30.6.13

A coexistência declarada num estado amordaçado

«Há uma coexistência declarada na manifestação de protesto (...) - uma forma de coexistência que assume a instrumentalidade como uma máscara: a razão exterior invocada só como pretexto ou apelo à comparência é necessária, uma vez que esta forma de coexistência é o seu próprio objetivo e fim principalZigmunt Bauman, A Vida Fragmentada (1995)
 
Só num Estado amordaçado é possível cercar uma manifestação de protesto sob o pretexto da razão exterior, do toque a reunir. Cercear um apelo à coexistência é não entender a necessidade de combater a política que isola o indivíduo, lhe corta os laços que o podem dignificar, tornando-o essencial ao bem comum.
O grupo é a expressão ativa da soma das vontades individuais de coexistência. Num Estado amordaçado, a alternativa à coexistência declarada é a ação direta - a anarquia.
Dentro de dias, iremos ficar a saber até onde este Estado quer chegar: se aceita a coexistência declarada ou se prefere o gesto anárquico.
No tribunal decidir-se-á quão próximos ou distantes estaremos da solução fascista.
 

29.6.13

Caminho sobre o pontão

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Caminho sobre o pontão, e, durante alguns minutos, penso que não terei que voltar para trás e, sobretudo, penso que já escrevi que não posso regredir.

Mas não é verdade! Esgotado o betão, e não me atrevendo a lançar-me à água, olho o azul do mar dos evadidos Álvaro Cunhal e camaradas, e regresso sobre mim, contrariado, pois pressinto a traição da caminhada: um cansaço indizível apodera-se de mim e as palavras enredam-se esverdeadas num cercado abandonado…

28.6.13

O cerco

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O mais fácil é remeter-me ao silêncio, engolir em seco, emudecer. No entanto, a luta pela sobrevivência exige que nos enraizemos nas areias movediças e que sigamos em frente.

Se os espinhos surgem no caminho é porque a esterilidade do solo assim o determina. Ao ouvir certos governantes, parece que os rebeldes germinam maleficamente de per si, e que bastará  cercá-los durante horas, conduzi-los ao campus justitiae  para que, humilhados, desistam de lutar pela sua própria vida.

Os transportes aéreos e terrestres podem ser paralisados durante dias; os hospitais podem deixar os doentes à porta e as cirurgias podem ser adiadas; os estivadores podem suspender o movimento de carga e descarga durante meses; os banqueiros podem deixar ocupar os seus próprios bancos por todo o tipo de escrocs; os governantes podem despudoradamente servir interesses ocultos…

…todas estas ações estão legitimadas, independentemente dos prejuízos…

…só três centenas de manifestantes não têm o direito a fazer um corte temporário de estrada se esse era, de verdade, o seu objetivo.

A igualdade é, afinal, bem desigual!

27.6.13

Jogos verbais

«De maneira que Rossélio não se admirou quando percebeu que nunca alcançariam o Maria Speranza, nem Shandenoor, nem regressariam a Carvangel, e também não se importou.» Mário de Carvalho, O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel, 2012 
 
N'O Varandim, o espaço fechado é arrasado pela dinamite anarquista depois de uma longa disputa sobre como assegurar o melhor lugar para assistir ao enforcamento de alguns relapsos. O acontecimento leva a uma longa transformação da casa fronteira - ao negócio das vaidades sociais...
 
Em Carvangel, a sociedade move-se em torno de um desmesurado canhão e na obrigatoriedade de embarcar no Maria Speranza, não como imposição, mas como desejo coletivo ou, talvez, inevitabilidade.
À medida que a narrativa avança, a neologia cresce designando espaços e até iguarias fictícias; as próprias personagens mais não são do que reflexos ou complementos... Rossélio, sem nunca se adaptar aos jogos locais, acaba por abdicar do sentido dos atos e das coisas, percebendo, todavia, que de nada serve procurar saída ou tentar regressar.
Já nem os anarquistas conseguem combater o estado concentracionário!

