6.10.17

Competência essencial

Saber interpretar é uma competência essencial. Fernando Pessoa é um dos maiores intérpretes da condição humana. Fê-lo com um rigor inexcedível. Todas as suas "máscaras" são a expressão de um espírito geométrico que permanentemente procurou desmascarar o conhecimento tido como definitivo...
Nos tempos que correm não basta escrever sobre esta convicção, é necessário saber ilustrá-la... e mesmo assim!
Vem este arrazoado a propósito da resolução, inscrita no manual Sentidos 12 (versão professor), da seguinte pergunta: - caracterize o sujeito poético, justificando a sua resposta com elementos textuais pertinentes: O sujeito demonstra alguma confusão interior como se percebe pela primeira estrofe quando afirma "Tenho tanto sentimento / que é frequente persuadir-me de que sou sentimental..."
O problema é, no entanto, outro. Bastaria saber que a referência de sentimento é, à luz do conhecimento da época, distinta da de sentimental. É sentimental todo aquele que se deixa conduzir pelas sensações, pelas emoções... Por outro lado, o sentimento, embora possa ter origem na sensação, é uma realidade mental, drenada pela razão; é fruto da autoanálise e da imaginação: Mas reconheço, ao medir-me / Que tudo isso é pensamento / Que não senti afinal
Onde é que paira a confusão interior?
(...)
O que este poema demonstra é que o homem, por mais que racionalize, não tem qualquer ferramenta que lhe permita saber distinguir a vida verdadeira da vida errada, mesmo se as Ciências Humanas (Teologia, Filosofia, Psicologia...) insistem em defender que os sentidos são fonte de erro e a razão fonte de certeza, de verdade...