de registar ou de procurar a verdade em qualquer pedra ou códice, porque, simplesmente, ela não existia.
A verdade foi uma invenção de faraós avarentos e megalómanos que aproveitaram o papiro que o Nilo lhes ofertava. Diga-se, para que não se desvirtue o curso da história, que o povo hebraico, não querendo ficar para trás, enviou o pobre Moisés ao cimo do Sinai registar a lei (verdade) de Jeová nas tábuas de pedra que a montanha lhe ofertava.
Em nome da verdade, se ceifaram muitas vidas, de tal modo que foi necessário registar e justificar a sua eliminação.
E como funcionamos em circuito fechado, alguns homens consagraram o seu tempo aos Livros de Horas, orando pelas vítimas dos faraós avarentos e sequiosos de glória e de eternidade...
E assim continuamos, aqui como na Síria, na Líbia, no Iraque, no México, na Colômbia, no Congo ou no Egito! Tudo em nome de uma verdade que nenhum Livro consegue legitimar..
Com uma pequeníssima diferença: voltámos a viver e a morrer sem precisar de ler!

E porque a leitura, que a muitos importa, já não se ocupa da maçadora e punitiva verdade, mas, sim, da fantasia - esse lugar situado entre a verdade e a mentira - CARUMA está pronta a libertar-se das hiperligações que desprezam a leitura... e a escrita. CARUMA passa a ser um lugar de passagem ou, se se preferir um lugar de errância... 
 

19.8.13

Na sombra de Fausto

A decisão de ler, quando não se é académico ou investigador literário, resulta de circunstâncias que não controlamos. Há quem pense que a idade é um fator decisivo - talvez haja um tempo certo para ler determinadas obras... Talvez, seja necessária uma certa maturidade! Mas como é que se chega à maturidade sem ter lido o que mais importante foi escrito para o entendimento da natureza humana?
Enquanto leitor, o mito do "Fausto" não me era estranho e, normalmente, surgia na mesma página, na mesma esquina, de outro famoso mito ocidental - "D. Juan".
Em termos de padrões de cultura, o Fausto do pacto com o diabo era me familiar desde o berço - uma figura pouco recomendável que ousava infringir a todo o momento a condição humana, desrespeitando a vontade divina.
Na literatura e na filosofia, habituei-me a encontrar certos paladinos do «super-homem», designadamente, na cultura alemã, o que se de início me seduzia, com o conhecimento dos "efeitos" da ideologia subjacente e da consequente prática política, acabou por me afastar de uma abordagem sistematizada da obra de Goethe, o que hoje lastimo...
Neste agosto, não resisti a fazer duas leituras da obra em causa, tal é a intensidade (e por vezes, a leveza) do pensamento dilemático de cada personagem e, sobretudo, porque a religiosidade imanente não consegue estabelecer fronteiras nítidas entre o Bem e o Mal, entre Deus e o Diabo.
Na visão romântica alemã, o verdadeiro mundo estava plasmado no Cristianismo - um lugar em que Deus desafiava Mefistófeles para que pusesse à  prova a criatura humana ( Fausto) e em que o Diabo não desgostava do exercício, pois, afinal, lhe permitia entrar em territórios de fantasia que lhe estavam vedados - o universo greco-romano - porque anteriores à refundação da chamada civilização ocidental.
Ler o Fausto é, para mim, uma viagem às zonas mais ocultas do cérebro humano, mas é também revisitar os mitos que fundam a minha personalidade.
   

