Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

11.3.18

O 11 de março de 1975

Desse dia, 11 de março de 1975, ficou-me sempre a sensação de que algo regredia...
No Liceu Passos Manuel, onde começara a lecionar em janeiro desse ano, a luta entre a UEC (União dos Estudantes Comunistas) e o MRPP ( Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado ) ia acesa, impedindo o normal funcionamento das aulas - o conflito entre os estudantes destas duas organizações era claro. A palavra dos professores só era escutada se alinhada...
Uns eram perseguidos e outros seguidos, não pelo que ensinavam mas pelo que era suposto representarem ideologicamente... No entanto, ficou-me a ideia de que uns tantos professores se movimentavam bem no torvelinho...
A ação reivindicativa instalou-se nas salas de aula e nos conselhos de turma extraordinários, introduzindo um conceito de igualdade em que o número era impositivo e a cortesia aniquilada.
Convém, no entanto, esclarecer que a ideia de regressão era minha e inconfessável pois, no Liceu / Escola Secundária, reinava a mesma euforia que na Faculdade de Letras de Lisboa, em que, à época, se deitavam paredes abaixo e se acabava com a Filologia Românica, decompondo-a em Linguística e Literatura...
Apesar do avanço revolucionário conquistado em março e interrompido em novembro, ainda hoje tenho a sensação de que muito do "espírito camarada" persiste nas organizações e determina o rumo, mesmo daqueles que nasceram depois do 11 de março de 1975...