26.6.13

Os mabecos

Ainda decorre a entrevista ao ex-ministro das finanças, Teixeira dos Santos,  e já os mabecos correm para a antena. A publicidade prolonga-se enquanto lhes aparam as garras e as sobrancelhas.
O fio condutor já tinha sido estabelecido pela Judite Sousa: Teixeira dos Santos viu-se obrigado a enfrentar a teimosia de Sócrates; no calor da contenda, cortaram relações; a degradação financeira mais não seria que o resultado da teimosia e da cegueira do primeiro-ministro e do partido socialista; o colapso pouco teria a ver com a traição dos mercados e da política da união europeia...
( Já passaram 15 minutos, e os mabecos nos bastidores. A publicidade continua...)  
Quanto à cronologia dos acontecimentos, a jornalista desvaloriza-a; interessa-lhe apenas o guião da traição e do sangue; para a análise do presente, reserva dois minutos, entrecortados por várias perguntas, sobressaindo a preocupação do guionista em relação ao futuro político do entrevistado...
( A publicidade continua, dos mabecos ainda não se avistam as orelhas, devem estar sintonizados com os diretórios políticos!)
Afinal, parece que os mabecos já estão na antena ... eu é que tenho estado no "big brother" e não sabia... Ainda não percebi bem para que é que servem estas entrevistas!

25.6.13

Vitória de Pirro

A única expressão que me vem à cabeça ao escutar governantes, comentadores e sindicatos da educação é que estamos perante uma «vitória de Pirro». Com o "entendimento" obtido, mas sem "acordo", as tropas desbaratadas regressam ao trabalho. No entanto, daqui a um mês, já será possível perceber que faltarão milhares de horas para cumprir as promessas de hoje.
E nada disto faz sentido quando a notícia é que o deficit, no 1º trimestre, ultrapassou os 10%.
Vivemos em tempo de promessas e não faltam por aí fervorosos crentes...

24.6.13

Silva Carvalho e Mário de Carvalho

«O real não é uma manifestação da matéria. / O real é a matéria de onde irrompem as coisas.» Silva Carvalho, Logo, Só Há História, 2013
 
Silva Carvalho é um escultor da palavra que nos pode deslumbrar se tivermos tempo para nos fixar nessa casca rude da matéria de que irrompemos. Como ele há muito poucos! Presentemente, vou lendo Mário de Carvalho (O Varandim / Ocaso em Carvangel, 2012), para quem a reconstituição de léxicos específicos é um modo de reconstituir atividades extintas e/ou longínquas.
Não sei se estes dois escritores se frequentam, mas creio que ambos, cada um à sua maneira, vivem obsessivamente a captura do real, da matéria na sua extensão e duração.
De momento, não me sinto autorizado a ensaiar um comentário mais aprofundado. Mas sinto que ambos merecem ser lidos atentamente, apesar de saber que os leitores preferem uma língua simplificada, esburgada de referencialidade.
Na verdade, vivemos num tempo formatado, que, apesar da globalização, ignora a duração (História) e prefere o GPS.  

23.6.13

Uma rara e madura subtileza

Ontem, o Governo reuniu no Mosteiro de Alcobaça para fazer o balanço dos dois últimos anos. Ainda não percebi se houve balanço, mas penso que o objetivo real seria sublinhar o contributo da Ordem de Cister para o incremento da Agricultura. 
A propaganda da ministra Cristas tem, de facto, dado expressão à ideia de que a refundação de Portugal já se está a processar nas bases sólidas e líquidas que tanto agradavam aos cistercienses que se instalaram entre o Coa e o Baça.
Na minha modesta opinião, apesar do atraso do ministro Crato ( explicado pela inépcia da atual cavalaria - Ordem dos hospitalários), o objetivo oculto de ontem era promover a refundação de Portugal e da ginja de Alcobaça.
Infelizmente, os nossos comentadores políticos e facebookianos não entendem que a informalidade do porte governativo esconde uma rara e madura subtileza de pensamento estratégico.
 
Por outro lado, o Governo do Passos Coelho(s) também pode ter querido dar um sinal de inteligência um pouco mais tétrica. A exemplo de D. Pedro I, pode ter decidido simular a sua própria trasladação para Alcobaça.
Afinal, parece que há por lá o petróleo necessário à iluminação do grandioso traslado que não deixará de ocorrer logo que haja novo rei e já agora novos comentadores. 

