12.4.15

Breves são as noites

Breves são as noites, quando Job e Raquel me surgem em sonhos. 
Como se estivesse num estado de vigília, surpreendo-me a perguntar porque me visitam tais reminiscências. E não encontro resposta, a não ser que Satanás os terá contratado para me pôr à prova a paciência... para me forçar a odiar quem dispõe das minhas horas...
E mesmo assim, não compreendo como é que Job e Raquel não recusam tal contrato, pois sempre se conformaram com a decisão do Senhor, embora quanto a Raquel não esteja muito seguro. Mais do que Raquel, consta que verdadeiramente paciente terá sido Jacob...
(...)
Ao adormecer, esperava não continuar a servir, pelo menos, durante sete horas... Parece-me, agora, que há em mim qualquer coisa de Labão... 

"O que Cavaco não diz"

Foto_Miradouro dos Capuchos_Costa da Caparica
Nesta foto, há um pouco de tudo: azul do céu e do mar; verde das leiras e dos bosques; torres de apartamentos e barracas...

Mas este não é o país de Cavaco Silva! No DN de hoje, Paulo Baldaia escreve um artigo intitulado "O que Cavaco não diz" e termina-o com uma dupla pergunta:«Estará Cavaco mais confiante numa maioria absoluta do PS do que Costa? Ou acha que é possível repetir a actual maioria?» 
Santa ingenuidade! Cavaco não antecipou as eleições legislativas, pois temia que o PS obtivesse a diabólica maioria absoluta. Cavaco tem mais medo do PS do que o diabo da cruz. Lá terá as suas razões, mas nunca foi capaz de as explicitar e de agir em conformidade. Preferiu agir sempre nos bastidores, apesar de confessar o seu horror à política de salão. No seu caso, a política é mais de cozinha!
Infelizmente, não está sozinho! À direita e à esquerda, muitos outros pensam do mesmo modo. E não se pense que estou a defender a ação política do PS das últimas décadas. O que me preocupa é que se queira matar à nascença o próximo ciclo de governação...

11.4.15

Na avenida de Berna, nem poeta nem romancista

Nem poeta nem romancista!
Para poeta, falta-me a capacidade de deixar de falar de mim, mesmo que o discurso viva centrado no EU, vítima da alteridade velada por palavras diferidas ou, como diria o Poeta, fingidas...
Para romancista, falta-me a visão da totalidade. Por exemplo, hoje, posso registar alguns detalhes. Salgueiro Maia estampado em tons de abril nas paredes de uma faculdade de ciências humanas, onde os protagonistas arremedam ciência, procurando, a todo o custo, desembaraçar-se do fator humano em nome de padrões ortodoxos que se vão excluindo uns aos outros, sempre ao serviço do vil interesse, do compadrio e de causas inconfessáveis...
Do outro lado da avenida, um templo religioso do estado novo, supostamente ao serviço dos fiéis desprotegidos, porque dos restantes infiéis é melhor nada dizer, apesar de nele, hoje, se oficiarem bodas multirraciais, parecendo que, afinal, o tempo ultramarino e de martírio de muitos salgueiros maia bem poderia ter sido evitado...
Mais perto da praça de espanha, há muitos detalhes que poderia registar, mas a minha atenção não foi além do pormenor assinalado no jardim gulbenkian - um verdilhão, ave que se pode ver e ouvir a partir de março. Ao observar as cores da plumagem, fiquei com a ideia de que a estampagem do salgueiro maia seria mais primaveril se lhe trocassem as cores da bandeira pelas do verdilhão.
Quanto ao templo religioso, os vitrais de Almada Negreiros continuam a filtrar a luz mística, sempre ensombrada pelo braço cardinalício que raramente deixou de servir o compadre salazar. Já é azar! 
Se por ali tivesse circulado o Eça, ele não se teria esquecido do restaurante o Pato que tão belas iguarias confecionava para o pároco e seus coadjutores, sem falar das irmãs e das sobrinhas... 
Claro que se o Eça tivesse escrito um romance sobre a avenida de berna, a faculdade de ciências humanas, ali residente, viveria mais desafogada, à volta da choldra que nos vai governando e formatando... 

10.4.15

O subtexto e o intertexto

«O subtexto é um instrumento psicológico que informa sobre o estado interior da personagem, cavando uma distância significante entre o que é dito no texto e o que é mostrado pela cena. O subtexto é o traço psicológico ou psicanalítico que o ator imprime à sua personagem durante a atuação.» Pawlo Cidade / http://teatrototalilheus.blogspot.pt/2013/04/o-papel-do-subtexto.html
e /ou
O subtexto é uma espécie de comentário efetuado pela encenação e pelo jogo do ator, dando ao espectador a iluminação necessária à boa receção do espetáculo,”  Patrice Pavis.

