6.7.08

9,7

Português - 12º Ano - Média nacional de 9,7 na Prova 639, 1ª fase!

O Ministério reage, referindo que «importa equacionar medidas de reforço do trabalho dos alunos nesta disciplina, designadamente estendendo ao ensino secundário as dinâmicas do Plano Nacional de Leitura.» Mais um tiro no pé!

1º Esta  prova deveria ter testado os conteúdos leccionados e as competências desenvolvidas ao longo de 3 anos. Isso não aconteceu. Todos o sabemos. Não vale a pena fingir o contrário. A prova da 1ª fase é indefensável. Aplicados todos os critérios, nenhum aluno poderá ter obtido 20 valores. Nem mesmo 19!

2º A Gramática ou é trabalhada de forma sistemática ou as perguntas sobre o funcionamento da língua mais não serão que "exercícios" vazios e previsíveis. Foi o que aconteceu. O II Grupo, objectivamente, não testa as várias "gramáticas" que circulam na praça editorial. Salve-se o negócio!

3º Se pensarmos que os 65.000 alunos que se candidatam ao exame de Português, ao longo dos últimos três anos, leram, pelo menos, três livros, na modalidade de contrato de leitura ( literatura nacional e estrangeira), teremos 195.000 obras lidas e, provavelmente, apresentadas na sala de aula, pondo em destaque a oralidade e a escrita. A essa leitura, obrigatória de acordo com o Programa em vigor, a Prova de 1ª fase nada diz.

4º O Senhor Secretário de Estado, Valter Lemos, provavelmente nunca leu o Programa de Português. E é pena! Se o fizesse, quero crer que, de imediato, mandaria a Inspecção verificar por que motivo, a Prova 139 não respeita o trabalho dos professores e dos alunos. Por que motivo, sobre a leitura das obras "contratadas", não há uma pergunta aberta e de desenvolvimento. O GAVE ignora que a leitura é uma forma de descoberta essencial para o desenvolvimento das sociedades e, sobretudo, teme que a leitura se torne numa força "crítica" que arrase o espartilho a que este Gabinete de Avaliação submete alunos e professores, menorizando-os. 

5º Senhor Professor Valter Lemos, nas escolas, começou por haver uma dinâmica de leitura.  Quem a destruiu foi quem elaborou as provas! Hoje, qualquer professor perguntará: - investir no contrato de leitura para quê? Quem a destrói é quem manda elaborar as provas! Quem a destrói é quem prefere uma dinâmica de leitura exógena a uma dinâmica endógena. Quem a destrói é quem, no passado, queimou os autores da lusofonia, subverteu os programas, eliminando a leitura extensiva, para, finalmente, aniquilar a Literatura! Há muito que a leitura, em Portugal, foi entregue aos caprichos de alguns grupelhos que nada lêem.

6º Senhor Professor Valter Lemos, se tiver oportunidade (Garrett diria que essa é a obrigação do Governante) passe pela Fábrica de Braço de Prata: entre, olhe à sua volta e contemple o estado da cultura, o estado do livro, o estado da leitura - contemple a nação que, ainda há pouco, respirava no Bairro Alto e, agora, vegeta em Marvila, à espera da ordem de despejo... começo a lembrar-me de uma estalagem, lá para os lados do Cartaxo...

9,7 não corresponde à média nacional! Corresponde, sim, à média dos que ocupam os gabinetes do Ministério da Educação e arrasam todo o trabalho feito por aqueles que, diariamente, trabalham horas intermináveis para que os jovens não desistam da leitura e da escrita, não se acomodem nas poltronas da indiferença.

Como diria Pepetela: "O nosso país é bué" ou, concluindo a estória - "afinal, o nosso país não era assim tão bué como imaginara." Ver Contos de Morte, edições Nelson de Matos

Nota1: Esta última referência não é destinada ao Senhor Secretário de Estado, pois sei que não tem tempo para este tipo de leituras. É para algum aluno que ainda não tenha sido submetido ao Plano Nacional de Leitura e que queira compreender um pouco mais do mundo em que vivemos.

Nota 2: Amanhã, como todos os professores de Português, lá terei que fazer contas para saber se os meus alunos estão acima ou abaixo do 9,7!

Sim, porque um Senhor Secretário de Estado decidiu que a minha avaliação passasse a estar indexada a este mágico número: 9,7.

Resta saber se os serviços do Ministério não fizeram mal o cálculo, tal como aconteceu há dias com o Ministério da Saúde.

