Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

23.4.14

Pode ter sido bela, irreverente, mas não deveria ser esquecida...

Pessoas há que quando morrem, logo são esquecidas. É o caso de Natália Correia! Pode ter sido bela, irreverente, ter-se colocado do outro lado da barricada... todavia, hoje, não gostei que tenha sido esquecida... Ao editar Novas Cartas Portugueses Portuguesas, em 1972, mostrou a fibra de que era feita.
Essa edição foi apreendida e destruída, mas nem por isso as autoras que acolhera na Estúdios Cor deixaram de fazer o seu caminho, de subir ao Olimpo.
Nas palavras eloquentes de Maria Teresa Horta, a guerra de libertação autorizada pelo esforço heróico do partido comunista visava arrancar a mulher à condição de escrava do pai, do marido, do estado - tudo figuras masculinas, figuras despóticas milenares. 
Curiosamente, MTH parece ignorar que o PC também se estruturava em torno de figuras masculinas, em regra, despóticas.
Vale a pena relembrar que Natália Correia, cedo, se colocou do lado da MÁTRIA, porque bem sabia que havia caminho a percorrer, tal como, involuntariamente, é reconhecido no "monólogo de uma mulher chamada Maria com sua patroa", monólogo esse escrito por uma das três Marias:

«Muito obrigado isto passa, não é preciso chamar o médico, minha senhora, isto passa, até já estou habituada, são uns ataques que me dão, fico assim sem conhecimento, sem alentos e depois torno a mim como boa, pode estar certa, não se aflija e desculpe, não quis assustá-la minha senhora, ora logo o raio do ataque me havia de dar aqui em casa..Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas, editorial Futura 1974

Não fossem os mitos urbanos, a empregada que pede desculpa à «minha senhora» seria vista como uma mulher explorada por uma "igual" só que de uma classe social privilegiada. Essa trabalhadora, se ganhasse o suficiente para ir ao médico e à botica, seria despedida. 
Trabalhador pobre, homem ou mulher, não pode ficar doente, não tem dinheiro para transporte, e livre-o Deus, outra figura masculina e despótica, de desmaiar de fraqueza no local de trabalho...

(Texto escrito, numa hora amarga, por um homem que detesta a demagogia, o compadrio e o comadrio...)