Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

16.5.18

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Ainda sem perceber os vândalos que, ontem, resolveram atacar em Alcochete, apesar desta incompreensão não ser absoluta, pois, todos dias, me dou conta de que as sementes de violência estão a germinar nos nossos jardins, termino a leitura de A Conquista da Felicidade (1930), de Bertrand Russell.
Por acaso, tal aconteceu na pastelaria Charrette, na Avenida Almirante Reis, Lisboa, onde, chatice, não presenciei qualquer crime, a não ser uma velha senhora muito educada, que, um pouco alterada, dava conta às amigas de que se sentia feliz ali, pois lá em casa o marido gritava com ela  e os vizinhos insultavam-se aos outros. A senhora era mesmo muito educada, ao perceber que eu movia a cadeira para me levantar, pediu-me de imediato desculpa caso ela estivesse 'a falar muito alto'... Tranquilizei-a, porque não quis destruir-lhe a alegria da narrativa...
(...)
Na obra referida, Bertrand Russell analisa as condições internas que favorecem a conquista da felicidade, propondo estratégias pessoais que poderão libertar o indivíduo da alienação ideológica e religiosa, sem esquecer o narcisismo...
O caminho é necessariamente individual, tendo, no entanto, como interlocutores: o tempo cósmico, a natureza e todo o homem cujo sonho e ação se rejam por valores universais construtivos.
O conhecimento do passado, apesar de imprescindível, só será útil se orientado para a humanidade futura.
Em síntese, o que esta leitura me proporciona, para além de ter ficado deslumbrado com a competência argumentativa do filósofo, é a vontade de voltar ao início de modo a questionar as minhas indisposições, irritações, caprichos, fobias, e principalmente, a origem das minhas certezas...

                     «Soterrado / Por mil certezas de aluvião.» Miguel Torga