29.6.08

Ribeira de Ilhas

Assim a ribeira invisível se perde numa língua de areia que só chega ao mar se a maré estiver cheia. Surfista cansado, deslocado da imagem, procuro o que lá devia estar, mas só encontro estilhaços de uma pedra malvada que me lembra que, por maior que seja o esforço, há sempre um pedaço de asno capaz de nos acusar de soberba e vaidade...
A semana que termina rola, farta da pequenez e da mediocridade de pequenos diabretes, para a espuma enrolada de um oceano risível de imagens e de amálgamas audaciosas de um romance pós-colonial: Venenos de Deus, Remédios do Diabo, de Mia Couto. Uma escrita que, num humor refinado, nos penetra nas entranhas, deixando a nu a miséria mental humana, como se uma pedra da calçada nos estalasse o crânio, sem sabermos se definitivamente nos destrói a vontade.
/MCH

22.6.08

O escritor-operário...

Hoje, fui ao Palácio da Ajuda... À porta, o rei D. Carlos I, que antes de ter sido imolado pela revolução, nos teria devolvido à Europa... Quem diria?

Na Galeria de Pintura do Rei D. Luís I, para lá da consistência dos sonhos, encontrei um Saramago metódico e, sobretudo, operário. O escritor-operário, tal como acontecera com os escritores realistas e naturalistas... A leitura seus dos registos de leitura é preciosa para a compreensão do ofício do autor.

Por outro lado, encontrei a memória de um país mesquinho, onde Mafra simboliza (séculos XVIII e XX) a megalomania de um rei, a manha do clero,  o conflito entre moralistas conservadores e ideólogos estrangeirados...

Pareceu-me que as mulheres de Saramago foram esmagadas pela estrangeira Pílar. E que Ilda Reis foi injustamente atirada para a sombra, como se sua pujança atrofiasse o criador.

Ficou-me, também, a sensação de que a literatura crítica é modesta para a extensão da obra do nobel (1998).

Finalmente, a timidez e altivez, típicas do ribatejano, atravessam as imagens, como se Saramago tivesse descoberto como esconder a nudez da sua presença..., uma presença convicta e impaciente por saber o que o espera. Que bom que seria que, afinal, as mentiras fossem verdade!

21.6.08

O ardis de Camões...

Nas estâncias 89 a 91 do Canto IX de Os Lusíadas, o Poeta persuade o censor. Os deuses da Grécia e da Roma antiga mais não eram do que homens de "fraca carne humana" que, pela nobreza  das suas acções, se tinham visto imortalizadados na memória dos restantes humanos. Estes deuses que pareciam rivalizar com o Deus da cristandade, afinal eram "fingidos" pela emoção (ou pela razão?) humana. O censor terá compreendido a mensagem...

E por isso, sabendo o Poeta que o homem português procurava a "fama" / a glória, convida-o à acção, a imitar os homens da antiguidade, porque se o fizer, também, terá direito à imortalidade dos deuses. Apenas lhe impõe um limite: não ceder à cobiça. Para o censor, este travão era o ouro que faltava  para que a obra fosse libertada de qualquer suspeita...

E para nós, deveria significar que o Poeta era um homem ardiloso, capaz de nos limites da heresia, mostrar a face cristã quando, de facto, o homem ( a humanidade) era a sua crença escondida.

As estâncias 92 e 93 do Canto IX ajudam-nos a compreender como Camões fez passar os Lusíadas pelas malhas da censura...

Mas nada disto interessa aos modernos censores: a leitura, ontem como hoje, continua muito superficial...

E de repente, dou comigo a pensar na blindagem  a que estão submetidos os mediadores. No seu inesperado silêncio...

18.6.08

Prova 639 / 1ª Fase

O erro dos anos anteriores acentuou-se.O esforço dos estudantes e dos professores é desrespeitado, porque um dos objectivos do Programa de Português é compreender, na MENSAGEM, a reescrita de OS LUSÍADAS, adaptada ao tempo decadente e caótico de Pessoa.

No primeiro quartel do séc. XX, o sono pátrio entontecia o Poeta, ao ponto deste ter escrito uma série de pequenos poemas cuja mensagem exortava o povo a despertar do «sono do ócio ignavo»...

A ideia da decadência do tempo português é uma constante na literatura portuguesa, alimentada de dentro e com consequências intoleráveis neste tempo global. Ora, ninguém melhor que a juventude pode expressar a vontade de ruptura necessária à sobrevivência da identidade portuguesa. No entanto, nesta prova, ninguém se lembrou desta hipótese de desenvolvimento temático.

Não vale a pena proclamar que o texto seleccionado não foi devidamente analisado, pois a grelha interrogativa não é gerada pela riqueza de conteúdo do texto literário. É uma grelha estereotipada que inviabiliza a avaliação das capacidades de compreensão, de interpretação e de expressão. Para que serve a estância 93? Para suportar a pergunta 4? No entanto, essa pergunta não permite que o estudante revele se compreendeu o pensamento de Camões!