Em certas salas de aula, há sempre quem queira dar espetáculo, isto é, ser protagonista. O professor, ao desempenhar o papel de gestor de um plano gizado por programadores, editores e avaliadores, fica condicionado não só por um sistema externo  mas, também, por uma dinâmica interna, em que  o subtexto de cada candidato a protagonista arrasa por inteiro as hipóteses de interpretação, por exemplo, de um texto.
Imagine-se um texto em que o autor tece uma narrativa rica em intertextualidade, culta e popular, com intenção de colocar o leitor numa situação de revisitação e consequente conceptualização crítica.
Como o professor não pode prescindir de trabalhar o texto daquele autor, esforçar-se à certamente por tornar visíveis as fontes latentes e, sobretudo, pôr em evidência o aproveitamento dos respetivos enunciados, sem esquecer a natureza dialógica da escrita... o diálogo, por um lado com a cultura científica, artística e literária que, em expetativa, deveria fazer parte da memória do leitor, e, por outro lado, o diálogo com o leitor. 
A intertextualidade pressupõe, assim, a presentificação das fontes, do autor e do leitor. Só que o subtexto na sala de aula surge não como forma de diálogo, mas como rejeição de qualquer tipo de intertexto e consequente diálogo intertextual.
A nova cultura juvenil procura o palco para se afirmar, para se exibir;  pensa vir a governar o mundo fazendo tábua rasa de tudo o que lhe é anterior...
Vive numa casa flutuante envidraçada e a certas horas, tardias, sobe ao palco para dizer pilhérias, sem se preocupar, sequer, com a receção do espetáculo. 
E por isso, à medida que o protagonismo* aumenta na sala de aula, o professor escurece, deixando de ser sequer o encenador, quanto mais o exegeta ou o facilitador da aprendizagem...

* Tempo houve em que se dava ao ´protagonismo' o nome de 'indisciplina'! 

( Em causa, as noções de: fontes, autoria, citação, plágio, pastiche, intertexto, subtexto, leitor.)

9.4.15

Bartolomeu de Gusmão, um inventor com sonhos imperiais

Bartolomeu de Gusmão Um inventor com sonhos imperiais
07/08/2009 - 00:00
Público, Luís Miguel Queirós

Há 300 anos, o padre luso-brasileiro Bartolomeu de Gusmão fez subir um globo de papel a quatro metros de altura, aquecendo o ar no seu interior. Três quartos de século antes das experiências dos irmãos Montgolfier, inventava o balão aerostático e sonhava com um engenho que lhe permitiria dominar o mundo. 



No dia 8 de Agosto de 1709, o rei D. João V e a rainha D. Maria Ana de Habsburgo, acompanhados pelo núncio apostólico - o cardeal Conti, que depois seria o Papa Inocêncio XIII - e ainda por diversos fidalgos da corte portuguesa, reuniram-se na sala das embaixadas do Paço Real de Lisboa (destruído no terramoto de 1755) para assistir a uma demonstração do "instrumento de andar sobre o ar" do padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão. 
Esta data histórica assinala a primeira aplicação prática do princípio de Arquimedes a um aparelho aerostático e antecipa 74 anos a façanha dos irmãos Montgolfier, que em Junho de 1783 colocaram no ar, durante 10 minutos, um balão com 32 metros de circunferência. No mesmo ano, perante Luís XIV e Maria Antonieta, os inventores franceses fizeram subir no ar o primeiro balão tripulado. Mas só em meados do século XIX é que iria inventar-se o primeiro aeróstato dirigível. 