18.8.13

O nosso Fausto

Não sei se será aceitável misturar o Fausto de Goethe, tragédia escrita ao longo de uma vida, e com antecedentes ilustres que remontam, pelo menos, aos séculos XV e XVI, com os títeres que nos desgovernam neste século XXI.
Na verdade, o doutor Fausto, cansado da ineficácia da ciência e da alquimia, por ação de uma inebriante poção licorosa preparada por uma bruxa, a mando  do criado-e-senhor Mefistófeles, passou «a ver em cada mulher uma Helena», no caso particular uma Margarida que, depois de seduzida e rejeitada, qual Eurídice, resiste a sair da masmorra em que se encontra à espera do juízo final.
No caso português, creio que o argumento será um pouco diferente: cansado do amor e da manta rota (que diacho!), o nosso Fausto terá negociado com Mefistófeles o regresso à escola, à procura da poção mágica que lhe permita ganhar as eleições - todas as eleições!
Será por isso que acabo de ouvir que, entre Agosto e Setembro, o nosso Fausto fará no mínimo três «rentrées». Começou no calçadão do Pontal, vai passar pela Universidade de Verão de Castelo de Vide (?) e quanto à 3ª «rentrée», não sei bem, mas sei que já em 2012, ele também se tinha deslocado à universidade sénior da Portela...

Este não será o momento para me queixar, mas também não entendo a preferência pela palavra «rentrée» num país que despreza oficialmente o ensino das línguas estrangeiras, e, sobretudo, a aprendizagem do francês. Pelo desempenho que já lhe ouvir, o nosso Fausto, mal sabe ler a língua de Molière e de Racine.
Finalmente, é preciso ser muito cábula e lento para no mesmo ano letivo fazer três «rentrées». Melhor seria que o nosso Fausto tivesse seguido o exemplo do doutor Fausto... Pelo menos, acabaríamos livres de Mefistófeles!  

Estertor

Nas festas de Viana, as servas da Senhora da Agonia  exibem milhões em ouro. Noutras procissões, os andores carregam cachos de euros, a ver quem dá mais. Por perto, os incêndios consomem bombeiros, matas e veículos... Os candidatos a autarcas, aos milhares, procuram um lugar ao sol, derretendo milhões de euros numa campanha inútil...
Entretanto, o subemprego cresceu 139% nos salários abaixo dos 310 €. No IC1, morreram, em 24 horas, 9 pessoas em ultrapassagens proibidas - ao lado, na autoestrada, escasseiam os veículos.
Por seu turno, o Governo de casino aposta mais de 4.000 milhões na banca do Tribunal Constitucional. O próprio presidente da república, em vez de promulgar ou vetar, arrisca na mesma banca. Hábitos antigos! 
 
Lá fora, mais de 100.000 pessoas já morreram na guerra da Síria. No Egito, numa semana, registaram-se 700 mortos, e a procissão nem ao adro chegou.
 

17.8.13

O povo ébrio

Hoje é sábado, e o país continua em festa!
Com um pouco de crédito e de espírito e muito de deixa-andar, o povo percorre as romarias, os festivais e as praias fluviais... O povo vive contente e sem preocupações...
Claro que a Troika vai avisando que só regressa depois de o Tribunal Constitucional legitimar os despedimentos desse mesmo povo que agora vai bailando...
E como a festa é demasiado ruidosa, o povo ébrio vai liquidando o próprio sangue num golfejo de notas soltas...
 
(Antes de ontem, fora dia santo; ontem, um santo dia; amanhã, pouco interessa.)

16.8.13

No Egito

Milhares de feridos e mais de 600 mortos, igrejas coptas profanadas e incendiadas nos últimos dias!Porquê? Antes de mais, porque as religiões, em vez de conciliarem, continuam a dividir, despertando os demónios dos primeiros tempos...A ida a votos deu o poder à maioria muçulmana. Começava o jogo democrático! Só que, no contexto regional e global, o novo poder não estava preparado para lidar com as minorias religiosas, com o poder militar formado e equipado pelos americanos, com o estado de Israel e, sobretudo, preparado para satisfazer as reivindicações de uma enorme massa humana ávida de melhores condições de vida.E quando assim é, a solução militar surge como forma, de pela força e pelo medo, pôr na ordem a multiplicidade de desencantados, de fundamentalistas e de oportunistas.Só que a solução militar não sabe dialogar, conciliar. Apenas sabe aplicar a força de forma cega, à ordem de quem a suporta financeiramente...