Não vale a pena reclamar da amputação do texto de Luís Francisco Rebelo, já que José Saramago merecia comentador menos comprometido... Por outro lado, as respostas fechadas exigem itens menos manhosos, cuja solução não resulte de um raciocínio por  exclusão de partes. O acerto deveria revelar compreensão e não confusão, como aquela que se instalou na APP, impedindo-a de apresentar a resolução da prova, mesmo que o desencontro com o GAVE pudesse penalizar vis interesses...

Não vale a pena citar o Padre António Vieira quando é público que os jesuítas não reconheceram aos negros a mesma dignidade dos índios. Há certas citações de autoridades em questões de cultura e de literatura que, por vezes, dão que pensar. Esta prova trouxe-me à memória António José Saraiva, Óscar Lopes, Jorge de Sena, Carlos Reis... Há certos atropelos que são imperdoáveis!

Não vale a pena concluir que os professores que procuram cumprir os programas se sentem atraiçoados e que os estudantes mais aplicados são os mais prejudicados. Não vale a pena!

A literatura é, hoje, escrava da mediocridade. Camões, Vieira, Saramago foram convocados para um banquete que nem de trovas chega a ser.

12.6.08

Uma "raça" em dificuldade!

"Les difficultés sont des questions d’intellectuel et d’académie. Il n’y a pas que des difficultés en Afrique." Sembène Ousmane

Se até o Presidente da República, para evitar a actualidade / dificuldade, sente necessidade de se refugiar na linhagem, na estirpe, na raça... e nos convida ( eternos jogadores!)  a olhar, de soslaio, o Tejo e o Atlântico...

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Em Portugal, qualquer obstáculo se torna, de imediato, numa dificuldade. A barreira convida-nos a saltá-la, mas nós preferimos cavar trincheiras, enfiar a cabeça na areia e ficar, por ali, a estrebuchar.

Perante o bloqueio, ficamos expectantes... zancamos no governo e reiteramos que a dificuldade é insuperável. Todos sabemos que o número de camiões que circula nas estradas é insuportável; que o custo desta circulação em vidas humanas e em termos ambientais já há muito ultrapassou o tolerável... mas não, em vez de levantarmos a cabeça, exigindo ao governo que seja inflexível e que desenvolva uma política de transporte menos onerosa e poluente, apostando na ferrovia, continuamos fascinados pela arruaça e pela grosseira saloiada.

As imagens dos piquetes, que arrancam condutores indefesos do interior dos camiões, mostram um povo à beira do abismo..., um povo incapaz de se adaptar às leis do mercado global e, sobretudo, incapaz de se defender de umas centenas de arruaceiros... porque, há muito, deixou de ter iniciativa, vivendo na sombra do estado-providência... um povo que espera que o seu futuro se resolva num campo de futebol, numa jogada de sorte...

8.6.08

Questão de última hora...

 

Num destes últimos dias, vários alunos perguntaram-me: «- O que é que pode sair no exame de Português?»

Respondi-lhes que não arriscava nenhuma indicação. No entanto, hoje, lembrei-me que os autores das provas de exame costumam gostar de efemérides. E no próximo dia 13 de Junho, 4 dias antes do exame de Português, faz 120 anos que o Poeta Fernando Pessoa nasceu.

O Poeta que, um dia, escreveu: «Quem não vê bem uma palavra / não pode ver bem uma alma

O Poeta que, por outro lado, acrescentava: «A orthographia etymologica é a expressão graphica da continuidade da nossa cultura (...) para fixação dos meios materiaes do Imperio, ha que adoptar a fixação da linguagem, e, antes de mais nada, a orthographia etymologica, excluindo as estravagancias simplificadoras creadas pela influencia da politica extrangeira.»

Se eu tiver razão, lá teremos milhares de alunos a tentar decidir, em duas horas, o que os génios da língua não conseguiram decidir em dezenas de anos!

E já, agora, pergunto: - O que é que os actuais alunos entendem de etimologia? Para Pessoa, a etimologia é uma espécie de seguro: mostra-nos as raízes da nação, do império. Se deixarmos de as regar, a pátria morre e o império perde-se nas brumas... E foi por isso que releu Camões, revisitou Vieira e foi viver com D. Sebastião nessa outra dimensão a que só a almas podem aceder...

Por isso, se os meus alunos voltarem a colocar-me a questão do que estudar, responderei: procurai o FUTURO em Camões e Pessoa, e não descureis Sttau Monteiro e Saramago..., pois, também, eles o procuravam na fogueira que iluminava os céus de Lisboa.