Poemas lusófonos

Acabaram com os bondes
e a paisagem dói,
tentam dinamitar a poesia
os poetas da paróquia,
ardilosos confundem
o incauto forasteiro,
vendem gato por lebre,
Sê surdo: o exílio
em tua casa, entre os livros
é a solução; na balança,
a amabilidade de um
ou outro impropério de outro
só têm peso para a tua vaidade.
Que falem em vão ao vento.
    Fernando Ferreira Loanda
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Nem desconfia

Todo o poeta quando preso
é um refugiado livre no universo
de cada coração
na rua.

O chefe da polícia
de defesa da segurança do estado
sabe como se prende um suspeito
mas quanto ao resto
não sabe nada.

E nem desconfia.
           José Craveirinha
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Sondagem à boca das urnas

Eis a mais pura circunstância
do poema à boca das urnas,
rastreio pulmonar, palavras
expectorantes com dois milhões
de satanhocos assassinados
- os grandes cemitérios, dizias!

Onde a mão azul hiante as esventra
e um rio de fósforo incandescente os olhos,
poisem a minha árvore palúdica
sobre os rostos todos alucinados,
as timbilas de sangue juguladas
ao nervo que as degola, expende
na medula aberta das baionetas.

Mãe, quando o incêndio da noite deflagrar
e outra vez a casa espargir
o halo dos frutos como um sémen
e na tua face pulsar a última luz
e a sede convocar a linfa mineral
dos teus seios como um grito,
um soluço por dentro do espanto,

eis a mais pura circunstância
do poema à boca das urnas.

Luís Carlos Patraquim