Portanto, a irracionalidade egípcia não é apenas resultado da ação Irmandade Muçulmana!

(A propósito,  Portugal tem no Cairo um embaixador – o Sr. Tânger - que parece ter sobre os acontecimentos uma visão bastante parcial... Não sei se a sua abordagem coincide com a do Governo!)

14.8.13

As funções do Estado mínimo

Há luminárias que apontam como causas da crise: o número excessivo: a) de funcionários públicos; b) de idosos; c) de restaurantes; d) de boutiques, sapatarias, mercearias...
E como solução primeira: a redução drástica do número de funcionários do estado, a redução dos cuidados de saúde, a redução dos salários, das reformas e das pensões, o  encerramento de restaurantes, pastelarias,  cafés, lojas, boutiques, sapatarias, mercearias...
Em síntese: desmantelamento do Estado, empobrecimento e fragilização das pessoas, destruição das pequenas e médias empresas.
Os serviços prestados pelo Estado no âmbito da saúde, da educação, da justiça, dos transportes, no entendimento destas luminárias, devem ser entregues aos novos empresários, pois estes já serão capazes de viver sem o Estado. 
Os indicadores económicos publicados nos últimos dias mostrariam que, finalmente, estes empreendedores já estariam a revitalizar a economia. Mas como?
Com uma lei dos despedimentos selvagem, com remunerações mínimas e, sobretudo, com a eliminação da concorrência...
Neste cenário radioso, estas virtuosas luminárias querem-nos fazer acreditar que as únicas funções de um Estado mínimo são cobrar impostos à novíssima economia e redistribuir o bolo pelos desgraçados que, entretanto, foram despedidos, espoliados das reformas, não conseguiram um primeiro emprego...
 
O equilíbrio das contas não é difícil! Basta pensar no país de Salazar! Tinha sol e praias e até uma guerra no ultramar. Só não tinha portugueses! Viviam aos milhões lá fora para não morrer cá dentro...

Sem rede dissolveu-se na Caruma

Mesmo sem balanço, SEM REDE regressa em setembro, mas sob a máscara de CARUMA.
Há sempre um aluno atento que procura partilhar nem que seja as suas hesitações ou, então, que insiste para que eu esclareça os limites do "contrato de leitura" - expressão que eu abomino!
Por essas e outras razões, espero, a partir de setembro, dedicar, também, um tempo aos meus alunos, criando, assim, um público diferenciado.
Isto se o MEC não me sobrecarregar com tarefas gratuitas, no duplo sentido da palavra...
  

13.8.13

Nas costas...

Os sindicatos acusam o governo de lhes dar facadas nas costas. Pobrezinhos, sentem-se traídos! Afinal, qual era o acordo que andavam a cozinhar nas costas dos trabalhadores?
 
Há muito que os portugueses são traídos pelos seus governantes e representantes, sejam deputados ou dirigentes sindicais e outros que tais, porque, até ao momento, o que sempre lhes interessou foi partilhar o bolo.
 
O problema que eles escondem da população, com a conivência da comunicação social, é que a decisão já não mora aqui: já não está nem na mão do presidente, nem do governo, nem dos partidos, nem dos sindicatos, nem dos autarcas, nem dos juízes...
 
A decisão é nos imposta e obedece a um calendário e a um caderno de encargos irrevogáveis!
 
Os sindicatos sentem-se traídos porque começaram a perceber que são descartáveis e que por isso vão ter que voltar ao trabalho...

12.8.13

Sem o Anjo que nos afaste da queda...

O Senhor para Mefistófeles: « Todo o homem que caminha pode perder-se.» (Goethe, 1749-1832)
 
Acantonados no espírito da Reforma, habituámo-nos a ver o Senhor como a representação do supremo Bem que combateria perpetuamente o Mal. 
A cada ser competiria, assim, percorrer o caminho da Luz, fugindo permanentemente das Trevas, isto é, evitando perder-se ou evitando qualquer pacto com Mefistófeles. No entanto, na lição de Goethe, o Senhor dá plena liberdade a Mefistófeles para que este possa induzir Fausto em tentação. 
 