Ao contrário dos Montgolfier, que não pensavam em possíveis utilizações militares do seu invento, Bartolomeu de Gusmão, no início do século XVIII, sonhava já com um invento que daria à nação que o produzisse a capacidade de dominar o mundo. Na petição que apresenta a D. João V, procurando que este lhe conceda os meios necessários para fabricar o seu engenho, Gusmão enumera as potencialidades do aparelho que se propunha construir. Assegurando que este poderia percorrer duzentas léguas (mil quilómetros) num só dia, fazia notar ao rei que isto lhe permitiria "levar avisos aos exércitos em terras mui remotas", "socorrer praças sitiadas" e levar rapidamente notícias aos quatro cantos do império português. Apontava ainda as vantagens que um rápido transporte por via aérea iria trazer ao comércio e sublinhava que o seu "instrumento para se andar pelo ar" permitiria a Portugal "descobrir as regiões que ficam vizinhas aos polos do mundo" e calcular corretamente as longitudes. 
Se este inventário, que aliás persuadiu D. João V - o monarca deferiu o pedido num alvará datado de 19 de Abril de 1709 -, tem o seu quê de megalómano, também reflete um espírito visionário. O investigador Joaquim Fernandes, que há anos vem recolhendo materiais sobre a vida e obra do "Padre Voador", como Gusmão foi apelidado na época, afirma: "Supomos não exorbitar ao dizer que se trata da antevisão profética, com dois séculos de avanço face à concretização do avião, de uma geoestratégia baseada no domínio do espaço aéreo por uma potência imperial". A ideia de que a supremacia aérea pode permitir vencer um conflito militar não surpreenderá os que assistiram, no final do século XX, à guerra do Golfo, mas terá parecido bastante arrojado aos portugueses do início do século XVIII, que se divertiram bastante a mofar do pretensioso Ícaro que lhes chegava da colónia brasileira. 
O que primeiro despertou o interesse de Joaquim Fernandes por Gusmão foi justamente o vasto conjunto de poesias do século XVIII que satirizava o "Padre Voador". O investigador transcreve muitas delas no livro Mitos, Mundos e Medos. O Céu na Poesia Portuguesa, que deverá sair em breve numa coedição da Temas e Debates e do Círculo de Leitores. 
O mais prolífico dos detratores de Gusmão foi Tomás Pinto Brandão, que, mostrando-se bem informado, começou a escarnecê-lo em verso ainda antes de este realizar qualquer demonstração do seu aparelho. Um dos sonetos que lhe dedica abre com esta quadra: "Veio na frota um duende brasileiro/ Em trajo clerical, sotaina e coroa,/ Fez crer que pelo ar navega, voa,/ Um barco sem piloto e sem remeiro". E fecha um outro com este terceto: "Mete esse invento onde tens o siso,/ Vê se no vento que está nele voas:/ Que outro voar, meu Lourencinho, é riso". Terá mesmo sido Pinto Brandão quem deu ao invento o nome com que este passaria à posteridade: "Esta fera passarola/ Que leva, por mais que brame,/ trezentos mil réis de arame/ Somente para a gaiola (...)". 
O rapaz sobredotado
Mas Gusmão também teve defensores, a começar pelo marquês de Fontes, D. Rodrigo Menezes, que hospedara já o jovem prodígio brasileiro aquando da sua primeira, e pouco conhecida, viagem a Portugal. Em 1701, Gusmão, então com 15 ou 16 anos (nasceu em 1685 na vila de Santos, mas não se sabe em que dia), espantou Lisboa com um insólito reportório de habilidades. José Soares da Silva, autor de uma Gazeta em Forma de Carta relativa a 1701, conta que o jovem santista, que acabara de deixar a Companhia de Jesus por não querer tomar ordens, não só dizia "de cor todo o Virgílio, Horácio, Ovídio e demais clássicos", como também o conseguia fazer "para diante e para trás ou donde lhe apontarem". 
No que parece ter sido uma espécie de folheto publicitário dos dotes mnemónicos de Gusmão - reproduzido pelo autor da Gazeta -, lê-se que este prometia, entre vários outros feitos, "defender toda a filosofia, e também explicar a parte de Aristóteles com todos os seus embaraços", dizer "toda a escritura decoradamente e as dúvidas todas das línguas em que foi escrita". Mesmo que se admita algum exagero, tudo indica que o futuro "Padre Voador" foi um caso flagrante de criança sobredotada. 
Estreou-se como inventor ainda no Seminário de Belém, construindo um sistema que levava a água de um ribeiro até à escola, que ficava no cimo de um monte com cem metros de altura. Em 1705, quando se encontrava de novo no Brasil, registou o engenho na Câmara da Baía, obtendo a primeira patente outorgada a um inventor brasileiro. 
Irmão mais velho do prestigiado diplomata da corte de D. João V, Alexandre de Gusmão - foi o grande obreiro do Tratado de Madrid de 1750, no qual se fixaram as fronteiras do Brasil atual -, Bartolomeu tinha raízes no Porto. Segundo Joaquim Fernandes, era aparentado aos Afonso Gaya, "quatro irmãos naturais de Miragaia que partiram para o Brasil em 1531, na armada de Martim Afonso de Sousa". Com eles viajava o também portuense Brás Cubas, fundador da vila de Santos, onde os Gaya se instalaram. 
Nos anos que Gusmão passará em Portugal, construindo o seu engenho voador, dedicará algum tempo a investigar, a pedido da Academia Real da História, as origens da diocese do Porto. Demonstrando um rigor crítico que Joaquim Fernandes compara ao de Alexandre Herculano, desmontou diversas lendas dadas como verdadeiras, designadamente a que respeitava ao mítico bispo Julião.