22.6.13

Da falta de rigor...

«As consequências de uma escolha, de um modo geral, duram mais tempo do que a autoridade que aconselhou a fazê-la..»Zigmunt Bauman, A Vida Fragmentada - Ensaios sobre a Moral Pós-Moderna, 1995.
 
Não sei se é verdade, mas consta que a greve às avaliações irá continuar, pois os sindicatos terão consultado 10.000 professores que se terão pronunciado favoravelmente. Desses 10.000, não sei quantos têm classificações por atribuir e, sobretudo, não sei quantos dos que não foram consultados se apresentarão, 2ª feira, nas escolas, com vontade de concluir o processo avaliativo. Sei, no entanto, que muitos dos que ficaram por ouvir se irão sentir pressionados e defraudados.
Claro que, nestas matérias como noutras, há sempre o argumento de "quem cala consente". Mas será mesmo assim? Será que um dia destes o "feitiço não se irá voltar contra o feiticeiro"?
A cultura popular é, por natureza, ambígua e pouco rigorosa. À sua maneira, também aprecia a estatística!

21.6.13

E se deixássemos de pensar?

Se deixássemos de pensar seríamos inevitavelmente felizes. A teoria é de Pessoa "pensar incomoda..." Os heterónimos pessoanos foram inventados para nos dizer que 'há demasiados argumentos para cada facto' ou que, em Portugal, 'não há pobres', apenas 'alguns necessitados, mas com capacidade de poupança'...
Há mesmo um bispo (das forças armadas) que nos quer convencer que Salazar não diria melhor! Pobre bispo ou talvez não, pois o seu bispado ainda não foi extinto. Pensa o senhor bispo que os governantes se escandalizariam com a comparação, mas engana-se. Eles apreciam o pensamento integralista.
Se deixássemos de pensar, o mundo estaria mais harmonioso: não haveria guerra na Síria, conflitos na Palestina, fome em África, revolta nas avenidas das grandes cidades do Brasil e da Turquia, monções catastróficas na Índia...
...até o vento teria deixado de soprar!
  

20.6.13

Estranho o rigor ou a falta dele

Numa época em que o MEC privilegia a dimensão científica, não deixa de ser estranho que, no Grupo I da Prova de Literatura Portuguesa (1ª fase, 2013), o aluno não seja inquirido sobre o HIBRIDISMO da cantiga de amor de D. Dinis: «Senhor, eu vivo coitada / vida...».
Se eu, avaliador externo, observasse uma aula em que a referida cantiga de amor fosse objeto de trabalho, não deixaria de estar atento à ciência do professor quanto à descrição da poética de Dinis, designadamente à "contaminação" da cantiga de origem provençal pela cantiga de amigo...
Quem se der ao trabalho de ler o "cenário de resposta", verificará que nada é apontado sobre a presença do refrão, da finda, da organização, da métrica... e estou convencido, embora ainda não tenha lido qualquer resposta que os alunos acabarão por ser prejudicados pelo modo como este problema é descurado na abordagem desta composição.
 

19.6.13

«Como de costume»

«Enquanto nada ou ninguém nos impede de fazermos «como de costume», poderemos continuar assim indefinidamente.» Zygmunt Bauman, A Vida Fragmentada

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Na Rua dos Actores, Portela LRS, parece haver quem queira contrariar a rotina. Resta saber porquê. E já, agora, conhecer o desenvolvimento que dificilmente trará a felicidade, como nos quiseram convencer todos aqueles que nos inundaram de fórmulas mágicas como a História e a Razão:« a Razão da História, ou a História como obra da Razão, da Razão que chegava a si própria através da História.» Op.cit.

As fórmulas mágicas da modernidade capitularam diante da lei inscrita no sistema competitivo da economia global: maximizar os benefícios económicos.

De acordo com esta lei, o que os filósofos, os historiadores, os professores e os pregadores dizem pouco conta, por mais que estejam convencidos do contrário.