Estranhar-se-á este apontamento, mas ele tem uma razão antiga. De todas as vezes que me "cruzei" com o João da Ega n'Os Maias, ficou-me a dúvida sobre o satanismo queirosiano ilustrado pelo Mefistófeles que animava os bailes de máscaras ...
 
E nesse aspeto, o Eça europeu nunca se libertou da imagem do demónio que formatava a alma lusa... 
Eça reduzia tudo à caricatura, tal como nós, hoje, o que nos torna incapazes de caminhar sem o Anjo que nos afaste da queda... 

11.8.13

Inquietação

«A inquietação enfeita-se sempre com máscaras novas: tão depressa é  uma casa, um pátio, como uma mulher ou uma criança, ou ainda o fogo, a água, um punhal, um veneno... Trememos diante de tudo o que não nos atingirá, e choramos incessantemente pelo que não perdemos!» Goethe, Fausto.
 
Eu gostava de subscrever plenamente esta "conclusão" de Fausto, mas a ideia do "ornamento" e da "máscara" faz-me pensar num qualquer desvio histriónico comportamental. Infelizmente, a inquietação tem uma origem menos encenada.
Basta pensar naquele pai que, perante a inevitabilidade da morte, não deixará de se sentir inquieto (atormentado) quanto ao futuro do jovem filho, sobretudo quando a sociedade se revela madrasta.
Basta pensar naqueles a quem a morte não surpreende de forma súbita e que por isso têm tempo para sofrer em silêncio a precariedade da vida dos que lhes são próximos. Quando essa precaridade anda de braço dado com a ingenuidade de uns e a malvadez de outros, a inquietação não desarma e mina as almas e os corpos...
Basta pensar na mentira continuada que nos governa, essa, sim, enfeitada e sempre com novas máscaras, para que o tempo seja desse tipo de inquietação que mata lentamente...
Podemos disfarçar com o sol e a praia, a música e o teatro, o cinema e a ciência, mas na inquietação a música é apenas um tique-taque acelerado, a ciência não traz cura nem pão, a imagem não passa de ilusão, a praia deserta e o sol eclipsa... 

10.8.13

O Ano Sabático (João Tordo)

« Não é tarefa fácil construirmos a nossa própria identidade confiando apenas nas nossas intuições e pressentimentos, mas é também pouca a segurança que poderemos extrair de uma identidade autoconstruída que não seja confirmada por um poder mais forte e mais duradouro do que o seu construtor solitário.» Zygmunt Bauman, A Vida Fragmentada, pág. 278.
 
João Tordo publicou no início deste ano o romance O Ano Sabático. Considerando que o autor nasceu em 1975, não deixa de ser uma experiência temporã. No entanto, esta escolha tem explicação académica. Formado em Filosofia, João Tordo procura responder à velha questão: Quem sou eu? Já Fernando Pessoa construíra toda uma obra a responder à mesmíssima pergunta. Temos, assim, que o romance é a resposta à eterna questão.
Uma resposta triste, pois a ideia de incompletude que persegue Hugo (na 1ª parte) e Luís Stockman (na 2ª parte) faz destas personagens "seres" descompensados, pois a cada momento se sentem "roubados", procurando, um, de forma alienada, e o outro, de forma racional, "encontrar" o quid que os limita.
Esta apropriação do "eu" pelo "outro" (do mesmo sexo, mesmo que haja ainda um "outro" do sexo feminino) é, afinal, a matéria de que o romance se alimenta, e leva à aniquilação de "ambos", o primeiro, de modo prosaico num sótão da baixa lisboeta e o segundo, de modo mais poético numa tempestade de neve nas ruas de Montreal (Québec).
A alusão ao "outro" feminino serve apenas para lançar a ideia de que neste romance, embora "as mulheres" não surjam como acontece na tradição literária e filosófica da "misoginia grega", este outro acaba por não ser essencial para a resolução da resposta à questão identitária - irmã, mãe, amantes, terapeutas, todas elas desempenham papéis periféricos...
Do meu ponto de vista, o mais interessante é que a obsessão do "eu" pelo "outro" acaba por matar a capacidade criadora de Hugo e de Luís Stockman: o 1º porque se sente roubado por uma "sombra real", o segundo, porque, para adiar o reencontro com  a "parte em falta", desiste da composição musical... até que:
«Quando a neve já era tanta que nada se via excepto o branco, tudo branco, o mundo uma composição em branco, Stockman sentiu a alegria de uma perda irreparável e soube que era demasiado tarde para voltar atrás.» (João Tordo, O Ano Sabático, pág. 205)
No essencial, estamos perante um romance bem construído, cujo fio condutor desloca a atenção do leitor para as condicionantes da criação musical, mas que bem pode ser lido como se todo ele fosse o resultado de um verdadeiro ano sabático dedicado aos escolhos que a escrita levanta ao escritor.