O "Padre Voador"
Não há dúvida de que Bartolomeu de Gusmão foi um homem de capacidades intelectuais francamente invulgares. E durante algum tempo parecia ir dispor, em Portugal, de condições para as usar. D. João V apoiou-o sem reservas, a ponto de lhe ter emprestado, para fabricar o seu invento, uma casa que possuía em Lisboa, perto do local onde hoje se ergue a estação de Santa Apolónia. O monarca começara por lhe atribuir uma propriedade do duque de Aveiro, mas Gusmão argumentou que a do rei lhe parecia mais conveniente.
Após duas experiências goradas nos primeiros dias de Agosto, a de dia 8 foi finalmente bem sucedida. Gusmão não pôs no ar nenhuma "passarola", e muito menos a tripulou, como mais tarde iria correr. O seu engenho era apenas um modelo em escala reduzida, um globo de papel grosso, com uma chama a arder numa tigela incrustada na base, muito semelhante aos atuais balões de S. João. O balão chegou ao teto da sala e acabou por ser apagado pela criadagem no momento em que ameaçava incendiar os cortinados. 
Ainda antes destas tentativas, já as notícias do seu invento, acompanhadas de ilustrações fantasistas, apareciam nas gazetas europeias. Crê-se que o rumor terá chegado primeiro ao Vaticano, através do cardeal Conti, e que daí se expandiu para outros países. O mais imaginativo destes primeiros cronistas estrangeiros da façanha de Gusmão foi o autor de uma brochura austríaca que relata como o padre navegou por ar, aos comandos do seu "navio voador", de Lisboa até Viena, depois de ter aterrorizado os habitantes da Lua e de ter tido de enfrentar aves monstruosas. 
Já as delirantes gravuras que popularizaram a "passarola" na Europa tiveram, ao que parece, o dedo do próprio Gusmão, que, farto de que lhe tentassem roubar o segredo, terá providenciado, em conluio com o filho do marquês de Fontes, o seu único aprendiz, para que fosse encontrado um suposto plano da máquina, com explicações erróneas, cheias de "quintas essências", "magnetismos" e outro jargão científico da época.
O messias judeu
A verdade é que, embora tenha realizado uma nova ascensão em Outubro de 1709, desta vez ao ar livre, o "Padre Voador" nunca chegou a construir o engenho com que sonhava. Por falta de conhecimentos científicos e técnicos, mas também, provavelmente, argumenta Joaquim Fernandes, pelo ambiente hostil de um país que, ao contrário, por exemplo, da Inglaterra do tempo, se mantinha preso às doutrinas aristotélicas e ignorava os avanços que se estavam a fazer nas ciências físicas.
Talvez tenha sido para alargar os seus conhecimentos que Gusmão, entre 1713 e 1716, viajou pela Europa, tendo chegado a registar, na Holanda, uma máquina para drenar a água que alagava os barcos. A sua passagem por Amesterdão, destino privilegiado dos judeus portugueses e brasileiros, sobretudo a partir da unificação luso-espanhola de 1580, foi atentamente vigiada pela Inquisição. 
Joaquim Fernandes admite que os Gusmões - Bartolomeu teve 11 irmãos e irmãs - tivessem ascendência judaica por via materna. E parece constituir um possível indício nesse sentido um texto em que o seu irmão Alexandre ironiza com a suposta "pureza" genealógica dos cristãos-velhos. Recordando que basta recuarmos 8 gerações para termos, todos, 1024 avós, o diplomata perguntava: "Queria que me dissessem os Senhores Puritanos se têm notícia que todos fossem Familiares do Santo Ofício?". 
Certo, segundo Fernandes, é que Bartolomeu convivia com várias famílias de cristãos-novos, incluindo a do dramaturgo António José da Silva, dito "o Judeu". E já quando se deslocara à Holanda, o seu inimigo Pinto Brandão escrevera uns versos em que dizia: "Mudando de alma e de nome/ Quererá um certo apenso/ De Bartolomeu Lourenço/ Passar para António Homem". Se tivermos em conta que António Homem fora um sacerdote católico que morrera na fogueira, acusado de judaísmo, a sugestão torna-se evidente.
No final de Setembro de 1724, o "Padre Voador" foge para Espanha com um seu irmão mais novo, Frei João Álvares, projetando atingir a Inglaterra. O motivo imediato terá sido uma intriga em que se viu envolvido, que girava em torno de umas freiras de Odivelas que mantinham amantes na corte. Quando as religiosas foram presas e a Inquisição interveio, Gusmão, sobre quem já antes corriam boatos perigosos, optou pela fuga. Ele e o irmão adotaram nomes falsos e partiram, correndo o risco de levar na bagagem vários livros em hebraico. 
Bartolomeu morreu em Toledo no dia 18 de Novembro de 1724. A julgar pelo testemunho que o seu irmão mais tarde deu à Inquisição espanhola, já se convertera ao judaísmo em 1722. O estranho relato de João Álvares, que deve ser lido com cautela, já que o autor é um suposto arrependido a confessar-se ao Santo Ofício, mostra-nos, nota Joaquim Fernandes, um Bartolomeu de Gusmão no qual o inventor e o místico se fundem numa bizarra megalomania. 
Conta o frade que o seu irmão, aparentemente tomado de delírios messiânicos, estava convicto de que fora escolhido para restaurar Israel. Pretendia construir "uma aérea fábrica" com a qual dominaria o mundo e estabeleceria um único império universal, no qual os judeus reinariam sobre todos os povos, através do seu rei. Ou seja, ele próprio, Bartolomeu. 