Começo a ficar convencido que este meu vizinho também decidiu mandar às urtigas a ética, rompendo com o «costume», ao estacionar a viatura no meio da rua, dificultando a tarefa aos restantes automobilistas e, sobretudo, bloqueando a saída vá lá saber-se de quem! Mas ele sabe…   

18.6.13

As consequências de uma escolha

«As consequências de uma escolha, de um modo geral, duram mais tempo do que a autoridade que aconselhou a fazê-la..»Zigmunt Bauman, A Vida Fragmentada - Ensaios sobre a Moral Pós-Moderna, 1995.
 
Na vida pública, a autoridade faz, em nosso nome ou por capricho, escolhas que, no momento, parecem auspiciosas, mas que se revelam fatais. Entretanto, o decisor põe-se a milhas e nós ficamos irremediavelmente reféns do nosso deslumbramento inicial.
A assunção da responsabilidade deixa de se colocar, pois, afinal, a autoridade beneficiou da nossa cumplicidade. E como tememos o Caos, delegamos a resolução do problema  em nova autoridade que, não se fazendo rogada, nos cobra os desmandos da autoridade anterior...
E tudo como observava, em 1982, Cornelius Castoriadis: «Os seres humanos não são capazes de reconhecer o Caos, não são capazes de se confrontar de pé com o Abismo.» Isto é, o ser humano prefere a cartilha, a Ordem!
Nos últimos dias, em Portugal, o combate, em nome da designada 'escola pública', fez-se em nome da Ordem, ou melhor, a batalha colocou frente a frente duas ordens de interesses que pecam por não assumir a responsabilidade de escolhas que, com o tempo, se revelaram fatais para as gerações atuais e futuras.  

17.6.13

Prova de Português 12º Ano

Lê-se a Prova 639 / 1ª fase, e fica-se com a ideia de que ela só pode ter sido elaborada por uma mente urbana e caprichosa.
Fernando Pessoa vale 100 pontos! Como diria David Mourão-Ferreira: «Tanto Pessoa já enjoa!» Na verdade, quem melhor do que o heterónimo Ricardo Reis para nos ajudar a vencer a crise! E, sobretudo, parece não restar qualquer dúvida de que o grande tema de Alberto Caeiro seria a Natureza! Pessoa bem tinha avisado, no poema "Autopsicografia", que o leitor tende a cair no vazio e na idiotia.
Será certamente pelo mesmo motivo que António Lobo Antunes diz (Grupo II): «Quem tiver olhos que leia, quem não conseguir ler, desista.»
E de facto utilizar a "crónica" desta autor para elaborar um medíocre questionário de escolha múltipla só pode ser sinal de falta de olhos, de cegueira! Há por aí tantos textos informativos disponíveis para esse exercício!
Já no Estado Novo se aproveitava a epopeia "Os Lusíadas" para testar o conhecimento de Gramática, em particular da Sintaxe, porque isto de explorar o sentido do texto pode ser subversivo...
 
E quanto ao III Grupo, vai ser muito interessante avaliar o espírito crítico e transformador da sociedade na perspetiva dos jovens que, hoje, realizaram esta prova, quando muitos outros o não puderam fazer!
E como diz o ministro Crato, no dia 2 de Julho haverá mais. Vamos ver se Pessoa continuará a valer 100 pontos ou se os irá partilhar com Camões... A fórmula do GAVE manter-se-á, não tenho dúvida!
 
 

16.6.13

Não vá o coração estoirar de cansado

Com tanto saber, tanta convição e certeza à minha volta, mais vale ficar calado não vá o coração estoirar de cansado.
Entretanto, apoquenta-me que um ministro, na véspera de uma greve nacional, não seja capaz de sentar todos os sindicatos à volta da mesma mesa, preferindo esticar a corda na expectativa de sair vencedor de um jogo em que, na verdade, quem perde são os alunos...
(...)
As conversações deixaram de ter fio condutor, ou, em alternativa, cada interlocutor segue o seu. Que sentido faz haver, pelo menos, nove sindicatos para representar os professores? Basta olhar para a forma para perceber a ineficácia organizacional!
Por outro lado, o silêncio dos alunos também me incomoda! Tão ávidos dos seus direitos, desta vez parece que abdicaram de erguer a voz... e não me venham dizer que este tipo de silêncio é solidário.
(...)
O ponto em que nos encontramos mais não é do que o indicador da degradação do sistema educativo que paulatinamente foi destruindo e/ou marginalizando a inteligência.
 