9.8.13

Urbano Tavares Rodrigues (1923 - 2013)

Sempre que alguém me fala de Urbano Tavares Rodrigues, sorrio por instantes.
Sorrio da sua bondade, da sua leveza, da sua crença na fraternidade e na solidariedade, e, sobretudo, do modo como continua a alimentar essa Instituição que poderia ser a Literatura, se esta não tivesse sido colonizada por uma casta de sacerdotes que, pouco a pouco, nos afastam do gosto da leitura...
Pode não ser verdade, mas, para mim, Urbano Tavares Rodrigues é um homem naïf que nunca me pediu nada, e que os deuses decidiram premiar, deixando-o ficar um pouco mais para que o sorriso não vire esgar. Caruma, 4.11.2008)
 

8.8.13

O que é (pouco) natural...

«O que é natural estende-se a toda a natureza, mas o produto da arte ocupa apenas um espaço limitado.» (Goethe, Fausto)

Foto 1
Se observarmos a foto 2, verificaremos que o artista, apesar do acrobático movimento, quase que não é visto pelos circundantes. Estes, alinhados, esperam um brinde, qualquer coisa do género. Por mais que insistamos em arrancar o homem à natureza, lá, no fundo, ele procura sempre um benefício, uma recompensa... 
Foto 2

Para o homem, tal como para a natureza, o que conta é ocupar o espaço, nutrir a seiva e esperar que nenhuma força superior o desaloje.  O artista vive do momento, embora aspire a uma eternidade que para a natureza não tem qualquer sentido.
Talvez seja por isso que os circundantes estão desatentos! Mas o que é que se pode esperar de um circundante?
Convém, no entanto, estar atento: há por aí muitos políticos (de todos os partidos) que não têm qualquer peso na consciência! há por aí muitos políticos (de todos os partidos) que não deixam aplicar aos políticos  o desbaste nas reformas e nos vencimentos que lançam sobre os circundantes...
O que me intriga nisto tudo é o argumento da "consciência sem peso"! De tão leve, ela ter-se-á definitivamente evanescido... 
 


7.8.13

Preocupação

A PREOCUPAÇÃO ( diante da casa de um rico): - Vós minhas irmãs ( a FOME, a DÍVIDA, a ANGÚSTIA) nada podeis e nada ousais. Só a preocupação pode deslizar pelo buraco da fechadura. Goethe, Fausto (adaptado).
 
Na realidade, não sei se a Preocupação consegue incomodar um rico. É um universo que não frequento! Sei, todavia, que os ricos (e os seus servos) estão a gizar um caminho em que, por mais que tentemos esquecer os problemas, viveremos em permanente preocupação dia e noite.
E essa permanência da preocupação, constantemente alimentada pela comunicação social, acabará por nos impedir de dar um passo, de sonhar, de dormir.
Por este caminho, acabaremos expulsos da categoria de contribuintes e de consumidores, deixando objetivamente de contar...
Vai ser necessário que a  Preocupação destes novos párias comece a deslizar pelo buraco da fechadura de quem nos desgoverna... 
 

