Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

28.11.17

Se andasse para trás

...
confirmava se a gabardine que já foi minha está em condições de suportar o frio de amanhã que a chuva essa já estará de partida...
verificava se 50 euros, em numerário, serão suficientes para pagar a pintura do cabelo e outras alfaias achinesadas que irremediavelmente se aprestam a saturar-me a casa...
voltava a retirar o automóvel do pátio assombrado por viaturas dimensionadas para as grandes avenidas e precipitava-me para a boca do Metro de Moscavide...
enfrentava  a embalagem de carne picada e transformava-a num esparguete à minha moda de que ninguém se queixa, provavelmente excesso de educação....
regressava ao pacote de testes, ordenava-os, classificava a primeira pergunta do I grupo e o II grupo, num critério absurdo, mas de quem está a apalpar terreno deveras conhecido, embora aqui e ali surja uma surpresa - ou será uma esperteza...
espreitava o Facebook a verificar se em Hamburgo a vida decorre sem sobressaltos - chove e a temperatura continua a baixar... e a senhora Merkel andas às voltas com um Governo improvável - quem diria que a Germânia regressava ao tempo dos godos...
consultava o OGE 2018,  para me assegurar que para o ano a minha situação laboral e financeira  irá agravar-se, ao contrário do que apregoam as forças esquerdistas que pensam que sem pagar aos credores é possível penalizá-los...
explicava pacientemente que o bulício de Bernardo Soares é diferente do de Cesário Verde e que vale a penha saber-lhe o significado e que quando o semi-heterónimo se quer coevo do Poeta da cidade, ele se está imaginar contemporâneo, mesmo que o meu interlocutor também necessite de perceber que eu e ele somos contemporâneos porque habitamos o mesmo tempo...
ou, então, aproveitava para elucidar que a angústia é, afinal, a expressão de um medo (phobos) sem objeto e que vive paredes-meias com a ansiedade... e talvez, assim, alguém compreendesse que a angústia é um luxo relativamente recente - há quem diga que surgiu nos finais do séc. XVIII...
e, claro, se andasse para trás, talvez, em vez de fazer o caminho das Olaias, tivesse preferido a Rotunda do Relógio - que ele são vários... e eu sou só um...