15.6.13

Contra o dictat de um iluminado

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Milhares de professores desceram do Marquês de Pombal à Praça dos Restauradores, vindos de todo o país para dizer NÃO! Fizeram-no a um sábado depois de terem passado uma semana à espera que o ministro Crato decidisse dar início a um diálogo rigoroso e sério – adiaram as reuniões de avaliação dos seus alunos, cientes do prejuízo para a comunidade educativa,  e preparam-se para fazer greve aos exames no dia 17. No íntimo, nenhum destes professores quererá fazer esta greve! No entanto, muitos acreditam que este é o caminho para fazer estancar a política de terra queimada em curso…

(Infelizmente, eu temo que o problema seja mais profundo e mais global: o neoliberalismo vai lançando um pouco por toda a parte as sementes que conduzirão a uma guerra sem quartel. O que, no meu entendimento, nos obriga a procurar outras armas – as da inteligência – para desmontar o discurso obscurantista dominante. Por isso, não estou tão seguro de que a greve aos exames seja o argumento mais lúcido no combate que nos espera…)

Entretanto, seria bom que o ministro Crato abandonasse a estratégia divisionista que tem seguido até ao momento. Em matéria de educação, desde o início da legislatura, que temos assistido ao dictat de um iluminado que faz faz tábua rasa da experiência acumulada. É  como se antes de ele nada mais houvesse do que o caos!

14.6.13

Muda-se a lei...

Sobre a greve aos exames, Passos Coelho dixit: Muda-se a lei e o problema fica resolvido!
Os tiques de autoritarismo do governante deveriam ser combatidos com um simples slogan: Muda-se o Passos e o problema fica resolvido! Mas não! Sobre o assunto, o Seguro não se pronuncia, limita-se a apelar ao consenso.
 
Contra o autoritarismo e o oportunismo, irei participar na manifestação de amanhã, 15 de Junho. Será a 2ª vez que o faço desde abril de 1974. Em 1974, o motivo da minha participação foi de aplauso, amanhã será de rejeição. 
A partir de 2ª feira, deixarei de fazer greve, e tomo esta decisão porque não possa pactuar com a vacuidade das ideias (das soluções) ou com qualquer forma de messianismo, seja ele de direita ou de esquerda.     

13.6.13

A dieta e a política

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Gosto do cartaz! O futuro ex-presidente, entroncado e pujante, faz avançar o delfim, um pouco mais magro, mas que já partilha a gravata e o alfaiate…Um dia partilhará a gordura, mas sem sinal de colesterol ou de triglicerídeos. É uma gordura fina, porcina… mas nobre!

E não posso deixar de me sentir confiante: nenhum deles passou fome até ao momento! Eu aprecio um autarca rotundo à entrada de uma qualquer rotunda. É sinal de prosperidade!

Entretanto, quando olho para o Borges, para o Passos, para o António Saraiva…, preocupa-me aquela magreza. Será da dedicação à causa pública? Estarão doentes? Ou também haverá uma magreza fina!  

E, finalmente, não consigo enquadrar nem o Cavaco nem o Gaspar! Lembram-me o Salazar! Chova ou faça sol, estão sempre na mesma…