8.4.15

Um dia incompleto e imperfeito

Às 7h15, o corpo de intervenção abalroa um táxi, na faixa do bus. Ou terá sido o taxista que refreou a marcha a testar a perícia das duas carrinhas policiais que pareciam persegui-lo?  Apesar da morrinha, o corpo policial mantinha-se na expectativa...

Às 8h15, a turma B chegou mais cedo, dando sinais de maturidade pouco comum nos dias de hoje. Haja esperança! Na verdade, a lição só estava agendada para as 9h00.

A meio da manhã, à conversa, os novos programas de Português e de Matemática irromperam, parecendo haver consenso quanto ao retorno ao passado. E porque não ao livro único do Estado Novo? 

De regresso à sala de aula, o principal acontecimento  não foram os condenados do auto de fé ou a irrupção do realismo fantástico (mágico), mas, sim, a agitação provocada por um abelhão que, afinal de contas, não queria analisar a virtuosidade descritiva de Saramago. Péssimo exemplo de discurso indireto livre!* Cansado da serpente que se precipitava para o Rossio, no caso, para a porta de saída da sala, o abelhão saiu tranquilamente pela janela, antes que o santo ofício o sacrificasse na divina fogueira de um novo auto de fé.

Marcado pela estranheza dos acontecimentos, saí, também, eu pela porta, e quando dei por mim estava na Livraria Almedina a comprar o livro " a mecânica da ficção", de James Wood. Por qualquer razão que ignoro, veio-me à ideia que esta compra não fazia  qualquer sentido. Afinal, quem é que, nesta fase, me poderia contratar para ensinar Literatura? Só que o abelhão  soprou-me ao ouvido que, talvez, "a mecânica da ficção" me pudesse ajudar a escrever sobre o Portugal contemporâneo, isto é, sobre a história da família materna e paterna de José Sócrates como metáfora da doença mental que nos devora...

Ao folhear "a mecânica da ficção, não pude deixar de verificar que esta, à escala global, só destaca dois portugueses, Fernando Pessoa e José Saramago, o primeiro porque o segundo escreveu " O Ano da Morte de Ricardo Reis"!

Abreviando, a Sammy, a gata voadora, regressou a casa, já esquecida do perigo dos beirais... 

Claro que, ao longo do dia, ainda fui recebendo algumas lições sobre a vida e a morte... Mas dessas, por respeito aos mestres, prefiro nada dizer... Tal como da chuva e do frio, dos buracos das ruas da capital e do trânsito, em particular, da zona ribeirinha...

* Se o autor desse voz ao coro, a 'virtuosidade' desapareceria, substituída pela 'sonolenta descrição'..., dando cabo da "extenuante exibição de estilo" do demiurgo.

7.4.15

Enterrado num poema

 (...) «queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima»
Herberto Helder, A Morte Sem Mestre, 2013

Ninguém está livre de ansiar um pouco mais, mas casos há em que o anseio é obsessivo, doentio. Até os pássaros intuem que há um momento em que é necessário que as crias experimentem o voo e esse é o dia das aves...
O poema lavrado em língua plena solta-se e foge, foge dos cemitérios, lavrados em língua plana.

Se a poesia puder ser pão, sê-lo-á, mas não para o poeta... não vão os versos ter o mesmo destino da padeira...