6.8.13

Vivamos alegremente!

« A ação transporta-se para uma corte imperial da Idade Média. (...) O general queixa-se das tropas e dos oficiais que reclamam  os soldos em atraso, e ameaçam a tranquilidade do país. O tesoureiro responde-lhe que os cofres estão vazios, que cada qual vive para si, e que a riqueza do império foi devorada pelas guerras e pelas divisões dos partidos políticos. (...) No entanto o astrólogo fez observar que o Carnaval estava próximo, e que convinha passá-lo com alegria. Bastava ter fé no futuro e fazer uma última exibição de luxo e abundância pública.» Goethe, Fausto, Fausto na Corte do Imperador.
 
Por maior que seja a tragédia, há situações e comportamentos que se repetem: o presidente da república, o primeiro ministro, os deputados, os banqueiros, os tribunais, todos de férias! Simultaneamente, os mefistófeles engendram as extorsões que irão impor ao país...
 
« A partir de quarta-feira de Cinzas... - decretou o imperador - começaremos o nosso trabalho! Até lá vivamos alegremente!» Goethe, op.cit.
  

4.8.13

Um livro imperdível

Há livros que devemos ler, mas que podem ser lidos em qualquer altura, mas há outros que é imperdoável não os ter lido no momento certo. No caso, é imperdoável que aqueles que se preocupam com o governo da coisa pública não o tenham feito à data da sua publicação - 1995. Estou a referir-me à obra de Zygmunt Bauman " A Vida Fragmentada - Ensaios sobre a Moral Pós-Moderna".
No essencial, os tempos que vivemos são fruto da política de desmantelamento das instituições levada a cabo por Thatcher (e por Reagan), uma política que, após a unificação da Alemanha e o desmoronamento da URSS, passou a ser regulada pela finança supranacional. A própria União europeia foi obrigada a trocar o princípio da subsidiariedade pela «cultura de casino cósmico» , em que tudo se calcula em termos de «impacto máximo e obsolescência imediata» (op. cit., pág.269).
Passámos a existir enquanto contribuintes e consumidores. Caso não consigamos manter esse estatuto, deixamos de ser recicláveis e passamos à categoria de dispensáveis, isto é, para os políticos somos "elimináveis", pois só assim as economias poderão ser revitalizadas.
Os "elimináveis" não passam de um produto tóxico, de "imparidades"... acabando como arma de arremesso político entre os gestores do «casino cósmico» e aqueles que, ainda, se consideram representantes de um pensamento de "esquerda". Só que com o desmantelamento do Estado, a "esquerda" deixa de existir, a não ser como entidade fragmentada e nostálgica que nada pode impor.
Em Portugal, nada do que está a acontecer, em 2013, é novidade para Bauman, em 1995.
 
 

3.8.13

Ao longo da albufeira do Cabril

Orientação
Partida: Parque de Campismo do Pedrógão Grande. 1º alcatrão, depois terra batida, plana. A Ilha expõe-se em forma de casco de embarcação e oferece descanso e a possibilidade de merendar para quem se tenha aviado em terra.


A Ilha


A dificuldade
Como não há ilha sem encosta, os mais afoitos podem descer até à linha de água, desde que não esqueçam que vão querer regressar...
Duração: duas horas, a não ser que levem cana de pesca ou queiram mergulhar nas águas da albufeira.

2.8.13

Confluir


Juntam-se as águas e seguem o seu curso, alheias a hierarquias de estado ou de qualquer outra espécie e, simultaneamente, as margens iluminam-se, gratas à conformidade que assim as guia.
A cada passo, a natureza dá o exemplo, mas nós preferimos ignorá-lo em nome de uma cultura que insiste em defender uma identidade artificiosa, de uma soberania que já perdemos…
Ouvi há pouco que temos mais um partido: o MAS – Movimento Alternativa Socialista. Um partido para o futuro que quer voltar ao passado: ao escudo, à bancarrota, ao Estado-nação. Mais um grupo de “intelectuais” que não entende o mundo em que vive…