12.6.13

Sobressaltos

Hoje bem poderia nada escrever! No entanto, vou dar conta de situações que me perturbam:
a) Na Grécia, o Governo manda encerrar o serviço público de televisão e de rádio porque custaria 100 milhões de euros aos contribuintes. A Comissão europeia, entretanto, sacode a água do capote, mas a Troika está no terreno. Em Portugal, o ministro Maduro esclarece que, quanto à rádio e televisão públicas, não corremos qualquer risco. Que se saiba a Troika chega mais tarde a Portugal!
b) Em Estrasburgo, o Presidente Cavaco disserta sobre a situação portuguesa com clareza, mas também com a certeza de que o nosso destino está nas mãos da Alemanha. Ali, em Estrasburgo, os motores da economia deixaram de ser a agricultura e o turismo.
c) Em Santarém, deliciados com as primícias, os bovinos, os caprinos, sem esquecer os ovídeos, os láparos e os porcinos, Coelho e Cristas percorrem a Feira da Agricultura.  Algo assombrava, contudo o primeiro ministro: uma qualquer comissão arbitral ousou contrariar a vontade do ministro Crato.
d) Um Despacho normativo sobre a organização escolar 2013-2014 continua à espera de publicação oficial. É constituído por 29 páginas. Há lá matéria que vale a pena ser debatida e considerada, mas ninguém quer saber disso!
e) Em matéria de avaliação externa, há tal confusão que os Diretores de certos Agrupamentos de escolas se permitem fazer tábua rasa de procedimentos e de prazos definidos em decretos regulamentares.
(...)
 
 
 

11.6.13

Em greve...

Como o governo neoliberal do senhor Borges tudo quer privatizar em troca de empréstimos que só servem para destruir os povos, vejo-me obrigado a entrar em greve.
Não sou de aqueles que pensam que a culpa é do Sócrates, do Cavaco, do Coelho ou do Gaspar. Eu penso que a responsabilidade é da doutrina neoliberal que, depois de ter destruído a América Latina e a Europa Central e do Leste, decidiu destruir parte da Europa Ocidental.
Custa-me até aceitar que, neste contexto de greve às avaliações, haja dirigentes que olhem esperançadamente para S. Bento ou para Belém. Esses dirigentes sabem perfeitamente que os Passos e os Cavacos por mais promessas que façam estão de mão atadas, tal como todos nós!
Eu, por exemplo, estou em greve e, ao mesmo tempo, passei todas estas horas a preencher o anexo II da avaliação externa de dois docentes. Isto é, estou em greve e ao mesmo tempo ao serviço de um patrão que aluga gratuitamente os meus serviços, porque sabe que nunca os pagará.
Esta é a essência do neoliberalismo que, caso os meus serviços valessem alguma coisa, estaria disposto a vendê-los a um país "amigo".
No final, estaremos todos mais pobres e os "amigos" bastante mais ricos!   

10.6.13

Este é o dia da situação

Este é o dia em que não citarei Camões nem qualquer outro poeta ou prosador. 'Citação' e 'situação' confundem-se e estão nas praças para celebrar um outro povo que não este!
Este é o dia em que poderosos e incógnitos assessores percorrem à pressa as estantes à procura dos versos que melhor dão conta da glória passada e da prosápia presente.
Este é o dia em que o presidente não deixará de citar os ilustres e incógnitos assessores porque a legitimação da situação assim lhe convém. 

9.6.13

Duas instalações

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Hoje fui à Gulbenkian! Ao atravessar o jardim, deparei com uma “instalação” em construção. Um projeto de cabana para dar conta da nossa imagem de África. Só faltam os nativos!
Lá dentro, uma outra “instalação” CLARICE LISPECTOR – A HORA DA ESTRELA. A leitura reduzida a enunciados murais destacados das obras. Uma entrevista à autora, em monólogo interior, sobre estados de alma em torno da transparência vs hermetismo do discurso.
Mais do que o conhecimento da obra, o que ganha monumentalidade é o enorme gaveteiro que o visitante pode abrir para observar obras e manuscritos vários da correspondência da autora.
Em comum às duas “instalações” a preocupação em despertar o deslumbramento visual!
Quando a pobreza cresce, o barroco ganha terreno…

8.6.13

O inimigo invisível

«Perguntam-me qual é o fio condutor da narrativa. Não há. Nem na vida, quanto mais no sonho.» Manuel Alegre, Tudo É e Não É, pág. 83.
 
