Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

15.1.18

Uma relação mal resolvida ou mal traduzida...

Com tanto estrangeiro embasbacado a fotografar a fachada, não resisti... até porque, de livro na mão, enregelava, à espera diante do nº 104...
Acabara de entrar no ensaio "L'inquietante étrangeté", de Freud e, tal como este, procurava uma tradução adequada, mas nenhuma me agradava, apesar da estranheza inquietante (angustiante) me parecer uma hipótese razoável...
Por seu turno, Freud ia gastando páginas atrás de páginas com o resultado das suas pesquisas sobre o significante nas diversas línguas europeias  correspondente a unheimlich, e parece que não encontrou, dando corpo à ideia de que as línguas guardam em si identidades (e mistérios) intraduzíveis!!!
Esta viagem linguística, a certa altura, revela-se deliciosa, quanto à tradução de unheimlich: « o italiano e o português parecem contentar-se  com palavras classificáveis como perífrases. No árabe e no hebreuunheimlich coincide com o demoníaco, o que provoca arrepios...» A tradução é minha e não é muito fiável, pois ainda faço fé no Luandino Vieira que não me contratou em 73/74 para as Edições 70, embora nunca me tenha explicado porquê...  
Daqui, talvez, se possa extrair que, para os portugueses, não há nada de verdadeiramente assustador e, muito menos, demoníaco... nem sequer a degradação das fachadas...
Em termos freudianos, resta saber quando é que esta familiaridade com a degradação terá tido início. Espero que não tenha sido uma relação mal resolvida entre D. Afonso Henriques e Dona Tareja, sua mãe, cujos vítimas terão sido os mouros despejados das amuradas...