A encenação atravessa todo o romance: o autor, ao querer inscrever-se na História (op.cit.74 - eu sou um homem de esquerda, sou português, chamo-me António Valadares), não descura o leitor,  manipulando-o.
Apesar de o leitor saber perfeitamente que não controla o fio da vida e que, ainda, não consegue interpretar cabalmente o sonho, mesmo que, para isso, se socorra da psicanálise, o autor deliberadamente caricatura o amigo Miguel Varela, psiquiatra amigo... textualmente, mais psicanalista do que psiquiatra. (O autor finge não saber que os domínios e as terapêuticas são distintas)!
Dizer que não há fio condutor para esta narrativa é um logro! Não há narrativa sem fio condutor! No caso há vários, mesmo que seja necessário recorrer a Ariadne.
 
Um dos fios tem como ponto de partida o inimigo invisível (op.cit. 28) cuja ação se alarga, a cada capítulo, por efeito da mão invisível:
a) «Ninguém sabe. E por isso todos somos perseguidos, atacados, cercados sem saber por quem, inimigos desconhecidos, mão invisível.» (op.cit. 61)
b) «A mão invisível está a destruir a harmonia do homem com o homem.» (op.cit. 76)
c) «Há momentos em que a cidade se confunde com os rostos das pessoas. (Mas não só no sonho.) Nem o sol de Lisboa as ilumina. A mão invisível parece ter cortado a cor e a luz. Como combater este invasor sem legitimidade e sem rosto?» (op.cit. 114)
d) «A mão invisível aboliu a honra, aboliu a alegria, está a abolir a vida.» (op. cit.115)
e) «E o Mão Invisível, que se mostra pouco, mas está por detrás das novas formas de investida, na rádio, na imprensa, na televisão, nos cortes, não apenas dos salários, mas do sossego em que as pessoas estavam postas. E da esperança, palavra tantas vezes repetida, dia a dia assassinada.» (op. cit. 187)
 
Não há narrativa sem fio e consequente ponto de partida. Nesta, o longínquo inimigo invisível da partida chega ao fim como Mão Invisível, mas bem próximo, pronto a assassinar a esperança.
 

6.6.13

Tudo é...

Hoje não vou dissecar o último romance de Manuel Alegre "Tudo é e não é " até porque já é difícil  interpretar os sonhos quanto mais esquematizar uma narrativa que, aparentemente, procura reproduzir uma sintaxe onírica.
O título é adequado não só à ambiguidade da linguagem dos sonhos, mas sobretudo ao momento que vivemos, em que nada é seguro, tudo muda sem regresso. E nesse aspeto, o título promete, porém a leitura desarma, pois as referências ao presente são subtis, apesar de alguns enunciados parecerem revelar o contrário:
 
«O Medo. Sim. O Medo, com maiúscula. O Medo desconhecido, do inimigo invisível, do não saber para onde se vai nem o que pode acontecer.» 
 
O protagonista António Valadares, a espaços, expõe o pensamento do Autor. Mas fá-lo de forma tímida e estereotipada:
 
«Ultimamente tenho criticado os mercados, as agências de rating, os fundos de investimento, os especuladores e os poderes ilegítimos que se sobrepõem à democracia e à soberania dos Estados
 
Embora possa estar errado na análise da narrativa, uma das linhas de força deste romance é a ação política, mas como é comum em Manuel Alegre, ele prefere o passado ao presente, prefere inscrever-se na história, chegando ao ponto de semear farpas como acontece no seguinte caso:
 
«No uso da palavra está um dos meus piores inimigos políticos, do meu próprio partido, claro...»
 
E em matéria de linhas de força, há que estar atento à literatura e ao cinema com o constante recurso à citação e ao intertexto.
Por hoje, mais não acrescento, mas prometo regressar ao fascínio do autor pela literatura, pelo cinema e, também, pela música, sem esquecer a caça e o desnecessário marialvismo que lhe estraga o bom gosto.  
 
Em síntese, creio que esta narrativa dos sonhos poderia ter explorado com mais profundidade o MEDO que cresce a cada momento...
 

5.6.13

O medo e a angústia

Depois do ministro Crato ter afirmado que detesta tomar decisões para a vida, hoje o primeiro ministro veio dizer-nos que não tem medo de nada!.
Não sei se o cidadão Passos Coelho concordará com o primeiro ministro...
No dia em que o cidadão Passos se vir afastado do poder, talvez acabe por descobrir a angústia de ter perdido os amigos, os padrinhos, os compadres e quem sabe se não acaba por descobrir a angústia daqueles que vão  caindo dia a dia no desemprego.
Ao contrário do primeiro ministro, há cada vez mais portugueses angustiados e com medo. É, também, por isso que os professores decidem fazer greve aos exames, pois há muito que estão angustiados e com medo. A ideia de que os professores estejam divididos não passa de um fantasma de quem teme que os professores acabem por descobrir que não examinaram com o rigor necessário a geração parasita que hoje nos governa. 
 

4.6.13

Crato na antena

«E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!» Álvaro de Campos

Oiço o ministro da educação e interrogo-me sobre a qualidade da sua argumentação e apetece-me desligar da antena. Porquê?
Porque um homem que está disposto a negociar com os sindicatos, um homem que acredita que muitos professores estão divididos, um homem para quem o mais importante é não defraudar os alunos e as famílias, esse homem deveria estar a esta hora a discutir uma proposta escrita, devidamente fundamentada, com os professores... Mas não, prefere a vacuidade, falar de tudo e de nada...
Qualquer estudo de conteúdo da entrevista que está a dar na tvi24 mostrará que, no estilo "toca e foge", este ministro se revela incapaz de desenvolver uma única ideia ... e lá vai insistindo na "divisão", na "angústia" dos professores...
 
Pelo menos, fica a garantia de que o ministério está a poupar na água, na luz, nos edifícios, nos transportes, nos professores, nos auxiliares, nos administrativos, na escola pública..
Desisto
 
do mais e do menos, do olhe-se, do estamos a trabalhar, do olhe como a escola está decorrer, da outra ordem de problemas, dos dramas - tudo foram dramas!, da média, de 28 para 30 foi 2... do não quero falar sobre isso, da correlação... dos professores que tiveram que se fazer... às vezes, falo muito mas gostaria de terminar uma ideia... se há um problema, lá vem o telejornal...
 
E como o senhor ministro detesta tomar decisões para a vida, amanhã tudo poderá ser diferente! Até porque o senhor ministro já não quer implodir o ministério...
 
 

3.6.13

Na quinta democrática

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De repente, a notícia dá conta da proliferação de vacas: umas, sagradas, outras, gordas e outras, ainda, magras. Os bezerros desataram à marrada na esperança de desalojar os velhos sacerdotes do templo democrático.

Compreende-se! Com a chegada do verão, o pasto vai secando e minguando.

Ainda pensei que seria mais adequado intitular este post “No estábulo democrático”, mas lembrei-me que deixaria de fora os coelhos, as doninhas e os ratos de cidade…

2.6.13

Um sorriso desdentado

Rari quippe boni... Juvenal, Sátira III

Só posso concordar com Juvenal:As gentes de bem são raras!
 
(Estação do Oriente, Autocarro 728. Destino: Portela)
 
O autocarro, vazio, entra ao serviço. 7 passageiros dispersam-se. No fundo do articulado, 20 lugares vazios. Só um lugar, junto à porta, é ocupado por uma rapariga entretida com o smartphone... 
Entretanto, um sujeito, atarracado, cabelo cortado à escovinha, aproxima-se da jovem e senta-se ao seu lado. Procura o contacto e simula uma desculpa. A perna esquerda balança sempre na mesma direção, os olhos sorridentes perscrutam o ecrã e, subitamente, os olhos dela interrogam-se, e ele desfaz-se num largo sorriso desdentado - faltam-lhe dois dentes!
A jovem refugia-se mais uma vez no smartphone, a perna esquerda procura o encosto, o braço esquerdo passa repetidamente a mão pelo que sobra do cabelo, os olhos gulosos somem-se na passageira. 
Percurso terminado, o passageiro contrariado sai, não sem antes se voltar num gesto obsceno. 

1.6.13

Se olharmos bem…

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Se olharmos bem, veremos que a Igreja se preocupa com a solidez da Cruz, não vá ela desabar sobre os fiéis!

Sem a cruz o que seria de nós!

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Se olharmos bem a toponímia deste país, veremos que a visão bipolar é antiga. Tem, no entanto, um mérito: diz-nos que o sacrifício é rapidamente esquecido.